sábado, 21 de dezembro de 2013

Origami II

Ela dançava descoordenada, em cima de uma navalha. Era difícil orientar-se na paixão.
Agachou-se em sua frente, tirou seus óculos, mordeu seu lábio. Ele a deixava livre, louca, com esse sorriso de quem sente prazer no vento.
"Tudo pode ser, nada vai te acontecer."
Queria bebê-lo como quem bebe um vinho bom, não, queria bebê-lo como quem bebe cachaça.
Queria-lhe descendo pela garganta, arranhando e dando tontura. Queria-lhe ao mesmo tempo como uma água doce em um dia quente. Queria-lhe em maneiras controversas, em todas as que existiam. Queria seu olhar mais tranquilo e também o mais sombrio. Como um pânico, um delírio, uma música amada; Um homem, um menino.
Amara-lhe com as entranhas. Com forças estranhas, que ele lhe inspirava - Amava, e sem saber direito o significado dessa palavra, com suas ações, a explicava.
Desdobrava-lhe as camadas, dobrava-lhe os lados, três-quartos, por cima, por baixo, até formar-lhe o origami.
"Me ame"
Era o resultado da obra. A figura de um lobo, de um coringa, de um rapaz bom ou de um traquina? Cada lado do papel, ao dobrar-se, derrubava um véu. Ele era muitos, cada um num dia, com uma energia, dependendo da sintonia...
Ao mesmo tempo, era o mesmo.
E era a ele que ela amava.

"The darkness. It has me."

A escuridão em mim, me é.
Eu sinto muito, mas não sinto nada.
Vejo uma estranha no espelho,
uma inimiga.
Meu rosto não acompanha os anos,
como uma criança demoníaca.
Aqui dentro tudo apodrece.
Como podes amar algo sem alma?
Só não cometo atrocidades por causa de minha educação.
Mas viveria em crime, numa terra de liberdade.

Olhe nos fundos dos meus olhos
O que você vê?
A escuridão tem olhos puxados,
implacáveis e cansados.

Seria eu uma psicopata?
Sendo a dor um caminho tão prazeroso...
Ser feliz me parece uma enganação passageira,
O amor doce me ameaça lentamente.
Estou tendo problemas de identificação.
Seria minha mente em outra enganação?
Realmente parece estar tudo bem?

Veja bem,
eu nunca serei capaz de dizer "amém".

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mordidas amargas

Eu vi, eu me lembro bem
Quando a água tocava meus seios, crescentes
E eu sentia vergonha em o tempo estar passando.
Era em tardes deitada num sofá, que a sensação me envolvia
Me deixava com medo de estar perdendo minha inocência.
E tudo que eu queria era me enrolar, pequena, no colo da minha mãe
Sem qualquer coisa que me dissesse mulher.
No fundo, eu já sentia o gosto do tempo.
O temoroso, sempre passante, tragando tudo a seu redor.
"Tempo, mano velho", inesquecedor* acertador de contas.
E me perdoe os neologismos, mas são avisos
De tudo que ainda não existe, se aproxima de ser criado.
Hoje tuas mordidas amargas
Marcam meu pescoço como navalhas antigas.
Uma mão de rapaz, na minha pele de criança
Certas horas tudo isso está errado,
Ainda não tenho nem 10 anos.
Quero ir para o colo da minha mãe numa tarde de domingo
Tocando Belchior na felicidade fabricada
da varanda da minha casa.
Ah, meus olhos estão apagando.
O tempo traga toda a doçura dos nossos anos.
Nada é permanente, triste obviedade.
Nem a tranquilidade da infância.
Hoje tudo está um caos.
As paredes estão ruindo.
Minha casa não está sorrindo.
E você, meu velho amigo,
meu eterno adversário,
Tempo, mano enjaulado.
está agora bem acordado.



Ojeriza às declarações exageradas no facebook



Para quem você escreve,
ou derrama declarações?
Quem é o alvo de seus beijos
e de suas encenações?
A quem o show se apresenta,
esse repente histérico...
Repetindo ininterruptamente
O romance em adultério.
Quando espera que os outros vejam
como é forte sua paixão
Sem perceber, usa seu bem
Como a roupa da estação.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O ser humano não é muito diferente de uma muriçoca. (Ou We are suckers for a happy ending.)


