quinta-feira, 26 de abril de 2012

Eu escreverei em palavras de fogo

"Eu escreverei em palavras de fogo,
Eu escreverei-as na sua pele.
Eu escreverei sobre Desejo,
Escreverei inícios, escreverei sobre pecado.

Você é o livro que mais amo,
Sua pele contem apenas a minha verdade,
Você será um palimpsesto,
Palavras da idade reescrevendo a juventude.

Você não será queimada numa fogueira,
Ou será enterrada numa prateleira.
Você é minha missiva para Desejo
E você nunca se lerá.

Eu tracejarei cada palavra e vírgula
Conforme o crepúsculo final cairá.
Você é minha história, meu sonho, meu drama.
Descubramos como terminará."


- Neil Gaiman.


Este poema do inspirador Gaiman é uma daquelas obras que me faz pensar "Nossa, como eu queria ter escrito isso!" e chegou às minhas mãos através do blog onde o Rafael Castro escreve. Apreciem. 



quarta-feira, 25 de abril de 2012

A bela adormecida no bosque (Ou Só um texto ruim.)

Ela selou o envelope com a língua adocicada. Esperava intimamente que ele não acreditasse em suas mentiras mal contadas. Esperava isso inocuamente, como quem espera às oito horas o trem das sete. Com aquela ânsia infantil dos que trabalham contra suas próprias causas.
A sutil verdade é que ainda esperava, descrente, um milagre. Recostada na cama, à noite, lutava contra o almejo tão antigo quanto vivo. Tão antigo quanto o tempo, seu eterno inimigo.
Com suas esperas tom de café, então prosseguiu na corda bamba: Batia o ponto, sorria à toa, levava na boa. Sua calma a paralisava, aos poucos pela fria redoma da apatia, congelada; Penteava os cabelos, saía à noite, contava uma piada ou corria na praça.
Tinha se acostumado à matrix da própria sensibilidade. Não era ruim não, agora já natural. Se deixou levar esperando que fosse também levado embora seu mal. Mas só esperava. Como ainda esperava seu milagre.
Esperava que quebrasse sua matrix, atravessasse sua redoma, se sentasse ao seu lado; Lhe falasse sobre tudo ou talvez só sobre o vento. Lhe quebrasse as barreiras, estraçalhasse as fronteiras, reavivasse o sentimento. Lhe ressucitasse, de fato, porque isso em que ela se encontrava não era menos que uma espécie de morte. Lhe rasgasse os textos - mentiras e apetrechos - e transformasse sua sorte.
Mas até lá ela conta mentiras. Desfruta inerte desta imitação de vida. Até lá, bela adormecida no bosque.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Abril


Levantou-se da cama, mesmo confortável como estava, enrolada em seus lençóis, e foi fechar a janela. O  vento frio da tarde totalmente nublada, de um algodão taciturno, soprava brisas congelantes e ela estava sendo aterrorizada por seus sonhos novamente. Deu uma breve olhada para o corredor, vendo que estava sozinha em casa. Ultimamente era sempre assim. 
Em seguida, sentada na cama, deparou-se com o espelho do guarda-roupa e assustou-se com o que viu. Sua composição de já mulher adulta, cabelos desgrenhados e uma blusa velha de dormir, parecia ter uma expressão confusa e infantil diante do espelho. Seu corpo fino e pálido, perdido nos lençóis parecia totalmente frágil ante o próprio olhar curioso. Forte como se tornara, quedava-se totalmente derrotada diante de um sonho ruim. Sim, forte como se tornara mulher, não passava ainda de uma criança confusa e adolescente ansiosa.
Os piores sonhos, e isso nem todos sabem, são aqueles mais bonitos. Os piores sonhos são os que nos abraçam em calmaria, nos transportando a sentimentos incríveis que não (mais) nos pertencem. Estes sonhos nos pegam no colo como babás cruéis, embalam e trazem paz somente para em seguida nos jogar na cara a estranha realidade de uma cama fria numa tarde de abril.
Um sonho maravilhoso, pensava ela agora, certamente tem o poder de afogar uma mente sensível. Mesmo que por poucos minutos.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Vende-se

Saudações, jedis.

