sábado, 21 de dezembro de 2013

Origami II

Ela dançava descoordenada, em cima de uma navalha. Era difícil orientar-se na paixão.
Agachou-se em sua frente, tirou seus óculos, mordeu seu lábio. Ele a deixava livre, louca, com esse sorriso de quem sente prazer no vento.
"Tudo pode ser, nada vai te acontecer."
Queria bebê-lo como quem bebe um vinho bom, não, queria bebê-lo como quem bebe cachaça.
Queria-lhe descendo pela garganta, arranhando e dando tontura. Queria-lhe ao mesmo tempo como uma água doce em um dia quente. Queria-lhe em maneiras controversas, em todas as que existiam. Queria seu olhar mais tranquilo e também o mais sombrio. Como um pânico, um delírio, uma música amada; Um homem, um menino.
Amara-lhe com as entranhas. Com forças estranhas, que ele lhe inspirava - Amava, e sem saber direito o significado dessa palavra, com suas ações, a explicava.
Desdobrava-lhe as camadas, dobrava-lhe os lados, três-quartos, por cima, por baixo, até formar-lhe o origami.
"Me ame"
Era o resultado da obra. A figura de um lobo, de um coringa, de um rapaz bom ou de um traquina? Cada lado do papel, ao dobrar-se, derrubava um véu. Ele era muitos, cada um num dia, com uma energia, dependendo da sintonia...
Ao mesmo tempo, era o mesmo.
E era a ele que ela amava.

"The darkness. It has me."

A escuridão em mim, me é.
Eu sinto muito, mas não sinto nada.
Vejo uma estranha no espelho,
uma inimiga.
Meu rosto não acompanha os anos,
como uma criança demoníaca.
Aqui dentro tudo apodrece.
Como podes amar algo sem alma?
Só não cometo atrocidades por causa de minha educação.
Mas viveria em crime, numa terra de liberdade.

Olhe nos fundos dos meus olhos
O que você vê?
A escuridão tem olhos puxados,
implacáveis e cansados.

Seria eu uma psicopata?
Sendo a dor um caminho tão prazeroso...
Ser feliz me parece uma enganação passageira,
O amor doce me ameaça lentamente.
Estou tendo problemas de identificação.
Seria minha mente em outra enganação?
Realmente parece estar tudo bem?

Veja bem,
eu nunca serei capaz de dizer "amém".