quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Dossiê

Se tu pegasses
Tuas paixões. Teus desastres. Teus tesões. Tuas viagens. Tuas alucinações. E também miragens. Tuas acomodações. Tuas chantagens.
E colocasse todos, numa sala, em espelhos, em quadros, em pelo.
Se tu olhasses isso, se tu encarasse com curiosa admiração, o que tu farias?

Eu estou pegando
Minhas coisas pequeninas
Invadindo-lhes a pele. Invasiva desde menina.
Misturando meus mundos. Empilhando meus defuntos. Queimando suas latrinas.

Ah, saudades.
Tu não me pegas mais.
O que eu quero eu mesma pego.
Minha mão pálida traz.
O que eu desejo eu mordo.
Janeiro, abril ou agosto,
Com um sorriso mordaz.

Vamos lá.
Mistura essas coisas em ti.
Vamos lá.
Acorda dessa latência.
De água, silêncio e carência.
Acorda desta miragem.
Apenas o fogo e o caos
Produzem a sincera paisagem.

Mil reflexos em prisma de teu olhar assustado

Eu sou
Uma piada velha, um assunto antigo
Aquele que você não aguenta mais, resquício semi esquecido.
Eu sou o cigarro fumado, o teatro depois do show encerrado.
Eu sou o abatido do gado, o projétil usado do fogo de artifício.
Eu sou o que você não aguenta mais, embora não saia do peito.
A lembrança desastrosa de tudo a que veio ou a que não veio.
E por isso mesmo desencanta.
Sou tua unha lascada, doendo de vez em vez.
Aquela cicatriz antiga, que quase ninguém mais vê.
O livro que estava no topo, e agora apoia tua porta.
Sou tua lembrança rota, tua decisão torta.
Sou aquele arrependimento antigo, que te dá vergonha de infância.
O sentimento antigo de que tudo seria melhor, seria mudança.
Sou a estagnação que segura tua andança, sou no teu calcanhar a lança
Que te segura os tendões. Sou o atraso. Sou a constância.
O pior do teu olho, do nítido contraste roto.
Estou te encarando o tempo todo. Tu não sossegas desse sufoco.
Olha para mim.
Se olha no espelho.
Não, não, olha para mim.
Me olha no espelho.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Um curioso causo

De caminhos se fez ninhos, de ninhos se fez corrente.
E serpentes - não são as mais escorregadias, nem sempre.
Os moços de olhos claros, de sorrisos raros e mãos quentes.
São os mais perigosos - bicho domesticado - são cabulosas as coisas que sentem.

Dissera Seu João que tomasse cuidado com os sorrisos largos.
Porque as pessoas de bom coração tendem a tornar-se metódicos carrascos.
Meu coração é quente e minhas mãos inquietas. Minhas asas são instáveis - Por vezes não param quietas.
Mas nada mais perigoso que um rapaz gentil.

Ele te entrega a mão e o coração, te surpreende com inocência.
Te dá a chave, a senha e combinação - Te assusta tamanha sua alta frequência.
Inicialmente, claro. Ele te entrega um mundo. Te faz sentir até desconfortável com tanta entrega.
Te dá a ilusão de controle e com ela o direito
De perder-se, às vezes, nesta floresta.

Para mim, bicho do mato, no entanto já vacinado, bicho prejudicado
O ceticismo me dói como um colírio necessário
Mas como resistir a encantador relicário?
Bochechas rubras, sorriso esticado. Honestidade até no gaguejar eventual e desajeitado. Uma delícia de presa.
E como nele não se perdê-la?

De insistência vence o gajo,
E com tanto afeto demonstrado, abate o gado.
Induz a uma morte precoce da dúvida soturna,
E te leva de pedra a água na velocidade da lua
Um causo curiosíssimo para os conhecedores de causa

Valha.

Da selvageria se fez calma
E da fuga, apego louco.
Manha, agarrado, choro. Coisa de doido.
Transformado o predador na presa
Velha nova fábula antiga da quimera
Que de quimera nunca teve nada.

Delicioso rapaz do sorriso bobo,
Agora faz o que quer com o que corre em tuas mãos.
Pratica as jogadas se assim te apraz
Ou apenas deixa levar pelo não arrependimento eficaz
Mas trata de deixar a dúvida na opção
E o que vai fazer com o que tem em teu poder
Cabe exclusivamente a tua razão.


