quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Dossiê

Se tu pegasses
Tuas paixões. Teus desastres. Teus tesões. Tuas viagens. Tuas alucinações. E também miragens. Tuas acomodações. Tuas chantagens.
E colocasse todos, numa sala, em espelhos, em quadros, em pelo.
Se tu olhasses isso, se tu encarasse com curiosa admiração, o que tu farias?

Eu estou pegando
Minhas coisas pequeninas
Invadindo-lhes a pele. Invasiva desde menina.
Misturando meus mundos. Empilhando meus defuntos. Queimando suas latrinas.

Ah, saudades.
Tu não me pegas mais.
O que eu quero eu mesma pego.
Minha mão pálida traz.
O que eu desejo eu mordo.
Janeiro, abril ou agosto,
Com um sorriso mordaz.

Vamos lá.
Mistura essas coisas em ti.
Vamos lá.
Acorda dessa latência.
De água, silêncio e carência.
Acorda desta miragem.
Apenas o fogo e o caos
Produzem a sincera paisagem.

Mil reflexos em prisma de teu olhar assustado

Eu sou
Uma piada velha, um assunto antigo
Aquele que você não aguenta mais, resquício semi esquecido.
Eu sou o cigarro fumado, o teatro depois do show encerrado.
Eu sou o abatido do gado, o projétil usado do fogo de artifício.
Eu sou o que você não aguenta mais, embora não saia do peito.
A lembrança desastrosa de tudo a que veio ou a que não veio.
E por isso mesmo desencanta.
Sou tua unha lascada, doendo de vez em vez.
Aquela cicatriz antiga, que quase ninguém mais vê.
O livro que estava no topo, e agora apoia tua porta.
Sou tua lembrança rota, tua decisão torta.
Sou aquele arrependimento antigo, que te dá vergonha de infância.
O sentimento antigo de que tudo seria melhor, seria mudança.
Sou a estagnação que segura tua andança, sou no teu calcanhar a lança
Que te segura os tendões. Sou o atraso. Sou a constância.
O pior do teu olho, do nítido contraste roto.
Estou te encarando o tempo todo. Tu não sossegas desse sufoco.
Olha para mim.
Se olha no espelho.
Não, não, olha para mim.
Me olha no espelho.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Um curioso causo

De caminhos se fez ninhos, de ninhos se fez corrente.
E serpentes - não são as mais escorregadias, nem sempre.
Os moços de olhos claros, de sorrisos raros e mãos quentes.
São os mais perigosos - bicho domesticado - são cabulosas as coisas que sentem.

Dissera Seu João que tomasse cuidado com os sorrisos largos.
Porque as pessoas de bom coração tendem a tornar-se metódicos carrascos.
Meu coração é quente e minhas mãos inquietas. Minhas asas são instáveis - Por vezes não param quietas.
Mas nada mais perigoso que um rapaz gentil.

Ele te entrega a mão e o coração, te surpreende com inocência.
Te dá a chave, a senha e combinação - Te assusta tamanha sua alta frequência.
Inicialmente, claro. Ele te entrega um mundo. Te faz sentir até desconfortável com tanta entrega.
Te dá a ilusão de controle e com ela o direito
De perder-se, às vezes, nesta floresta.

Para mim, bicho do mato, no entanto já vacinado, bicho prejudicado
O ceticismo me dói como um colírio necessário
Mas como resistir a encantador relicário?
Bochechas rubras, sorriso esticado. Honestidade até no gaguejar eventual e desajeitado. Uma delícia de presa.
E como nele não se perdê-la?

De insistência vence o gajo,
E com tanto afeto demonstrado, abate o gado.
Induz a uma morte precoce da dúvida soturna,
E te leva de pedra a água na velocidade da lua
Um causo curiosíssimo para os conhecedores de causa

Valha.

Da selvageria se fez calma
E da fuga, apego louco.
Manha, agarrado, choro. Coisa de doido.
Transformado o predador na presa
Velha nova fábula antiga da quimera
Que de quimera nunca teve nada.

Delicioso rapaz do sorriso bobo,
Agora faz o que quer com o que corre em tuas mãos.
Pratica as jogadas se assim te apraz
Ou apenas deixa levar pelo não arrependimento eficaz
Mas trata de deixar a dúvida na opção
E o que vai fazer com o que tem em teu poder
Cabe exclusivamente a tua razão.


Por que diabos não ouvi o Seu João?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

4 letters

Estive a vida inteira escrevendo sobre apego, necessidade e possessão. Sem muito sentido de lógica. Escrevi sobre ideologia cada vez que vi coisas que não existiam em pessoas, apenas para satisfazer minhas fantasias literárias, para me estimular à paixão. Mas escrever sobre o amor?

Eu não sei se já o fiz. Escrevi sobre momentos de amor. Sobre a sensação tátil daquele segundo. Não escrevi sobre como é complicado e por vezes contraditório. Não escrevi sobre o ódio que reside no amor. Não falei sobre um dia difícil, em que a pessoa amada te desencanta. Em que ela age ao reverso do que tu esperas, e como por um momento pode sentir vontade de correr para longe dela e detestá-la. Como às vezes características que tu não admiras se manifestam no teu objeto do afeto. E se o que tu sentir for efêmero, elas vão sim sobrepujar todo o resto com o tempo. Vão acumular-se e criar o sentimento de repúdio que torna tão fácil deixar alguém.

Mas e quando após um dia difícil, um dia daqueles. Em que tal como o gatinho que te arranhas quando tu tenta um carinho, a pessoa que tu amas te decepciona quando tu precisa dela. O que falar sobre como, mesmo após um dia cansativo (a pior das sensações em relacionamentos, talvez), você vê o sorriso daquela pessoa. Você a vê se emocionar com algo que não é nem teu, apenas vê seus olhos brilharem e seu sorriso crescer no rosto e a alegria tomar suas feições e tudo some. Qualquer desapontamento parece banal e distante e as lágrimas vem ao rosto, meio que sem avisar, porque é emocionante vê-lo feliz e emocionado, mesmo que não contigo. E naquele momento, quando tudo borbulha dentro de ti e não é porque está sendo amada ou afeiçoada, não naquele momento específico. Não é sobre tu a felicidade com ele. Não é sobre vocês. É porque ele está feliz, apenas, e por isso apenas tudo borbulha dentro de si e vira mágica, vira montanha russa, vira felicidade. Porque ele está feliz.

Um dia um amigo nosso, nos vendo, disse: "Olha que o mais interessante é que mais feliz que ele, que ganhou o presente, está ela, o olhando enquanto ele o recebe."

E ele estava certo.

