sábado, 31 de março de 2012

O triste caso do alpinista pedante


E quando percebeu então que tudo, tudo, tudo foi em vão? Tudo que tinha eram idéias. Suas idéias tornaram o mundo a seu redor um monstro e o tornaram um monstro para o mundo. Viver antes era difícil, mas agora estava tornado-se indigerível. Tinha poucas companhias: Sua vaidade, orgulho e intolerância. E todas elas pesavam tanto em suas costas já perfuradas. Ferimentos já cicatrizados de tanto tempo que fazia que suas asas foram arrancadas... Agora, em contrapartida, pareciam nascer asas de morcego.

O reflexo no seu espelho agarrou seu colarinho, o ergueu do chão com violência:
-Sua teoria é bela, com certeza. Sua teoria está toda certa. Mas tudo que você tem é a teoria, não é? Sim, você é o antídoto de cada descoberta sua.
 Largou e desvaneceu. Ou talvez fosse ele que não podia mais vê-lo, era intangível. 

Descobriu tanta coisa que na verdade não era nada. Descobriu que não devia ter nem começado a descobrir. Muito tempo desperdiçado e outras coisitas más. Era um cientista, uma cientista. Era esse ser incógnita que tudo tinha jogado fora.

O quanto não fora sacrificado para obter suas respostas teóricas? Arrancou suas raízes com violência, pois elas o limitavam, o prendiam ao chão. Arrancou suas raízes e ficou sem lar. Preparou-se para voar, sem saber que o céu era só o reflexo do mar. E vice-versa, exatamente na mesma proporção. 

Cavou fundo para buscar o que lhe concernia e no meio do trajeto perdeu a corda para as beiradas. O problema é que o real se manifesta  é no raso. Agora já era, estava preso embaixo da terra, nas origens. Estava presa lá junto com pedras, como alicerce. Seria alicerce para umas coisinhas talvez, para outras já era. Seria uma boa idéia, um bom pensamento, um bom argumento, mas dormiria sozinha. É assim que seria.
Escolheu deliberadamente viver no mundo real e agora que enfrentasse as conseqüências. A ignorância não é uma benção, tola pedante, a ignorância não existe.

De fato,

A vaidade é o maior dos pecados.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O amor é liquido e transborda pelas retinas


Antes de mais nada, uma idéia velha e muito certa: “Deus é amor”.  Calma, calma, não é o que vocês estão pensando. Ocorre que como Deus, o amor é um conceito inatingível, irrealizável. Inexistente, para ser franca. Ocorre que entre todos os conceitos abstratos, esses dois ficam no top 2 em “depender da subjetividade do intérprete.” Tal como a ideia de Deus, a de amor não tem uma forma certa; Sua definição depende totalmente do modo como é pensado. Ele não existe, em si.
 
Ele é pensado, imaginado, suposto. Nem substantivo abstrato posso afirmar com certeza que ele é, porque tem quem acredite que ele não precisa de outrem para existir. Digamos que essas duas palavras (como as outras) no fundo são copos vazios que enchemos como uma mistura de sensações/ânsias/esperanças/medos/necessidades, traduzidas numa idéia. A idéia pura, abstrata, é uma coisa curiosa e o melhor dela é que é absolutamente inexistente. 

Dois camaradas podem estar conversando sobre amor, mas na realidade estarem falando sobre coisas totalmente distintas entre si. Idem com Deus. E com todas as outras coisas, na verdade. Eu costumo dizer que o que eu vejo vermelho talvez seja o que você vê azul e nós jamais saberemos. Porque alguém não pode entrar nos olhos de alguém. Mesmo que olhe através dos olhos de alguém, os olhos que olham através continuam sendo os seus. Cada um de nós tem/é um universo. Eu sou o centro do meu universo e você é do seu. Como poderia ser diferente?

 “Egocêntrico” não deveria ser uma ofensa e sim uma afirmação retórica e desnecessária de tão lógica que é. Como não ter seu ego (eu) como centro? É como pedir para o olho de um furacão para localizar-se em suas beiradas! A exceção para isso (e não completa, mas somente pelas brechas e em partes) são as pessoas espiritualmente superdotadas detentoras do dom (ou exercício) da empatia. A maior virtude, em minha opinião (se é que ela vale de alguma coisa). Ver o outro no espelho. Eu não possuo, mas queria tanto, tanto possuir que às vezes quase possuo. Mas não. É que é o tipo de coisa cujo brotamento a gente não pode forçar com a razão pura. 

