terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Indigestive

I am greedy.

Como minha refeição em porções fartas, largas, sem nunca guardar para depois.
Devoro vorazmente pois voraz também é o aperto no meu peito urgindo para ser preenchido. Cicatriz de nascença, marca arranhada no espelho da alma - não sujeita a consertos permanentes.
Como então de maneira voraz, quase inconsequente. Sem me preocupar com o inverno, formiga irresponsável sempre fui. Sem me preocupar com o mal estar que todo esse excesso pode causar depois.

Sou ambiciosa, é verdade, sou gananciosa.
Quero o sumo do sumo da poupa da fruta. A casca não é suficiente. Tampouco a pele ou a carne.
Quero adentrá-la. Rasgá-la delicadamente com os dentes. Com minha língua tocar o gosto de sua alma.
Entender sua essência, sua história e suas vicissitudes. Entender sua dor, seu prazer, seu amor e cada uma de suas necessidades aborrecidas as quais com tamanho prazer satisfaço a todas.

Quero estudá-la e em seguida devorá-la pois é o único jeito completo de compreender esta fruta - E seus decorrentes frutos - reprodutos de sua existência.

E o faço sem temor, o faço sem pudor. O faço verozmente. Gananciosamente.

Só não calculo,
a indigestão que vem depois.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Sobre felinos e lares

- Me promete uma coisa? Não me deixa fugir.

Ela olhou para baixo e em seguida para cima, para ele.
Segurou a ponta da sua camisa sem muita força, mas ele viu que seus dedos tremiam e olhando para ela, encharcada pela chuva e parecendo tão perdida, pensou em um gato selvagem em uma tempestade, procurando desesperadamente abrigo.

Ele a puxou para si e abraçou com força, dizendo promessas em seu ouvido que a fizeram chorar mais e por um momento ele se questionou se era de felicidade ou tristeza.

Mais tarde, enrolados parcialmente em lençóis na madrugada, ela contou com detalhes as histórias que tinham a trazido até ali. As histórias que ele sempre tivera tido medo de ouvir, por medo de conhecer e enciumar-se com seu passado. Mas ao passo que ela falava, ele percebia como tinha sido bobo. Essas histórias faziam parte dela, como tatuagens que embora lhe trouxessem angústia, também fizeram ela ser exatamente quem era hoje - do jeito que ele amava.
Histórias que a moldaram, que a construíram. Que lhe ensinaram muito, mas também machucaram enquanto ensinavam. Que a fizeram ser essa criatura inconstante, incapaz de permanecer no mesmo lar por muito tempo, eternamente presa em sua liberdade.

"A mão queimada ensina melhor", ele citou um dos filmes preferidos deles com uma seriedade jocosa que quebrou a tensão e ela caiu no riso, em seguida caindo nas mãos dele que faziam-lhe cócegas e por um momento, toda aquela densidade anuviou-se e ela era só um sorriso coberto de felicidade, do jeito que ele mais gostava de vê-la, e do jeito que ela só se sentia com ele.

Quando o dia amanheceu, ele apalpou a cama ao seu lado e sentiu uma pontada de desespero ao ver que estava vazia.

Tinha ficado com aquela pulga atrás da orelha sobre a frase que ela dissera no dia anterior, quando voltou depois de semanas sem dar notícias. Semanas em que ambos quase morreram de dor no coração.

"Não me deixa fugir."

Ele sentiu um aperto no peito e já colocava uma bermuda para sair na rua, quando ela entrou no quarto com um café da manhã em uma bandeja, a camisa dele da noite passada e um sorriso largo no rosto.

Ele tirou a bandeja das mãos dela, colocando-a na cômoda, e a puxou para si em um abraço apertado de puro alívio. Não a deixaria fugir, nunca mais.