A esse passo, acho que estou pronta para falar de amor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pausa para repetir o óbvio

Pessoas são furacões esperando para acontecerem
Bem no meio de sua vida, em um dia de setembro, na realização de seus sonhos ou em suas próprias mentes, a todo momento.
Mas mensurando em proporções gerais, somos todos irrelevantes.
Eu, você, esse problema que está quebrando a sua cabeça, seus piores segredos e desejos mais insanos.
Fica muito fácil assim, tornar qualquer coisa aceitável. Sair de si um pouco e comer um pouco do todo. Fica fácil aceitar derrotas, insatisfações e a completa contrariedade dos fatos com nossas expectativas... sempre tão efêmeras
Eu me lembro bem da sensação de fracasso, amargando um pouquinho minha língua. Lembro dessas vezes e como elas são mais finalistas do que as vitórias. Porque o fracasso encerra um plano natimorto, encerra um ciclo. Isso, não obstante toda a autocrítica e comiseração, traz uma sensação de fechamento. "Fechando gestalts", não é mesmo?
Já a vitória é um trampolim frenético que nunca pára, nunca respira, nunca dorme. E eu sou viciada nesse trampolim desde que recebi o primeiro sinal de reconhecimento, porque explodo em mim constantemente. E quando saio um pouco, dou uma volta e olho para dentro, percebo a desnecessidade de tudo isso - ainda que saiba que voltarei em breve.
E essa vaidade toda é bem mais interna do que se possa pensar. Porque o buraco aumenta com os anos, consumindo tudo ao seu redor, exigindo perfeição e resultado, tudo em busca de respostas a perguntas que vão ecoar como um epitáfio meu.
Mas tudo isso - repito desde os 13 anos - também é passageiro, não é?
Oh Céus. A dor e a paixão. A completa tendência ao suicídio e a paz inequívoca, tão voláteis. Em mim, revezam até em minutos.
E como eu amo essa instabilidade. Como eu adoro a essa liberdade doce de saber que tudo se recicla constantemente, sendo absolutamente desnecessário para a centelha que trago em mim. Tudo se esvai, e só fica a vontade daquele exato instante. E como isso nos faz livres. E como isso nos faz frios.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ela encarava o vidro da larga parede de vidro. Encarava os transeuntes alienados de sua existência, do lado de fora do estabelecimento. Os carros que buzinavam, um bando de pássaros sem muito equilíbrio, as árvores estáticas devido ao calor.
E com ele, o que faria?
Se perguntou.
O que faria com ele?
A pergunta era retórica, ao passo que encarava todo o ambiente sem qualquer irresignação. Afinal, estava de corpo, mente e alma, completamente dominada por aquele sentimento. Sua racionalidade não tinha desaparecido, não, nada disso. Ela estava ali, contemplando cética a vida do lado de fora daquela cafeteria. E ceticamente, tinha a consciência límpida de que estava completamente entregue àquele amor. Era uma entrega calma e tranquila, sem muito rebuliço pois não havia absolutamente nada a ser feito contra ela. Qualquer dano que lhe abatesse proveniente daquela entrega era desde então, inevitável, mesmo que previsível. Pois não sabia ser infiel a seus sentimentos. E todos eles eram do amor mais absoluto que podia existir.
E o que faria com isso? O que faria com ele?
Ora, uma voz respondeu dentro de si. Amá-lo. Amá-lo com todas as suas forças, pois é para isso que ele foi feito. Ele nasceu neste mundo, estava certa, para ser amado. Para ter derramado sobre si, centelhas de carinho e acolhimento, pois ele todo era amor e tudo o que emanava vinha translúcido e gentil. Ele era isso, amor e felicidade. E tudo que ela podia e iria fazer, era amá-lo incondicionalmente, com o mesmo amor que ele trazia ao mundo com o simples fato de existir.

domingo, 22 de novembro de 2015

Cores e Texturas

Seus olhos são castanhos e seus beijos são azuis
A cor do seu abraço é a de um outono de folhas caindo, alaranjadas e castanhas.
Quando seu coração se magoa, seu olhar é de um cinza opaco, fulminante,
E quando tua pele chama a minha, é vermelho e vinho, escorrendo de teus olhos.

A sua mão segurando a minha é da textura do aconchego de uma cama em um dia frio
E nossas tardes enrolados são alaranjadas e musicadas, mesmo em completo silêncio.
Quando eu choro e tu me abraças, esse abraço é azul claro, e tem o cheiro de uma piscina na manhã.
Quando eu peço teu carinho e tu me abre os braços, é o mesmo castanho dos teus olhos o que eu sinto ao meu redor.

E quando a saudade ataca, eu sinto um violento violeta se debater dentro de mim,
Mas quando tu a matas, me matando de carinho, a explosão é de conforto e tem a cor carmim.
Quando eu sonho nossos sonhos, ele tem a suave cor de um marfim tranquilo
E ao imaginar nossas aventuras, elas brilham azul e vermelho, explodindo em expectativa.

E quando trocamos aqueles olhares, ah aqueles olhares...
Quando olhamos um na alma do outro e o que eu vejo é infinito, transbordam cores e texturas, infinitas explosões nunca antes imaginadas, eletricidade e incredulidade e quando tudo se acalma, tudo o que fica é a paz.
E ela é intraduzível.



sábado, 21 de novembro de 2015

Eu posso
Deliciosamente brincar com a dinâmica de meus dedos,
Contando histórias em encruzilhadas, de marcações, trocadilhos, ciladas...
Posso supor, imaginar o óbvio. Reconstruir tudo em meu crânio de ferro.
Posso plantar sementes de plantas venenosas em vasos de orquídeas, de lírios, de rosas.
O que eu tenho em mãos, é meu pela tomada. Gosta de sê-lo.
O que eu criei, segundo minha própria lei, fiz com uma delicada dedicação.
Tomei-lhe a contramão, afundei em minhas regras. As quebrei, sem nenhum rédea, as domei sem dominação.
Com um refinamento,
Tão particular,
De tomar espaços desertos e chamá-los de lar.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Re escritos


Olha, é que meu amor não é talentoso. Ele é grande, desajeitado, não sabe andar direito. Ele está tão surpreso com esse mundo, que o tempo todo explode no peito. E eu não sei lidar com ele. Na cidade do meu amor não tem prefeito.
Mas tem você.
E para ti eu dou todas as ruas,
Te dou os asfaltos, te pago os impostos.
Com ti, delicadamente me importo,
Dentro de uma caixinha,
Sem planejamento nenhum,
Mas com um laço decorado...
Meu amor é aquele quadro inacabado.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Estrelas