A maioria das grandes coisas é assim, na verdade. Brota de dentro, sem forçar. Ao contrário, num relaxar de pulmões. Vem da outra razão, a razão sinestésica. O que a gente chama de intuição, mas na verdade é percepção. O que a gente chama de espírito (e que eu teimo em acreditar em espírito). Renego tudo: a alma, o coração, etc, tudo em prol da mente. Mas me deixe com o espírito também (ou ‘sensibilidade’), que ainda não estou pronta para deixá-lo ir. 

Então é só isso por hoje, só essa questãozinha epistemológica e me perdoem se os iludi com o título, foi despropositado. Fico-lhes devendo um texto sobre O amor líquido que transborda pelas retinas, porque por mais que eu negue a existência de sua definição, negue o consenso quanto ao seu significado, e negue até sua aplicabilidade prática eu também tenho meu muito subjetivo conceito de amor. E sim, cética estupidamente romântica como sou, acredito que ele transborda pelas retinas.

terça-feira, 27 de março de 2012

Ecos. (Me olha no espelho.)


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Procura-se em ecos.
Desbrava-se por neblinas.
Me olha no espelho.
Deságua-se em metáforas.
(O jeito são as metáforas...)
A imprecisão da matéria;
A maestria da inexistência.
Desbrava-me as retinas.
Procura-me as colinas –
De dentro, de fora. (Não são elas a mesma coisa?)
Muta-me as cores, mutando-se a íris.
Me olha no espelho.
Deságua-me em matérias!
E maestra-me em neblinas!
Colina-se em procura – Inclina, declina.
Derrete-se em palavras
Lambuza-se em navalhas!
Desrealize*-se/me. 
Abre as portas.
Abre as portas!
Muta-te as íris
E alcança o infinito...
Me olha no espelho.




"If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite"

"Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria para o homem como é, infinito"

-William Blake.


(Volto ao normal em breve, prometo.)

segunda-feira, 19 de março de 2012

O assassinato da sementinha

Ela sentou no chão e chorou sob o leite derramado.
Estava de luto pelo crime que cometera contra a sementinha.
Mas o destino da sementinha há muito fora traçado
E selado o futuro trágico que o tempo a prometia.

A sementinha fora plantada embaixo de um teto de concreto
E dela várias lindas plantinhas floresciam.
Mas chegou um momento em que chocaram-se contra o teto,
E lugar para onde evoluirem já não mais existia.

À partir daí só podiam voltar para baixo;
E junto ao seu talo formaram um elinhado tão complicado!...
Que prejudicavam a si mesmas e às suas vizinhas...
Não tinha jeito, estava tudo condenado:
A semente querida tornara-se daninha.

Por isso a jardineira, consciente de seu erro de estratégia,
O tempo todo planejando uma evolução que jamais existiria
Arrancou a sementinha da terra com com mãos de ferro,
Olhos de lágrimas e muita melancolia.

É claro que nesse momento inicial ainda existia na terra
A triste sensação de existência da sementinha!
Igualmente, portanto, persistia na jardineira
A dor pela perda da querida sementinha daninha...

Mas o tempo passaria e a terra voltaria a ser fértil;
E a jardineira se voltaria às suas outras plantinhas...
Tudo passaria, até mesmo a memória
Do tenebroso assassinato da sementinha querida.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Meet me on the equinox. (O conto.)




“Existem mais coisas entre um mundo e outro que nossa vã...”




Pisou naquela areia como se fosse nada. Chegou naquela praia como se fosse óbvio. Como se não pudesse ser de outra maneira. E lá ela o esperava. Seus pés faziam seus papéis afundando-se na areia clara, que recebia carícias da água negra. Em frente a eles, enfim, o horizonte escuro. As estrelas brancas eram a única iluminação para aqueles dois rostos pálidos que encaravam a escuridão infinita. Elas os observavam, assistiam a ironia dos acontecimentos (sobre-)humanos. São jocosas, as estrelas. Sempre fascinadas por nossa doce miséria. Sempre fascinantes. 