Mal sabia ele que naquele momento o mesmo alívio descansava no coração dela, o abraçando com força. Nunca mais sentiria vontade de fugir, nunca mais.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Dream a little dream of me

Olhando em seus olhos, com meu rosto a poucos centímetros do seu, absorvo do ar ao seu redor todas as coisas da natureza. Saem de suas retinas, espelhos fundos e cafeinados, pequenas partículas de encantamento. Elas dançam ao meu redor, como vaga-lumes cor de chocolate, abrilhantadas por faíscas coloridas, de todos os jeitos que já se viu.
Do seu sorriso largo e juvenil uma música muda emana. Ela é da cor do outono, recoberta por camadas de gentil aconchego em um dia frio. O som de sua risada pega-me gentilmente pelas mãos e me dá voltas no ar, me dando pequenas doses de felicidade gratuita, líquida e translúcida. Ele cai em meus ouvidos como o farfalhar das folhas ao vento, como um abraço inesperado.
Embriagada por sua presença, levo minha mão, com muito receio, à menção de tocar sua alma.
Hesito algumas vezes porque ela ainda é jovem e revestida apenas de verdades. Ela tem a textura inexata das nuvens, diluindo-se em sonho, como espuma em um café quente.
Tenho medo de encostar de mal jeito ou mudá-la de lugar. Por isso apenas levo meus lábios a muito perto e assopro promessas de amor.
Enquanto isso tuas mãos envolvem minhas costas, me levando à única casa que já conheci e eu me deixo enfeitar, junto a ti, por inúmeras luzinhas natalinas de um feriado infinito.

Foxy skin

Um temporário relance de lucidez
Em meio ao atrapalhando furacão de sequência repetitiva.
O coração agora é um órgão sangrento e de gosto doce.
Salpica na língua como borboletas apenas levemente envenenadas
Em um jogo que parece tão real, que se esquece por vezes que é um jogo.
-Mas os bichos nunca mudam.
E isso é a verdade.
Então por baixo da pele macia e gentil,
Uma raposa velha e desdentada sorri macabra, exibindo as gengivas inflamadas.
Sorri sarcástica, observando bastante divertida este filme antigo de tantas vezes que já fora exibido.
Está acorrentada, por enquanto. Até mesmo escondida na penumbra dos panos. Mas calcula as horas em uma ampulheta exausta, para sair lá fora e respirar o ar de lágrima.
Então vai.
Entrega-te.
Entrega o corpo e a alma, com pulsão jamais antes vista.
Com teus lábios beija a humanidade cada vez mais íntima de outrem.
Entrega todos os teus impulsos, desejos, sonhos. Tua carne e terminações nervosas. Entrega tuas palavras - essas canalhas.
Entrega tudo e não se preocupa em tomar de volta, deixa lá até se tornarem carcaças e secarem ante   eclipse dessa luz.
Deixa tudo lá, pois haverão de renascer novamente outras em tu, como novas, puras como as primeiras. Prontas para recomeçar tudo novamente.
Porque essa é a natureza das raposas.

The summer day (or A christimas tale)

"Eu queria um café e uma ideia nova. Logo eu, que nunca mais me empolguei com nada."  - Pensava Clarice encarando o céu azul de nuvens salpicadas. Suas bochechas rosas sobre as quais caiam fios soltos do coque de cabelo claro. Do quarto andar de seu prédio, via um bando de pássaros voando de uma árvore para outra e os prédios descascados pareciam até receptivos naquele sábado com cor de dia de ir à piscina, muito embora estivesse um pouco frio. O céu, pensou  ela, estava sendo muito falso hoje.

Pegou seu casaquinho rosa porque não gostava do vento, mesmo quando acolhedor e a yorkshire pré adolescente de sua colega de quarto, para passeá-la - uma desculpa para passear a si mesma.

Mascando um chiclete que a fazia parecer um tanto mais jovem que seus 23 anos, lembrava de uma frase de um poema, que constantemente ecoava em sua cabeça:
    
"Diga-me. O que você planeja fazer com sua única preciosa e selvagem vida?"

Agachou-se em frente a uma pracinha primaveril para esperar a cachorrinha fazer xixi e apoiou mão no rosto, pensativa.