Eles eram um casal antigo, vivendo em corpos jovens. Sua casa era um ninho aconchegante e despretensioso, cujos únicos luxos eram uma sala super equipada para receber seus amigos e assistir os filmes que ele tanto amava e um escritório pequeno e vitoriano, no qual passavam algumas tarde em silêncio confortável, cada uma escrevendo seus sonhos, em suas mesinhas de mogno.
Com uma enorme janela, para seu jardinzinho gentil, passavam finais de tarde chuvosos e domingos de manhã, fugindo da loucura da vida cotidiana, colocando seus personagens no papel, sempre com a trilha sonora que tanto amavam e eventuais fugas do tema para um carinho gentil aqui e acolá.
Ainda assim, eram um casal velhinho. Ela com suas roupas retrô folgadas e ele com uns cardigans largos e super confortáveis.
Em seu tempo livre ainda gozavam do prazer lúdico de jogar seus sentimentos em telas de pintura. Verdade seja dita, ele tinha mais técnica que ela. Mas na hora de pintar, ela exalava paixão. Essa combinação resultava em pinturas que mais pareciam uma simbiose de personalidades, fazendo jorrar cores de formas, e texturas de desenhos. O ateliê dos dois era um pequeno porão, iluminado por lâmpadas que pendiam em garrafas de cerveja e com o cheiro que tornou-se tão familiar, de tinta óleo e madeira.
Eles tinham uma vida completa, por assim dizer. Ela, com sua personalidade um tanto instável, rasgando momentos de fragilidade em raiva e em alguns desses episódios, rasgando algumas telas, só para depois abraçá-las, chorando. Ele, mais ou menos como um senhor de idade: Com seu autoritarismo que ao mesmo tempo não admitia muita flexibilidade, mas dobrava-se a abraçar todas as angústias dela, que tentavam entender juntos. Se completavam, de fato.
Ela tinha consciência do quanto precisava dele, declarando por várias vezes que não podia viver sem o seu amor. Ele, o racional, explicava para si mesmo e em conversas cabeça com seu grupo de amigos, como era possível viver sem qualquer coisa, mesmo que doesse. Mas a verdade é que quando a via cochilar no sofá, tranquila, sabia intimamente que desde algum ponto que não sabia bem qual, não podia viver mais sem ela.
A vida deles, para quem via de fora e também para quem os conhecia bem, era um sonho bom. Não um sonho irreal, americano ou de comercial de margarina. Eles brigavam, choravam, enfrentavam problemas quase impossíveis. Mas no final dos dias, descansavam o rosto um no outro e dormiam em uma sensação de que seu encontro por si só, era a grande sorte na vida que procuravam.
Apenas uma coisa tornavam suas vidas incompletas. Era o fato de ela não poder ter filhos. Uma frustração, que desde que descoberta a fazia sentir incompleta não só pela falha de seu organismo, mas também pelo brilho no olhar que via no olhar dele ao olhar para qualquer criança. Ele era um pai nato, uma daquelas poucas pessoas raras com a verdadeira vocação para criar outro ser humano. E ela sentia que jamais conseguiria satisfazer isso. Não obstante tivessem em seu ninho dois anjinhos peludos - Um labrador calmo e uma yorkshire elétrica - sabia que essa sempre seria uma lacuna em suas vidas.
Ainda assim, eram felizes. Direcionavam seu amor para seus peludos, dormindo em posições escabrosas, enterrando suas cabeças em pêlos e muitas vezes acordando entre alergias e risadas.
Foi por tudo isso, por todo o ar de sonho de sua vida e pela quantidade de felicidade ser tão imensurável nos dias em que viviam, que o choque foi tão forte quando receberam o diagnóstico.

Ela mal podia acreditar. As imagens pareciam um pesadelo, enquanto via a boca do médico se mover, mas não conseguia, a partir de certo ponto, distinguir as palavras que saiam dela.
Ironicamente, sempre tivera a sensação de que iria morrer cedo. Sempre brincara com isso, enquanto se enrolava nele, entre cócegas e ameaças jocosas:
"Cuide bem de mim que eu vou morrer cedo, viu!"
Quem diria que seria ele, seu grande amor, que a deixaria tão prematuramente?
Olhou para o rosto dele, sereno e impassível. Sabia intimamente que ele iria conter todo o seu medo e dor, com o único objetivo de não assustá-la ainda mais.
Sua enfermidade era uma daquelas raridades que acomete o azarado 0,00001%. E ele era essa maldita porcentagem. Não haveria dor, não haveria prolongação. Mas em compensação, não haveria tempo.
Quando saíram do consultório médico, ele estava em silêncio. Ela o olhava aflita, esperando ler sua reação, entender seus sentimentos. Mas o olhar dele era tranquilo e lúcido. Aquela rara lucidez dos que não tem tempo a perder e ganham subitamente a consciência disso.
Passaram aquele dia praticamente em silêncio. Fizeram alguns acordos mútuos. Sonhos que teriam que ser adiantados, encaminhamentos familiares, e principalmente, a promessa do segredo.
Chegaram em casa ao pôr do sol e descansaram do maior cansaço de suas vidas, naquela cama macia.

Em algum momento da madrugada ele a acordou, com um carinho gentil. A beijou na bochecha e sussurrou o seu nome baixinho, a despertando com gentileza. Ela acordou com uma lágrima no canto dos olho e a voz dele cruzou sua mente como o som mais belo do mundo: "Vem comigo, meu amor."
Ela o seguiu, sonolenta, esfregando os olhos ainda em seus pijamas. Eles saíram da casa descalços e ele a levou por um caminho de pedrinhas que ela não conhecia até então. Passaram por umas árvores que pareciam - talvez pelo horário, talvez pelo sono - maiores e imensamente mais imponentes do que em todos os dias - e esse pequeno trajeto os levou a uma beira mar, extensa e inacabável.

"Isso já existia aqui?", ela perguntou confusa. Estaria sonhando? Ele a olhou e seus olhos disseram tantas verdades que ela levaria vidas para entender.

Ele segurou sua mão e encararam a imensidão ao seu redor, tão maior que eles. Tão inexplicável.
O toque da mão dele na dela, sua pele. A sensação  e textura irradiava a calma e serenidade da certeza: Eram almas gêmeas. Ele a olhou com muita lucidez:

"Nós sempre nos encontraremos", ele lhe prometeu. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas não eram bem de tristeza, ao contrário. Uma emoção profunda a dominou por completo e seu peito fervilhava de amor. Todo o amor do mundo. Ela sorriu e beijou levemente seus lábios. Repetiu as palavras dele e quando deram por si, olharam para cima e viram dezenas, centenas e talvez milhares de finos raios de luz rompendo o céu negro em um instante ínfimo. Um milhão de estrelas cadentes parecia naquele momento irromper pelo céu acima de suas cabeças, como uma chuva de meteoros, de sonhos ou promessas. Olharam admirados aquele momento que desafiava toda a realidade, tendo a certeza de que a mágica existia e estava dentro e fora deles.
Foi pouco tempo depois que o inevitável aconteceu. De maneira serena, um dia de domingo ela acordou e soube. Foi até a sala e lá o encontrou, descansando, no sofá, como no sono mais tranquilo no mundo. Um sono eterno. Uma lágrima escorreu de seu rosto, mas seu coração estava em paz. Poucas semanas depois ela encontraria o mesmo sono, também em um domingo chuvoso. Nenhum dos familiares ou amigos encontrou uma explicação científica para como ela se foi, mas todos intimamente sabiam. Ela morrera de amor.


Depois disso, encontraram-se diversas vezes,

Uma vez foram estrangeiros que se cruzaram em um país exótico, ambos em busca de aventura e fugindo do amor. Outra, tiveram certa diferença de idade que os fizeram ser professora e aluno, o que não impediu o seu amor. Da última, eram colegas de infância que se reencontraram apenas na terceira idade, descobrindo o amor que ao longo de suas vidas jamais tinha lhes acontecido.

Atualmente, são dois adolescentes de ensino médio, melhores amigos que ainda não sabem que estão apaixonados. Ainda irão discutir algumas vezes enquanto redescobrem tudo mais uma vez. Mas sempre redescobrirão. Porque são estrelas, são almas gêmeas. E sempre se encontrarão.















terça-feira, 10 de novembro de 2015

Estou sentada em um chão frio, meio familiar, meio hostil.
Me sentindo totalmente nua, despida da necessidade de agradar um público que não existe há muito tempo nesse espaço.
Existe uma liberdade gentil ao tentar ser ao menos um pouco sincera comigo mesma.
Em admitir uma solidão conformada.
Uma fragilidade inerente.
Toda a farsa da minha frieza.
Em relação a tudo e a todos.
Minha indiferença,
da qual já convenci tanta gente.
Meu sorriso propositalmente azedo.
Toda a dor óbvia disfarçada de maldade.
E um monte de mágoas.
De saudades de mim mesma.

Eu ainda sou aquela criança
Aquele monte de medos.
De palavras bestas.
Tentando mandar mensagens
Para uma luz no universo,
Que me acalente a alma,
Que me acalme o medo,
Que me desenfureça.

Eu tenho medo de mim mesma.
Das consequências da minha raiva,
Da minha dor que eu não entendo.
Da solidão em meio a tanta mágoa
Que eu não sei de onde veio.