Uma das coisas que mais me impressiona em algumas espécies do reino animal, é a incapacidade de aprendizado com a experiência. Um exemplo próximo que sempre me angustia são as muriçocas da minha casa. Mesmo sendo enxotadas, encurraladas no espaço entre as duas mãos e quase mortas repetidas vezes, elas voltam exatamente ao mesmo lugar que tentaram morder (perna, braço ou o que seja) demonstrando pouca ou nenhuma capacidade de aprender com a experiência e não repetir o erro.
O que eu tenho percebido, no entanto, é que minha espécie não é muito diferente dessa muriçoca. Vamos a outro caso prático:
Ontem eu assisti um filme muito bom e triste chamado "Like crazy" que cometeu a rara proeza de corresponder à realidade. É a história de um jovem casal que se ama profundamente, mas passa por inúmeros obstáculos e mágoas a ponto de estarem ao final tão cansados que quando finalmente superam as dificuldades e conseguem ficar juntos, sentem o vácuo tomar conta do que outrora era encantamento. Esse finalzinho não é dito, mas não precisa, porque é representado com perfeição e genialidade pelas expressões dos atores em uma dramática e sutil cena muda no chuveiro.
O final é óbvio, apesar de não ser falado. É um final triste, um final real. 
Quando acabou o filme, eu encantada e desconsolada fui, como sempre faço, procurar resenhas e comentários na internet e ver se minha opinião batia com a dos outros telespectadores.
Para minha surpresa, no entanto, comecei a ver dezenas de comentários, tanto em vernáculo como em inglês, falando sobre "que lindo final feliz, eles finalmente ficaram juntos e perceberam que tudo valeu a pena e iriam se reconstruir".
Espera aí, pensei. Não foi nada disso não! O que houve foi uma cena triste, com uma música de fossa, com expressões de mágoa e um olhar desesperador. De onde vocês tiraram o final feliz?
Mas aí entendi. As pessoas muriçocalizaram o final. Mesmo vivendo aqui, no real world e conhecendo e passando por relacionamentos de todos os tipos, sentindo o desgaste que as mágoas trazem, vivendo na pele como o ser humano é imperfeito, como as coisas tem início, meio e fim, como a gente muda o tempo todo e os sentimentos mudam e as coisas acabam terminam, nada mais natural, os telespectadores (em maioria) desse magnífico filme, insistiram em acreditar que aquele era um final feliz.
O que é isso se não a incapacidade de aprendizado com a experiência?
Aqui acolá eu via um comentário sobre a beleza desse fim triste, mas essa era a exceção. O que ficou claro foi nossa tendencia a insistir em erros, no caso, ilusões sobre a realidade, com uma tentativa frágil de fazer as coisas parecerem mais belas.
Mas o que é ser belo? Finais água com açúcar nada reais? Ou desacreditar na existência de "finais"? Por que é tão difícil aceitar a realidade dura e fria? E por que achamos a realidade dura e fria, se é nada além do curso natural das coisas?
Levando isso um pouco adiante, percebi que talvez só achamos a realidade dura e fria justamente por causa das ilusões que nos são apresentadas como possibilidades, como se reais fossem. Acreditamos que isso pode acontecer (isso = relacionamentos com "fins" felizes e sem problemas, uma vida profissional de sucesso sem muito esforço, uma vida familiar e social pacífica e sem diferenças.. e a lista continua) e diante dessa possibilidade, todo o resto parece frio e cruel. Mas não é, é só a vida.
E isso se aplica a tudo. Alimentamos ilusões em todos os campos e quando uma desilusão acontece, ficamos tão tontos e confusos quanto a muriçoca depois de escapar de raspão. Mas não temos o preparo suficiente para nos adaptar à realidade de cara, a lidar com a naturalidade dos acontecimentos, por isso ignoramos todos esses sinais de como as coisas são e mesmo depois de ter isso esfregado em nossa cara, nos apegamos de volta à velha crença ilusória, ignorando a realidade dançando na nossa cara, e voltamos a morder o mesmo pedaço de pele no exato lugar que acabamos de tentar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Qualquer realidade é mais fascinante que qualquer ficção.



"Sabe no livro Eragon, que eu te falei o final? Um dos pontos chaves do livro, é que cada pessoa tem um nome numa língua antiga, que só diz a verdade. Esse nome define sua essência. Pode ser uma só palavra, uma frase ou até um texto, dependendo da complexidade da pessoa. A pessoa não sabe seu próprio nome, ela não consegue ver porque ela está dentro. Só outra pessoa é que pode descobrir esse nome, embora seja muito difícil, através do que conhece dela, dos fatos que definiram sua vida, etc. Esse nome representa sua essência. Quando você descobre esse nome, você ganha um certo poder sobre a pessoa, porque você descobre sua essência, e assim, seus pontos fracos e etc. Você toma conhecimento sobre quem exatamente aquela pessoa é, o que faz dela ela. Tudo isso é traduzido naquele nome. Então, o que eu queria dizer, é que se alguém for capaz de descobrir esse meu nome, esse alguém é você."


