segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Reticências


Sejamos realistas, meu bem.
Não dá mais para manter isso dentro de mim.
E eu sei que você se sente confuso também
Mas coube ao destino nos decidir assim;

Você nem imagina como me sinto culpada
E todos que dizem que essas coisas são fáceis...
E como no final eu estava errada
Ao subestimar toda nossa complexidade

Temo, ao me afastar de você, congelar
Voltar a ser o ser inócuo que era antes de você
Temo não conseguir mais respirar
Sem o ar compatível que só tua alma pôde trazer.

Mas é isso, o que é isso, o que faço eu?
Não consigo parar de me perguntar se fui responsável
Por você não mais querer ser complemento meu
Por eu não ser mais o teu abraço mais confortável.

Eu poderia dizer que acabou essa sequência
Cada um para seu lado, daqui a 20 anos nos revemos
Mas prefiro nos permitir as reticências
A esperança é o mais doce dos venenos.

(Estou já me acostumando
A levar nossa história no bolso
E com ela, diariamente,
Salgar um pouco o meu almoço.)


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Semáforo


Paramos no sinal vermelho.
Se fosse uma metáfora, não seria tão certeiro. Paramos no sinal vermelho.

O vento da avenida pelas janelas, o cheiro da noite da sua cidade, o silêncio resultante da nossa impossibilidade de ir adiante. O círculo vermelho nos encarava, como um retrato perfeito da nossa situação. Estáticos e calados,  encarando o semáforo que não nos mostrava nenhuma saída possível. Era o fim da picada, da linha, do filme, do livro, de todas as possibilidades de avançar. Sua mão no volante, meu rosto imóvel em frente: Dois cúmplices do mesmo crime, vítimas do mesmo destino, tão perdidos no mesmo redemoinho, que doía. Saber que em frente não havia saída tornava tudo um sono doloroso, cansado, conformado. 
Olhei de lado e vi sua mão. Mão de dedos tortos e unhas de criança que em outra época eu observava enquanto escrevia, de modo engraçado, como letras redondas demais, tão assimétricas e confusas quanto sua linha de raciocínio única, que me fascinava em todos aspectos: Fruto de um ser humano filho da natureza. E escrevia enquanto eu olhava de lado numa aula entediante na sexta de manhã, esperando que acabasse para poder segurá-la ao redor da minha, como se minha fosse; Tão banal movimento, mas que me mantinha segura no chão. Sim: Sua mão era minha âncora e nela eu me segurava contra toda a tragédia que pudesse abater o mundo. Assim como me puxava numa travessia insegura à rua de trânsito selvagem, onde eu não me importava em ser displicente e leite moça porque você café me fazia sentir-me eu e me sorria com os olhos, grandes, cheios de cílios como se me dissesse que estava em casa, e que só eu ganhava aquele olhar.


Um olhar que se transfigurava em mais claro ou escuro, em momentos de intensidade, onde eu via em seus olhos um dos muitos você: O que com suas mãos macias e seguras segurava minhas costas sem piedade e me beijava de modo incandescente só ao me olhar com aqueles olhos escuros: Me beijava com palavras e com sua compreensão. Sua alma beijava a minha, pelo simples encontro de nós dois, seres humanos. 
Te via agora, a mão no volante o olhar em frente. Um olhar vazio e triste, repleto da melancolia de nosso sinal vermelho. Um sinal vermelho que parecia durar para sempre enquanto na minha mente confundiam-se você agora e você que eu amava e eu percebia que eram exatamente a mesma pessoa, fosse com a voz irritada de quando perdia a paciência, com o cabelo molhado depois do banho, com o sorriso bestão de surpresa e carinho ou o riso sarcástico: raro e valioso. 