-Então é isso, não é?
 

-É. É isso.
 

Ela olhou para cima:
-Hoje Júpiter faz lua conosco. Conclui seu ciclo. Eu acho que hoje vai ser um dia importante.
 

-Hoje nunca aconteceu, agora que é importante... E você sequer acredita nessas coisas.
 

Ela sorriu:
-Eu acredito em tudo.
 

-E em nada.
 

Eles riram aquele riso de fim. Não de dia, mas de mundo. Amanhã seria outra vida, jamais saberiam. Ninguém podia imaginar que as respostas eram proibidas, que com elas viria o esquecimento. Agora, eles sabiam. Agora tudo parecia claro. Claro e calmo: a conformidade das mortes múltiplas.
 

 -Nada será sempre o mesmo depois de hoje. – Ela disse e o olhou, enquanto uma estrela se fazia cadente acima deles.

Ele tocou sua mão como se ainda fossem humanos, como se ela ainda fosse a menina de saia laranja e óculos redondos. (Parecia ter sido há tanto tempo atrás...)


-Nada nunca foi como antes. Nunca houve um antes.


-Não desde que você entrou no meu apartamento no primeiro dia de nossas verdadeiras vidas.


-E você abriu a porta esbaforida, sem fôlego por correr para atender a campainha. Antes daquele momento ainda era você, a menina de olhos grandes, antes de nossos olhos se baterem pela primeira vez. Antes daquilo ainda era tudo... – Parou de falar e sua mão pressionou a dela com um pouco mais de força.


Ela o olhou clemente, embora compartilhasse do resquício de angústia:
-Aquilo foi outra vida.


-É, foi. – Ele soltou o fôlego e sua mão, no momento em que uma rajada de frio o acalmou, o trazendo de volta para o todo ao qual agora pertenc(er)ia, tão distante do uni que outrora fora. Do corpo que outrora fora.


-Sabe. – Ela dizia com um sorriso no rosto. –Aqui foi assim, mas em outra dimensão nos conhecemos num café. Você passou por mim e foi aí que seus olhos me disseram.


Ele riu também, pois conhecia além dessa outras versões: 

- Sempre é diferente, mas o resultado é sempre igual.  E ao mesmo tempo é só aqui agora.

Ela não podia discordar, mas não fazia sentido concordar. Todas as palavras que proferiam, de fato, eram supérfluas e desnecessárias. Todas as palavras o foram desde o momento em que seus olhos fizeram a ponte. Em que seu corpo foi somente o meio. 
A malícia tornou-se inócua, a nudez natural. Poderiam andar nus se o mundo fosse seu país. E de fato era, de fato foi por um tempo, enquanto descobriam a verdade aos poucos sem terem ainda tornado-se estrelas. Quando ainda humanos, descobriam-se mutuamente, sem entender o reflexo e o espelho que eram. 
Nas tardes de chuva e sol e sorrisos sutis que cada vez os levavam para mais longe de seu contexto. Quando ainda humanos, aos poucos vítimas da mutação que seu encontro proporcionara, redescobriam o que adormecido em seus interiores os definia.
 

Mais uma rajada de vento frio.
 

Nesse momento mais três estrelas caíram e eles perceberam que se aproximava o momento:
 

Ela levou a mão esquerda ao seio, o desnudando. Ele compreendeu e fechou os olhos. Já não eram mais corpos nem homem e mulher. Já não eram as palavras que serviam para comunicarem-se (A conversa deles era mera distração). Não desde que ela abriu a porta esbaforida, a menina de saia laranja. E até antes disso, quando eles se viram pela primeira vez naquele lugar de gente improvável e seus olhos se bateram. Sim, uma colisão e tanto. Bateram-se e disseram verbos sobre a vida. Até então adormecidos. Não desde que os olhos dele atingiram os dela naquele segundo fatal, que os levaria de volta para casa.
 

 A queda de duas estrelas ofuscou o mar opaco.

