domingo, 18 de dezembro de 2016

Repetições de um mesmo sonho

Ele trançava seus cabelos, com silenciosa atenção.
Estavam tão jovens, mesmo que já o fossem há tantos anos.
A música ambiente era nostálgica, mas não dolorosa.
Certo, talvez só um pouco.
Pela janela olhavam o fim do mundo. Poderia ser um céu de nuvens baixas, pesadas e chuvosas às quatro da tarde. Poderia ser uma noite de estrela cadente. Só eles sabiam.
Ela sorria e chorava, ao mesmo tempo, silenciosamente.
Enquanto as mãos pálidas dele trançavam seus cabelos.
Mãos pálidas de veias altas...
Meu Deus!
O ar dentro dela faltou um pouco, mas ele segurou seu ombro a encorajando a continuar a respirar fundo.
Quão funda era aquela dor que não passava nunca.
Quão longos eram os anos, quando esquartejavam lembranças.
Ele estava sentado atrás dela, trançando seus cabelos e ela não podia vê-lo.
Apenas encarava a janela e satisfazia-se com a ilusão de sua presença.
Assim, intangível aos olhos, ele lhe tocava.
"Por favor, não pare", ela dizia com um sorriso triste.
Seus olhos eram o poço sem fundo dos amores que nunca morrerão ou se realizarão.
Assim, ela pedia, delicadamente, para que o sonho não terminasse.
"Por favor, fique mais um pouco" - E ele desfazia a trança e começava novamente.
Nesse ponto o vento soprou sinistro e febril como o fora em um longínquo dia de abril.
O sonho ameaçava ruir - Ela via pelas rachaduras nas paredes.
Como previu...
Nada daquilo,
Daquelas mãos pálidas...
Jamais existiu.

Epitáfio

Lá vem a brisa mais uma vez,
A mais inocente e inconsciente ventania,
Alienada de seu efeito.
E sopra nas cordas e linhas que entrelaçam os destinos dos tolos,
Modifica a geografia do todo.
E roda a roda mais uma vez.

Ah, o tédio.
Catalisador de todos os meus acidentes.
O tédio continua a me impulsionar a plantar minas em terrenos pacíficos.
A explodir ideias em ações impulsivas
Apenas para ver o estouro,
Que corrói a calmaria.

Estou esperando aqui sentada,
Levemente ansiosa, já não mais cansada.
A força ainda existe, a centelha de caos e raiva,
A fúria que nasceu em mim, que talhou minha mortalha.

Eu não quero ser doce, não quero ser pura.
Eu não quero ser calma, não quero ser sua.
Eu quero ser a loucura que não some, apenas se transmuta.
Às vezes ela adormece e se esconde
Mas nunca
Nunca muda.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma despedida ou apenas um dia ansioso

Ah, hoje.
Hoje, hoje, hoje.
Seria um bom dia para desaparecer, se despedir ou explodir.
Está tocando aquela música irritante de navalha na caixa toráxica.
Está soando um chamado, uma lembrança de muito antes de todas essas minhas corriqueiras danças.

Hoje eu ouvi uma música, eu andei na rua.
Estava caminhando pelo fim de tarde azul, pensando que seria um bom dia para morrer.

Os pássaros estavam parados, fazendo um prolongamento natural às árvores estáticas de mais um dia quente, sem vento. Familiarmente anômalo.

As pessoas pareciam um pouco mais irreais do que de costume, intangíveis. Andando a meu lado mas se eu as tocasse, talvez dissolvessem, talvez eu me dissolvesse, pensei com atenção.

Eu estava muito tranquila, com passos lentos, conformados.

Será, será, será.

Será que é hoje, eu pensei. Que o fio se quebra, será que é hoje o dia que esteve me observando, espreitando, sem muita discrição?

Eu não sei bem o que pensei. Quando isso começa, fica tudo borrado, desesperado, borbulhando, uma ânsia de vômito de algo...Mas o que?

Me parece bem claro que tem algo escondido e eu só saberei o que é ao dia fatídico. Mas uma coisa é certa: Eu sempre pensei isso.

"É normal não ter sonhos?"