"O que fazer com minha encantadora vida?" Pensava ela, que sempre se julgara detentora de um presente ou talismã bem sagrado. Sagrado e frágil pois podia quebrar-se a qualquer dia.
E por isso mesmo tinha medo de não dar-lhe a finalidade devida enquanto dava tempo. Como um item de um jogo de tabuleiro que não se usa até que um belo dia o perde numa batalha.

Dorothy acabou seu xixi, levantando o focinho com dignidade e exigiu voltar a ser caminhada.

Clarice a acompanhou, lado a lado de modo que pareciam até parentes de raça distante.

-Não existe hierarquia entre nós. - Disse ela muito séria a Dorothy, que a encarou desafiadora e cética.

"Então porque estou presa em um coleira?" Clarice teve certeza de ver as palavras no olhar dela e suspirou, desistente.

-Desculpe, você tem razão. Eu sou a maior mentirosa, Dorothy."

Dorothy apenas continuou andando, recusando-se a continuar a conversa.

Foi nessa hora que Clarice reparou em alguém que parecia estar em um dia pior do que ela e sua companheira de passeios. Tinham acabado de chegar a um calçadão revestido de pedras brancas e pretas, por onde não passavam carros, mas no qual dias como aquele sábado preguiçoso acumulavam transeuntes desocupados, a fim de tomar uma cerveja em um dos simpáticos bares-que-não-pareciam-bares ou um café nas bonitas cafeterias a esta época enfeitadas de costumes natalinos.

Mas era sábado véspera de Natal e estavam todos viajando com suas famílias ou em lugares mais interessantes do que nessa cidadezinha de duas estrelas. Então fora um jovem casal tomando cerveja no bar da esquina e duas senhoras velhinhas tricotando no Le Cafè, foi em um jovem rapaz que Clarice reparou, com curiosidade.

No meio do calçadão havia uma fonte semi abandonada e um pouco suja cujo pedramento de suas baixas paredes era de algo parecido com mármore.

Clarice particularmente adorava aquele spot, porque parecia o tipo de lugar onde se jogava moedas para pedir desejos e ela insistia em sempre fazer isso - mesmo que nunca tivesse água jorrando, o que tirava um pouco o sentido da coisa.

Mas era um lugar legal de se sentar e observar, principalmente porque nunca tinha ninguém. Ficava semi- recoberto por algumas árvores, no calçadão e um pouco fora do ângulo de visão das lanchonetes, então não era um lugar popular. Não, definitivamente não era o tipo de lugar onde as pessoas sentavam-se para papear ou que a prefeitura se preocupasse de enfeitar no natal.

Mas naquele dia, Clarice viu através das árvores, a água estava milagrosamente jorrando da fonte ("É um milagre de natal!" - Ela disse a Dorothy, que a ignorou) e havia um rapaz sentado lá. E ele não parecia estar tendo um bom dia. Ele era alto e claro e usava uma camisa longa que Clarice percebeu imediatamente ser totalmente ineficiente, pois o tecido era visivelmente muito fino, uma malha que parecia bem macia, mas ineficaz de proteger contra o vento frio. - Ela observava, julgando-se bastante escondida, através da árvores que a separavam da fonte. - O que atestava seu mau humor era uma cara emburrada, e uma moeda em que ele mexia desesperançoso pelos dedos, até jogá-la na fonte, o que fez Clarice sentir-se muito sábia por não ser a única que via que aquele lugar era claramente uma fonte dos desejos - Quando falava isso desse lugar, seus amigos sempre tiravam sarro dela.

Mas quando ele abaixou-se para procurar a moeda de volta, Clarice percebeu que talvez ela só tivesse caído.

Ele pegou o celular e começou a discar, em seguida o levando à orelha. E Clarice estava prestes a desistir de sua observação, quando um poodle branco e especialmente feliz apareceu correndo do outro lado da fonte e foi até o rapaz, pulando alegremente em seu colo.

"Veja, Dorothy! Um amiguinho!" Clarice cutucou Dorothy, que não respondeu.

O poodle tinha o colar de uma coleira ao redor do pescoço, mas não a corrente que a ligasse às mãos do aparente dono e Dorothy pareceu perceber isso - pensou Clarice, com bastante certeza e uma pitada de vergonha.

