terça-feira, 16 de setembro de 2014

5 da tarde (Conto)

17h da tarde, soava o sino da torre da igreja.

Estava atrasada, muito atrasada. Pensava enquanto praticamente corria, cruzando a praça dominada por pássaros que migravam de uma árvore à outra.
Correndo contra o tempo, como sempre.

Prendia o cabelo em um rabo de cavalo, enquanto andava apressadamente. Não tinha dado tempo de se arrumar direito, para variar.  Tinha uma reunião seguida de aula e....
Enquanto pensava, de repente se deparou, por um momento, com a estonteante imagem do céu vespertino a encará-la. Um emaranhado de nuvens brancas estava temporariamente tingido por tons de laranja e rosa, enquanto o sol começava a anunciar que esconderia-se em breve.

Ela estancou o passo, encantada com aquela visão, como se fosse a primeira vez. De repente o vento pareceu mais vivo e à frente do céu de Monet, um bando de pássaros voou cantando.
Ela expirou fundo, parecendo que estava finalmente parando de prender a respiração, depois de um longo tempo submersa. E no que o fez, uma imagem alinhou-se ao seu foco de visão, abaixo do céu encantadoramente alaranjado.

Do outro lado da praça, em uma cafeteria de esquina, dentro das paredes de vidro, ela viu um rapaz tomar café. Seus contornos eram imprecisos, devido à distância, mas por um momento ela teve a impressão de que ele a encarava também.
Tão dona da razão, por uma vez, permitiu-se ser irracional, e tomada por aquele clima de fim de tarde, atravessou a praça - na direção oposta de seus compromissos - e adentrou na cafeteria, cuja porta ecoou o som de um sininho, quando ela passou.

Assim que entrou no local, pareceu estar em um outro mundo. A luz era baixa, um blues ecoava em um rádio vintage e a decoração do local a remeteu a uma época em que ela não viveu, mas que sentia ser estranhamente familiar.

Essa cafeteria sempre esteve lá. Por que ela nunca tinha entrado?

Cumprimentou a atendente, uma moça simpática, pediu um café e foi até o segundo ambiente, onde o rapaz estava sentado.

Ele estava na mesinha do canto, muito embora fosse a única pessoa lá. Enquanto bebericava o café, encarava o nada, com uma expressão tranquila e ela pensou que de alguma maneira, ele encaixava-se perfeitamente naquela música.
O mais estranho é que ele não lhe era estranho. Provavelmente já o vira pela cidade - que não era nada grande - talvez até estudassem na mesma faculdade.

Ainda impulsionada por aquela sensação surreal, sem pensar nem um pouco a respeito, foi até a mesa em que ele estava:
-Posso sentar aqui?

Ele levantou a vista para ela, e sorriu um sorriso completamente natural:
-Claro que pode.

Ela sentou-se, o coração acelerado. Tentava reprimir a parte de sua consciência que dizia ser esta uma atitude muito esquisita.
"Sentando-se com um estranho que nem conhece? O que você está fazendo?" Pensava enquanto fingia distrair-se com o cardápio. Mas quando levantou a vista para ele de novo, estes pensamentos sumiram.

Ele tinha olhos castanhos e muito tranquilos. "Your brown eyes are like blue skies", ela pensou durante um momento no trecho de uma música que gostava. E por um momento, pareceu-lhe tudo estranhamente familiar.

-Por que você está aqui? - As palavras saíram da boca dela, antes que pudesse pensar duas vezes.
Ele novamente sorriu aquele riso encantador, como se soubesse tudo o que se passa na mente dela:

-Estou fugindo de algumas coisas. Aqui me parece um ambiente seguro.
Ele disse isso enquanto olhava de lados, e ela perguntou-se se era por isso que estava sentado na mesa do canto.

-Você não parece alguém que tem medo de muitas coisas. - Mais uma vez as palavras fugiram da boca dela. Em algum lugar, perguntava-se porque tinha dito isso. Mas aquele estranho parecia-lhe tão familiar...

Ele olhou para baixo, parecendo ver algo além daquele ambiente:
-Medo não. Mas talvez eu esteja um pouco cansado do mesmo ar.

Ela respirou fundo. De algum modo, entendia completamente o que ele quisera dizer, por mais enigmático que parecesse.
-Fazia tempo que eu não sentia um cheiro tão bom no vento - Ela disse, sorrindo pela primeira vez na conversa, e fazendo com os ombros, menção à praça.

Ele colocou a mão em frente ao rosto e deu mais um sorriso encantador:
-Sei o que você quer dizer.
Será que já não se conheciam? Como podia aquilo parecer tão familiar?

Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu relaxar completamente.
A garçonete chegou com o café - que ela tinha pedido assim que entrou -  e ela levou a xícara a perto dos lábios, aspirando sem pressa o aroma reconfortante do café.

Levantou a vista e viu que ele fazia o mesmo. Beberam o café em silêncio.

Eles terminaram e sem combinar nada previamente, levantaram-se ao mesmo tempo. Pagaram o café e saíram da cafeteria. O ar das, agora, 17:47, atingiu-lhe a cara como uma lufada.

Agora todas as árvores pareciam farfalhar como nunca antes e o laranja do céu estava em seu pico, já começando a anunciar a noite que aproximava-se.

Ela olhou para trás, vendo o rosto branco do alto rapaz.
-Eu já te conheço?
Ela perguntou um pouco alto, para ser ouvida mesmo com a ventania.

Ele não respondeu e ela achou que talvez fosse melhor ir embora. Deu um passo para frente, mas a mão grande e de dedos ossudos segurou a sua.

Ela olhou para ele, que sorria novamente:
-Talvez de outra vida. Ou talvez seja apenas necessário prestar mais atenção nos olhares do dia a dia.

Ela sorriu também e o vento levantou várias folhas perto deles.


Uma gaivota cantou alto no céu.







~~~~~~~*~~~~~*~~~~~*~~~~~*~~~~~
N/a: Obrigada a quem me emprestou todos os elementos bonitos desse texto.