Sempre me pareceu distante o futuro, a realidade. Todo dia, todo momento bom, já parece uma lembrança triste e as horas uma membrana muito fina escondendo algo que já estou quase perto de lembrar.

Estará na hora de voltar?


(Eu posso acabar esse texto agora.
Acabar com tudo em segundos.
Eu posso respirar fundo e me tornar outra pessoa.
Eu posso sorrir macabra e te convencer que é tudo um brincadeira.
Impulsividade
Pode ser, ao final, minha causa mortis verdadeira.)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Os homens gostam mesmo é das loucas.

Às vezes fica até fácil, até aceitável, às vezes fica até crível.
Às vezes consigo acreditar que ele sente todas essas coisas, principalmente quando me abraça com tanta força e me olha com aquela urgência sem salvação, de que está tentando realmente me convencer, incompreensível, sem saber porque é tão difícil para mim ser possível tudo isso acontecer.
E ele diz que me ama, que não pode viver sem mim, e tudo que consigo pensar, racionalmente, é: Como assim?
Nada do que ele faz desmente isso, sim, ele é tão coerente, mas como isso poderia se encaixar de maneira plácida em minha mente?
Eu, que não consigo estar presa em qualquer ponto fora do extremo entre querer injetar meu amor por seus poros ou então regurgitar suas entranhas.
Enquanto isso, ele me observa, paciente e resistente.
E eu não consigo entender, o olho bem, dentro do seu olho procuro o espião que a NASA deve estar enviando para tentar me conquistar e destruir porque descobriram finalmente que eu sou inapta a viver nesse mundo então eu devo ser no mínimo um alienígena bem feio vestindo o corpo de uma menina (ainda) de vinte e poucos anos encontrada no lago com feridas no pulsos e olhos rasgados.
Então, você me abraça e segura meu corpo e eu o sinto se dissolvendo sob meus ossos porque isso é só um corpo embora as sensações que me dá sejam muito divertidas, mas ao mesmo tempo eu poderia muito bem jogá-lo em frente a um carro - e nisso penso constantemente quando volto do trabalho ao meio dia, para desespero da minha mãe - e ele iria se esvaziar e eu iria sangrar um pouco talvez e em seguida pensar que vivi uma maravilhosa visita aqui nesse planeta azul de arvorezinhas devastadas.
Mas o que sei é que por enquanto ele existe, meu corpo. Assim como você, os alienígenas e as arvorezinhas devastadas da são francisco com florzinhas roxas cor de veneno perto do municipal e você, mas isso eu já disse não é mesmo?
E o que fica de você é sua incompreensível resistência em me querer, eu tão errada ao tentar constantemente destruir e conquistar você, necessariamente nessa ordem. E odiar todas as coisas sujas que se aproximam dessa sua boquinha linda, porque ela é minha, você é meu e veja só no que você se meteu.
Porque parando para pensar, bem, você é todinho seu, não é mesmo? pergunto com rancor, enquanto, mordo meus lábios, ofendida, porque você não quis dar cada pedacinho da sua existência a meus caprichos e isso é inadmissível e ainda por cima me faz te querer ainda mais.
E como pode uma pessoa tão saudável me amar, eu pergunto, desconfiada, porque você sorri e me beija "acredita que eu amo você", de maneira tão doce que me faz ter raiva, meu querido, o que diabos você está fazendo comigo, você que poderia estar por aí vivendo uma vida pacífica e tranquila, curtindo toda sua coerência de pessoa  bem resolvida (mais rancor), mas quando você me olha assim e sorri e olha que já faz mais de setecentos e trinta dias e desde o início eu já dava indícios de não ser exatamente pacífica, e quando você me olha assim e sorri, e me convence e me faz pensar que esse texto já mudou de ritmo três vezes e que eu queria estar te odiando solenemente ou então encolhidinha no seu abraço só me resta concluir, até mais ou menos coerente, mas não tanto quanto você que
Os homens gostam mesmo é das loucas.