"Mas se eu te soltasse você fugiria de mim" - Explicou baixinho para Dorothy, cujo olhar absolutamente não negou a afirmação.

“Vamos, fofinha. Você tem um amiguinho para conversar ali.”
Sorriu ela para a cachorrinha, puxando de leve a coleira, agora que tinha um pretexto pet para puxar conversa com o estranho mal humorado. Mas Dorothy simplesmente estancou no lugar, recusando-se a andar.

"Mas que momento horrível para vinganças, Dorothy." Disse ela entredentes, tendo que apelar para recursos extremos e colocando nos braços a yorkshire, que debateu-se levemente, em desespero.

Clarice finalmente passou pelas árvores, andando em direção ao lado oposto da fonte, como se não visse o rapaz e seu poodle.

-Oh, vamos querida, você pediu tanto para passear, aqui estamos. - Dizia em voz alta e casual para sua refém, que a olhava de modo assassino.

O rapaz as viu passar de relance, mas com a expressão tensa parecia tão aborrecido em sua ligação que não chegou a olhar demoradamente.

Quando sentaram do outro lado da fonte, o clima melhorou entre elas, porque Dorothy mostrou-se genuinamente interessada em uns soldadinhos que voavam na grama próxima e Clarice resolveu soltá-la, observando de perto a aventura da mesma.

Mas logo sua atenção foi voltada para a voz do outro lado da fonte, que taciturnamente falava ao telefone:

"Ah não sei cara... Acho que é melhor não, não quero estragar a felicidade de vocês aí (...) Haha muito engraçado. (...) Não, tá tudo tranquilo, sabe. Nada novo. É só que não curto muito essa época... É, tem isso também (...) Todo mundo viajou e sei lá, não é legal dizer isso, mas não curto muito ficar só. (...) Não, cara, já disse que não precisa. Não é isso, é diferente. É que... Eu sinto que devia estar fazendo algo mais extraordinário da minha vida, tá ligado? (...) haha Eu sei, papo profundo demais pra telefonema de natal, haha..."

Nessa hora Clarice já não podia estar mais envergonhada de ter se metido naquele lugar e de estar ouvindo aquela conversa tão pessoal. Sentia-se invadindo profundamente a intimidade do rapaz da voz grave e bonita, apesar de taciturna.

Levantou-se então e decidida a ir embora, pegou Dorothy de sua perseguição de soldadinhos, que somente a olhou rancorosa:
"Agora que eu quero ficar, você muda de ideia."

"Sinto muito" Clarice sibilou para ela, andando em passos leves na intenção de ser tão pouco percebida quanto fora enquanto chegava.

Estava prestes a passar pela entrada de árvores quando a voz, que silenciara há pouco, soou um pouco mais alta:

-Desculpa te fazer ouvir isso.

Ela parou estática por 5 segundos, torcendo para não ser com ela, que já se arrependera da ideia toda.

-Não é o tipo de coisa que se espera ouvir no natal, quando se vem a uma fonte dos desejos, não é?

Tendo certeza que era com ela, Clarice voltou-se para o rapaz, que a olhava apologeticamente. Ela estava com um sorriso que só não era mais envergonhado do que seu rosto, agora com fortes tons de rosa.

-Não, que isso. A culpa foi minha, que entrei aqui mesmo você estando no telefone. - Ela disse, olhando para os lados, com vergonha de encará-lo.

-Que nada. - Ele deu de ombros, com um sorriso cansado. - É um lugar público, não é? - Disse, jogando outra moeda na fonte, mas dessa vez mais longe.

-É... - Ela concordou com um sorriso tímido e já ia saindo, quando voltou-se novamente para ele, subitamente: - Espera, você falou que esse lugar era uma "fonte dos desejos"? 
Perguntou como quem faz uma pergunta seríssima, estreitando os olhos, muito atenta.

