terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ela encarava o vidro da larga parede de vidro. Encarava os transeuntes alienados de sua existência, do lado de fora do estabelecimento. Os carros que buzinavam, um bando de pássaros sem muito equilíbrio, as árvores estáticas devido ao calor.
E com ele, o que faria?
Se perguntou.
O que faria com ele?
A pergunta era retórica, ao passo que encarava todo o ambiente sem qualquer irresignação. Afinal, estava de corpo, mente e alma, completamente dominada por aquele sentimento. Sua racionalidade não tinha desaparecido, não, nada disso. Ela estava ali, contemplando cética a vida do lado de fora daquela cafeteria. E ceticamente, tinha a consciência límpida de que estava completamente entregue àquele amor. Era uma entrega calma e tranquila, sem muito rebuliço pois não havia absolutamente nada a ser feito contra ela. Qualquer dano que lhe abatesse proveniente daquela entrega era desde então, inevitável, mesmo que previsível. Pois não sabia ser infiel a seus sentimentos. E todos eles eram do amor mais absoluto que podia existir.
E o que faria com isso? O que faria com ele?
Ora, uma voz respondeu dentro de si. Amá-lo. Amá-lo com todas as suas forças, pois é para isso que ele foi feito. Ele nasceu neste mundo, estava certa, para ser amado. Para ter derramado sobre si, centelhas de carinho e acolhimento, pois ele todo era amor e tudo o que emanava vinha translúcido e gentil. Ele era isso, amor e felicidade. E tudo que ela podia e iria fazer, era amá-lo incondicionalmente, com o mesmo amor que ele trazia ao mundo com o simples fato de existir.

domingo, 22 de novembro de 2015

Cores e Texturas

Seus olhos são castanhos e seus beijos são azuis
A cor do seu abraço é a de um outono de folhas caindo, alaranjadas e castanhas.
Quando seu coração se magoa, seu olhar é de um cinza opaco, fulminante,
E quando tua pele chama a minha, é vermelho e vinho, escorrendo de teus olhos.

A sua mão segurando a minha é da textura do aconchego de uma cama em um dia frio
E nossas tardes enrolados são alaranjadas e musicadas, mesmo em completo silêncio.
Quando eu choro e tu me abraças, esse abraço é azul claro, e tem o cheiro de uma piscina na manhã.
Quando eu peço teu carinho e tu me abre os braços, é o mesmo castanho dos teus olhos o que eu sinto ao meu redor.

E quando a saudade ataca, eu sinto um violento violeta se debater dentro de mim,
Mas quando tu a matas, me matando de carinho, a explosão é de conforto e tem a cor carmim.
Quando eu sonho nossos sonhos, ele tem a suave cor de um marfim tranquilo
E ao imaginar nossas aventuras, elas brilham azul e vermelho, explodindo em expectativa.

E quando trocamos aqueles olhares, ah aqueles olhares...
Quando olhamos um na alma do outro e o que eu vejo é infinito, transbordam cores e texturas, infinitas explosões nunca antes imaginadas, eletricidade e incredulidade e quando tudo se acalma, tudo o que fica é a paz.
E ela é intraduzível.



sábado, 21 de novembro de 2015

Eu posso
Deliciosamente brincar com a dinâmica de meus dedos,
Contando histórias em encruzilhadas, de marcações, trocadilhos, ciladas...
Posso supor, imaginar o óbvio. Reconstruir tudo em meu crânio de ferro.
Posso plantar sementes de plantas venenosas em vasos de orquídeas, de lírios, de rosas.
O que eu tenho em mãos, é meu pela tomada. Gosta de sê-lo.
O que eu criei, segundo minha própria lei, fiz com uma delicada dedicação.
Tomei-lhe a contramão, afundei em minhas regras. As quebrei, sem nenhum rédea, as domei sem dominação.
Com um refinamento,
Tão particular,
De tomar espaços desertos e chamá-los de lar.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Re escritos


Olha, é que meu amor não é talentoso. Ele é grande, desajeitado, não sabe andar direito. Ele está tão surpreso com esse mundo, que o tempo todo explode no peito. E eu não sei lidar com ele. Na cidade do meu amor não tem prefeito.
Mas tem você.
E para ti eu dou todas as ruas,
Te dou os asfaltos, te pago os impostos.
Com ti, delicadamente me importo,
Dentro de uma caixinha,
Sem planejamento nenhum,
Mas com um laço decorado...
Meu amor é aquele quadro inacabado.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Estrelas

