segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Lugar comum

Ela estava sentada, sobre as próprias pernas.
Longas e pálidas, pernas magras.
Claras como um vidro, transparentes como a chuva.
Seus olhos escorriam como mel, tocando o chão, pingando um doce enjoado, manjado, escorrido e estrelado.
Ela devia ter uns 13 anos, em idade de estrelas.

Tinha nas mãos uns emaranhados. Uns fios incompreensíveis, de destinos que já cruzou.
Eles perdiam-se em algum momento, todos eles, saiam de seu alcance. A maioria prateados, alguns pouquíssimos vermelhos. Com o tempo, às vezes, mudavam de cor.

Do lado esquerdo tinha uma sacola grande, cheia de coisas que lhe deram. Cada um de seus amores:
Palavras, palavras, palavras.
-Eles falam muito.
Ela disse para si mesma, com sua voz de cristal, translúcida e incompreensível.
Tinha um grande montinho delas.
Palavras bonitas, articuladas. Muitas do tipo que menos gostava: Promessas.
Elas vinham em cestas com flores, com doces: Com todo o tipo de coisas que apodreciam com o tempo.
Eram das iguarias mais refinadas: Produtos com prazo de validade. Enquanto serviam, eram deliciosas. Quando expiravam, apenas memórias velhas.

Ela separou as promessas ao seu lado, à esquerda de quem vem.
Com as linhas fez uma cortina, um bizarro trançado de lembranças. De fantasmas.
Dentro de uma caixinha de veludo, no entanto, deu uma olhada mais delicada. Até impediu que o mel a tocasse: Era a caixinha de corações.

Quem a olhasse de longe, o que diria? Envolta naquela penumbra escura e fria, menina de vidro devoradora de corações.
Mas as pessoas eram hipócritas, eram todas umas farsantes. Enfiaram vidrinhos em suas pernas. Sangraram a cada visita a força e vitalidade delas. Arrancaram o mel forçado de seus olhos, e enfraqueceram suas costelas. A cada visita delas.
Como esmola, deixaram, cada uma, de lembrança, seu coração.

Mas aqueles, ela dizia, abrindo a caixinha,
Eram corações descartáveis.
Que cresciam de novo, assim que davam dez passos.
Ainda não tinha provado, mas imaginava que quando o fizesse,
É quase certo que os vomitasse.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Declaração

Tu me fala de teus defeitos
e eu não entendo uma palavra do que tu dizes.
O que tu diz que são teus defeitos são meus pretextos,
Meus pequenos impérios perfeitos.
Passo os olhos por ti:
Por teu corpo e tua alma.
Cada pedaço de teu coração me enche de amor,
Cada curva do teu sorriso me faz sorrir contigo,
Cada pequeno medo inusitado,
Cada piada em momento inesperado,
Cada tropeço que tu venha a dar é um acerto na minha calma.
Agradeço intimamente aos Céus - a esses em que tu não acredita -
Por terem construído tua vida,
exatamente como é.
Agradeço a todo teu ambiente - e por isso temo tanto modificá-lo,
Por ter te tornado quem tu és hoje,
exatamente em cada pedaço.
Me incompreendo com a natureza,
Resisto em acreditar em alguém assim.
Mas tu me olha silenciosamente,
dizendo nesse olhar as palavras tão assertivas...
Te vejo então diariamente,
Lamber de maneira inconsciente, minhas feridas.
Me transformar em alguém,
Que descobriu o sentido de estar viva:
Você.
Eu te amo,
Amor da minha vida.