Tudo era absolutamente tranqüilo e cheio de conformidade no fim.


terça-feira, 13 de março de 2012

Nós-fantoches: A facilidade de ignorar fontes. (Ou sobre KONY 2012 e afins)


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Por volta de uma semana atrás chegou até mim o vídeo da campanha KONY 2012, que têm repentinamente ganhado muita visibilidade aqui no Brasil, e me propus a ajudar na divulgação imediatamente. Alguns amigos que também partilham de uma certa preocupação teórica em relação a causas sociais também estavam se mobilizando e diante do apelo do vídeo realmente tivemos a incrível sensação de finalmente estarmos aptos a interferir de modo positivo no quadro geral (de dentro do conforto de nossas casas...)

Mas não era bem assim (geralmente não é) e há poucos dias tenho visto no meio online (o mesmo pelo qual tomei conhecimento do vídeo) argumentos e fatos que se contrapõem sobre a veracidade do mesmo, apontando os crentes na premissa do vídeo como ignorantes e manipuláveis por crerem em qualquer coisa com um mínimo de apelo social que é exibida na internet.

No entanto, ao terminar de ler as muitas críticas, percebi que a veracidade dos fatos alegados nelas era tão duvidosa quanto a dos fatos jogados no vídeo. São todos fatos que indicam fontes, mas quando fui em busca das fontes (de ambos), elas jorram de mais textos de meios onlines com discursos enfáticos (seja para um lado e para outro), mais textos que buscam convencer o leitor e cujas motivações verdadeiras talvez jamais saibamos. No entanto, eu não estou aqui para falar sobre os dados apresentados nas críticas, as informações novas ou os depoimentos de ugandenses.

O fato é, meus caros, que se eu acreditasse piamente nas críticas ao vídeo eu estaria sendo tão ignorante quanto talvez tenha sido ao me impulsionar tão fortemente por conta do mesmo, sem ter o conhecimento necessário a respeito. Eu estaria sendo tão manipulável quanto, deixando convencer-me por argumentos bem elaborados e afiados que, de fato, não me mostram nenhuma fonte convincente. Portanto não, eu que tão impetuosamente os tentei mobilizar para participar dessa campanha, não irei agora chegar aqui e apontar o dedo para os que o fizeram, desconstruir o que até há pouco acreditava. O que eu quero dizer é o seguinte:

A conclusão, para mim, sobre a veracidade história de KONY é, portanto, é nula. A conclusão sobre nosso comportamento, no entanto, é bem consistente: No meio em que estamos vivendo é praticamente impossível saber a “verdade”. E não estou falando de termos filosóficos agora e sim da verdade dos fatos, pura e simplesmente: O que aconteceu, como aconteceu, quem fez e por quê. Nós, que vivemos no meio civil e habitual, longe do olho furacão, recebemos mensagens centenas de vezes filtradas antes de chegarem a nossas mãos. Recebemos o que querem que recebamos, do modo como querem. Informações que se contrapõem totalmente, apresentando “fatos” que se contrapõem totalmente se impõem sobre nós diariamente e qual (e se) alguma delas é certa, é real... Talvez nunca saibamos. Porque como se não bastasse a facilidade com a qual chegam a nós, me parece também que somos acometidos por uma preguiça crônica de buscar fontes. Ou simplesmente de nos conformar com o que é secamente nos apresentado.

O que eu concluo com toda essa palhaçada, que sinceramente, se você for parar para pesquisar bem, dá é nojo (Não do mérito, mas sim de como é possível pender como um bonequinho para lá e para cá diante de combos duvidosos de informações) é que apesar da suposta inveracidade do vídeo em si, seria bom que o público que tanto se mobilizou com o apelo cinematográfico do vídeo conseguisse conservar um pouco desse espírito. Mesmo que KONY 2012 seja uma farsa, existe algo de aproveitável na reação do público (muito embora meu desencanto e desapontamento com toda essa história no momento não me permita explorar esse elemento).

