quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ponto de equilíbrio

Ele.
Fecho os olhos.
Deixo espalhar-se por mim como uma dose injetada na veia.
Bombeando-se pela veia cava inferior, ramifica-se e mistura os sangues de todas as cores, preenchendo a aorta dos meus pensamentos.
Chegando a cada extremidade, líquido denso e imobilizante - Ele impermeabiliza minha pele, preenche minhas articulações, me faz indefectível por um momento.
O sinto em todos os poros do meu corpo, como minha própria transpiração - gotículas microscópicas dele exalam de mim apenas para serem absorvidas novamente. Estou numa bolha. A bolha dele.
Aqui é o útero da minha alma, onde me agarro às paredes de suas curvas, de suas vértices - onde agarro suas costas, suas mãos e seus cabelos. O trazendo para junto de mim, entro em casa. Trago junto o pedaço de mim extirpado pelo universo, em outro espaço-tempo, trago junto minha paz. Minha metade.
E quando ele não está presente, está em todos os lugares.
A textura de seu olhar acompanha meus passos como uma corrente amarrada em minha sanidade. Faz barulho enquanto ando, arrastando-se pelo meu caminho. Acompanhando cada um de meus pensamentos, como uma sombra inamovível.
Enlouqueço um pouco, por vezes, e quando o faço sangue transparente brota de minhas retinas.
Porque elas estão cobertas por uma lente que agora só identifica sentido se ele está presente.
E a possibilidade de perdê-lo enfia uma mão de longas unhas negras em meu estômago, emaranhando-se por minhas tripas.
Não retira-me o coração,
desfaz-me da realidade.
Ele é meu ponto de equilíbrio nesse mundo no qual eu não conhecia a paz.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Leve-me à igreja*


A minha vontade...

-À vontade.

Responda para mim.
Não me negue nada.
Não desvie o olhar,
Ou segure minhas mãos.
Não me peça para desacelerar,
Se eu estiver indo muito rápido*
Este é meu país
Esta é minha refeição.

Estes fios de cabelo,
São onde emaranho meus dedos,
Os teus ossos sobressalentes,
Onde apoio minhas pernas,
Suas costas pálidas,
De veias sempre saltadas,
De pintas marrons esparsas
São onde enterro meus dentes.

Não me peça para parar,
Mesmo quando machucar.
Não, não me peça para parar de sugar o seu sangue.
Esta é minha casa,
O único lugar onde durmo,
O único lugar que descanso,
Que aceito como túmulo.

Teu pescoço de sangue latejante,
É onde sugo com todo meu ímpeto,
Tua boca carnuda e doce,
Teu sorriso de menino.
Tuas mãos de dedos longos,
ágeis e habilidosos.
Cada curva do teu corpo,
Cada um dos teus poros.

Aqui é meu templo,
É onde finco minha existência.
É onde derramo minhas mágoas,
Minha fúria e inocência.
É onde deposito meu carinho,
Onde monto o meu ninho,
A cada tarde e noite intensa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Anotações sobre o rapaz

Ele sorri,
de modo quase paternalista.
Compreende o que eu nem disse com assustadora empatia,
e de repente faz-me sentir apenas uma menina

Ele é gentil com as palavras,
mesmo no momento de mágoa.
A arma mais cruel que ele já usou foi o próprio amor,
e sua sinceridade em dois tempos me desarma.

Ele tem um senso de justiça firme e inabalável,
e por isso sangra tanto quando essa parte dele é ferida.
Ele tem seus pontos soltos, suas pontas machucadas,
Mas nunca os usa como artifícios para vencer uma briga.

Ele torna os conceitos de vitória e derrota desnecessários.
Porque ele abre seu coração como um país,
Expõe todas cartas, os planos e os dados
E me faz sentir abrigada como eu sempre quis.

Ele é uma pessoa extraordinária vivendo como um sujeito comum.
Seu coração é recheado de toda a gentileza do mundo,
Mas sem perder a firmeza jamais: Ele é o tipo de rapaz
Que olha nos olhos, diz o que pensa e não se esconde jamais.

E por isso o ar ao redor dele é leve como uma brisa,
e os sorrisos correm soltos ao vê-lo, como se fosse o movimento natural dos lábios.
Não admira ele esteja sempre rodeado de pessoas.
Não admira seja bela a trilha que vêm deixando os seus passos.

Ele é doce e é calmo,
Mas ao mesmo tempo é forte e intenso.
E por isso passa um vento e tudo que quero é tê-lo inteiro.
Sua alma, sua mente e sua presença física nesse mundo,
fazem uma fórmula irresistível, que tornou-se o meu Tudo.

Ele me faz querer ser melhor, podar minhas ervas daninhas.
Praticar a cada dia a arte de domar minha natureza ferina,
Cuidar não por medo, mas por gratidão à sorte
De fazer esta linha prateada ter cruzado-se com a minha.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

2015

Abriu os olhos.
A claridade incomodava um pouco as pálpebras sonolentas, mas o aroma de sonho a convidava.
Encostada no parapeito de sua janela, a beira da praia vazia de feriado, e a manhã novinha com folhas voando à esmo traziam a perfeita imagem do novo ano.
O mundo a encarava com um sorriso afetuoso e as ondas que banhavam a beira da praia pareciam lhe dizer pequenos cumprimentos.

Era o mesmo lugar, nada mudara.
As paredes e chão, nos quais correra durante a infância.

Era o mesmo sol e ele nunca se atrasava.
Iluminava aquela manhã com os mesmos raios que ela sempre criticara.

Mas ela...

Seria a mesma?

Enquanto inspirava aquele ar nunca antes sentido, pensava que gostaria de escrever um texto. Mas com um pouco de embaraço, pensava também que só tinha um tema.
E embora essa âncora literária lhe mantivesse quase repetitiva,
Nunca tinha sido tão saboroso escrever.
Nunca fora tão realista.

Nesse momento passos se aproximaram da varanda. E ela sentiu dois braços a envolverem por trás.
O rosto com o aroma que ela amava afundou-se na curva de seu pescoço, dando-lhe um bom dia em beijo com gosto de café.

Quando ele a abraçou aconchegante, e passou a encarar aquele horizonte com ela,
ela percebeu que jamais seria a mesma novamente, porque agora não era mais incompleta.
Que com ele, com aquela pessoa extraordinária que por um presente do destino, escolhera ela para abraçar, mil portas se abriram para sabores de felicidade nunca antes imaginados.

Eram uma dupla, um par.

Naquela casa de sua memória, em sua música preferida - Em todos os tesouros nos quais ela deixou ele entrar. Tesouros de infância até então guardados em um baú, com teias de aranha, esquecidos. Ela abrira suas portas, recebera-o em seus braços e agora juntos naquele cenário, encaravam tudo os que os esperava:

O mundo inteiro.

(Mas por enquanto,
O ano novo.)