sábado, 15 de abril de 2017

Alinhamento de épocas



Sara sentou-se na cadeira cinza de seu apartamento em tons de gelo. No meio de sua pequena cozinha, apreciou em bebericadas seu café.
Sara estava triste, porque tornara-se tudo que idealizara na adolescência e infância. As conclusões que suas vitórias lhe trouxeram eram previsíveis desde seus 15 anos, época em que inegavelmente era mais emocionalmente inteligente do que agora.

Todos os dias ela prendia os cabelos macios em um rabo de cavalo, e colocava seu terninho para trabalhar. Sentia-se segura e adulta, agindo com naturalidade do modo que fingira agir com naturalidade, até se acostumar.

Começou essa dinâmica sentindo-se uma criança vestida de adulta, prestando muita atenção em tudo, com medo que descobrissem sua farsa. Agora, como toda mentira repetida várias vezes, tornou-se realidade e estava integrada: Isso mesmo, a peça foi incorporada ao sistema com sucesso e nesse processo, os pontos de questionamento de sua mente foram sendo um a um sufocados.

O dia a dia era comum, simples e límpido, ela não precisava mais sentir-se uma alienígena. Percebia agora, com bastante tédio, que o sentimento de alienígena de fato é inerente a cada pessoinha pedante desse mundo, em dado momento da vida, ao sentir-se uma parte separada do todo.

Quão previsíveis eram as fases, refletia Sara, bebendo seu café, tal como preveu tantos anos atrás. Não achava que mudaria, que se tornaria uma adulta e veja só. A sensibilidade passa, a atenção passa, a magia passa. A tranquilidade vem.

Talvez daqui a alguns anos também consiga ser uma velhinha dentro dos moldes previstos e com alguma sorte, tenha aquela conformidade com as fases da vida.

Sara levantou-se, lavou sua xícara, vestiu seu terninho e saiu de casa. Não tinha sentido em continuar romantizando aquela cena, pois agora ela era real.

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