domingo, 2 de outubro de 2016

Procedimento

Eu gosto de guardar debaixo da minha manga
Pelo menos três sentimentos
Que mantive guardados, pouco alimentados, monstos mal cuidados
Aptos a devorar.
Gosto de estocar lembranças,
Sempre as mais inflamantes possíveis
E falar delas com a banalidade de quem não as viveu.
Por que bem,
Neste jogo não tenho que rebuscar meu vocabulário, meu bem.
Uma a três obsessões por ano,
Uma lixeira de intenções e encantos,
Minha cabeça latejante e impaciente,
Sedente,
Do próximo grande rasgo de amor que vou fazer na minha mente.
(E depois, quem sabe, musicar dessa maneira pobre.)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Quão rarefeito é o ar de cima de toda esta pedância? Ora, e eu não sei?!

Ah, minha vaidade.
Não te arde como brasa?
E machuca sua garganta quando você engole essas palavras fáceis, estupidamente falseadas e tão superficiais quanto a futilidade que criticas?
A vaidade, sim, é uma delícia. Porque eu preciso me sentir especial. Assim como cada uma das pessoas que conheço.
O comum é ordinário, e por que isso haveria de ser pejorativo, minha criança?
Não é verdade que existe uma gentil tranquilidade em aceitar nossa pequenez?
É o gosto calmo da derrota, da falha em atingir o objetivo máximo e único que é ser pioneiro em TUDO,
E a gente ri disso e tece críticas afiladíssimas com conteúdo substantivo de literatura brasileira ou russa, mas no fundo a satisfação vem do salto: Eu já estive aí.
Ah, "CRIANÇA", eu já cresci.
E veja só, lá está você de novo.
Teia de tralhas,
Labirinto cansado,
Troféu de lixo
E uma doce sensação de vitória,
Que vai aos poucos te picar em pedacinhos.

Imagens na areia podem formar castelos indestrutíveis

Minha voz é fininha, minha respiração inaudível.
Eu gostaria de já ter aprendido todas as lições que hei de ter
Jogadas na cara
Como cartas marcadas,
Com gosto de navalhas.
Gostaria de já conter a sabedoria que preciso
Para apreciação.
Para saber viver.
Mas não tenho e sou duas:
De um lado anseio, sabendo que todo esse redemoinho se dissolverá em um tranquilo copo d'água.
Do outro desespero, esperneio com a mesma infantilidade com qual ansiava uma autoconfiança que tenho hoje e não me serve em nada.
O tanto que possuo é exatamente o que quis e meu Deus, meu Deus, cuidado com o que desejemos.
Para ficar no registro, para deixar claro, em registro de ata do karma:
Eu desejo paz em mim, eu desejo calma.
Eu me pergunto se é por isso que minhas veias pulsam e não é, eu sei, nunca foi,
Eu sempre precisei de dor e portanto a infligi em mim mesma, com a ingratidão dos que não dominam (sequer arranham) a arte da apreciação.
Mas eu desejo a calma, antes que a vida me imponha.
Eu ainda tenho a ausência de dor verdadeira,
Ainda carrego essa pureza.
Enquanto a carrego, peço e rezo com toda a fé que esnobei com arrogância, pela serenidade da qual conscientemente abdiquei.
Iludida por imagens
Arquétipos de mim mesma,
Quão perigosa é a mente de uma criança.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O tempo é feroz e come todas as coisas belas

Com meu sorriso pouco entediado, respondo suas perguntas.
Com a expressão de uma anciã cansada de ainda vinte e poucos anos.
Eu corri muito para estar aqui. Lutei muito para chegar aqui.
E isso me deu uma presunção pouco surpreendente, e aquela velha sensação do desgaste...
Verdade seja dita, respondo o que você quiser sobre mim, porque já não sou mais tão interessante.
Já não tenho fogo correndo nas veias, de raiva, de fúria, de vida.
Já não fecho os olhos e penso sonhos acordados, já não escuto barulhos na noite e na madrugada.
Na calada da noite agora é só um período. Canela se tornou meu chá preferido e a escrita, minha procrastinação.
Oh sim, veja que situação.
Eu, sempre na contramão, hoje sou vanguarda. Não mais quebrando e sim construindo muralhas.
Me desumanizando um pouco cada vez mais.
Nada de grama, céu ou animais.
Apenas meu velho sorriso polido,
Meu coração pouco surpreendido.

