quinta-feira, 4 de junho de 2015

Um conto já contado, dessa vez ao contrário. (O sonho virou real)

Acordou atordoada no silêncio azul de seu quarto. Aquele silêncio que de tão ensurdecedor faz um zunido nos ouvidos.
Saiu das cobertas, atordoada, procurando as sandálias e deu uma volta na casa. O que estava faltando?
Estava tudo limpo, como a diarista deixara.
Sua bagunça pessoal devidamente arrumada em sua mesa de escritório. Uma ainda jovem bem sucedida advogada. Tudo o que sonhara.
E o que faltava?
Jogou a camisola na cama, pôs uns shorts e camisa. Olhou a cara pálida no espelho. Cara de falta. Sua pele estava bem hidratada, mais jovem que seus 25 aparentavam. Seus cabelos mais sedosos que sua genética propiciara. Tinha cheiro de grana, correria e isolamento. O que faltava?
Pensara em ligar para alguém, olhou sua lista telefônica. A verdade é que estava cheia. Desde o último contrato grande, as simpatias se acumularam. Em uma noite fria de solidão tinha até companhias esperando, se assim desejasse. Tinha uma família a alguns quilômetros. Tinha um caminho cheio de possibilidades.
Mas o que faltava?
Calçou os chinelos e foi para a rua. Teve a impressão de a porta abrir para que passasse. Mas não acreditava em espíritos e menos ainda em gentilezas. O que não lembrava?
Andava apressada, já um pouco incomodada. Ora ou outra uma vitrine lhe trazia um pôster antigo. Do gramofone do velho solitário da loja de LP's soava um blues nos anos 30. O que lhe rasgava?
Pegou no peito, na sensação de queimação. Nos seus dedos a ausência de uma mão. Um sufocamento de falta de ar, de falta de chão. E então, ao se apoiar na vitrine de uma loja qualquer de antiguidades, um porta retrato a fitava.
Seu sorriso era antigo, era gentil, era tenro. Seu sorriso vinha do olhar, da curva leve dos lábios, do passado e do seu presente.
Onde ele estava?
Ela foi ao chão, sufocada pela falta.
E ao bater no asfalto, abriu os olhos no sofá de uma sala.

1 segundo.
Outro.

E o alívio.

Abraçou o braço que a abraçava. O cheiro de casa inundou-lhe as narinas. No conforto do aperto do sofá onde adormeceram, ela apoiou-se em seu ombro direito, vendo os sinais em sua pele cor de leite. Seu cabelo enrolar-se como o de um anjo. O sorriso adormecido, com a mesma sensação de luz.
Ele.
Respirou aliviada.
Nunca deixaria que ele fosse a lembrança do que lhe faltava.

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