Tentando me segurar
Nos meus osso frágeis
Uma gata magra disfarçada de raposa.

Quem se importa?









sábado, 31 de outubro de 2015

The Hunger

O que eu sinto por ele? Você sabe o que eu sinto por ele.
Eu quero devorá-lo.
Quero engolir tudo o que o rodeia, o guardar em mim.
Quero tocar sua alma, encontrá-la. Enfiar minhas mãos dentre suas entranhas e apertar seu coração até senti-lo estagnar. E então reavivá-lo.
Eu quero ver sua alma, porque me encantam as coisas que se mostram.
E não me canso jamais de adorá-la, porque ele a faz translúcida para mim.
Ele me mostra tal como é e por isso eu a idolatro.
A chupo como uma manga recém saída do pé, recém nascida.
Contorno seus sabores com meus dedos, os cultivo em minhas raízes.
E por isso ele precisa de mim, ele se fixa em mim, como se eu lhe fosse o chão.
Porque todos nós queremos ser devorados e idolatrados, mesmo que por canalhas e mentirosos.
Nós queremos devorar e ser devorados.
E eu o deixo devorar meu tempo, meu zelo e meus cuidados. O deixo consumir minha vida líquida, a única e extraordinária que carrego comigo.
Porque quando o olho vejo um flash de coisas que minha veia sociopata e antipática não consegue explicar.
E mesmo depois desse tempo, depois de decifrar suas razões lógicas, ele instiga toda minha falta de racionalidade.
E devorá-lo diariamente apenas vêm me deixando mais sedenta.
Eu o quero pela vida toda, do jeito mais sincero que encontro em mim.
E o quero vivo, por isso lhe cuido. Porque ver seu sorriso vivo mantém a chama viva em mim.
Que a chama não se apague.
Que a fome não acabe.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Lugar comum

Ela estava sentada, sobre as próprias pernas.
Longas e pálidas, pernas magras.
Claras como um vidro, transparentes como a chuva.
Seus olhos escorriam como mel, tocando o chão, pingando um doce enjoado, manjado, escorrido e estrelado.
Ela devia ter uns 13 anos, em idade de estrelas.

Tinha nas mãos uns emaranhados. Uns fios incompreensíveis, de destinos que já cruzou.
Eles perdiam-se em algum momento, todos eles, saiam de seu alcance. A maioria prateados, alguns pouquíssimos vermelhos. Com o tempo, às vezes, mudavam de cor.

Do lado esquerdo tinha uma sacola grande, cheia de coisas que lhe deram. Cada um de seus amores:
Palavras, palavras, palavras.
-Eles falam muito.
Ela disse para si mesma, com sua voz de cristal, translúcida e incompreensível.
Tinha um grande montinho delas.
Palavras bonitas, articuladas. Muitas do tipo que menos gostava: Promessas.
Elas vinham em cestas com flores, com doces: Com todo o tipo de coisas que apodreciam com o tempo.
Eram das iguarias mais refinadas: Produtos com prazo de validade. Enquanto serviam, eram deliciosas. Quando expiravam, apenas memórias velhas.

Ela separou as promessas ao seu lado, à esquerda de quem vem.
Com as linhas fez uma cortina, um bizarro trançado de lembranças. De fantasmas.
Dentro de uma caixinha de veludo, no entanto, deu uma olhada mais delicada. Até impediu que o mel a tocasse: Era a caixinha de corações.

Quem a olhasse de longe, o que diria? Envolta naquela penumbra escura e fria, menina de vidro devoradora de corações.
Mas as pessoas eram hipócritas, eram todas umas farsantes. Enfiaram vidrinhos em suas pernas. Sangraram a cada visita a força e vitalidade delas. Arrancaram o mel forçado de seus olhos, e enfraqueceram suas costelas. A cada visita delas.
Como esmola, deixaram, cada uma, de lembrança, seu coração.

Mas aqueles, ela dizia, abrindo a caixinha,
Eram corações descartáveis.
Que cresciam de novo, assim que davam dez passos.
Ainda não tinha provado, mas imaginava que quando o fizesse,
É quase certo que os vomitasse.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Declaração

Tu me fala de teus defeitos
e eu não entendo uma palavra do que tu dizes.
O que tu diz que são teus defeitos são meus pretextos,
Meus pequenos impérios perfeitos.
Passo os olhos por ti:
Por teu corpo e tua alma.
Cada pedaço de teu coração me enche de amor,
Cada curva do teu sorriso me faz sorrir contigo,
Cada pequeno medo inusitado,
Cada piada em momento inesperado,
Cada tropeço que tu venha a dar é um acerto na minha calma.
Agradeço intimamente aos Céus - a esses em que tu não acredita -
Por terem construído tua vida,
exatamente como é.
Agradeço a todo teu ambiente - e por isso temo tanto modificá-lo,
Por ter te tornado quem tu és hoje,
exatamente em cada pedaço.
Me incompreendo com a natureza,
Resisto em acreditar em alguém assim.
Mas tu me olha silenciosamente,
dizendo nesse olhar as palavras tão assertivas...
Te vejo então diariamente,
Lamber de maneira inconsciente, minhas feridas.
Me transformar em alguém,
Que descobriu o sentido de estar viva:
Você.
Eu te amo,
Amor da minha vida.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Vez por outra existem camufladas dentro das multidões, pessoas extraordinárias. Elas passam a maior parte do tempo escondidas, vivendo uma vida comum, sem que ninguém - e muitas vezes nem elas mesmas - desconfiem do tesouro que carregam dentro de si. Elas podem trabalhar, estudar, sair com os amigos, ter relacionamentos, enfim. Viver uma vida supostamente normal, sem sequer desconfiarem de quem realmente são. Você pode até conhecê-las de vista, sem nem fazer ideia: Seja cruzando nos corredores da faculdade, passando por elas na cantina, perguntando se querem fazer avaliação institucional (rsrs)... A princípio, é só uma pessoa normal. Exceto que não é.
Eu não sei dizer se existem muitas assim, porque verdade seja dita, eu só conheço uma. Ou melhor, só tive a inacreditável sorte de descobrir uma pessoa assim. E que sorte infinita para se ter em uma vida...
Porque eu sei, eu sei, existem vários valores e parâmetros para se avaliar se você admira ou não alguém, se essa pessoa é interessante. Mas acredito que essa característica especial, essa centelha inexplicável seja absoluta. E só não se fascina com ela, quem não prestou atenção o suficiente para descobri-la.
Essa pessoa de quem eu falo carrega dentro de si esse tesouro: Uma incomensurável capacidade de amar. Um coração tão impecavelmente belo que à primeira vista parece um truque, um embuste. Afinal, como pode uma coisa dessas sobreviver nesse mundo?
Algo assim não se aprende, não se ensina. É um elemento tão raro, que só posso acreditar que é inerente. Como um dom, um presente que a vida te deu e que presenteia a todos ao seu redor: "Vai lá, nasce e faz das pessoas que tu amar as mais felizes do mundo", parece que disseram.
Então hoje eu só queria te agradecer. Não é nenhuma data comemorativa, mas é algo tão bonito quanto, é um “todo-dia”. Obrigada por todo dia ser exatamente quem tu é e por ter me deixado descobrir isso, para que assim eu possa, todos os dias, te mostrar também. Ou até mesmo contar para um monte de gente, assim, de uma vez só, do nada.