Mas às vezes...
Às vezes ainda se acende algo, ou sussurra no meio fio.
Às vezes ainda sinto fome, às vezes ainda sinto frio.
Sinto a vontade insana de explodir meu vazio.

Cada vez menos.
Menos e menos vezes.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Quão amáveis são as coisas que não conhecemos

Mas a verdade é que às vezes eu sinto frio por dentro,
Como se fosse só mais uma estranha perdida nessa madrugada sacana, sem casa, sem cama, sem nada.
Eu gostaria de uma coerência? Claro, claro, claro. Todo dia da semana.
Mas qual seria a graça disso?
Eu quero queimar todas as minha vontades em uma fogueira de tralhas e observar seu faiscar tranquilo.
Queria era dar o fora daqui.
Abandonar tudo o que eu preciso e assim suicidar minha fraqueza. Mas não é esse o desejo de todos os fracos?
A minha vontade de renascer é o que me mantém viva, mas ela é aliada a minha vontade de destruir.
Queria eu ser calma, queria eu ser boa, queria eu ser cândida.
Mas a quem estamos enganando?
Eu gosto mesmo é do caos que posso provocar com um leve movimento em falso. Com a movimentação das coisas, das engrenagens dos acontecimentos, corações e vontades.
Eu gosto da ideia de poder destruir tudo a qualquer segundo, da leve liberdade que isso me dá.
Mas essa é só uma de mim e ela não tem a autonomia total sobre o que eu faço.
Porque ao lado tem uma parte que chora quando se sente só e do lado alguém que apenas observa com tédio.
E não foi o tédio o catalisador de todas minhas mais estúpidas, criativas e destrutivas ideias?
Não foi o tédio que me trouxe aqui, que me deixou bizarra, sombria, cínica e sorridente?
Não foi o tédio que me fez sentir amor, dor ou rejeição?
Porque uma parte de mim é insensível ao toque,
E a outra explode todo dia.

sábado, 27 de agosto de 2016

Senhorita bomba atômica

Eles dizem "Olhe o dano que ele lhe causou",
Mas deveriam saber melhor,
Olhe para o rosto da garotinha
Explodindo numa gargalhada.

Ela correu pintando todas essas paredes de branco
Ela jogou fogo ao chão com seu senil coração
E você pensa em pegá-la, pensa em alcançá-la
Pensa em um passo a mais, em fogo, em prata e bala.

Você é gentil como um punhal, acolhedora mortalha.
Não tem marcas nas mãos, tem olhos de perspicácia.
Mas ela desvia e escorrega,
Ela é esguia e rápida.
A garotinha sorri,
Deliciosa batalha.

E quão amável foi deixar-te pensar
Que toda essa ação
Iria glorificar-te
E te levantar desse chão,
Com um presente tão doce
De indecente emoção
Um apelo tão óbvio:
Destruir coração.

E você gastou suas tintas,
Você abriu suas malas,
Você chutou sua porta,
Vandalizou sua casa
Mas quando olhou para trás,
Para o rastro que deixava,
Apenas uma listra negra
Bem na parede da sala.

sábado, 20 de agosto de 2016

O cansaço é apenas a sensação anterior ao total esquecimento.

