domingo, 29 de janeiro de 2012

Só um momento

As mentiras que a gente conta para si mesmos
as mentiras em que a gente tende a acreditar
as mentiras que só a gente entende
Duas décadas de erros
uma pequena lista de coisas a consertar
Ela queria comprar uma saída daquela cidade
Não estava fácil viver naquele corpo de gente
Ela queria comprar uma entrada para o mar
Não estava fácil viver dentro daquela mente.
A verdade podre
é que todo mundo quer ser cuidado,
todo mundo quer amar
e o que é que tem de errado?
Mas e quem não tem nada
de puro para oferecer?
Quem já viveu seu ápice
e agora vive seu perecer?
Eu não acho justo essa natureza humana
nos engolindo em simbolismos,
Jung e seus arquétipos,
Freud e seus incestos.
E ao findar do dia que somos nós
além da ponta de um iceberg
que embora aterradoramente denso
para a existência
é insustentavelmente leve?

Não-soneto sobre a posse

Você me quer colocar num chaveiro e pendurar no seu bolso. Você quer trançar meus cabelos, quer pintar o meu rosto. Você quer me levar com gentileza para o seu próprio calabouço. Me quer de noite e de dia; No jantar e no almoço.
Você quer me pôr numa corrente ao redor do seu pescoço. Que ajustar minha lentes ao teu grau tão absurdo.
Faz uso do seu magnetismo para me  manter em sua órbita. Me colocar entre seus dedos como se eu fosse um de seus charutos.
Quer me jogar no mundo para apreciar minhas peripécias. Mas com uma corda no meu pescoço ou correntes em minhas pernas. Você quer todos ângulos do que existe em meu mundo. Quer penetrar neste prisma tosco com teu golpe mais profundo.
Gosta de me ver brincando fora, mas contanto que seja em seu jardim.
Você quer absolutamente tudo
Que conseguir extrair de mim.

domingo, 15 de janeiro de 2012

I wanna hold your hand

Your pale, beautiful, soft hand. I wanna hold you tight. Like we did tonight, like we'll do tomorrow but like we won't be able to do for much more days to come. I wanna hold you in me. Your scarying face, your tender face, your weird face, your intense face, your concentrate face while you listen Pink Floyd. Our jokes, our songs, our weird foods, our endless talks, our many mornings at your house, our many afternoons anywhere, our many nights around the town and around the wine. Our games, our inner nicknames, our private world we built so beautiful, so complete and so incomplete because it'll end soon. Sometimes i feel nothing towards you. Sometimes i feel everything there is to feel, like now. Maybe it's the night, maybe it's this cheating dawn, improving my senses. Maybe it's the sweet perspective of the end. Or maybe it's the still fresh scent of yours in this shirt you gave me. Maybe it's everything, maybe nothing. Maybe it's all in my mind.


"-Nossa, você, se pudesse, andava com ele pendurado no pescoço."

Oh well, maybe, maybe.

Good Friday - Coco rosie (Só que ao contrário)

Foi sutil o momento. Quase imperceptível.
Ela tinha ido dormir pensando nele e acordado pensando nele. O dia anterior repleto de pensamentos nele, pensamentos sorridentes. Ele tinha se tornado para ela o sorriso fora de hora. A sensação de “Tenho que mostrar isso a ele”, a delicadeza da alegria.
Mas houve esse momento e houve o próximo.
Ela não saberia dizer o que se perdeu, se perdeu-se aos poucos, no rastro sutil dos dias de ouro ou se perdeu-se no repente estranho entre descer daquele ônibus e tocar a campainha.
Mas o fato é.
O que houve? Como houve? Quem ouve?
Tornou-se o vácuo dos ouvidos do coração, irrelevante o toque de mão, apuradíssima sua poética visão.
Preto no branco foi o que viu.
Bem mais real.
Não mais anil.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

La dulce.