Percebo, porém, depois de ter me sentido tola, manipulada e até ignorante, que talvez seja mais plausível para quem busca fazer alguma "diferença" começar pelo nosso quintal, pela nossa rua e pelo nosso bairro – o que está ao nosso alcance e cuja realidade podemos ver com nossos próprios olhos.  Talvez seja mais sensato buscarmos primeiro consertar o que está errado aqui e depois aumentar o alcance do raio de nossa inter(circun)ferência. Em vez de tentar, através de meios muito menos eficazes e bem mais duvidosos, interferir em problemas (a nós, incognoscíveis) que estão em um lugar bem mais longe do mundo.

sábado, 10 de março de 2012

(...)


Meus trechinhos
pra você
como bolhas 
de sabão
como flores
de crochê
como um co-
ração na mão.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Words fail me

Eu não preciso de muita coisa para ser feliz.
(Sequer preciso que você precise de mim)
Basta você tomando aquele café muito doce comigo, de manhãzinha. Andando pela cidade.  Sorrindo ou não. Aqui.
Sem sequer chamar isso de amor.

Mas agora,
isso está tão longe,
não?

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Grande Crime. (Ensaio sobre a alienação)

Esse é longo: Tome fôlego ou vá para outro.



Quando eu digo que nossa realidade atual faz eu me sentir emocionalmente doente, acho que devo ao menos uma explicação. Veja bem... Eu me sinto literalmente absorta com a natural normalidade  com a qual a maioria de nós acorda e passa seus dias em atividades habituais sem sentir ao menos uma centelha pulsante de repulsa pela situação robótica em que nos enquadramos.

Não, eu não estou falando do "Sistema", não especificamente, embora esteja intimamente atrelado à essência do "problema". Estudar, se esforçar e trabalhar, a meu ver, são precisos para quem pretende viver nessa formação social atual - o troco e a moeda - não vejo nenhum problema nisso. É uma questão de pesos e medidas, um contrato de compra e venda que firmamos (ou melhor que FIRMARAM por nós) em algum momento aí perdido no tempo. A formação teórica do Estado de Direito é linda, é simplesmente linda, sinto-me até emocionada em falar nela - sinceramente. Mas não. Definitivamente não é esse o problema.

Não parece estranho que ao passo que nossas Leis mais do que em qualquer momento na história ditam sobre liberdade, dignidade, segurança e igualdade - amoldando todos seus dispostivos para tentar alcançar estes objetivos - o nosso povo encontra-se mais e mais ausente da realidade por trás disso?

Realidade... Esse certamente é um conceito engraçado de ser discutido na atual formação de  "VERDADES " múltiplas em que nós vivemos. Nosso jovem, nós, somos todos donos da verdade. Empenhar a verdade, a revolta e o sarcasmo sobre questões que sequer compreendemos, que absorvemos muito pouco através de meios eletrônicos, parece ter tornado-se a bandeira da nova geração.

O desuso da subjetividade, meus caros, é alarmante. O desuso da subjetividade é literalmente  preocupante. Eu, diariamente, me sinto extremamente assustada em diversos momentos pela averiguação da quase cômica semelhança que nossos semelhantes porventura apresentam com robôs.

Sabe por que? porque o grito de guerra nunca foi tão alto. O jovem nunca clamou tanto por justiça como clama hoje em dia...NO FACEBOOK. Ele clama por algo que ele não entende, ele clama por algo que ele não idealizou, ele clama pois seu inconsciente coletivo o diz que é isso que deve fazer, porque ele viu na internet, porque um professor apresentou essa visão, porque ele OUVIU, não porque ele pensou. E olha que aí eu estou falando do jovem que ao menos digna-se em pseudo importar-se com isso.

No entanto, meus bens, eu sinto extremamente falta de pessoas que tenham chegado a essa conclusão por si mesmas. Eu sinto saudade do desenvolvimento mental, da elaboraçao de ideias que (eu prefiro acreditar que) existia outrora. Porque do jeito que as coisas estão, as ideias parecem vitrines vazias exibindo filmes antigos, repassando as mesmas histórias. Mas nisso tudo... onde estão as ideias novas? Onde está o pensamento além? Onde está aquilo que demonstra que ainda podemos pensar por nós mesmos, fazer SURGIR origem, não só ser espelho?

O grito de justiça que ecoa (em silêncio) é nulo, portanto. É inócuo. Sua existência é um elogio ao ridículo.