-Er... sim... - Ele pareceu desconcertado com a brusca mudança no semblante dela e começou a parecer envergonhado com o que dissera - Quer dizer.... Bom, eu sempre jogo moedas, er... Você nunca viu naqueles filmes que o pessoal, er...joga moedas em fontes assim e..er...

Ela soltou uma risada alta e alegre ao ver a reação dele, o que mais uma vez o surpreendeu um pouco:

-O que foi? Eu disse algo estranho?

-Não, não. É que foi muito legal você assim constrangido. - Ela disse muito naturalmente para em seguida ficar em choque "MEU DEUS. O QUE EU DISSE?"
Perguntou-se, catatônica. Olhou para o lado e Dorothy parecia finalmente se divertir um pouco, balançando o rabinho peludo.
"Está rindo de mim, maldita. Tenho certeza." Pensou, ameaçadoramente e quando teve coragem de olhar de volta para o rapaz viu que sua expressão era tranquila, embora estivesse com o rosto um pouco corado.

"Que ótimo, o constrangi..."

-À propósito - Ele levantou-se e aproximou-se dois passos, estendendo a mão. - Meu nome é Diego. - Ele deu um largo sorriso - o primeiro que parecia natural, e Clarice não pôde evitar pensar que era o sorriso mais incrível que já tinha visto.

-Ah, prazer, Diego. Eu sou a Clarice - Ela falou sorridente, apertando a mão dele e fez menção para seu lado - E essa é a Dorothy, a temperamental york da minha colega de quarto. Mas ela gosta mesmo é de passear comigo, não é Dorothy?

Dorothy grunhiu baixinho.

-Ah esse é o Darth. Ele gosta de passear com todo mundo- Ele disse chamando o poodle branco, que prontamente veio correndo e começou a cheirar o perímetro ao redor de Dorothy, que o encarava desconfiada.

Os dois riram e Clarice sentiu liberdade de sentar-se ao seu lado.

-Desculpa ter ouvido sua conversa, de todo jeito. - Ela disse e o semblante dele que já tinha ficado consideravelmente mais leve de repente franziu-se um pouco novamente - E desculpa lembrar o assunto de novo. - Finalizou ela num fio de voz.

Ele sorriu, voltando a parecer bem:

-Não, que isso. Não tem o que se preocupar. Só acho o natal uma época um pouco... Ah, você não quer ouvir isso.

-Ah eu quero, lógico que quero - Ela disse, talvez animadamente demais, e ficou aliviada de ter parado antes de verbalizar o pensamento de que provavelmente acharia qualquer coisa que ele dissesse interessante.

E ele riu da animação dela, dando um suspiro pensativo e olhando para o céu azul claro:

-É como eu disse pro meu brother, sabe? Natal é essa tal época de final e recomeço e eu meio que não sinto que estou aproveitando minha vida como devia. Sinto falta de alguma coisa, algo extraordinário, que vai fazer a vida “começar”, mas algo que não sei o que é ainda. E pra completar todo mundo viaja e... Bom o resto você ouviu. - Ele disse, olhando constrangido de lado. Ainda sem acreditar que estava falando coisas tão pessoais para alguém que acabara de conhecer.

Clarice não respondeu, ligeiramente encantada, então ele complementou, num fio de voz:

-Você entende?

Ela, que um pouco consternada encarava a fonte, vendo poucas moedas que - percebia agora - deviam provavelmente pertencer apenas a eles dois, respondeu:

-Você nem imagina o quanto. - Disse seriamente e a frase de mais cedo veio à sua cabeça.

Nesse momento um vento ligeiramente mais frio passou como uma rajada e bastaram poucos minutos para que pequenos pingos começassem a cair até repentinamente transformarem-se em uma torrencial queda d'água.

-Ah, como pode? - Perguntou ela a ele, com quem já se sentia completamente à vontade a esse ponto - Vi na previsão que hoje o dia ia ser totalmente ensolarado. - Disse um pouco decepcionada.

Ele, que especialmente estava gostando de chuva naquele dia, deu de novo o sorriso incrível e colocou Darth - que agora tremia de frio ao seu pé, por dentro de sua blusa, o protegendo.