Eu te amo, criatura. Te amo porque te amo, mas tenho a sorte de não faltarem motivos para te amar cada vez mais.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Feel

Eu não saberia profetizar,
Arriscar nos dados as chances matemáticas.
Não saberia usar a lógica e a razão,
Calcular a probabilidade de um "não"
Um dia chegar até nós.

Eu sei que já senti muita coisa,
Já escrevi mil textos de amor,
Já jurei coisas impossíveis,
E já fiz outros chorarem de dor.

Mas você...

Eu olho dentro dos seus olhos inacreditáveis,
E acolhida dentre os teus braços...
O mundo desaparece ao redor,
E se torna apenas nosso indefectível quadro.

Eu sinto essa certeza brotar dentro de mim como uma floresta,
E seus galhos crescerem e florescerem a cada gesto teu.
Eu sinto esse sentimento me envolver como se fosse o universo,
Sendo eu mera consequência desse amor meu.

Eu sinto no nosso olhar amarrado,
Nas nossas mãos entrelaçadas,
Nos nossos cabelos se misturando,
Nas nossas peles se encontrando.

Eu sinto na lembrança constante do teu sorriso,
Do teu timbre grave e melódico de voz.
Na doçura do teu beijo incrível,
No amor que eu sinto tanto que dói.

Eu te sinto em todas as células do meu corpo,
Eu me sinto dentro de ti.
Eu sinto,
finalmente.

Eu te amo.
Com ele,
o tempo tem um sabor diferente.

"I lay in the floor, pressing my eyes.
Seing little lights..."

Antigamente as árvores eram só folhas e o vento era só uma ocasionalidade.
Hoje em dia quando tudo isso se une, com seu sorriso em primeiro plano, o tempo para por um momento.
Eu fecho os olhos nesse momento infinito e me sinto intimamente ligada com a natureza. Tudo faz um sentido, finalmente. Eu faço sentido, me sentindo cada vez mais preenchida.

Pedacinhos de luz fazem sombras ante minhas pálpebras fechadas.
O cheiro dele é o cheiro das árvores ao sol, é o cheiro de casa, o cheiro de felicidade.
O seu sorriso aquece meu peito, como um café em um dia frio.
Eu o amo,
sem mais delongas.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Pancada

Minha cabeça dói
como a maior ressaca do ano.
Gosto amargo de pântano.
Uma hora, eventualmente,
em um dia de domingo,
Tudo vem à tona,
Corroendo e consumindo.
Tudo
Te agarra
Pela gola.
Te empurra na parede e cospe na sua cara o que você não queria ouvir.
Te joga no chão, e te pisa com sarcasmo.
Te acorda.
Meu coração está ausente.
Minha cabeça em chamas.
Minha alma, cada vez mais fios brancos.
Dentro da gente...
Tem tanta coisa que a gente não entende.
Dentro da gente tem o furacão.
Tem a esganada inconsequente,
na hora da paixão.
O sangue que espirra do sorriso
no momento mais macabro.

Meu amor.

Meu amor é insistente.
Ele resiste à minha mente.
Ele segura meus calcanhares.
É o fantasma da madrugada,
o assobio que me anuncia
que predestina minha mortalha
E assedia.
Meu amor é canalha,
É minha gargalhada falha,
Minha voz um pouco rouca,
Meus dedos já tão cansados,
De cansaço de carrasco,
Sádico e masoquista,
Um irredutível ateísta,

Um viciado anunciado.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Anotações

I

We have little things
living inside of us
They are insects. And they feed.
They are born by accident, and they may breath
If we let them.
They feed of our hollows. Of our fears
Most of all, they feed of our cruelty.
They are little monsters.
They are born in the shape of thought
And come out in the shape of words
Sometimes actions.
They seem stronger than anything when they come out
But they actually only have the strenght we gave them
We fed them.
If we can just for a minute,
Make them silent
Shut the fuck up of them.
If you can hold them
Close your eyes
Just don't let them out,
They will vanish.
Evaporate.
And we may, for a moment
Not be, of course,
not right away.
But we may just feel
That we can be
Eventually
Masters of ourselves.




II

We are little persons.
Little beings,
In the middle of so many other little beings.
And no one of them will ever feel
Your flaws
As hard as you do.
So sometimes it gets hard
To look in the mirror,
'Cause we are stranger persons.
And sometimes
A touch
In the skin
May burn a little.
A word or a look
May become frightening,
If you don't feel it right.
We are such little ones.
Such broken ones.
And our dark sides
Are always so dark,
That we feel we must hide.
Because some people hate us,
Then you think:
"Maybe they're right
Maybe i should hide the things they may hate
To the people i like"
So sometimes
You don't know quite
Who you are,
Like this,
In the middle of dawn.
But other times
You find a person,
Another little one.
And they see you naked,
They see your naked eyes.
And that takes time,
'Cause they must suffer in your hands
Before they can claim
They saw your naked eyes.
And so it happens,
And they see it:
Your hatred
Your crying
Your frightening
And so they smile at you.
They really smile at you.
And that is,
Indeed,
An unusual milacre.

domingo, 7 de junho de 2015

Louca por ele.
Por sua pele com gosto de chamego, sua boca com textura de fruta madura. Seus dedos sacanas, sua alma em chamas, sua loucura.
Louca por seus rompantes inesperados de risos, paixão ou ciúmes. Por seus carinhos discretos, descontraídos, despretensiosos. Louca por seu olhar feroz, por seu suor, por sua voz. Por seu falar bonito, tranquilo, de menino. Por sua doçura, seu sorriso bobo, sua candura. Louca por seus humores, suas histórias, suas dores. Os assuntos dos quais ele só fala baixinho, os outros dos quais ele fala sorrindo, e aqueles dos quais fala corando.
Louca por sua timidez, sua sabedoria, sua sensatez. Seu jeito maduro, mas brincalhão. Suas provocações, suas declarações. Seu olhar de amor, de saudade, de calor, de vontade, de concentração e de emoção; De ansiedade e de admiração.
Louca por ele, por tudo que já vi dele, por tudo que vou ver ainda.
Louca pra descobrir.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Um conto já contado, dessa vez ao contrário. (O sonho virou real)

Acordou atordoada no silêncio azul de seu quarto. Aquele silêncio que de tão ensurdecedor faz um zunido nos ouvidos.
Saiu das cobertas, atordoada, procurando as sandálias e deu uma volta na casa. O que estava faltando?
Estava tudo limpo, como a diarista deixara.
Sua bagunça pessoal devidamente arrumada em sua mesa de escritório. Uma ainda jovem bem sucedida advogada. Tudo o que sonhara.
E o que faltava?
Jogou a camisola na cama, pôs uns shorts e camisa. Olhou a cara pálida no espelho. Cara de falta. Sua pele estava bem hidratada, mais jovem que seus 25 aparentavam. Seus cabelos mais sedosos que sua genética propiciara. Tinha cheiro de grana, correria e isolamento. O que faltava?
Pensara em ligar para alguém, olhou sua lista telefônica. A verdade é que estava cheia. Desde o último contrato grande, as simpatias se acumularam. Em uma noite fria de solidão tinha até companhias esperando, se assim desejasse. Tinha uma família a alguns quilômetros. Tinha um caminho cheio de possibilidades.
Mas o que faltava?
Calçou os chinelos e foi para a rua. Teve a impressão de a porta abrir para que passasse. Mas não acreditava em espíritos e menos ainda em gentilezas. O que não lembrava?
Andava apressada, já um pouco incomodada. Ora ou outra uma vitrine lhe trazia um pôster antigo. Do gramofone do velho solitário da loja de LP's soava um blues nos anos 30. O que lhe rasgava?
Pegou no peito, na sensação de queimação. Nos seus dedos a ausência de uma mão. Um sufocamento de falta de ar, de falta de chão. E então, ao se apoiar na vitrine de uma loja qualquer de antiguidades, um porta retrato a fitava.
Seu sorriso era antigo, era gentil, era tenro. Seu sorriso vinha do olhar, da curva leve dos lábios, do passado e do seu presente.
Onde ele estava?
Ela foi ao chão, sufocada pela falta.
E ao bater no asfalto, abriu os olhos no sofá de uma sala.