É engraçado, é irônico, é um pouco bobo.
A idade é realmente bem superficial, com o passar dos anos.
Em círculos eu transitei, me iludindo por uma década com realizações com as quais sonho desde minha inocência.
Mas todas as coisas que eu toco dissolvem-se ao meu contato: Viram pó, viram partículas. Incorporam ao ar ao meu redor e enchem de novo meus pulmões, tão pequeninas como no fundo sempre foram.
Eu pensei que havia muito a conseguir, mas tudo que eu tinha que sentir já estava pulsando como uma artéria incandescente dentro de mim.
Mas eu, e como poderia ser diferente, não vi.
Eu não vi.
Eu sentei-me e esperei pelas coisas erradas: Criança preguiçosa como eu, sempre esperando afeto, futuro, revelações.
Eu, que era raivosa e vermelha e em meus dedos trazia fúria e com minhas unhas arranhava meu próprio coração.
Eu sempre estive bastante consciente da minha inaptidão em lidar com o tempo e com a doçura que me é oferecida pela natureza.
E sempre estive também, abrindo a pele de tudo que toco e extraindo seus órgãos e vísceras, os abraçando com meu corpo frágil de ossos sob a pele, tentando assim sentir qualquer angústia que me tornasse menos leprosa. Sentindo a paixão por tudo machucar minha pele e em seguida dissolver-se em nada, me trazendo essa sempre amiga, sempre retornante, sempre raposa, sensação tranquila de que tudo se torna irrelevante no final. E o que final é simplesmente algo que ocorre diante do mais inesperado e mínimo estímulo, de uma leve mudança na corrente de ar.
Será sempre assim?
Ou vou me deparar com o contrário em mim covardemente escondido?
Quantas vezes mais vou precisar matar-me dentro de mim?

terça-feira, 19 de julho de 2016

This is my own carrosel

Eu tomo as coisas.
Eu tomo as coisas por completo, tomo até exauri-las, como se eu precisasse muito delas.
As tomo como se precisasse de cada gota delas, metade não é o suficiente, porque a verdade é que não preciso de nada delas então se hei de tomá-las, se hei de dançar esta dança indecente, psicologicamente vulgar, se hei de jogar a mim mesma em um tabuleiro, tenho que ter tudo.
É o meu consolo para o choro da madrugada, para a estranheza.
Mas eu sou estranha.
Eterna estranha e alienígena, com as pontas dos dedos leprosos e os olhos cheios de lágrimas, de desistências e inércias. Com meus impulsos e autodeterminações vazias
Enscancaro este cenário, cheio de coisas estranhas que não entendo.
É esquisita a textura da árvore quando passa o vento, permanece intacta, o céu ao entardecer e você.
Seja lá quem for você.
É estranho o sorriso casual, a garganta gasguita, o toque voraz.
É tão desnecessário que me faz chorar.
Porque a vida inteira eu fui estranha e tomei coisas, e forjei papéis e os rasguei depois com uma banalidade que faz aquilo de mais íntimo, escondido, de puro dentro de mim chorar.
Mas eu vou continuar tomando coisas porque eu sou essa mas também sou outras. Eu sou gentil mas também gosto da ideia de devorar pessoas.
Na prática eu sou uma otária e não tenho nada algoz em mim além das minhas próprias vontades, sensações e segredos.
E eu os guardo, às sete chaves em um diário aberto. Da minha mente e às vezes os transmito com gritos e lágrimas e palavras incoerentes e uma vida incoerente procurando um lugar.

Jogando estrelas na água.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Meu inventário de coisas lindas

E me vem que quando você ama alguém
Ama o seu Amor
Aqueles momentinhos ordinários
Inconscientes
Se tornam impérios para sua visão,
Pequenos tesouros abstratos
Que você tenta capturar com seus olhos,
Delinear na memória
Eternizar num texto
As nuances do teu amor.

Não são as demonstrações
Não, nem falo delas aqui
São as vértices daquela pessoa.
É o jeito que ele fica com raiva em silêncio quando perde no jogo
Ou como ele sorri comendo, com os lábios em um arco fechado perfeito.
É a voz dele ao telefone com os atendentes
Ou seu sorriso aberto aos vendedores de loja
É a elegância com a qual fica em pé, distraído
E o jeito meigo que se envergonha ao ouvir isso.
É o seu andar, visto de costas, minha perfeição particular
E como eu o encontro dormindo, esparramado pela cama
Ou em um rolinho primavera de edredom.
É como facilmente adormece em meus braços
E seus lábios se entreabrem buscando respirar.
É como fica autoritário com seus assuntos preferidos
E seu riso fácil em todos os momentos necessários.
É seu fio de cabelo branco precoce do lado esquerdo
E sua barba que escolhe muito bem por onde crescer.