Seu semblante estava bem melhor e parecia claro que sua vontade era de ficar, mas não sabendo bem que padrão seguir naquela situação tão inusitada, apenas sorriu:

-Prazer te conhecer, Clarice. - Disse ele, começando a andar com o protegido Darth para fora da área da fonte, quando Clarice, que começava também a proteger Dorothy em seu casaquinho, o olhou sem ação por 2seg até vê-lo começar a andar, quando deu uma corridinha e segurou sua blusa:

-Ei, você quer fazer alguma coisa?

Os dois olharam para cima, para o céu completamente devastado pela água, sob o qual seria impossível qualquer atividade normal, tornando o convite visivelmente absurdo.

-Claro que sim. - Ele respondeu com um largo sorriso e os dois saíram juntos da Fonte, correndo com seus filhotinhos sendo protegidos.

Correram tão depressa que não perceberam as inscrições ao pé da fonte:

"Tell me, what is it your plan to do with your one wild and precious life?"

É, talvez não tivesse sido só o clima que fugiu da previsão nesse Natal.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

She's the giggle at the funeral. (Take me to the church)

Minha amante tem humor. Ela é a risada em um funeral.
Ela traga cigarro como quem masca chiclete, de um jeito meio bizarro, mastigando a ponta.
Ela solta baforadas sem nenhuma precisão, mas é impossível reparar porque enquanto faz isso, ela fricciona as pernas.
Ela anda pelas ruas, parecendo um erro no cenário. Uma falha na matrix.
Parece um ponto cinza no colorido, ou seria o contrário? Não, acho que não.
Minha amante gosta da desaprovação e fricciona também os lábios quando a sente.
Ela gosta da fricção, como friccionava as pedras no jardim quando criança, mas ela nunca foi criança.
Ela sorri bastante e seu sorriso nunca é saudável.
Minha amante tem uma curva sinistra do lado esquerdo do lábio.
Ela costuma falar mais com a pele do que com as palavras. Mas está sempre observando. Minha amante é uma canalha.
Ela fala coisas que só fazem sentido na cabeça dela, como um quebra cabeça quebrado.
E quando ela quebra a cabeça dos outros, tentando entendê-la, ela se quebra de gargalhadas.
Em geral, ela gosta muito de quebrar as coisas, como retratos e corações.
Minha amante gosta de ter amores apenas para reverter suas declarações.
Minha amante tem humor, ela é a risada no funeral.
Ela traz consigo o horror e confusão, mas ignorá-la seria fatal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Cálice



A noite estava pincelada por uma camada azul escura. Parcialmente iluminada apenas pelos focos pouco eficientes de luz amarelo queimado dos postes.
Ela prendeu os cabelos enquanto andava com pressa, equilibrando com algum esforço os livros na outra mão.
As ruas andavam desertas e caladas naquela cidade, mesmo no centro. Sonorizadas apenas pelos grilos e pelos sussurros próprios da noite e olha que nem era tarde, mas esses dias era tarde o suficiente para fazer uma moça jovem ir em passos largos para a faculdade.
O badalar do sino ecoava sete horas e ela atravessava os percalços de uma calçada pluriforme, ao lado do muro grande e descascado da escola municipal.
Apesar do cheiro fétido que a rua tinha esses dias, enquanto ela passava era o aroma de folhagem das muitas árvores enfileiradas naquela calçada o que sentia. As árvores - esses focos raros de esperança e natureza, trazendo um espelho pretérito do que a terra da luz costumava ser.
Foi enquanto refletia com certa taciturnidade sobre essas coisas, que como que se a ouvissem, as folhagens balançaram intensamente ante um vento forte e pouco condizente com a noite de clima estático.
O vento adentrou seus cabelos como dedos, quase desmanchando seu penteado, lhe trazendo uma sensação estranha, aperto no peito, que ela - já não tão afeita às supertições - não processou bem, quando deu o próximo apressado, e uma imagem no chão captou sua atenção, bem no lugar por onde tinha passado.
Dado aquele segundo inevitável, em que se decide coisas sem o uso específico da mente - o instante da bifurcação - algo nela a puxou, a estancou no lugar, a impedindo de dar o próximo passo.
Voltou-se para trás e agachou-se no chão, ignorando a lama da chuva do dia anterior ou a poeira levantada pelo vento.
Apurando o olhar, viu. Era uma carta.
Levou os dedos de unhas longas a ela, pouco consciente do que fazia, e a tomou em mãos.
Uma carta... de baralho? Não. De tarot, seria, quem sabe?
Estava suja e não tinha nada escrito, apenas os contornou cinza e ao centro a figura também acinzentada de um cálice de um material que parecia antigo e metálico.
Olhou o outro lado e apenas uma estampa quadriculada cinza, nenhuma palavra.
Não era de um jogo regular de baralho, pensou.
Conhecia bem, pois jogara a infância inteira em tardes preguiçosas com seu avô.
Continuava encarando a carta, agachada no chão, quando voltou a si, olhando o relógio e levantou-se.
Após mais um daqueles momentos indecisos, fitando a carta que segurava, simplesmente a colocou no bolso do jeans e voltou a caminhar em passos rápidos, com a leve impressão de quem leva um segredo consigo.