Por que diabos não ouvi o Seu João?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

4 letters

Estive a vida inteira escrevendo sobre apego, necessidade e possessão. Sem muito sentido de lógica. Escrevi sobre ideologia cada vez que vi coisas que não existiam em pessoas, apenas para satisfazer minhas fantasias literárias, para me estimular à paixão. Mas escrever sobre o amor?

Eu não sei se já o fiz. Escrevi sobre momentos de amor. Sobre a sensação tátil daquele segundo. Não escrevi sobre como é complicado e por vezes contraditório. Não escrevi sobre o ódio que reside no amor. Não falei sobre um dia difícil, em que a pessoa amada te desencanta. Em que ela age ao reverso do que tu esperas, e como por um momento pode sentir vontade de correr para longe dela e detestá-la. Como às vezes características que tu não admiras se manifestam no teu objeto do afeto. E se o que tu sentir for efêmero, elas vão sim sobrepujar todo o resto com o tempo. Vão acumular-se e criar o sentimento de repúdio que torna tão fácil deixar alguém.

Mas e quando após um dia difícil, um dia daqueles. Em que tal como o gatinho que te arranhas quando tu tenta um carinho, a pessoa que tu amas te decepciona quando tu precisa dela. O que falar sobre como, mesmo após um dia cansativo (a pior das sensações em relacionamentos, talvez), você vê o sorriso daquela pessoa. Você a vê se emocionar com algo que não é nem teu, apenas vê seus olhos brilharem e seu sorriso crescer no rosto e a alegria tomar suas feições e tudo some. Qualquer desapontamento parece banal e distante e as lágrimas vem ao rosto, meio que sem avisar, porque é emocionante vê-lo feliz e emocionado, mesmo que não contigo. E naquele momento, quando tudo borbulha dentro de ti e não é porque está sendo amada ou afeiçoada, não naquele momento específico. Não é sobre tu a felicidade com ele. Não é sobre vocês. É porque ele está feliz, apenas, e por isso apenas tudo borbulha dentro de si e vira mágica, vira montanha russa, vira felicidade. Porque ele está feliz.

Um dia um amigo nosso, nos vendo, disse: "Olha que o mais interessante é que mais feliz que ele, que ganhou o presente, está ela, o olhando enquanto ele o recebe."

E ele estava certo.

A esse passo, acho que estou pronta para falar de amor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pausa para repetir o óbvio

Pessoas são furacões esperando para acontecerem
Bem no meio de sua vida, em um dia de setembro, na realização de seus sonhos ou em suas próprias mentes, a todo momento.
Mas mensurando em proporções gerais, somos todos irrelevantes.
Eu, você, esse problema que está quebrando a sua cabeça, seus piores segredos e desejos mais insanos.
Fica muito fácil assim, tornar qualquer coisa aceitável. Sair de si um pouco e comer um pouco do todo. Fica fácil aceitar derrotas, insatisfações e a completa contrariedade dos fatos com nossas expectativas... sempre tão efêmeras
Eu me lembro bem da sensação de fracasso, amargando um pouquinho minha língua. Lembro dessas vezes e como elas são mais finalistas do que as vitórias. Porque o fracasso encerra um plano natimorto, encerra um ciclo. Isso, não obstante toda a autocrítica e comiseração, traz uma sensação de fechamento. "Fechando gestalts", não é mesmo?
Já a vitória é um trampolim frenético que nunca pára, nunca respira, nunca dorme. E eu sou viciada nesse trampolim desde que recebi o primeiro sinal de reconhecimento, porque explodo em mim constantemente. E quando saio um pouco, dou uma volta e olho para dentro, percebo a desnecessidade de tudo isso - ainda que saiba que voltarei em breve.
E essa vaidade toda é bem mais interna do que se possa pensar. Porque o buraco aumenta com os anos, consumindo tudo ao seu redor, exigindo perfeição e resultado, tudo em busca de respostas a perguntas que vão ecoar como um epitáfio meu.
Mas tudo isso - repito desde os 13 anos - também é passageiro, não é?
Oh Céus. A dor e a paixão. A completa tendência ao suicídio e a paz inequívoca, tão voláteis. Em mim, revezam até em minutos.
E como eu amo essa instabilidade. Como eu adoro a essa liberdade doce de saber que tudo se recicla constantemente, sendo absolutamente desnecessário para a centelha que trago em mim. Tudo se esvai, e só fica a vontade daquele exato instante. E como isso nos faz livres. E como isso nos faz frios.