1 segundo.
Outro.

E o alívio.

Abraçou o braço que a abraçava. O cheiro de casa inundou-lhe as narinas. No conforto do aperto do sofá onde adormeceram, ela apoiou-se em seu ombro direito, vendo os sinais em sua pele cor de leite. Seu cabelo enrolar-se como o de um anjo. O sorriso adormecido, com a mesma sensação de luz.
Ele.
Respirou aliviada.
Nunca deixaria que ele fosse a lembrança do que lhe faltava.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Anjo

Eu olho seu rosto:
A firmeza de seu olhar.
A serenidade de seu espírito.
A bondade de suas tentativas, de sua fé em mim...
Eu adoro a sua vida.
Eu tenho tanto orgulho dela.
Essa fortaleza imensurável,
Presente do universo,
Apenas emprestado a mim.
E não é mais do que eu poderia sonhar?
Ela pode partir da minha,
me repartir em duas...
Amanhã ou em vinte anos.
Eu sei, eu sei.
Mas hoje ela está aqui.
Ela tranquiliza os meus dias,
como ele amortiza meus sentidos.
Senta e conversa com meus demônios,
Explica porque devem se acalmar.
E me sorri, depois de tudo isso.
De longe,
do retrato,
o vejo agora.
O verei sempre:
Ele sorri para mim.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

About making love.


Abraço teu rosto com força, o meu enterrado em teus cabelos, até o momento em que finalmente rolo de cima de você, me jogando na cama ao seu lado, mas ainda com os braços ao teu redor.
Olho para seu rosto, tão arfante como o meu e saboreio com muita atenção o sutil momento de transição entre o nosso olhar intenso ainda preso naquela conexão - ambos pasmos com o que acabara de acontecer, em direção ao sorriso largo que brota de nossos lábios, ao mesmo tempo, um sorriso cansado e aberto, de ponta a ponta. O nome desse sorriso é cumplicidade.
Então eu, que ainda me sinto amarrada em ti, mesmo que já tenha desentrelaçado minhas pernas de tuas costas, me chego de novo em tu, beijando tuas bochechas, olhos e nariz. Sentindo aquela sensação de plenitude e paz, a sensação de estar em casa.
E quando te olho de novo, teu sorriso é ainda mais largo e na imagem que vejo tenho minha obra de arte preferida: Tua felicidade.
Teus olhos apertados no sorriso, mas tão brilhantes que ficam até mais claros; Teu cabelo desgrenhado - loiro e lindo, com os cachos cada vez mais cachos, pois está grande, e te faz parecer um anjo ainda mais que o normal; E o teu sorriso...Ah, aquele sorriso. O sorriso que se forma com teus lábios carnudos e convidativos e transmite ao mesmo tempo toda a ingenuidade preferida.
Esse momento, esse silêncio e tudo que eu sinto nele, por si só já é um ato de amor.

Acho que fazemos amor mais do que imaginamos.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Incontinenti

Tracei um círculo com grãos no chão.
Desenhei uma linha, levando seus pontilhados ao outro extremo do salão.
Sentada e cuidadosamente, como uma criança que colore; Tentando criar planícies que só eu podia ver. Fazendo os cálculos que só davam certo na matemática da minha mente.
Levantei-me e derramei mais areia, ao meu redor e em todo lugar. Jorrei para os cantos, desfazendo minhas simétricas criações. Redesenhei mil vezes cada escultura, escupida com paciência. E para a satisfação de cada uma que fiz, com uma porção infinitamente maior de prazer, sem remorso algum a destruí.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Houve um tempo


Houve um tempo em que textos mais simples, com imagens mais imagináveis traduziam bem sentimentos novinhos. Recém nascidos, os primeiros de seu nome.
Houve esse tempo em que as necessidades eram jovens, eram bem mais mente que matéria. Bem mais sonho que atrito no chão. Bem mais residentes da minha imaginação.
Estive lendo e lembrando, lendo e lembrando...
Lembro disso e pela primeira vez em muito tempo, não me ocorre uma nostalgia ferina, ferida, mordida e machucada pelo meu eu antigo.
Não me corrói uma amargura que não me pertence, que não é de minha idade. Ou uma repetição de imagens, de figuras ilustrativas, com aquela sensação cansada...
Me corre o tempo apenas, como vem correndo e não para, embora eu continue pedindo com jeitinho que o faça.
Já não escrevo como antigamente - É, isso eu sei. O inferno dentro de mim já não é tão puxado para a poesia.
Mas nada encontra-se morto, não, não é bem ao caso.
Ao contrário, depois do envelhecimento de tudo que é novo, vejo que talvez sempre vá haver um próximo novo. Sempre uma florzinha de espécie desconhecida brotando inesperada na floresta desmatada.
Mas o que é isso? Não é um bom texto como os antigamente,
É só um devaneio de nada...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Gole

Venha cá, deixe que eu te conte.
Vai se assustar? Correr para seus lençóis?
Tudo é um quebra cabeça a ser montado.
Fantásticas possibilidades de se dispôr os dados.
Tudo é um objetivo maior, quadro amplo, meta geral.
Tudo é uma mera intempérie milidecimal.

Pessoas são pedacinhos de fatos, diluídos em genes e modelados por circunstâncias.
Pegue uma em sua mão.
Veja como são engraçadinhas.
Como formam padrões enquanto andam,
Como os seus passos traçam linhas.
Linhas que podem ser enroladas em dedos,
Amarradas e retorcidas,
Mastigadas e engolidas.

Deixo que seu contorno forme-se em minha frente,
Como quem vê o café diluir-se em água.
Tenho em uma mão teu pó e em outro tenho o tempo.
Todo o tempo do mundo para te ouvir falar.

Olhe para mim,
Ache-me bonita.
Como são expressivas minhas expressões,
Como são assertivas as minhas mãos.
Como são coloridas as estrelas que brilham.

Quero que tome toda essa droga
Que aprecie
Que a adore
Que se sufoque.

quinta-feira, 16 de abril de 2015



He has taken me by the hand, by the heart.
Took the whole of me, little pieces of me.
Have melted me in his eyes, melted me with his kind heart.
He reconstructed me. Made me new.
He has lead me into him, by every road he had created.
He took my roads too. He took my destination point.
He took me interely, took me by surprise
Took me in all my ways, even the unspoken.
That have been said, and how could it be different?
I am his.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Chamego


Quero o conforto do teu peito apoiando minha cabeça.
Teus dedos pelo meu rosto, fazendo carinho em minhas bochechas.

Quero afundar meu nariz em teu pescoço,
me esconder em baixo do teu queixo,
e de quebra, te roubar um beijo.
Com esse gostinho de café amargo.
Com esse sentimento enchendo meu peito.

