terça-feira, 29 de outubro de 2013

O ser humano não é muito diferente de uma muriçoca. (Ou We are suckers for a happy ending.)


Uma das coisas que mais me impressiona em algumas espécies do reino animal, é a incapacidade de aprendizado com a experiência. Um exemplo próximo que sempre me angustia são as muriçocas da minha casa. Mesmo sendo enxotadas, encurraladas no espaço entre as duas mãos e quase mortas repetidas vezes, elas voltam exatamente ao mesmo lugar que tentaram morder (perna, braço ou o que seja) demonstrando pouca ou nenhuma capacidade de aprender com a experiência e não repetir o erro.
O que eu tenho percebido, no entanto, é que minha espécie não é muito diferente dessa muriçoca. Vamos a outro caso prático:
Ontem eu assisti um filme muito bom e triste chamado "Like crazy" que cometeu a rara proeza de corresponder à realidade. É a história de um jovem casal que se ama profundamente, mas passa por inúmeros obstáculos e mágoas a ponto de estarem ao final tão cansados que quando finalmente superam as dificuldades e conseguem ficar juntos, sentem o vácuo tomar conta do que outrora era encantamento. Esse finalzinho não é dito, mas não precisa, porque é representado com perfeição e genialidade pelas expressões dos atores em uma dramática e sutil cena muda no chuveiro.
O final é óbvio, apesar de não ser falado. É um final triste, um final real. 
Quando acabou o filme, eu encantada e desconsolada fui, como sempre faço, procurar resenhas e comentários na internet e ver se minha opinião batia com a dos outros telespectadores.
Para minha surpresa, no entanto, comecei a ver dezenas de comentários, tanto em vernáculo como em inglês, falando sobre "que lindo final feliz, eles finalmente ficaram juntos e perceberam que tudo valeu a pena e iriam se reconstruir".
Espera aí, pensei. Não foi nada disso não! O que houve foi uma cena triste, com uma música de fossa, com expressões de mágoa e um olhar desesperador. De onde vocês tiraram o final feliz?
Mas aí entendi. As pessoas muriçocalizaram o final. Mesmo vivendo aqui, no real world e conhecendo e passando por relacionamentos de todos os tipos, sentindo o desgaste que as mágoas trazem, vivendo na pele como o ser humano é imperfeito, como as coisas tem início, meio e fim, como a gente muda o tempo todo e os sentimentos mudam e as coisas acabam terminam, nada mais natural, os telespectadores (em maioria) desse magnífico filme, insistiram em acreditar que aquele era um final feliz.
O que é isso se não a incapacidade de aprendizado com a experiência?
Aqui acolá eu via um comentário sobre a beleza desse fim triste, mas essa era a exceção. O que ficou claro foi nossa tendencia a insistir em erros, no caso, ilusões sobre a realidade, com uma tentativa frágil de fazer as coisas parecerem mais belas.
Mas o que é ser belo? Finais água com açúcar nada reais? Ou desacreditar na existência de "finais"? Por que é tão difícil aceitar a realidade dura e fria? E por que achamos a realidade dura e fria, se é nada além do curso natural das coisas?
Levando isso um pouco adiante, percebi que talvez só achamos a realidade dura e fria justamente por causa das ilusões que nos são apresentadas como possibilidades, como se reais fossem. Acreditamos que isso pode acontecer (isso = relacionamentos com "fins" felizes e sem problemas, uma vida profissional de sucesso sem muito esforço, uma vida familiar e social pacífica e sem diferenças.. e a lista continua) e diante dessa possibilidade, todo o resto parece frio e cruel. Mas não é, é só a vida.
E isso se aplica a tudo. Alimentamos ilusões em todos os campos e quando uma desilusão acontece, ficamos tão tontos e confusos quanto a muriçoca depois de escapar de raspão. Mas não temos o preparo suficiente para nos adaptar à realidade de cara, a lidar com a naturalidade dos acontecimentos, por isso ignoramos todos esses sinais de como as coisas são e mesmo depois de ter isso esfregado em nossa cara, nos apegamos de volta à velha crença ilusória, ignorando a realidade dançando na nossa cara, e voltamos a morder o mesmo pedaço de pele no exato lugar que acabamos de tentar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Qualquer realidade é mais fascinante que qualquer ficção.



"Sabe no livro Eragon, que eu te falei o final? Um dos pontos chaves do livro, é que cada pessoa tem um nome numa língua antiga, que só diz a verdade. Esse nome define sua essência. Pode ser uma só palavra, uma frase ou até um texto, dependendo da complexidade da pessoa. A pessoa não sabe seu próprio nome, ela não consegue ver porque ela está dentro. Só outra pessoa é que pode descobrir esse nome, embora seja muito difícil, através do que conhece dela, dos fatos que definiram sua vida, etc. Esse nome representa sua essência. Quando você descobre esse nome, você ganha um certo poder sobre a pessoa, porque você descobre sua essência, e assim, seus pontos fracos e etc. Você toma conhecimento sobre quem exatamente aquela pessoa é, o que faz dela ela. Tudo isso é traduzido naquele nome. Então, o que eu queria dizer, é que se alguém for capaz de descobrir esse meu nome, esse alguém é você."


Mas é lógico que essas palavras incríveis não são minhas.

domingo, 6 de outubro de 2013

Tripla negativa

Não existe verso, não existe termo
Que traceje a sensação, que denote o desespero
ultrapassou a poesia, as descrições precisas,
não existe mais molde para tanta agonia.
Não existe explicação em um mundo cristão
não existe motivo, justificativa ou perdão
Só existe a agonia, só existe o desespero,
os pensamentos terroristas, a maldade, o apego.
Só existe a fixação, a obsessão e os vômitos.
Só existem as lágrimas cada vez mais vãs, a tristeza que não dá pena.
Não existe poesia, não, nenhuma palavra bonita.
Nada rima com esse inferno.
Só existe minha mente, eivada de insanidade doente.
Só existem as navalhas, as mágoas, as metralhas,
só existe o egoísmo, o infinito abismo
Não existe nada, nem a morte, que cure.
Nada
nada
nada.