Era você, com sua vivência, sua dor, sua confusão, seu abraço quente, sua mente linda, sua mente sombria, 
sua vida: Uma borboleta pulsante que me sorria porque dizia que nunca deixaria a minha. Que a linha vermelha ou prateada era mais forte que isso. Que o beijo não vem da boca. Que o amor tem mil formas. Que pedras preciosas nunca morrem, mas somente se transformam em algo igualmente valioso, mas diferentemente lapidado. E que, principalmente, nosso encontro aconteceu antes que pudéssemos prever e nunca iria acabar. 
Seu rosto olhando em frente. É verdade, pensei. E via o brilho, mesmo agora, pulsar em seu olhar. Como um dia pulsou em brilho e sorriso o olhar de um menino cujo nome eu ainda nem conhecia, com o maior
sorriso do mundo: Caderno não mão, em frente a um campus de faculdade... Sorrindo sem nem saber se eu sorriria de volta, se eu sabia quem ele era; Com paz e tranquilidade. 
"Deve ser um anjo", disse minha irmã, ao lado.
Olhei para frente, com um leve sorriso.
O sinal ficou verde.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Disparate

Abre a janela. Acorda. Levanta pro dia.
Mergulha num mundo. Mergulha com força. Menina-leite-moça.
Lê um poema. Passa o batom. Sem diferença. Ô madalena.
Coleta uns corações. Umas cartas na manga. Me joga na cama. Lambuza de lama. Se joga em euforia. Se enforca de amor. Aprecia detalhadamente as peculiaridades da dor. Se livra da raiva, ao inferno com a vingança. Nunca mais jogou seus joguinhos; Saudosa menina-criança.
Considera tudo. Abre a mente. (Como diria alguém), muda logo tua lente.
Sai sem rumo. Vai pro mundo. Besouro da noite, aprendeu a voar.
Olha um retrato. Pensa no passado. Ternura com a lembrança. O passado passou, de fato.
Abre as cortinas. Sonha com colinas. Um dia essa rua toda será minha.
Olha o futuro. Retrato escuro. Mas acende as velas, tudo posso clarear.
Um devaneio por aí, ônibus para distrair. Olha bem no espelho: Nunca mais vou me trair.
Não conta as horas. Sempre odiou relógios. Você fica muito melhor de óculos.
Sai atrasada, chega mais tarde. Tudo bom, seu josé, como vai dona Marte?
Decisões acolá. Uns pulos a dar. Quem iria imaginar? Menina-criança numa mesa de bar.
Me passa um whisky. Queima a língua. A cortina fechou, bailarina. Agora sem mais conversa de botas batidas*.


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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Weltschmerz


Caindo aos pedaços. Lentamente caindo aos pedaços. Como uma pena ou uma nuvem, se dissolvendo no céu, no reflexo do mar, numa rajada de ar. Uma árvore velha, aos poucos envergando o tronco ou simplesmente o tempo, o temido tempo, diluindo os anos. A morte, ela acontece centenas de vezes todos os dias, durante uma vida. Umas doem mais que as outras, geralmente as que ficam te encarando, morrendo e andando, morrendo e andando. Caindo aos pedaços, já sinto as rugas que ainda não tenho no rosto. O sabor de um beijo cada vez tem mais gosto de desgosto. E os pedaços de tudo que me cerca, como um quebra cabeça cadente, e os passos de todos da minha cela; Cada vez mais fracos e inaudíveis.
Vejo meus heróis caindo, diariamente. Vejo toda a dor do mundo invadindo minha mente. Fazendo de mim emocionalmente inutilizável, espiritualmente demente. Me torno um belo copo de cristal quebrado, preciso de ar urgentemente.
Caindo aos pedaços, eu não sei morrer. Por que é preciso a morte para se poder renascer? Por que lembranças velhas têm que dar espaço a novas andanças? Porque o universo não pode somente sempre se expandir: Passado, presente e futuro numa caótica dança?
Não quero morrer, mas é muito difícil viver. Então vou levando, eu e toda a dor do mundo que em nada me pertence... Mas que sentimento imundo, mas que dor indecente. Que desejo egoísta de tudo, quando já tenho tanto à minha vista. É verdade, Freud, sou uma psicótica idealista. Minha psicose é a ânsia pelo que nunca virá, a incapacidade de encontrar meu lugar, a doença insuportável de pelo doce, completo, pacífico, natural, coletivo, eterno e banal ansiar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

The ugly truth


Não te amo.
Amo pedaço extirpado de mim.
Que pensei ser-te
Como eu pude te enganar assim?

