terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ele é o sonho. (Ou, Feixe de um sonho lúcido)

"Apenas mais uma coisa para me fazer lembrar de ti."
Ela olhou para baixo, sorrindo. Sentindo seu rosto ficar mais quente e sabia que estava também ficando mais vermelho.
"Droga."
Isso não era nada comum antes.
Ela olhou para cima de soslaio, aqueles olhos de noite serena sorrindo para ela.
Antigamente sabia exatamente o que fazer.
Ele aproximou-se e ela fechou os olhos, se entregando.
Seus lábios macios combinavam com os dela como nenhum outro jamais antes. Combinavam de tal modo e com tanto carinho, que davam-lhe a cada toque, um verdadeiro primeiro beijo.
Seu cheiro inundava tudo ao redor dela, como uma nuvem macia. Sua pele, o som de sua voz. Esse rapaz era um mundo inteiro, um universo maravilhoso que ela descobriu por acaso.
Ela olhava seu rosto - poderia fazer isso por horas - traçando caminhos em suas bochechas.
"Você está zombando de mim?"
Ela ria do absurdo.
Que ideia.
Ela estava apenas encantada, enfeitiçada, apaixonada... Era assim estar apaixonada então, por alguém que só te fazia bem?
Todos esses pensamentos passavam em uma tempestade de sensações em sua mente, não traduzidos em palavras - palavras ela tentaria encontrar depois para contar-lhe o bem que ele lhe fazia.              
Perto dele ela apenas sentia. Sentia uma sensação tranquila e quente encher seu corpo de paz. Paz. Isso existia mesmo, residia nessa pessoa incrível à sua frente.
Essa pessoa linda em todos os sentidos e que como uma tempestade tinha chegado, fazendo todo o universo se dispersar à sua presença.
Ele trazia consigo todos os lados de um amor. Trazia a calmaria, a doçura de um beijo terno; A loucura dos excessos; E as risadas de um melhor amigo.
Ele a fazia sentir completa.
Olhou de lado, tentando disfarçar como sua boca involuntariamente tremia, sem controle. Sem saber lidar com tudo aquilo de maneira racional. Sem saber distinguir sonho e realidade. Porque é isso que ele era, uma nuvem de sonho.
De sonho e de coisas lindas, com suas cores preferidas e a trilha sonora perfeita. Era o sonho doce que ela desejava às pessoas na hora de dormir. Aquele sonho doce existia e ela o estava vivendo.
Que infinita sorte.

Que coincidência é o amor.


28.09.2014

Carnival

Existem dias que não nascem nunca.
Olho essas vitrines,
Tudo é uma vitrine.
Olho os manequins que se esticam, ansiosos.
Seus sorrisos histéricos que sangram meus ouvidos,
nessa velha e conhecida sensação de torpor.
A pressão tapa minha audição, em um zunido insuportável de ar rarefeito.
Seguro os grãos de terra, que escorrem por meus dedos
Minhas mãos já não são tão macias,
E essas figuras mentais se repetem pelos anos.
Meu olhar baixa ao passo que o mundo gira ao meu redor, mas eu estou parada.
Tudo permanece igual dentro de mim, um mar completamente parado. Escondido na zona abissal de um aquífero desconhecido.
E as imagens, que sangram meus olhos...
São coloridas e berrantes, com o som estridente da necessidade de atenção.
Necessidades diversas, à propósito. Mendigando pedaços de pão.
Tudo que quero, nessas horas,
Tudo que sempre quis,
Foi estar submersa.
Longe dessa corrida insana,
Uma eterna maratona de obstáculos que se reproduzem como por mitose e mais insuportavelmente ainda, com objetivos que se reproduzem de mesmo modo.
Meta 1, meta 2, meta 3...
Não me meta nessas, por favor.
Me dê a liberdade de não galgar um caminho ao estrelato, pois não?
Me dê paz.
Pois essas vitrines são de vidro e navalha e quando as olho elas apontam suas pontas para mim, ameaçadoras.
E o mais aterrorizante é que me vejo dentro delas, atuando em meu papel, vestido minha capa de plástico de manequim. Enlouquecendo.
Ou será esta outra eu,
Esta que observa apática, do lado de fora,
Em um cenário confortavelmente monocromático,
A verdadeira insana?

Oh veja só, cá estou estou...
Fazendo uma série de perguntas cujas respostas já conheço.
Quão vã e desnecessária.

sábado, 18 de outubro de 2014

Crônica de uma açougueira (Snap out of it)

Suas terminações nervosas estão tão vigilantes,
recebendo estímulos a cada instante.
Saia dessa, querido.
Minha pele está à esse mínimo toque te causando arrepios?
Saia dessa, querido.
Minhas mordidas na tua orelha, te sugando.
Minhas mãos em tua cintura, pressionando,
Meus dentes em teu peito, se afundando
Estão te fazendo suspirar?
Saia dessa, querido.