Quero me aninhar no teu abraço.
Me esconder no cheiro da tua blusa.
E murmurar sobre amor enquanto o faço.
Dizer baixinho que eu sou só tua.
Que minha ponta solta agora é um laço,
Amarrando nossas vidas no cruzamento de nossas ruas.

Quero teus pézinhos fazendo carinho nos meus,
enquanto nessa conchinha encosto minhas costas na tua barriga.
E teus braços envolvem cada partezinha minha.
Me fazendo sentir que nunca vou estar sozinha.

Quero tua boca descansando na minha nuca.
E sentir tua respiração levinha,
causando arrepios gostosos com cara de felicidade.
Fazendo cair por terra toda e qualquer ceticidade.
Me mostrando que só contigo encontro a liberdade.

Quero minutos, horas, dias e anos assim.
Quero teu chamego por um momento que não tem fim.
Passar todo segundo que respirar, respirando a delícia do ar à tua volta.
Sorrindo pra ti com minha boca meio torta.
Vendo esse teu olhar lindo que só brilha pra mim.

Quero teu chamego e quero ele sem fim.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

talvez milésimo texto sobre ele

Tô com saudade dele.
São 03:29 da manhã e ele está na casa dele, provavelmente deitado daquele jeito de barriga pra baixo e cabelo assanhado. Talvez com a cara um pouco inchada de chorar vendo Pequena Miss Sunshine e dessa gripe que o pegou de jeito. E eu tô aqui, com saudade dele.
Não brigamos e nem nos amamos pessoalmente hoje. Não é uma data especial para nosso namoro, nem ficamos o dia sem nos falar. Mas é o meio da madrugada, e tudo que olho ociosa me lembra dele. Tudo me dá vontade dele.
O bom dessa saudade é que é uma saudade gostosa. É uma saudade com pitada de felicidade porque tem sido tudo tão incrível. Então eu alimento essa ausência temporária com lembranças longínquas, mas principalmente com as mais recentes - cujo gosto ainda tenho na ponta da língua.
Alimento com o sorriso de menino dele que eu vi tantas vezes ontem. Com a gargalhada fácil que eu escuto no telefone. Com o abraço quente enquanto andamos e caminhamos tão juntinhos como se fôssemos um só.
Com esse mesmo abraço enquanto assistimos um filme no cinema, e mesmo super concentrado no filme ele me abraça com os dois braços e encosta a cabeça na minha.
Alimento com como ele me faz sorrir de graça, do vento, do nada. De como nossas piadas se completam em bobice e diversão. Em como ele se empolga (e eu também) discutindo quando discordamos, mas não esquecemos de interromper a discussão de minutos em minutos para rirmos de nós mesmos.
Alimento com o seu olhar de menino vendo brinquedos, que me deixa com um sorriso besta e vontade de ficar só ali, o observando por horas. O achando cada vez mais perfeito. E ao mesmo tempo, alimento com sua mão ousada em um banco traseiro de táxi ou com seu longo beijo delicioso - porque a boca dele tem o gosto mais incrível que já senti.
Alimento com nossos planos - já tão lindos. Seja para nossa primeira viagem, seja sobre como vamos lidar com o fato de Clint Eastwood ter morrido quando nossos filhos nascerem. E como é natural falar disso com ele e sonhar junto, sem deixar nem por um momento de sentir felicidade só em pensar nisso.
Alimento com o jeito como ele indefectivelmente se envergonha com elogios. E como ele diz que "isso é muito difícil" e eu não entendo bem por que, porque é tão fácil ver toda essa beleza nele que eu só queria contar um pouco para ele, assim, baixinho, para que quem sabe ele veja também.
Alimento ainda e talvez principalmente com seu olhar. O seu olhar emocionado quando eu digo para ele o quanto ele me mudou, o que ele fez por mim desde que chegou, como ele me salvou. Esse olhar, fixo nos meus olhos, corajoso como ele, e sensível como seu coração alimenta não só essa saudade, mas todos os minutos do meu dia. Me dá algo pelo que lutar, pelo que viver.
E é por isso que esse já é bem o décimo texto que escrevo sobre os pequenos detalhes dele, é por isso que esse texto flui tão fácil, é por isso que são 03:41 agora e eu não tenho ele comigo, e sim, sinto saudade, mas o sinto dentro de mim.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Detalhes



Enquanto gasto meu tempo, esperando a hora de finalmente vê-lo, passam pela minha mente momentinhos e detalhes, preciosos recantos de felicidade, acumulados nesses quase 5 meses.
São detalhes preciosos, como grãos de ouro em meio ao deserto do mundo. Pois eles iluminam-se em meio ao marasmo. Eles são tesouros que eu quero guardar. E são muito mais que ouro,
São pequenos templos de amor.
Seu sorriso envergonhado, quando olha para baixo ou para o lado. E se sente constrangido em ser elogiado, com seu "Ah meu Deus", que posso ouvir em minha mente agora mesmo. Como pode ele não ver o quão incrível é?
Sua risada ao telefone, que inevitavelmente me faz sorrir também. É o som mais tranquilo do mundo, é o que eu queria ouvir todos os dias.
O jeito como ele me abraça, e esconde meu rosto em seu peito. E podendo aspirar aquele aroma perfeito, eu me sinto segura de qualquer coisa no mundo.
Suas mãos e braços gentis, quando segura minha mão ou me envolve em um abraço ao andar. Sempre me protegendo dos carros ou de qualquer perigo.
A felicidade que sai de seus olhos, quando às vezes nos olhamos em silêncio, fazendo juras silenciosas de amor. E o modo como seus olhos às vezes ficam marejados, é simplesmente a visão mais linda do mundo. E só de lembrar dela, os meus ficam também. Porque aquele olhar é sem dúvida a visão mais bonita que existe.
E quando ele me ergue do chão e me abraça, e eu sinto vindo dele todo o amor do mundo. E como aquele abraço me ergue do chão, minha vida se ergue da normalidade e se torna essa experiência extraordinária, que só estou tendo por causa dele.

E seus trejeitos: seu jeito de arrumar o cabelo em frente ao espelho, o modo como sorri quando está comendo, o modo como abraça minha barriga quando está cochilando, o jeito que me cumprimenta de longe quando nos encontramos, seu olhar atento e sério quando está assistindo um filme, seu tom doce e inocente quando pensa em voz alta sobre assuntos aleatórios, o modo como se empolga falando sobre as coisas que gosta, como se anima planejando memórias futuras comigo, seu "Ah, sai daqui" e como bagunça todo meu cabelo e minha cara e de quebra ainda me faz morrer de rir por isso, seu humor leve e também mordaz que eu adoro, e sua gentileza tão maravilhosa. Como não amar cada pedacinho dele? Como não guardar cada um desses detalhes lindos, com todo o amor do mundo?

domingo, 8 de fevereiro de 2015

So unimpressed but so in awe

Pequenos cantos da decepção familiares,
Meus inferninhos particulares.
Hoje é um daqueles dias de cão,
Em que o céu pesa como algodão molhado sob nossas costas.
Eu escolho meus fantasmas, cuidadosamente.
Com os dedos os aponto, lambuzando suas pontas,
Com o doce de suas derrotas.
Eu degusto desse gosto, lambendo a ponta dos dedos, com delicado desgosto;
Revisitando o amargo por vezes.
Me torturando um pouco mais.
Me faz tão bem fazer tão mal:
"So unimpressed but so in awe",
Eu não mudei nem um pouco afinal.