E ainda crerdes
Nesta ilusão de autoria minha,
O amor deveras
É uma canção fúnebre de violino

E minhas quimeras
Vão acompanhar-te para não dormir sozinho
Como janelas
Para um passado que nunca existiu.

Portanto, liberta-te.
Dou-te minha carta de alforria
Vais procurar-te
Nas curvas do espelho, e não mais nas minhas.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ciranda da meia noite

Baseado na música "Every Single Night" de Fiona Apple. - Para quem quiser acompanhar.

Pedacinhos de luz extrapolam da minha mente
Borboletas azuis te circudam, serpentes.
Momentinhos seduzem, com uma reverência, ao revés
E assim te convido para um passeio no meu convés.
Toda santa noite, te chamo aos pouquinhos.
Mas você dorme, não me vê. Se embala sozinho.
Passeio pela sua cama, frustrada. Toco uma flauta ou um sabiá.
Danço uma dancinha, uma coreografia, qualquer coisa para te agradar.
Toda santa noite, vagalumes meus te visitam.
Eles puxam sua blusa, tentam te convencer.
Mas você olha o relógio, um telefonema, tanta coisa a fazer...
E todo santo dia, eu te visito à noite.
Sento na sala de jantar. Se não tiver ninguém perto, tomo até um chá.
Pedacinhos de coração fazem uma trilha para seu jardim.
Mas você passa direto, por que tem que ser tão frio assim?
Toda meia noite eu faço uma ciranda no seu quintal.
Danço ao redor do seu quarto, coberta de luzes de cristal.
Mas você só se remexe no sono, não escuta o meu sinal.
Toda santa noite pedacinhos de mim brilham ao seu redor,
te pegam pela mão, te puxam em vão, nadam no seu suor.
Tentam te trazer para perto de mim.
Anoitecem sozinhos e tristes, deitados na cômoda ao te ver dormir.

Esta é uma confusão que só existe em minha cabeça

Você é este labirinto cheio de medos e mentiras
Caminhos de precipício, velhas modas, tortas linhas.
Eu me pergunto o que o espelho te mostra quando está sozinha
A aposta da próxima vez, arte retórica de gueixa antiga
E se não te satisfaz o sangue que suga, por que o faz?
Só de sugar, vulgarizar: Tua própria rotina, raro efeito de ar.
Então perde-se em desconexas tentativas vãs de uma arte mestra.
Articulando com a própria mão, a manobra mais diabética.
Porém vomita todo essa açúcar. Não lhe é natural e não vê a lacuna.
Cai como folha seca, sem compreender a origem da ventania,
E com estes olhos cristalizados pelos mais vulgares laços, como poderia?
Me poupe de sua condescência, suas palavras falhas de eloquência;
Não tem mais fim nenhum para meus maus meios justificar.
E se não te agradam meus métodos, mais pragmáticos que dialéticos...
Até mais, Sabiá. Vai pra lá, vou pra lá...

terça-feira, 10 de julho de 2012

Ponto cego

Você tem uma casa, mesmo que vazia, para voltar
E todos esses corações no caminho foram estações e não destinos
E todas essas despedidas fazem parte da receita
E não há nada tão encantador quanto uma causa perdida
Mas até onde vale a pena desperdiçar sentimentos?

Já foram tantos aeroportos e cemitérios que você perdeu a conta
E essa reformulação eterna parece levá-lo a canto nenhum
E o que fazer quando essa visão no espelho te faz tremer?
E esses rostos que passam por você não parecem te dar a resposta
E a coragem e o coração cada vez estranham-se mais

Mas esse sol continua nascendo e continuará esteja você aqui ou não
Então inspire fundo, o mais fundo possível
Até sugar essa essência inalcançável, esse espírito invisível
E essa força você tem que tirar de si mesmo
E as despedidas devem ser enterradas assim como seus mortos

Vamos lá,
em frente.

