terça-feira, 29 de maio de 2012

Trilogia sobre o Brilho eterno de uma mente sem lembranças* (Ato I e II)

I

Olhou pelas frestas da janela, o céu claro de meio de tarde. Branco.
Deviam ser quatro horas. Olhou no relógio, eram quatro horas mesmo. É claro que eram quatro horas. A casa estava vazia e o tempo estático. Sentada na cama do quarto, o pequeno frasco de líquido amarelo em mãos. Maravilhoso milagre de Alexander Pope e sua inocente vestal passante. O som estava estático também. Não se ouvia um barulho naquele seu quarto cheio de coisas suas mas tão impessoal naquele momento. Somente um zumbido que não sabia dizer se era do tempo ou de sua cabeça. Olhou para a fotografia à sua frente. Estendeu o braço com o recipiente de vidro, num brinde mudo, e empurrou-a no lixo, sem violência. Ergueu a cabeça enquanto levava o frasco aos lábios. Um raio de Sol atingiu-lhe as retinas e por um segundo um pensamento de dúvida rapidamente colidiu a si, só para ser em seguida atropelado pelo líquido tocando-lhe a garganta. Num momento seguinte, sentiu-se afundar na cama, como se dez mil litros de água inundassem o quarto e a tornassem submersa em si. Afogada estava, calou para sempre a memória do que agora e há tanto rejeitava como parte de si.

II

Acordou de uma só vez, estática. Abriu os olhos, dando de cara com o teto branco. Quando recobrou melhor a consciência sentou-se, num sobressalto. Olhou bem. Indefinível sensação de que estava atrasada para algum compromisso importante, mas sequer se lembrava do dia da semana, do mês, e para ser mais exata, do ano.
Abriu as persianas azuis, como se isso fosse trazer alguma resposta, mas tudo que obteve foi um raio solar incidindo com força em seu rosto. Era de manhã e estava sol, mas de algum modo até isso parecia errado. Levantou-se para ir até o armário, mas tropeçou na lixeira vazia do quarto. Parou um momento. Podia jurar que tinha algo naquela lixeira. Vasculhando o armário, achou o calendário.
"Ah." 
Ver a data e o mês a ajudou a acostumar-se um pouco mais com a realidade. Era sábado, não tinha nenhum compromisso e começou a lembrar-se do dia anterior, embora sentisse que tivesse sido há um século atrás. Em frente ao espelho, deu dois tapinhas na cara, balançando a cabeça para os lados, como que antes de um exercício: Tentativa de se sentir mais acordada. Ouviu uma vibração no quarto, que a guiou até o celular. Franziu as sobrancelhas. Não se sentia  no estado para falar com ninguém agora, na verdade. De fato, tinha uma enorme necessidade de longo silêncio, até voltar a sentir-se em si mesma ou ao menos descobrir o que estava errado. Mas o celular vibrando não cessava e decidiu, finalmente, atendê-lo. Quem sabe não calava aquela sensação estranha de que algo errado estava acontecendo? Atendeu. Uma voz conhecida rapidamente encheu seus ouvidos, a trazendo de volta para os acontecimentos corriqueiros. Esperava que isso a distraísse do monstro já não sub, mas sim inconsciente que tentava falar.
E distraiu. Por muito tempo.

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