quarta-feira, 25 de abril de 2012

A bela adormecida no bosque (Ou Só um texto ruim.)

Ela selou o envelope com a língua adocicada. Esperava intimamente que ele não acreditasse em suas mentiras mal contadas. Esperava isso inocuamente, como quem espera às oito horas o trem das sete. Com aquela ânsia infantil dos que trabalham contra suas próprias causas.
A sutil verdade é que ainda esperava, descrente, um milagre. Recostada na cama, à noite, lutava contra o almejo tão antigo quanto vivo. Tão antigo quanto o tempo, seu eterno inimigo.
Com suas esperas tom de café, então prosseguiu na corda bamba: Batia o ponto, sorria à toa, levava na boa. Sua calma a paralisava, aos poucos pela fria redoma da apatia, congelada; Penteava os cabelos, saía à noite, contava uma piada ou corria na praça.
Tinha se acostumado à matrix da própria sensibilidade. Não era ruim não, agora já natural. Se deixou levar esperando que fosse também levado embora seu mal. Mas só esperava. Como ainda esperava seu milagre.
Esperava que quebrasse sua matrix, atravessasse sua redoma, se sentasse ao seu lado; Lhe falasse sobre tudo ou talvez só sobre o vento. Lhe quebrasse as barreiras, estraçalhasse as fronteiras, reavivasse o sentimento. Lhe ressucitasse, de fato, porque isso em que ela se encontrava não era menos que uma espécie de morte. Lhe rasgasse os textos - mentiras e apetrechos - e transformasse sua sorte.
Mas até lá ela conta mentiras. Desfruta inerte desta imitação de vida. Até lá, bela adormecida no bosque.

Nenhum comentário:

Postar um comentário