Mas é lógico que essas palavras incríveis não são minhas.

domingo, 6 de outubro de 2013

Tripla negativa

Não existe verso, não existe termo
Que traceje a sensação, que denote o desespero
ultrapassou a poesia, as descrições precisas,
não existe mais molde para tanta agonia.
Não existe explicação em um mundo cristão
não existe motivo, justificativa ou perdão
Só existe a agonia, só existe o desespero,
os pensamentos terroristas, a maldade, o apego.
Só existe a fixação, a obsessão e os vômitos.
Só existem as lágrimas cada vez mais vãs, a tristeza que não dá pena.
Não existe poesia, não, nenhuma palavra bonita.
Nada rima com esse inferno.
Só existe minha mente, eivada de insanidade doente.
Só existem as navalhas, as mágoas, as metralhas,
só existe o egoísmo, o infinito abismo
Não existe nada, nem a morte, que cure.
Nada
nada
nada.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

tudounada

Todo nada
era um monte de tudo
que encontrou um escudo
que não encontrou espelho.

Esse nada,
há pouquíssimos minutos
era um monte de tudo
era um monte de beijo.

Era um apelo
escondido no escuro
pedindo um pedaço de pão
um pedaço de zelo.

Procurando
nuns olhos nus, uma crueza
uma certa beleza
de quem dá amor mesmo.

Esse nada
é um monte de mágoa
é lágrima de fada
perante a violência de quem cala.

Eu podia falar muito sobre o pouco
sobre o claro do luto
mas me ausento agora
de nadar sobre o tudo.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Coisas estranhas que eu encontrei no meu caderno do 4º semestre pt.I


Muitas vezes um ato de coragem é só um ato de burrice.

-
Estive procurando desde muito  cedo uma exceção bonita à regra absurda.
(Anjo, o que aconteceu com suas asas?)
Mas não existe, culpo a utopia. Mesmo falando tudo isso... uma sociopata erudita.
Jogando palavras com vidas.
Dê-me um crédito, dê-me um desconto.
Minha loucura é contida em conto.
O que procura é o consenso de um acordo. A insanidade consentida.
O cerne da resposta é que me faltam alguns elementos essenciais à validade: Os escrúpulos, a sutil consciência de realidade. A Delicadeza de não se machucar.
Mas não sana. É insana esta lepra emocional. Jogando-se contra arames, coisa e tal.
No mais primitivo clichê de busca de sensibilidade.
É inverso, porém. (É verdade, é mentira) É a sensibilidade em demasia que te torna catatônica e  fria. O ceticismo absurdo que denota poesia. Andar no fim da linha e se sentir bem no começo. Juro por Deus, não estou protelando: Uma mente perturbada nunca sabe por onde seguir. Uma tempestade constante sente constância em cair. E um coração selvagem sequer sabe o que sentir.
"Está quente ou frio aqui, amigo?"
É a total incoerência das percepções múltiplas.
Seu coração está batendo forte?
Muitas vezes um ato de coragem é só um ato de burrice.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"Tem alguém aí me ouvindo" - perguntei para dentro de mim.