Eles eram um casal antigo, vivendo em corpos jovens. Sua casa era um ninho aconchegante e despretensioso, cujos únicos luxos eram uma sala super equipada para receber seus amigos e assistir os filmes que ele tanto amava e um escritório pequeno e vitoriano, no qual passavam algumas tarde em silêncio confortável, cada uma escrevendo seus sonhos, em suas mesinhas de mogno.
Com uma enorme janela, para seu jardinzinho gentil, passavam finais de tarde chuvosos e domingos de manhã, fugindo da loucura da vida cotidiana, colocando seus personagens no papel, sempre com a trilha sonora que tanto amavam e eventuais fugas do tema para um carinho gentil aqui e acolá.
Ainda assim, eram um casal velhinho. Ela com suas roupas retrô folgadas e ele com uns cardigans largos e super confortáveis.
Em seu tempo livre ainda gozavam do prazer lúdico de jogar seus sentimentos em telas de pintura. Verdade seja dita, ele tinha mais técnica que ela. Mas na hora de pintar, ela exalava paixão. Essa combinação resultava em pinturas que mais pareciam uma simbiose de personalidades, fazendo jorrar cores de formas, e texturas de desenhos. O ateliê dos dois era um pequeno porão, iluminado por lâmpadas que pendiam em garrafas de cerveja e com o cheiro que tornou-se tão familiar, de tinta óleo e madeira.
Eles tinham uma vida completa, por assim dizer. Ela, com sua personalidade um tanto instável, rasgando momentos de fragilidade em raiva e em alguns desses episódios, rasgando algumas telas, só para depois abraçá-las, chorando. Ele, mais ou menos como um senhor de idade: Com seu autoritarismo que ao mesmo tempo não admitia muita flexibilidade, mas dobrava-se a abraçar todas as angústias dela, que tentavam entender juntos. Se completavam, de fato.
Ela tinha consciência do quanto precisava dele, declarando por várias vezes que não podia viver sem o seu amor. Ele, o racional, explicava para si mesmo e em conversas cabeça com seu grupo de amigos, como era possível viver sem qualquer coisa, mesmo que doesse. Mas a verdade é que quando a via cochilar no sofá, tranquila, sabia intimamente que desde algum ponto que não sabia bem qual, não podia viver mais sem ela.
A vida deles, para quem via de fora e também para quem os conhecia bem, era um sonho bom. Não um sonho irreal, americano ou de comercial de margarina. Eles brigavam, choravam, enfrentavam problemas quase impossíveis. Mas no final dos dias, descansavam o rosto um no outro e dormiam em uma sensação de que seu encontro por si só, era a grande sorte na vida que procuravam.
Apenas uma coisa tornavam suas vidas incompletas. Era o fato de ela não poder ter filhos. Uma frustração, que desde que descoberta a fazia sentir incompleta não só pela falha de seu organismo, mas também pelo brilho no olhar que via no olhar dele ao olhar para qualquer criança. Ele era um pai nato, uma daquelas poucas pessoas raras com a verdadeira vocação para criar outro ser humano. E ela sentia que jamais conseguiria satisfazer isso. Não obstante tivessem em seu ninho dois anjinhos peludos - Um labrador calmo e uma yorkshire elétrica - sabia que essa sempre seria uma lacuna em suas vidas.
Ainda assim, eram felizes. Direcionavam seu amor para seus peludos, dormindo em posições escabrosas, enterrando suas cabeças em pêlos e muitas vezes acordando entre alergias e risadas.
Foi por tudo isso, por todo o ar de sonho de sua vida e pela quantidade de felicidade ser tão imensurável nos dias em que viviam, que o choque foi tão forte quando receberam o diagnóstico.

Ela mal podia acreditar. As imagens pareciam um pesadelo, enquanto via a boca do médico se mover, mas não conseguia, a partir de certo ponto, distinguir as palavras que saiam dela.
Ironicamente, sempre tivera a sensação de que iria morrer cedo. Sempre brincara com isso, enquanto se enrolava nele, entre cócegas e ameaças jocosas:
"Cuide bem de mim que eu vou morrer cedo, viu!"
Quem diria que seria ele, seu grande amor, que a deixaria tão prematuramente?
Olhou para o rosto dele, sereno e impassível. Sabia intimamente que ele iria conter todo o seu medo e dor, com o único objetivo de não assustá-la ainda mais.
Sua enfermidade era uma daquelas raridades que acomete o azarado 0,00001%. E ele era essa maldita porcentagem. Não haveria dor, não haveria prolongação. Mas em compensação, não haveria tempo.
Quando saíram do consultório médico, ele estava em silêncio. Ela o olhava aflita, esperando ler sua reação, entender seus sentimentos. Mas o olhar dele era tranquilo e lúcido. Aquela rara lucidez dos que não tem tempo a perder e ganham subitamente a consciência disso.
Passaram aquele dia praticamente em silêncio. Fizeram alguns acordos mútuos. Sonhos que teriam que ser adiantados, encaminhamentos familiares, e principalmente, a promessa do segredo.
Chegaram em casa ao pôr do sol e descansaram do maior cansaço de suas vidas, naquela cama macia.