Suas palavras vazias cumprindo papel de vidas.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

(50)

(1)Cinquenta receitas que não deram certo
(2)Cinquenta chaves que eu poderia te dar
(3)Nem eu compreendo o motivo disso
(2)Para abrir este cofre, para me desvendar

(1)Memórias certeiras me olham do teto
(2)Em linguagem clara, o que se lê no olhar
(3)Por isso te respondo através de artifícios
(2)Mas será, meu bem, que você vai procurar?

(1)Palavras ambíguas de metro em metro
(3)Espero que complete meu texto omisso
(1)E mesmo assim não o tenho por perto
(3)Terá meu poema sido preciso?

sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Deixe-me vomitar as palavras que nunca irei dizer."

Este tipo de ocasião era precisamente o que ela denominava como "uma grande palhaçada". Todo mundo já sabe como a nossa Mírian estava mal adaptada à vida em sociedade, mas o que estava havendo estava ultrapassando seus limites subjetivos. Tinha escolhido ficar quietinha, para ser bem clara com vocês. Haviam algumas vozes em sua cabeça - como sempre - mas ouvir as vozes em sua cabeça nunca deu certo. Desafogar sua consciência nunca deu certo. Acalmar seu coração... bom, isso deu certo algumas vezes mas já fazia tanto tempo e estava tão distante que ela já enxergava essa época como uma vida de outrem. Era inviável descrever esta imitação de vida que vinha vivendo. 

O silêncio dela era aterrador. Era um silêncio gritante, cuja voz saía diretamente do peito ferido. Absurda como só ela, continuava em esperas ineficazes - pensava. Continuava esperançosa. Era uma junkie pela esperança, uma verdadeira viciada. Era um caso perdido, condenada à morte prematura dentro do próprio corpo. Ele continuava estático, porém. Olhos grandes expressivos - ou não? Quão impossível era saber, porque não dizia nada. Ela também não dizia, não diria. Não podia mais dizer, o tempo tinha-lhe atados as cordas vocais, impedia-lhe de tentativas de pular na água. Mas isso não significava menos, não, não, isso não significava nada. Ela ainda era a mesma. Temia que fosse para sempre, até uma morte interior - que ocorreria em breve caso nada mudasse. E aí tudo se desfaria como cal na água, tão breve, bonito, como a asa de uma borboleta morta. Mas até lá, jogava cordas para alpinistas que nunca subiriam. Não precisava de salvadores, não, não, somente de uma mão quente e humana tocando a sua. Lhe dizendo que também via tudo. Dizendo isso sem usar uma palavra.

Encarou a mão dele, involuntariamente. Tremia de hesitação, intenção ou somente tique nervoso, quem sabe? O fato de ocorrerem-lhe as três alternativas na mesma proporção denotava como sua percepção é alterada e confusa. Engraçado, porque sua percepção é sua única companheira, sempre ajudando-lhe a cometer julgamentos horríveis ou simplesmente certeiros.


Tudo que ela queria, honestamente, e em meio àquelas indefiníveis possibilidades de tudo, era um pouco de nada. Deitar e morrer um pouquinho em sua cama, por algumas horas, nos braços de seus algozes e consoladores, os sonhos. Queria o nada de pensamentos por só um tempinho. Sem dúvidas, suposições, arrependimentos ou expectativas. Sem dor, sem nada. A total neutralidade parecia-lhe tentadora ao extremo agora. Neutro estava bom, neutro estava ótimo. Estava acostumada ao neutro, à apatia, ao cinza. À esta imitação de vida, como supramencionado. Só queria evitar a dor. Verdade seja dita, estava era com medo da dor. Encolhida, como uma criança na tempestade, seu espírito estava assustado pela chama. Então tudo bem, a inconsciência. Anestésico mais eficiente que o álcool, o sangue ou o pó (vai saber). Queria afundar-se no nada para fugir, isso mesmo, nem que só por algumas horas. Queria isso porque já não esperava nada - Frase corriqueira em seu vocabulário - e que significava, precisamente, que ainda esperava tudo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Abominável mundo novo