Tenho meus personagens,
Minhas lágrimas na manga,
Minhas frases manjadas,
Meu refúgio nessa cama.
Me afogo em um travesseiro,
Aspirando profundamente o desespero,
Ou num corpo derradeiro,
Que me traz escape passageiro.

Fazendo rimas ruins,
Sempre as mesmas imagens.
Compondo uma sinfonia desafinada,
Nas retinas de vossas miragens.

(Intimamente,
anseio tudo que não presta.
Me regozijo com as imagens,
De dentes afiados em minhas pernas.
Vejo anjos em seres selvagens,
Pinturas clássicas em velhas telas.
Iludo um pouco a todos,
Iludindo a mim mesma.
Apenas na busca manjada,
Daquela velha certeza...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ponto de equilíbrio

Ele.
Fecho os olhos.
Deixo espalhar-se por mim como uma dose injetada na veia.
Bombeando-se pela veia cava inferior, ramifica-se e mistura os sangues de todas as cores, preenchendo a aorta dos meus pensamentos.
Chegando a cada extremidade, líquido denso e imobilizante - Ele impermeabiliza minha pele, preenche minhas articulações, me faz indefectível por um momento.
O sinto em todos os poros do meu corpo, como minha própria transpiração - gotículas microscópicas dele exalam de mim apenas para serem absorvidas novamente. Estou numa bolha. A bolha dele.
Aqui é o útero da minha alma, onde me agarro às paredes de suas curvas, de suas vértices - onde agarro suas costas, suas mãos e seus cabelos. O trazendo para junto de mim, entro em casa. Trago junto o pedaço de mim extirpado pelo universo, em outro espaço-tempo, trago junto minha paz. Minha metade.
E quando ele não está presente, está em todos os lugares.
A textura de seu olhar acompanha meus passos como uma corrente amarrada em minha sanidade. Faz barulho enquanto ando, arrastando-se pelo meu caminho. Acompanhando cada um de meus pensamentos, como uma sombra inamovível.
Enlouqueço um pouco, por vezes, e quando o faço sangue transparente brota de minhas retinas.
Porque elas estão cobertas por uma lente que agora só identifica sentido se ele está presente.
E a possibilidade de perdê-lo enfia uma mão de longas unhas negras em meu estômago, emaranhando-se por minhas tripas.
Não retira-me o coração,
desfaz-me da realidade.
Ele é meu ponto de equilíbrio nesse mundo no qual eu não conhecia a paz.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Leve-me à igreja*


A minha vontade...

-À vontade.

Responda para mim.
Não me negue nada.
Não desvie o olhar,
Ou segure minhas mãos.
Não me peça para desacelerar,
Se eu estiver indo muito rápido*
Este é meu país
Esta é minha refeição.

Estes fios de cabelo,
São onde emaranho meus dedos,
Os teus ossos sobressalentes,
Onde apoio minhas pernas,
Suas costas pálidas,
De veias sempre saltadas,
De pintas marrons esparsas
São onde enterro meus dentes.

Não me peça para parar,
Mesmo quando machucar.
Não, não me peça para parar de sugar o seu sangue.
Esta é minha casa,
O único lugar onde durmo,
O único lugar que descanso,
Que aceito como túmulo.

Teu pescoço de sangue latejante,
É onde sugo com todo meu ímpeto,
Tua boca carnuda e doce,
Teu sorriso de menino.
Tuas mãos de dedos longos,
ágeis e habilidosos.
Cada curva do teu corpo,
Cada um dos teus poros.

Aqui é meu templo,
É onde finco minha existência.
É onde derramo minhas mágoas,
Minha fúria e inocência.
É onde deposito meu carinho,
Onde monto o meu ninho,
A cada tarde e noite intensa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Anotações sobre o rapaz

Ele sorri,
de modo quase paternalista.
Compreende o que eu nem disse com assustadora empatia,
e de repente faz-me sentir apenas uma menina

Ele é gentil com as palavras,
mesmo no momento de mágoa.
A arma mais cruel que ele já usou foi o próprio amor,
e sua sinceridade em dois tempos me desarma.

Ele tem um senso de justiça firme e inabalável,
e por isso sangra tanto quando essa parte dele é ferida.
Ele tem seus pontos soltos, suas pontas machucadas,
Mas nunca os usa como artifícios para vencer uma briga.

Ele torna os conceitos de vitória e derrota desnecessários.
Porque ele abre seu coração como um país,
Expõe todas cartas, os planos e os dados
E me faz sentir abrigada como eu sempre quis.

Ele é uma pessoa extraordinária vivendo como um sujeito comum.
Seu coração é recheado de toda a gentileza do mundo,
Mas sem perder a firmeza jamais: Ele é o tipo de rapaz
Que olha nos olhos, diz o que pensa e não se esconde jamais.

E por isso o ar ao redor dele é leve como uma brisa,
e os sorrisos correm soltos ao vê-lo, como se fosse o movimento natural dos lábios.
Não admira ele esteja sempre rodeado de pessoas.
Não admira seja bela a trilha que vêm deixando os seus passos.

Ele é doce e é calmo,
Mas ao mesmo tempo é forte e intenso.
E por isso passa um vento e tudo que quero é tê-lo inteiro.
Sua alma, sua mente e sua presença física nesse mundo,
fazem uma fórmula irresistível, que tornou-se o meu Tudo.

Ele me faz querer ser melhor, podar minhas ervas daninhas.
Praticar a cada dia a arte de domar minha natureza ferina,
Cuidar não por medo, mas por gratidão à sorte
De fazer esta linha prateada ter cruzado-se com a minha.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

2015

Abriu os olhos.
A claridade incomodava um pouco as pálpebras sonolentas, mas o aroma de sonho a convidava.
Encostada no parapeito de sua janela, a beira da praia vazia de feriado, e a manhã novinha com folhas voando à esmo traziam a perfeita imagem do novo ano.
O mundo a encarava com um sorriso afetuoso e as ondas que banhavam a beira da praia pareciam lhe dizer pequenos cumprimentos.

Era o mesmo lugar, nada mudara.
As paredes e chão, nos quais correra durante a infância.

Era o mesmo sol e ele nunca se atrasava.
Iluminava aquela manhã com os mesmos raios que ela sempre criticara.

Mas ela...

Seria a mesma?

Enquanto inspirava aquele ar nunca antes sentido, pensava que gostaria de escrever um texto. Mas com um pouco de embaraço, pensava também que só tinha um tema.
E embora essa âncora literária lhe mantivesse quase repetitiva,
Nunca tinha sido tão saboroso escrever.
Nunca fora tão realista.

Nesse momento passos se aproximaram da varanda. E ela sentiu dois braços a envolverem por trás.
O rosto com o aroma que ela amava afundou-se na curva de seu pescoço, dando-lhe um bom dia em beijo com gosto de café.

Quando ele a abraçou aconchegante, e passou a encarar aquele horizonte com ela,
ela percebeu que jamais seria a mesma novamente, porque agora não era mais incompleta.
Que com ele, com aquela pessoa extraordinária que por um presente do destino, escolhera ela para abraçar, mil portas se abriram para sabores de felicidade nunca antes imaginados.

Eram uma dupla, um par.

Naquela casa de sua memória, em sua música preferida - Em todos os tesouros nos quais ela deixou ele entrar. Tesouros de infância até então guardados em um baú, com teias de aranha, esquecidos. Ela abrira suas portas, recebera-o em seus braços e agora juntos naquele cenário, encaravam tudo os que os esperava:

O mundo inteiro.

(Mas por enquanto,
O ano novo.)