Eu escrevi 365 destes
E de algum modo
Todo dia se multiplicam
E eu já conheci tantos mais
Até que percebi que precisaria descrevê-lo
Em meticulosa descrição
Pois cada coisinha dele é, por ser dele, maravilhosa
Revela-se maravilhosa
Nesses meus olhos que só vêem ele.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sobre trocar farpas com seu gajo

O que ela queria da vida era ele.
Mas eita coisa de louco!
Abraço, chamego, grito, choro.
A chama sempre acesa às vezes pegava fogo.
Mas eles não conseguiam ficar longe um do outro.

Doía na pele e no peito um aperto de esmagar, a distância.
E mesmo em um dia difícil, depois de muita discordância
Só ficava a saudade, a vontade da pele, do olho, da manha.
Eles eram loucos um pelo outro, isso era visível até pra criança.

Numa hora chamego doido, na outra fúria em brasa.
Eles eram quentes como fogo, duas chamas que se completavam,
Mas iam aprendendo a acalmar-se pra ver se assim duravam
Umas três vidas todinhas, porque duas só não davam.

Ele era mais tranquilo, mas não pisasse no seu calo,
Ela tinha a língua ferina, mas seu dengo era todo pro seu gajo,
Eles se entendiam, embora se desentendessem sempre.
Mas iam aprendendo a se cuidar tão bem quanto o amor que sentem.

E uma coisa era certa, o que ela queria da vida era ele.
Seu tato, sorriso, sua mente. Seus abraços e os seus macetes.
Sem ele amor não rolava. E sem amor a vida não dava.
Então ia pegar toda sua raiva e transformar em mil beijos nele.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Eles são só crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?

Eles diziam que os adultos eram máquinas, robôs mecânicos, sem alma, sem sonhos. Robôs que continham em sua programação apenas uma escada de metas frias e objetivas, sempre insatisfeitas. Sempre vazias.
Eu me preocupo, às vezes.
Estudo. Trabalho. Dinheiro. Metas. Coisas que as pessoas fazem, que também parecem atrativas. Programar uma viagem. Comprar um carro. A triste instrumentabilidade que envolve a vida.
As crianças não entendiam os adultos, como poderiam? Tem tanta coisa a fazer, a resolver. Tem tanta coisa jogada na sua cara, esfregada nas suas vontades, de um jeito cru e humilhante.
Os adultos abandonam seu direito de ser crianças, para cuidá-las. Para deixá-las mais um tempo que seja numa infância cada vez menos infância.
Mas nada disso importa, não é mesmo? Não, não é mesmo.
É preciso fazer o que se espera em certa medida, é preciso solucionar os problemas. É preciso se comprometer.
Hoje eu sou um terror, realmente algo meio alienígena para minha antiga criancinha.
Me desculpe, querida, mas você sonhava em ser eu, lembra? Antes de saber o quão exaustivo e vazio isto podia ser. Mas parecia-lhe bonita a imagem, não é mesmo? Ver-se esguia e um pouco pálida, em um blazer e porte social. Você era uma menina tão menina e com uns sonhos tão estranhos desde cedo...
Não, eu não sinto falta de ser criança. Ser criança é neurótico e inseguro. É sem controle. E ser adulto é a necessidade de controlar tudo ao seu redor e a frustração em não controlar-se, mesmo com o passar do tempo.
O que eu queria eu não tenho, eu não posso. É uma liberdade que me deixe livre de amarras das quais eu nunca estive solta. E essa liberdade eu só posso encontrar em mim mesma, em meu íntimo. Enquanto trabalho, vivo, e luto para sobreviver. Enquanto tenho uma rotina e um horário pois não posso faltar comigo mesma e com os meus. Mas por dentro - ah, o grande desafio - conservar assim mesmo aquela chama, aquela centelha.
Aquilo que te faz amar o céu, o sol, correr na grama, adorar às eventualidades, sorrir até tuas bochechas doerem.
Minha mãe estava certa, ser feliz não é difícil, é simples. Está nas coisas simples.
O difícil é conseguir sentir as coisas simples, em meio a tantos enlinhados necessários, tão mais complicados que te separam delas.
Mas vamos lá.