Não, eu não quero escrever. Estou com medo, sabe? Tem coisas estranhas vivendo dentro de mim, numa casinha. Não deu tempo dizer as palavras, elas pularam fora, se vomitaram. Eu queria pureza, pureza numa mente perturbada, numa realidade doente. Todo passarinho que me mostra beleza, me mostra na sua beleza a feiura do mundo. Toda criança inocente que vejo na rua a brincar com seu irmãozinho me mostra em sua pureza o contraste com a realidade. Coisas felizes não me deixam mais feliz. Coisas bonitas me fazem ficar triste e me comovem, porque é trágico ver pontinhos de beleza dentro de um mundo feio, de maldade, de gente cruel, de ausência de generosidade.
Generosidade é sabedoria. Não tem doutrina, eu soube, não tem inteligência, livro, filosofia que traduza o modo certo. (Certo?) de ser viver, estar. Generosidade é aquele pontinho pequeno, branco ou preto qualquer cor, um pontinho tímido, quase inexistente, esquecido com certeza, precisando de alimentação para crescer, dentro da gente. A generosidade tudo entende, tudo aceita. Seria o amor, em um conceito real de amor, onde amor é um sentimento universal (eu sempre disse isso) e não direcionado. É tão raro amor. Amor não é bem isso que a gente sente pelos nossos pais ou que eu sinto pelo meu menino, não, acho que é diferente. Acho que amor, se alguém é (e algumas pessoas devem ser) capaz de sentir, quando se tem, é por tudo, por todos. "Amor de Deus". Que ele tem, segundo dizem as pessoas. Um amor sem restrições, um estado de espírito, alma, eu não sei bem que nome se dá. Mas algo assim, capaz de salvar o mundo. Eu não acredito em nada, mas nisso eu acredito. Nesse sentimento. É minha corda de salvação essa crença, mesmo que eu não consiga sentir isso delineado em mim. Mas é minha corda de salvação contra o meu próprio mundo em mim, que não consegue ver beleza, que ficou sombrio, que perdeu a infância e a juventude. Não sou ingênua como as crianças, não sou leve como os jovens e não sou sábia como os idosos. Sou uma adulta? Não, não é bem isso. Só estou um pouco triste.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Um trago para a rainha"

Tolo é quem não teme a noite, este demônio maravilhoso.
Ela suspira vento ameno pelas ruas de esgotos e lojas velhas no centro dessa cidade caótica.
Ela sussurra no seu ouvido uma e mais outra história, exibe seus dentes finos, contando baixo cada hora.
Só não teme a noite quem não a conhece, vadia e sem receios. Ela te beija, te enaltece. Te tira a roupa, te suga os seios.
Tolice não amar a noite, e não amar as coisas mortíferas.
Afinal, aquilo que te apaixona
Geralmente te tira a vida.

the horror

Vomitei e não saiu nada.
Vomitei meu nada, teu nada.
A ausência de algo que não existe.
As palavras entrecortadas, em silêncios que são navalhas tristes.
Os pensamentos que não tem hora, crucificando o sono tranquilo.
As cruzes e seus asilos, seus diários sacrifícios...
Eu gritei e não saiu som,
Não terei eu gritado em bom tom?
Algo profano sai de mim, de meu olhar. Posso ver você, ou a moça
que cruza a calçada, a ver, e se assustar.
Eu cuspi essas noites loucas e esses dias escuros, esse céu nublado ou este sol escaldante. Eu cuspi teus dias vazios, os abraços cada vez mais frios, eu cuspi a morte diária de acordar em meio ao nada.
Não se pode jogar o nada fora,
pois quando se tem ele,
todo o resto já foi embora.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Te.

Te beijo e choro.
Te tenho medo.
Laçou-me a vida,
sugou-me o peito.
Se te magoo,
É só pavor
Palavras feias
cheias de amor.
Te quero perto,
não sai jamais.
Me beija a boca
um pouco mais.
Quanto tu partes,
me parto em quadros
de tuas imagens
comigo ao lado.
Quando tu sais,
me leva a doçura
me leva a paz
sem tu, sou tua.
Quando tu estás
Felicidade.
Eu não sabia
que isso existia.
Todas as noites
te quero perto,
te tenho medo
te tenho afeto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

You know you got it.

Me inquieto nos teus braços
E me encaixo em teus sapatos.
Forçando-te guela abaixo.
Te sufoco e te amarro?
Doce crime do padre amado,
Me condenes se tu fores a cela.

Ofereço a ti em um velho prato
Tão burlesco e descartável
Este órgão pulsante assado
Sangrento e regurgitável.
Toma, lambe, mastiga e cospe.
Que meu sangue seja tua tosse
E te acompanhe todos os dias
Doença da afeição minha.

Quero entrar em tua alma
Invadir-lhe as retinas
Roubar os pensamentos,
Desatinos, entrelinhas.
Coser uma teia doce
Das tuas mãos às minhas.