No refeitório da faculdade, naquela mesma noite, ela olhava para seu lanche com a íntima esperança de que ninguém viesse puxar conversa. Esquecida do evento de mais cedo, era só mais uma segunda feira sem esperanças e ultimamente elas estavam sempre assim.
Levantou os olhos para o refeitório lotado. Muita gente rindo, falando alto, alguns tirando fotos. Era sempre assim. Perguntava-se de onde vinha toda aquela euforia e ao mesmo tempo, tinha preguiça de descobrir. Gostava de observar, no entanto. Contanto que fosse de longe, podia passar o dia fazendo isso. Se fosse em outros tempos ou se ela fosse outra, uma versão menos tímida, talvez tentasse conversar com alguém. Enquanto pensava isso seus olhos passaram por um rapaz alto, que sorria um largo sorriso ouvindo uma conversa de seus dois colegas - um cara e uma moça, ambos meio dark . Já ele tinha um aspecto leve, até um pouco destoante com a maioria das pessoas por lá - sempre muito esteriotipadas, fosse para uma aparência formal ou com um traje de festas.
Ele cruzou o olhar com o dela, no momento em que ela o observou, e em seguida desviaram - não se saberia dizer quem primeiro.
São só aqueles olhares que dão encontrões nos cruzamentos da noite, pensou ela com um leve sorriso, porque se parasse para pensar o via sempre por lá e ele lhe parecia uma pessoa interessante. Mas a verdade é que não sabia nada sobre ele, apenas que tinha um sorriso incrível e que provavelmente jamais o conheceria.

Depois disso a noite passou como um raio e com um misto de alívio e frustração ela foi caminhando para casa. De algum modo, o vento, algo na noite tinha dito-lhe que hoje seria um dia diferente. Tinha deixado faíscas de seu antigo eu lhe assoprarem doses de supertição, e agora ia para casa com a velha frustração de dormir mais uma noite e recomeçar tudo de novo, nessa rotina monocromática.

Estava dobrando a esquina de casa, no entanto, quando uma senhora de voz quebradiça chamou-lhe:
"Mocinha, mocinha".
Ela olhou ao redor, só tinha ela de mocinha naquela rua deserta. Olhou para trás e viu a senhora à alguns passos atrás. Era idosa e tinha os olhos castanhos antigos, um deles com uma incompreensível mancha azul. Seus trajes indicaram que era uma mendiga e seu pouco fôlego que tinha corrido para alcançá-la.

Ela andou até à senhora, já mexendo nos bolsos em busca de uns trocados quando a idosa mulher lhe estendeu algo e ela surpreendeu-se ao ver a carta de mais cedo:
-Você deixou cair do seu bolso, mocinha.

