sábado, 7 de junho de 2014

Aeroportos e cemitérios

Sonhos proféticos, tempestades em pensamento.
A menina se sentia conectada com todas as coisas da natureza.
Ela trazia em si uma tristeza de séculos em paredes silenciosas, segredos e mistérios de cada casa antiga na qual já entrou.
Escrevia portanto com esse misticismo, saboreando as letras que moldavam suas figuras mentais.
Saboreava o ar, o vento, as cicatrizes agridoces que suas experiências prematuras lhe trouxeram.
Adocicava a ponta da língua com as perdas nas quais sua inconsistência resultou.
"Aeroportos e cemitérios da memória", ela dizia.
Não era possível viver constante, com os mesmos personagens. Mas às vezes doía-lhe a ausência das vidas pelas quais já passou.
Já tinha sido tantas ao longo do tempo, e ao mesmo tempo, era só uma, a mesma criança fauna, adoradora da lua, dos bosques, dos mistérios que a noite sussurra na brisa suave.
No farfalhar das árvores,

Desculpas esfarrapadas
Tralhas
Navalhas.

2 comentários:

  1. Identifiquei-me tanto com essas palavras, parece que estou lendo parte de mim. A tristeza acumulada é o mais forte, ela marcou todo o resto, todos os personagens, as figuras mentais e até a natureza, que pareceu mais uma das ramificações da menina, uma fuga talvez. Outra parte enfatizada, intimamente, foi a em que fala da natureza e logo em seguida traz a ideia de paredes, como se essas barreiras fossem o que a impedisse de se fundir, de fato, ao mundo. Que lindo texto, Kristal!

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    1. Acho legal como sempre nos identificamos com os textos uma da outra x)
      Essa tua observação sobre as paredes como barreiras que impedem essa fusão foi muito interessante porque não foi intencional! Mostra como as interpretações acrescentam mais riqueza do que o texto originalmente tinham (ou quem sabe revelem sentidos inconscientes).
      Estou com saudade de textos novos teus em teu blog.
      Um beijo, Nátali, e obrigada!

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