quarta-feira, 2 de abril de 2014

Variações sobre um tema antigo

Ela despiu-se sem nem um pouco de pressa.
Tinha esquecido da furiosa sensação da sensualidade.
Sua pele alva era também muito fina, como se esticasse sob seus osssos.
Seus olhos ficavam escondidos por cortinas de cabelos, enfurecidos como o de uma criatura angelicalmente selvagem.
Caminhou até o lençol, estendido ao chão. Poderia ser terra em que pousava seu corpo, podia ser grama em que arrastava suas coxas, podia até ser água. A verdade é que era sonho.
Não era noite, como você pode ter pensado a priori. Estava claro e a luz solar desenhava os formatos de folhas cadentes. Feixes de luz rosa alaranjado incidiam no chão ao seu redor. Tudo à sua volta era dislexicamente desordenado, incoerente, encantado. Um mundo sem inibições.
A criatura à sua frente, escondida por um véu, era toda e qualquer figura que refletisse em seu espelho oposto.
Era o que o tato de sua mente inspirava, nas projeções coletadas por experiências ou percepções. Tinha muito a ver com os impulsos mais primitivos, no sentido não animal, e sim cândido da palavra.
Instinto é uma palavra mal interpretada, por vezes. Apenas animais tem instintos meramente carnais. Anjos possuem instintos de doçura, por vezes mascarados pelo sombrio à sua volta.
Assim, sob aquela criatura para a qual estendia agora os dedos finos, na intenção de tocar-lhe o rosto, residiam as imagens mais inesperadas.
Uma moça de pele macia, um rapaz de olhos sorridentes, um conhecido de possibilidades reconfortantes, seu próprio reflexo, talvez?
A sensualidade é um estado de espírito, um encontro consigo mesmo.
Afundou as mãos sob aquele véu,
e o que encontrou foi infinito.

terça-feira, 1 de abril de 2014

3/7 vidas


Há uma lua tatuada em minhas costas, derretendo com palavras sóbrias.
Ele me disse que eu era a coisa mais pura que já conheceu. Eu não sei, já me chamaram de tantos nomes. Usaram-me o corpo e as palavras. 
Mas a pureza independe disso?
É engraçado.
Faz 22 anos que estou nesse mundo. Pouco mais de 10 que me sinto hiper consciente. Sinto já ter vivido uma vida inteira até a velhice e a consequente morte. Me sentia tão cansada tempos atrás, como se fosse minha despedida.
Estou agora na minha segunda vida, regredindo cada vez mais a uma fase anterior. Tornei a me lembrar do cheiro da infância, aos poucos. Do mundo fantástico que cabe em uma mente.
Eu nunca fui adulta, não, tendo passado da infância para a velhice, como uma anomalia sentimental.
Minha boa memória que sempre foi minha algoz, passou a ser meu passaporte para a sanidade.
Lembro muitas coisas, se pensar bem. Lembro do rosa-choque, das caixinhas de músicas, da solidão infantil, dos ovos de páscoa, da confusão e medo, das pequenas sensações especiais de quem apenas sente e não racionaliza.
"Você pensa demais", disseram-me praticamente todas as pessoas que já conheci. Falando sempre sensorialmente para tentar compensar minha hiperracionalização.

A infância é uma parte muito importante da vida, talvez a mais, como diriam minha mãe e a maioria dos psicanalistas. Minha primeira morte se deu quando eu desisti da infância, engolindo uma dor que não me pertencia. Deu-se quando eu comecei a entender coisas que me fizeram desacreditar na magia. Deu-se com meus ídolos sendo mortos pela lógica e racionalidade e com a desfiguração de imagens cultuadas, pouco a pouco, diluindo-se em fatos. Deu-se com meu descaso ante meu corpo e mente, pautado em premissas lógicas e negação religiosa.

É possível se perder na razão, é possível enlouquecer sem maiores estímulos.
Deixar de procurar passagens secretas e bosques com fadas. Isso pode parecer uma metáfora, mas pode também parecer muito real. Por que não? Esse é um texto sem um sentido exato, feito apenas porque me propuseram escrever algo novo. Mas sentido por todas as células de uma criança, uma idosa e atualmente uma pessoa sem idade que tenta conservar sua lua.