Minhas pernas prensas contra tuas costas
estão te arrancando um fino gemido?
Saia dessa, querido.

Quando eu termino um beijo, e te olho.
Teus olhos baixos e escuros - eu adoro.
Tua boca entreaberta e tremida...
A carne te interessa tanto assim, querido?

A minha, observe, a corto assim. O faço com uma navalha ou afins,
Vejo o sangue escorrer, sem significado. A carne apenas um detalhe, um retalho.
A mutilo e pressiono, apenas por distração.
Ela é a casca da casca, que eu corto do meu pão.

Mas venha cá, não se afaste, querido.
Gosto do cheiro do seu suor
Gosto do gosto das tuas mucosas,
Gosto da cor de meus arranhões nas suas costas,

Então traga o teu corpo esguio para perto,
E venha cá, querido.

Quero te fatiar para o jantar.
Jogar pedacinhos para os cachorros.
Mas com teu coração,
este órgão de juvenil pulsão
fazer um prato fenomenal.
Temperar com este teu alto astral,
Quem sabe até fazer nele um carinho oral.

E então mastigá-lo.
Deliciosas fatias macias...
Quebrando as fibras à garfadas,
me deliciando com as migalhas.

Então venha cá, querido.

domingo, 12 de outubro de 2014

O tempo tem um sabor diferente

Com ele,
o tempo tem um sabor diferente.

"I lay in the floor, pressing my eyes.
Seeing little lights..."

Antigamente as árvores eram só folhas e o vento era só uma corrente de ar.
Hoje em dia quando tudo isso se une, com seu sorriso em primeiro plano, o tempo para por um momento.

À noite, o ambiente ao redor daquele banco conhecido toma um ar de magia e a lua nos conta segredos em silêncio, com um sorriso discreto. Observando dois jovens se enamorando gradativamente, mergulhados em um mundo próprio, afundando-se em um cálice de paixão e paz - e quem diria que era possível conciliar ambos?

As árvores e o vento sorriem ante a rara cena dos amantes, e os presenteiam com uma atmosfera surreal e inacreditável. Uma corrente de ar passa, trazendo consigo mistérios e promessas.
De repente é fácil sentir a natureza em cada poro do corpo.
De repente é fácil compreender que todas as coisas, sem exceção, fazem sentido.

Quando ele está ali.

Pelo dia, quando a lua se deita, o sol que tanto parece com ele - o rapaz do sorriso quente - continua o intento gentil da natureza.

Pedacinhos de luz fazem sombras ante minhas pálpebras fechadas. De olhos cerrados, vejo apenas o avermelhado da luz, modelando-se nos espaços vagos pelas sombras das folhas das árvores. Sentindo o calor do sol e ao mesmo tempo o calor tão mais inacreditavelmente acolhedor, que é o da pele dele.

O cheiro dele é o cheiro das árvores ao sol, é o cheiro de casa, o cheiro da felicidade gentil. Do chão friozinho em uma tarde quente de férias.
O seu sorriso aquece meu peito, como um café em um dia frio. Me embalando em um sono tranquilo, me fazendo flutuar em água morna, observando as nuvens que flutuam e se beijam no céu.

Ele traz com ele isso,
Tudo o de mais mágico que existe nos cenários.

sábado, 4 de outubro de 2014

Paquímetro

Essa viagem foi horrível.
A bagagem eu guardei em meu corpo.
Meu coração está com um gosto de assalto,
Se alguém roubá-lo, irá sentir-se bem metalinguístico.
Uma orquídea de intenções se abre de maneira um pouco imoral, nas minhas mãos.
Eu fecho, a prendo e aprendo um pouco com o exercício.
Sentindo as pulsões pesadas se espalharem como um câncer por minhas veias.
Engulo todo o caos que sai da minha mente.
Autofágico esse meu modus operandi.
Excessivo ao extremo,
Extremista e estúpido.
Não sei fazer nada direito.
Não sei medir.

Duelo com meu próprio coração errante,
Apaixonada por destruição total.
Encantada com o caos.
Descoordenada racionalmente.
Não sou mais que uma barata tonta.
Uma repetição exaustiva,
Uma necessidade aborrecida.
Não sou mais que o que me contém e isso é muito pouco.
Mal me contenho.
Não, eu não tenho palavra.
E desejo tudo excessivamente.

Meu coração é o hipócrita da minha mente.
Porque pássaros devem voar.
Mas me encanta mastigar-lhes as asas.
Me encanta mastigar-lhes os rostos.

Aproximo-me de um belo rapaz.
Seu sorriso lembra-me uma criança fulgás.
Seus olhos transparecem o que pensa.
Sua pele cheira a canela fresca e menta.
Sinto ganas de beijá-lo,
e em seguida esganá-lo.
"Este será meu único ato de amor:
Fuja, por favor."


-Desculpe, moça, seu paquímetro está quebrado.
-Não, meu caro, são minhas porções que são inexatas.