Não consigo ser tranquila
Não, não sei o que é tranquilidade
Tudo aqui explode e agita
E até meu amor é uma ferida que arde.

domingo, 4 de agosto de 2013

Cabidela

As estações nasceram e morreram no berço do calendário.
Os cabelos e sorrisos foram cortados e remodelados ao aço, ferro e pó das pegadas de quem esteve por aqui.
O chão é o mesmo, eu não sou a mesma. Já conheço essa casa, essas arestas das tuas falas, tuas curvas e verticalidades.
Já andei por aqui. Cheiro o ar, e ouço as vozes impregnadas nas paredes desses cômodos.
Engraçado como os caminhos se entrelaçam. As linhas prateadas - sempre avermelhadas - fazem nós e pergaminhos, traçam tranças nos cabelos das crianças. Nos caminhos, nas andanças. Em nossos passos, canções e danças.
O tempo passa, resumindo. Sorrateiro e surdino, na sua roupa de menino. Corroendo e diluindo, entre os dedos, em cada ninho.
Eu já nem sei quem sou: se no espelho me reconheço ou reinvento. Se nos lábios que beijo, desejo ou lamento. Se pelas páginas passadas me ergo ou destruo.
Não reconheço o sol de hoje. Ele nasce ardente e delinquente. Desesperado por gente quente. Afugentando os doentes, adoecendo nossas mentes. Morrendo às cinco e quarenta e sete, pontualmente.
E enquanto morre, me parto num quarto. Tatuando em tuas costas
Uns três poemas apavorantes. Adocicando com soda cáustica
esse caminho agonizante.
Absorvendo mais outro ser.

Vermelho é a cor do berço.
É a cor do desepero.
De meus lábios a teus pêlos
Vermelho escorre sombrio
Não há paz nessa cidade
Por aqui nunca se viu.

sábado, 27 de julho de 2013

Balada feroz

Tiro o gosto do teu rosto
Minha aposta, meu oposto.
Está frio aqui, minha criatura da noite.
Não tenho aroma de rosas, de baunilha ou morango.
Não sou uma das boas meninas. Te convido pro meu tango.
Sinto a distância na língua, te percorro em pensamento.
Toco o ar à minha frente, tua pele no meu vento.
Quero me enrolar em ti. Garoto-fauno, meu tesouro.
Eu vou te roubar pra mim. De amanhã ao tempo todo.
Não é saudável, eu sei. Quero te aplicar o meu veneno.
Fazer de ti meu amante, meu terreno e hospedeiro.
Quero te beijar na madrugada. Eu e você somos noturnos.
E me perder com você, no mais sinistro dos escuros.
Não existe amor infinito pouco,
Por isso te quero com todas minhas células.
Não quero só o límpido. Quero o confuso e as sequelas.
Minha paixão por você; é um espiral multidimensional
Você me ama também?
Desse jeito assim,
meio animal?

terça-feira, 14 de maio de 2013

In: Passe


A cigana e o coringa
Acertaram uma jogatina
O coringa embaralhou
Ágil como criança malina
O baralho de tarô
Da cigana misturou
Com os risos do traquina
"Não gostei das minhas cartas.
Não, para mim não tem graça.
Desse jeito, vou ter que virar o jogo.
Fazer das cartas, navalhas:
Especialidade da casa."

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Breve


As nuvens estavam baixas, o céu branco. Algum pingo de água ainda tocava o asfalto e por um momento foi possível sentir-se em casa.
Olhava para aquelas ruas familiares com uma expressão séria há muito tatuada no seu rosto.
Um ritmo antigo dançava em seus ouvidos.
Uma lembrança infantil correu-lhe entre os dedos, onde dançava uma moeda velha como distração.
Ouviu o silêncio, a medida do vento, o cheiro do chão. Parecia simples. Os estranhos ao seu redor, um canal desconhecido. Sua vida escondida de si, em uma garrafa jogada no mar. Onde estava?
Um livro, uma dança, uma piada sem graça. Fragmentos se espalhavam por aquele vento fora de época, como pétalas murchas estraçalhadas. Tinha um caminho a fazer, alguns prazos a cumprir, uns objetivos a realizar. Isso lhe tomava a mente, por enquanto. Mas vezenquando...

