quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O tempo é feroz e come todas as coisas belas

Com meu sorriso pouco entediado, respondo suas perguntas.
Com a expressão de uma anciã cansada de ainda vinte e poucos anos.
Eu corri muito para estar aqui. Lutei muito para chegar aqui.
E isso me deu uma presunção pouco surpreendente, e aquela velha sensação do desgaste...
Verdade seja dita, respondo o que você quiser sobre mim, porque já não sou mais tão interessante.
Já não tenho fogo correndo nas veias, de raiva, de fúria, de vida.
Já não fecho os olhos e penso sonhos acordados, já não escuto barulhos na noite e na madrugada.
Na calada da noite agora é só um período. Canela se tornou meu chá preferido e a escrita, minha procrastinação.
Oh sim, veja que situação.
Eu, sempre na contramão, hoje sou vanguarda. Não mais quebrando e sim construindo muralhas.
Me desumanizando um pouco cada vez mais.
Nada de grama, céu ou animais.
Apenas meu velho sorriso polido,
Meu coração pouco surpreendido.

Mas às vezes...
Às vezes ainda se acende algo, ou sussurra no meio fio.
Às vezes ainda sinto fome, às vezes ainda sinto frio.
Sinto a vontade insana de explodir meu vazio.

Cada vez menos.
Menos e menos vezes.

Um comentário:

  1. Eu tinha esquecido como era seu jeito de escrever. E quando aqui, pra minha surpresa de repente imensa, fico besta com as suas linhas quebradas, desordenadas, pouco piedosas consigo mesmas, e me pergunto: onde termina um ser humano e o outro começa? Porque esse é o segundo que leio e que me conta constrangedora e precisamente em verdade.
    Vou unir o que quero pra você para o que quero de mim: um despertar que não se demore. Porque viver nessa confusão me faz achar que presto pra nada, mas sei que você presta, então eu tenho esperança também.
    Talvez,
    Se a preguiça e os trilhos permitirem.

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