Ela estendeu a mão e segurou a carta:
-Obrigada.
Mas quando tentou puxá-la, a velha senhora não a soltou. A olhou nos olhos com um olhar sinistro que parecia sorrir-lhe e lhe disse com um tom jocoso:

-Você é uma garota sortuda. O cálice. Aproxima-se amor intenso e inesperado... - De repente sua expressão ficou séria - Mas cuidado! O cálice, como o coração, é melhor cheio. Mas se transborda o resultado da enchente pode ser incontrolável e destrutivo.

A moça arregalou um pouco os olhos, quando a velhinha entregou-lhe definitivamente e carta e sorriu com sua boca desdentada. Seu tom sombrio anuviou-se e deu uma risadinha quase simpática:
-Mas uma garota como você vai aguentar.

Ela olhou para a carta que tinha em mãos, totalmente atordoada, e quando olhou novamente para a senhora, ela tinha desaparecido no horizonte, provavelmente virado à rua.

Foi o resto do caminho para casa em passos lentos, segurando a carta nas mãos como quem tem um tesouro. Mas não acreditava nessas coisas... não é?

Chegando em casa, pegou no sono logo, tendo uma noite turbulenta com imagens de cartas de tarot, dos olhos da velhinha e de um sorriso de rapaz, que não conseguia lembrar quem era.

O dia seguinte passou inesperadamente rápido.
A manhã de estágio foi suportável, a tarde estudando tranquila, mas durante todo o dia cultivou uma inexplicável ansiedade para o turno noturno.

A carta estava bem no fundo de sua gaveta, escondida assim como a surpreendente ansiedade que provocava. Não estava em busca de um inesperado amor, ao contrário, andava fugindo do amor. Mas de algum modo pensar naquilo a fazia pensar que havia algo que sabia, apenas não lembrava. Mas ao mesmo tempo algo lhe dizia que descobriria em breve o que era.

No entanto, à noite mostrou-se indiferente a suas sensações. Aulas, lanche no refeitório. Tédio. Uma olhada rápida para o banco onde o rapaz do sorriso fácil estava, e estava vazio. Suspirou diante da própria incoerência. O que estava esperando?

Na hora de ir embora, despedia-se de colegas na portaria da faculdade, quando olhou de relance e viu a figura alta, de cabelos um pouco bagunçados e olhar tranquilo. Seus olhares cruzaram-se no velho enlinhado que por vezes os fios dos olhares fazem, mas no lugar de desviar, ela ouviu uma voz baixa e surpreendeu-se ao perceber que era a sua própria:
“Oi.”
“Oi.” – Ele respondeu, igualmente com um fio de voz, em uma expressão que passou ela rápido demais para que pudesse tentar analisar, como fazia com tudo. O esperou dar dois passos para longe e enterrou o rosto nas mãos, incrédula, perguntando-se por que fizera isso.

Os dias da semana seguiram-se assim. Dias rápidos e a expectativa para uma noite que nunca trazia-lhe nada novo, além da sensação inequívoca de que alguma mudança aproximava-se.

Mas o tempo leva todas as coisas, inclusive as mais inexplicáveis e sinceras convicções e foi na segunda-feira seguinte, quando ela finalmente tinha acordado e passado um dia completo sem pensar na pequena sequência de eventos que só fazia sentido na sua mente, que já não esperava algo que mudasse sua noite.

Mas como é de praxe e os eventos escolhem momentos inusitados, em especial as segundas-feiras, bastante eficientes na arte de nos dar surpresas, ela estava na rampa da faculdade – já não frequentava o refeitório com frequência – observando e criando conjecturas sobre as pessoas que passavam distraídas. Conversando, falando no telefone, expressando felicidade ou tristeza sem imaginar que estavam sendo observadas. Estava na rampa sozinha, como tinha aprendido por hábito ou necessidade a se sentir bem, quando ouviu alguns passos em sua direção. Antes mesmo de olhar de lado já sabia. E naquele momento, no instante em que virou a cabeça para a esquerda e o viu, entendeu o que estava deixando passar o tempo todo.

“Oi. Posso ficar por aqui com você?”

Era ele o tempo todo.

“Claro que sim.”


Talvez essa coisa de destino exista mesmo.