domingo, 21 de abril de 2013

Doce barganha



Amanhece aqui novamente e como sempre eu não durmo.
Deitada nesse feixe de luz, meu olhar se desfaz em procura.
Em busca de ti, há tão pouco tempo nessa cama.
Em busca de sonhos, para te trazer para mais perto.
Em busca de palavras, para te mostrar com clareza.
Mas não tem jeito, não mais
Vendi meu talento pelo teu amor. A barganha mais linda que já me aconteceu.
Me tornei tosca, débil, repetitiva. Foi o que a cigana disse: Te tiro o gingado, te dou a vida.
Sou parte do todo agora, roubaram-me a tristeza. Em troca, me jogaram num mar dos furacões mais lindos da America Latina.
Todo dia é sufoco, todo dia é poesia. Não sei mais traduzir, meu vocabulário se esvai. E eu queria tanto registrar aquele sorriso extraordinário que só você faz.
Tento te escrever, criar danças de palavras. Uma hai kai, um poema. Uma frase ou o que o valha.
Mas o que apita no meu peito, é Eu te amo, eu te amo, eu te amo. As velhas palavrinhas que são o que se aproxima mais de dizer que te quero todos os dias do ano.
Que só você me dá a paz, que eu jamais achei que existia.
Que teu abraço me leva de carona para o País das Maravilhas.
A verdade é que eu não preciso mais escrever para procurar meu lugar no mundo.
Eu o achei bem aí, no meio desse abraço quente.
O encontrei no teu olhar, na tua barba, na tua mente.
No teu amor maravilhoso, que corresponde o meu ao todo.
Minha confusão diminuiu  Minha tristeza se dissipou. Meu ceticismo, alguém aí viu? Acredito para sempre nesse amor.
Você, meu espírito de fogo, é a minha poesia viva.
Se não se importar, gostaria de te escrever
Milhões de beijos todos os dias.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Abstenção

Ela se absteve de escrever um texto.
Ela tinha tudo em mãos: A caneta, o pretexto.
Mas foi dormir com o oposto do beijo.
Não houve urro; impulso ou desejo.
Estranhou o vazio que a abraçou na cama.
Logo ela, a menina que tanto ama...
Ia escrever sobre o olhar vazio
De um rapaz outrora tão belo, agora retrato frio:
Sobre o esfriar do elo.
Mas pareceu-lhe um tema tão superficial
escrever sobre coisas já enterradas...
Que pela primeira vez sua mão falhou no ato;
e para acompanhar-lhe não restaram nem lágrimas.

É claro ver quando um assunto esgotou.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tik Tik Boom


Bolas de fogo que se chocam, implodem.
Aperto no peito, vulcões de emoção.
Maldita seja essa intensidade doente,
Mal digam minha atração pela contramão.

Jogo tudo, não meço a queda.
Viro lava ou iceberg.
Se não te ignoro, te dou muita trela.
Se não te escanteio, peço que me leve.

Não sei ir devagar, no limite de velocidade.
Imagine então medir as palavras.
Impossível moldar minha mente selvagem,
Contar até 10, bancar a covarde.

Quero tudo do que eu quero,
Não aceito uma migalha a menos.
O que não gosto, eu renego.
Amor ou ódio aos quatro ventos.

Voltei a escrever, parei de beber.
Os tempos tem sido selvagens.
A mente enlouquece, o pulso estremece.
O coração é um músculo elástico.

Já vi tanta coisa, andei tanto chão
Nesses curtos vinte e um anos.
Metade esqueci, deixei na estação.
O resto me acompanha nas retinas.

Todo mundo tem segredos, e eu não sou exceção
Mas tudo que eu queria era calmaria.
Engraçado que encontrei, num rapaz de olhos pântano
E de repente, tudo agora é euforia.

A lover of the wild and a joker of the heart



Ah, vamos lá, quero devorar seu coração.
Te amar bem devagar e depois com a força de um vulcão.
Chega cá, dorme aqui. Pode ficar bem à vontade.
Sem etiquetas, ou linhas retas. Eu sou uma junkie da liberdade.
Eu te dou o mito e também te dou uma garotinha assustada.
Vou me sujar com você num pântano de sonho e de graxa.
Te levo para o começo de tudo, basta segurar minha mão.
Não vai faltar intensidade e mil cores novas vou te mostrar.
Quero quebrar os seus padrões, te mostrar um novo ponto de vista.
Te levar para o olho do furacão ou para o meio fio da pista.
Então sim, me dê sua mão, você pode vir comigo.
Mas vou avisando de antemão, existem caminhos mais tranquilos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013



Ah, mas está tudo escondido. Está tudo muito bem escondido. Entre uma camada, e outra, e outra de intenção.
Eu nunca mais falei nisso, nunca mais contei sobre isso. Gostaria sentar-se e ouvir. Uma história camuflada, pois não? Mas pergunta-se o que está omisso. Pensa a noite inteira nisso. Não parecia compreensível tentar remasterizar a canção?
Faço muito pouco caso. De tudo que se varre para debaixo do casco. Mas na hora de dormir, o pensamento volta em trovão?
Eu não sei o que aconteceu. Fui dar uma volta lá fora. Sentir um sabor diferente. Quem saber até conhecer gente. Feita de pele e de osso, e não de lágrima e criação.
Ninguém sabe o que ocorreu. A escritora, será, morreu? Fica difícil explicar? Te deixo com a dúvida e a intuição.