Olhando em retrospecto, desde o começo anunciava-se o fim.
No coração de uma somente criança, na época, que dialogava com as criaturas imaginárias de seu jardim.
Ela costumava imaginar a sombra negra de outra vida sobre sua pessoa, 
mas na verdade era dela mesma; A sombra do futuro que hoje lhe envolve.
Pode-se dizer, em termos simples, então, que desde o começo aquela criança não foi bem normal.
Suas palavras versavam sobre algo muito distante de sua realidade, mas com um perigoso cheiro de 'mal'.
O problema prático se deu mesmo quando passou a tornar suas palavras ariscas, realidade: Um laboratório vivo literário.
Estranhamente sentia-se bem próxima do lado mais sombrio da vida, E com seus pés já não tão de menina, pisou nesse pântano sem malícia.
O procedimento agora era preencher o vazio com o vil. Como esperar que a sanidade dessa menina ficasse saudável com tudo isso?
No entanto, foi chegado o dia, em que olhando pela janela 
A já não tão menina, mas mulher, relembrou-se do nome dela.
Da criança que escrevia sobre bules de chá de peixinho dourado,
Que dialogava com a noite, Que era a tinta de seu próprio quadro.
Percebeu então insuficiente Sua arte mestra de versar sobre o vazio,
que conquanto a consumia, sua pureza antiga dirimiu!

Como, depois de tudo isso, então
Resgatar aquela criança, aquela menina
Que achava que maldade era só nome de poesia?


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Na sala de cirurgia

Que mania feia, que mania besta. Anos a fio, anos enfim. E você continua cometendo o mesmo pecado, minha querida Evinha?
O pecado original ao contrário, colocando a venda e amarrando o laço - Não crês estar na hora de mudar de estratégia?
O momento é este, a hora é esta. É hoje e há 10 anos atrás quando ainda criança você descobria o que era ou não eficaz.
Sua razão, tão dotada de emoção, é falhíssima. A íris translúcida - cor da natureza bruta é ceguíssima! A piada de teu nome, tão inadequado à tua fonte - Tão condescendente à tua essência. Clemência - A clama e clama logo. Implora, pede colo. Vem cá, me dá um sorriso.
-O problema é que o sorriso dele é o mais lindo do mundo.
Do teu mundo, meu amor. E nesse segundo. Semana que vem é um mundo que vem. Vê apesar, meu doce. Vê além.
Tantas vezes prostituistes teu sentimento - Em troca de simples e simplórios lamentos. Julgando visar em cada cão uma visão.
-Não voga.
Não vale, destoa. Chega cá, abre mais. A mente do coração, eu sei que você é capaz.
Acende a luz, ascende a alma. E que inicie o procedimento.
Não precisa de tempero, Eva,
Só de sentimento.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Não é uma pergunta de "Sim" ou "Não".

nossa, é impossível prosseguir assim. veja bem, não sei nem como começar. não posso mais ficar jorrando céus em expoente de luz ou bandos de pássaros ao entardecer. não posso mais ficar gastando minha tinta fina, elegante, caríssima, para pintar retratos de esgotos. não posso mais proceder na minha ferrenha batalha, minha ferrenha procura por uma água benta, por uma cura. que não existe. meu coração já não resiste. o agridoce sabor do desgosto.
existe tanto e existe tão pouco. afora, existem casas brancas e opacas. elas são brancas não por serem tudo  mas porque ainda não são nada. dentro, possuo meu contingente ilimitado de demônios. fizeram da minha alma o emaranhado que é hoje. e numa equação estranha com esta essência latente, jorram cores por todo o exterior, desde o extremo oriente até o meu corredor. 
a maldita, a bendita, a inescrupulosa ilimitação da mente.
-mas é claro que é uma busca.
mas não é para fora e sim adentro. como é difícil encarar este fato! mas enquanto eu não o fizer, tudo isso será mera peça de teatro.
-ocorre que dentro, chove e não é de aurora. chove doendo, fininho, ao redor do próprio coração, dentro dele.
eu vejo as avenidas de corações apressados, vejo as almas de rachaduras latentes, vejo nossa realidade  emocionalmente doente. e me pergunto - é o mesmo vírus, é a mesma praga, é a mesma maçã que a todos acometeu? ou tudo isso é só um desvio
um desvario que minha razão não previu
e o verdadeiro problema sou eu?


-

(E sim, a partir de agora eu me recuso, terminantemente, a escrever sobre quaisquer coisas doces sem ter a mínima certeza de que são reais!)