Em algum momento da madrugada ele a acordou, com um carinho gentil. A beijou na bochecha e sussurrou o seu nome baixinho, a despertando com gentileza. Ela acordou com uma lágrima no canto dos olho e a voz dele cruzou sua mente como o som mais belo do mundo: "Vem comigo, meu amor."
Ela o seguiu, sonolenta, esfregando os olhos ainda em seus pijamas. Eles saíram da casa descalços e ele a levou por um caminho de pedrinhas que ela não conhecia até então. Passaram por umas árvores que pareciam - talvez pelo horário, talvez pelo sono - maiores e imensamente mais imponentes do que em todos os dias - e esse pequeno trajeto os levou a uma beira mar, extensa e inacabável.

"Isso já existia aqui?", ela perguntou confusa. Estaria sonhando? Ele a olhou e seus olhos disseram tantas verdades que ela levaria vidas para entender.

Ele segurou sua mão e encararam a imensidão ao seu redor, tão maior que eles. Tão inexplicável.
O toque da mão dele na dela, sua pele. A sensação  e textura irradiava a calma e serenidade da certeza: Eram almas gêmeas. Ele a olhou com muita lucidez:

"Nós sempre nos encontraremos", ele lhe prometeu. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas não eram bem de tristeza, ao contrário. Uma emoção profunda a dominou por completo e seu peito fervilhava de amor. Todo o amor do mundo. Ela sorriu e beijou levemente seus lábios. Repetiu as palavras dele e quando deram por si, olharam para cima e viram dezenas, centenas e talvez milhares de finos raios de luz rompendo o céu negro em um instante ínfimo. Um milhão de estrelas cadentes parecia naquele momento irromper pelo céu acima de suas cabeças, como uma chuva de meteoros, de sonhos ou promessas. Olharam admirados aquele momento que desafiava toda a realidade, tendo a certeza de que a mágica existia e estava dentro e fora deles.
Foi pouco tempo depois que o inevitável aconteceu. De maneira serena, um dia de domingo ela acordou e soube. Foi até a sala e lá o encontrou, descansando, no sofá, como no sono mais tranquilo no mundo. Um sono eterno. Uma lágrima escorreu de seu rosto, mas seu coração estava em paz. Poucas semanas depois ela encontraria o mesmo sono, também em um domingo chuvoso. Nenhum dos familiares ou amigos encontrou uma explicação científica para como ela se foi, mas todos intimamente sabiam. Ela morrera de amor.


Depois disso, encontraram-se diversas vezes,

Uma vez foram estrangeiros que se cruzaram em um país exótico, ambos em busca de aventura e fugindo do amor. Outra, tiveram certa diferença de idade que os fizeram ser professora e aluno, o que não impediu o seu amor. Da última, eram colegas de infância que se reencontraram apenas na terceira idade, descobrindo o amor que ao longo de suas vidas jamais tinha lhes acontecido.

Atualmente, são dois adolescentes de ensino médio, melhores amigos que ainda não sabem que estão apaixonados. Ainda irão discutir algumas vezes enquanto redescobrem tudo mais uma vez. Mas sempre redescobrirão. Porque são estrelas, são almas gêmeas. E sempre se encontrarão.















terça-feira, 10 de novembro de 2015

Estou sentada em um chão frio, meio familiar, meio hostil.
Me sentindo totalmente nua, despida da necessidade de agradar um público que não existe há muito tempo nesse espaço.
Existe uma liberdade gentil ao tentar ser ao menos um pouco sincera comigo mesma.
Em admitir uma solidão conformada.
Uma fragilidade inerente.
Toda a farsa da minha frieza.
Em relação a tudo e a todos.
Minha indiferença,
da qual já convenci tanta gente.
Meu sorriso propositalmente azedo.
Toda a dor óbvia disfarçada de maldade.
E um monte de mágoas.
De saudades de mim mesma.

Eu ainda sou aquela criança
Aquele monte de medos.
De palavras bestas.
Tentando mandar mensagens
Para uma luz no universo,
Que me acalente a alma,
Que me acalme o medo,
Que me desenfureça.

Eu tenho medo de mim mesma.
Das consequências da minha raiva,
Da minha dor que eu não entendo.
Da solidão em meio a tanta mágoa
Que eu não sei de onde veio.

Tentando me segurar
Nos meus osso frágeis
Uma gata magra disfarçada de raposa.

Quem se importa?