quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Um trago para a rainha"

Tolo é quem não teme a noite, este demônio maravilhoso.
Ela suspira vento ameno pelas ruas de esgotos e lojas velhas no centro dessa cidade caótica.
Ela sussurra no seu ouvido uma e mais outra história, exibe seus dentes finos, contando baixo cada hora.
Só não teme a noite quem não a conhece, vadia e sem receios. Ela te beija, te enaltece. Te tira a roupa, te suga os seios.
Tolice não amar a noite, e não amar as coisas mortíferas.
Afinal, aquilo que te apaixona
Geralmente te tira a vida.

the horror

Vomitei e não saiu nada.
Vomitei meu nada, teu nada.
A ausência de algo que não existe.
As palavras entrecortadas, em silêncios que são navalhas tristes.
Os pensamentos que não tem hora, crucificando o sono tranquilo.
As cruzes e seus asilos, seus diários sacrifícios...
Eu gritei e não saiu som,
Não terei eu gritado em bom tom?
Algo profano sai de mim, de meu olhar. Posso ver você, ou a moça
que cruza a calçada, a ver, e se assustar.
Eu cuspi essas noites loucas e esses dias escuros, esse céu nublado ou este sol escaldante. Eu cuspi teus dias vazios, os abraços cada vez mais frios, eu cuspi a morte diária de acordar em meio ao nada.
Não se pode jogar o nada fora,
pois quando se tem ele,
todo o resto já foi embora.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Te.

Te beijo e choro.
Te tenho medo.
Laçou-me a vida,
sugou-me o peito.
Se te magoo,
É só pavor
Palavras feias
cheias de amor.
Te quero perto,
não sai jamais.
Me beija a boca
um pouco mais.
Quanto tu partes,
me parto em quadros
de tuas imagens
comigo ao lado.
Quando tu sais,
me leva a doçura
me leva a paz
sem tu, sou tua.
Quando tu estás
Felicidade.
Eu não sabia
que isso existia.
Todas as noites
te quero perto,
te tenho medo
te tenho afeto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

You know you got it.

Me inquieto nos teus braços
E me encaixo em teus sapatos.
Forçando-te guela abaixo.
Te sufoco e te amarro?
Doce crime do padre amado,
Me condenes se tu fores a cela.

Ofereço a ti em um velho prato
Tão burlesco e descartável
Este órgão pulsante assado
Sangrento e regurgitável.
Toma, lambe, mastiga e cospe.
Que meu sangue seja tua tosse
E te acompanhe todos os dias
Doença da afeição minha.

Quero entrar em tua alma
Invadir-lhe as retinas
Roubar os pensamentos,
Desatinos, entrelinhas.
Coser uma teia doce
Das tuas mãos às minhas.

Não consigo ser tranquila
Não, não sei o que é tranquilidade
Tudo aqui explode e agita
E até meu amor é uma ferida que arde.

domingo, 4 de agosto de 2013

Cabidela

As estações nasceram e morreram no berço do calendário.
Os cabelos e sorrisos foram cortados e remodelados ao aço, ferro e pó das pegadas de quem esteve por aqui.
O chão é o mesmo, eu não sou a mesma. Já conheço essa casa, essas arestas das tuas falas, tuas curvas e verticalidades.
Já andei por aqui. Cheiro o ar, e ouço as vozes impregnadas nas paredes desses cômodos.
Engraçado como os caminhos se entrelaçam. As linhas prateadas - sempre avermelhadas - fazem nós e pergaminhos, traçam tranças nos cabelos das crianças. Nos caminhos, nas andanças. Em nossos passos, canções e danças.
O tempo passa, resumindo. Sorrateiro e surdino, na sua roupa de menino. Corroendo e diluindo, entre os dedos, em cada ninho.
Eu já nem sei quem sou: se no espelho me reconheço ou reinvento. Se nos lábios que beijo, desejo ou lamento. Se pelas páginas passadas me ergo ou destruo.
Não reconheço o sol de hoje. Ele nasce ardente e delinquente. Desesperado por gente quente. Afugentando os doentes, adoecendo nossas mentes. Morrendo às cinco e quarenta e sete, pontualmente.
E enquanto morre, me parto num quarto. Tatuando em tuas costas
Uns três poemas apavorantes. Adocicando com soda cáustica
esse caminho agonizante.
Absorvendo mais outro ser.

Vermelho é a cor do berço.
É a cor do desepero.
De meus lábios a teus pêlos
Vermelho escorre sombrio
Não há paz nessa cidade
Por aqui nunca se viu.