Me deprime como hoje em dia o jovem pensante é marginalizado, me deprime esta consciência pseudo-evoluída de que não adiante pensar, de que isso é hipocrisia, de que o "correto é ser sincero em relação a seu papel nulo no mundo", que o certo é se render.

Me DEPRIME que hoje em dia diz-se em alto em bom som, alegue-se, orgulhe-se:


"Eu sei que tais coisas são importantes, mas eu tenho preguiça ideológica."


É preocupante o alcance tenebroso que essa PREGUIÇA IDEOLÓGICA provocou no nosso jovem, na nossa vida, nessa preciosa dádiva da qual só dispomos aqui e agora e que graças a esta doença, está sendo desperdiçada em sua vertente mas transcedental, em sua vertente PENSANTE.

...


A culpa? A culpa não é nossa. A culpa não é dessa geração, não, não é.

A culpa é de uma tragédia friamente arquitetada por criaturas degradantes e degradadas em prol de seus próprios fins.
Calma, não estou falando de alienígenas e sim de algo bem pior chamado nossa própria raça humana. O VAZIO ideológico que se instaurou soberano sobre nossas cabeças, alimentado pela preguiça a qual fomos acostumados desde pequenininhos por cores brilhantes e inutilidades necessárias é arquitetura fantástica (no sentido literal da coisa) imposta com intuito de supressão de nossa capacidade cognitiva, de nossa capacidade de questionar, de gerar, de crescer?

Palmas, governantes. Realmente foi um trabalho de mestre.

Cabe aqui esclarecer que me refiro a um instante específico na história, precisamente (sendo até precisa demais, talvez) ao momento histórico onde houve o que gosto de chamar de O grande crime. Ocorre, meus caros, que houve um momento em nosso país, aqui mesmo, no Querido Brasil, onde a intelectualidade, artes e cultura estavam desenvolvendo-se como nunca. O jovem era militante porque o jovem estava revoltado com o que se opunha ao dever ser. O jovem sentia fervilhar a chama de fazer justiça e não só buscava distrair-se pois seu seriado favorito estava em hiatus.

A chama da razão começava a apontar para a capacidade humana, começava a dizer: "Ei, meu caro. Você pode fazer isso."

Houve isso e então houve a tragédia. Um genocídio mental e intelectual imposto pelo regime do terror que CONDICIONOU a massa social à simples, pura e PERIGOSÍSSIMA ideia de que é perigoso pensar.


E isso mudou tudo.


Até hoje.


Pois a partir daí passaram a nos mudar e moldar desde a raiz, desde nossa primeira ida à escola, desde o discurso e sistema a que somos academicamente e escolarmente submetidos, desde os comerciais que assistimos na TV em nosso tempo livre, desde a impossibilidade de adquirirmos livros e a memória histórica que nossos ascendentes nos transmitem mesmo que inconscientemente. Desde todo o jorro infindável de necessidades falsas que nos são apresentadas como verdadeiras, muitas vezes fruto de real e intensivo estudo mental, o que, meus caros!, é extremamente assustador.

Então não. Não podemos ser responsabilizados (ao menos integralmente) por este quadro. Por este crime.


...


Eu lamento do fundo do meu coração o que aconteceu com o nosso país e acredito que vocês (vocês? alguém aguentou até o fim desse texto maçante?) sabem exatamente do que eu estou falando quando me refiro a todo esse processo histórico.
Se bem que... Eu também não sei se foi bem assim, como posso saber? Mas espero que tenha sido. Porque por mais trágico que possa parecer este ceifamento, me parece mais trágico ainda pensar que tudo sempre foi assim, como apresenta-se hoje.

E pensar que já houve algum dia essa erupção intelectual torna possível obter esperança de alcançá-la novamente, por mais que pareçamos estar caminhando em direção ao seu extremo oposto: O maior inimigo do caminho à obtenção de um conhecimento é a falsa ideia de já se o possui.


É isso. 

Hoje eu vou fazer algo muito atípico de mim e pedir, pela primeira vez desde que criei este blog, que quem ler este texto, comente. Por favor, acrescente sua ideia a essa ideia. Estou curiosa.



Um abraço.

(F)