Então, cá venho eu mais uma vez atrapalhar os textos do blog com anúncios (alguém tem que sustentar as crianças...).
Dessa vez venho convidá-los a uma leitura um pouco diferente da que vocês têm aqui.

Como alguns já sabem (ou viram no facebook...) trata-se do livro "Na calada da Noite", escrito e publicado por mim algum tempinho atrás. 

O conteúdo reúne contos e poemas de estilos variados, desde o gótico até o romântico. 

Os exemplares restantes da época do lançamento passaram um tempo engavetados, mas agora eu estou fazendo uma "queima de estoque" (vejam só, eu tirei até uma fotinha para vocês ): )

Então, quem interessar-se pode me contatar pelo e-mail kristalfox@live.com ou por comentário aqui no blog mesmo. O preço é R$15,00 e restam poucas edições. Aproveitem!
                                                                                                                                                
                                                                                                                       Um abraço.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Quer trocar uma ideia?

"Como é estranho ver você tão meu, dela."

Não é brincadeira a força de uma ideia. Eu estive pensando nisso. É engraçado como nossa mente é autocondicionadora.  Supreendente o quanto podemos ser nossos próprios algozes, criando ideias e nos atendo a elas. Uma ideia é como uma daquelas máquinas de Matrix. Ela toma força própria se você a alimentar (tudo bem que eles não alimentavam as máquinas, mas...) e então ganha asas. Uma ideia é uma quimera. Nós as criamos, por diversos motivos, e depois, se deixarmos, elas passam a nos criar.

Nós temos mais poder sobre nosso próprio bem-estar do que imaginamos. Temos o poder das ideias, de modificá-las e alterar a "lente" pela qual as vemos. Mas o problema é que depois de criar raízes, é difícil arrancá-las. Uma ideia é muito aderente. E também contagiosa.

Ultimamente eu tenho brincado de mutar ideias, em ordem de sobreviver. Tive que passar a criar novos ângulos e lentes, senão, amigos, não ia dar. Tive que ver derrotas como escapes e perdas como janelas.  O problema é que embora eu faça isso, como eu disse antes, uma ideia bem formada é resistente. E quando ela é alimentada por outros, então, ela ganha corpo. Fica fortinha.

Daí que mesmo quando eu me "livro" dessas ideias, de vez em quando elas voltam para me assaltar, durante o sono. Me pegam desprevinida, levam embora meu sono e tranquilidade. E de quebra ainda me dão um soco de lembranças e arrependimentos.

Eu não sou boa em lidar com o tempo, com erros e não sou boa em lidar com ideias. Paranóica como só eu, acredito fielmente nas minhas próprias criações. Sou fiel da minha própria religião. E que perigo é esse de ser crente em qualquer coisa.

Que perigo também é esse de se acostumar  ao autocondicionamento. De aprender a mutar tudo que convém e fugir assim da "realidade"(?). Não sei do que tenho mais medo: De permanecer tão vulnerável ao mundo, ou de conseguir (finalmente) me tornar invulnerável.

Só sei que tenho medo.

E seja lá o que isso for, o nome disso não é amor

Em minha nuca tua mão treme
Em você, em barco
Você mastro e eu leme
Nossos corpos neste arco.

É um contato alienígena
Tuas costas nuas frias
no meu tato de egípcia
reiventando a agonia.

Te gotejo em cada beijo
meu desejo de te ser.
E aprisionar tua alma
no sofá de minha sala.
Sem saúde nesse auê.

Tanto pouco ainda tenho,
tudo ainda em ti desenho
e me absorve sem querer.
Não me pedes, nem escuta
o som dos passos da minha lua
se escondendo na tua rua,
me embriagando de você.

Me enciumo com o passado
e com as paredes do teu quarto,
com tua blusa, com teu garfo
e com cada teu retrato
de um desconhecido você.

É doente em minha mente,
que de tu já tanto tem.
Mas ambiciona, intranquila
ser teu norte, tua ilha
e derramar em ti eu creme.
Você olha, comedido
Psicopata e tranquilo,
Consciente do delito;
Eu laranja, você espreme.