- Oi, tudo bem? Você gostaria de sair e dar uma volta pelo quarteirão, tomar um sorvete de limão, contar quantos carros vermelhos tem na rua, ler em voz alta um capítulo daquele seu livro favorito, olhar os lances róseos do céu no final da tarde, deitar no chão frio do quintal da sua casa, levar a neblina fraquinha da noite no rosto, ouvir o farfalhar das árvores ao vento noturno, criar histórias para aquela sinfonia de Bach, tentar encontrar estrelas neste céu totalmente poluído ou qualquer coisa assim?
- (   ) Claro que sim, por que não?
- (X) Acorda, garota, ninguém gosta dessas coisas.

domingo, 10 de junho de 2012

Todo mundo é espelho? - Conclusão (Ou, sobre o Falso altruísmo)

Seria muito mais fácil viver por alguém.
Seria bem mais simples dizer (como eu já quis dizer antes): "Me diga o que você quer, que eu faço. Me diga o que você quer que eu seja, eu sou. Eu posso muito bem viver por você, a partir de agora." Mas isso, meus caros, não é um ato de altruísmo e nem de dependência emocional. É simplesmente mais uma fuga. Quão 
conveniente é jogar seu destino nas mãos de outrem, não acham? Quão conveniente é jogar a responsabilidade de nossas próprias  decisões para outra pessoa e ainda ganhar o bônus de poder culpá-la, caso dê errado? "Eu te dei tudo isso e você ainda me decepcionou." O que você deu, meu bem, foi um grande ônus, isso sim.
Nossa interação com o outro é uma das variáveis mais interessantes da nossa existência porque diz muito sobre nós mesmos. Não mais ou menos nobre, mas é incrivelmente mais difícil ser senhor do próprio destino. Relacionar-se com outras pessoas é possível sim, mas só se torna tão complicado porque, inicialmente, não sabemos nos relacionar bem com nós mesmos. As coisas exteriores de modo geral, são simples. São claras. Os caminhos benéficos e maléficos apresentam-se para nós. O problema está  na nossa lente, que embaçada pelas nossas próprias batalhas internas nos impossibilita de ver com clareza. Ora, não são as batalhas internas as mais desafiadoras e definitivas? Sem o medo, o orgulho e o egoísmo, me parece que a "felicidade" seria o  caminho natural a ser seguido. Mas não é tão simples livrar-se desses fantasmas, não é? Não, não é.
Por isso delegamos a imensa responsabilidade de curar nossas feridas a outrem. É, vivemos fazendo isso. Eu mesma já fiz  muito. Mas veja bem, cada pessoa já tem suas próprias batalhas para lutar então além de cruel essa delegação, também é  inócua. Inócua porque qualquer benefício que alguém te proporcione em ordem de te "curar" não passará de mero analgésico para  um problema duradouro. Isso mesmo. Somente nós mesmos podemos derrotar nossos demônios. E só podemos viver por nós mesmos. Ao aprender a fazer isso, aí sim, podemos tentar adicionar algo à vidas alheias.
De certo modo isso traz uma solução positiva para a pessimista hipótese do texto passado. Talvez nem sempre todo mundo seja espelho. Talvez os outros sejam espelhos somente quando não conseguimos viver conosco mesmos. Uma vez executado este aperfeiçoamento interno, aí sim, quem sabe, consigamos olhar para as outras pessoas nos olhos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Todo mundo é espelho?


Tenho andado meio misantropa esses dias. Meio arredia. Tenho minhas pessoas preferidas - sinto muito, mas é verdade, eu tenho. Mas fora isso, estou com dois passos atrás para todo mundo. E o porquê é o que quero compartilhar aqui.

Viver deveria ser tão fácil, mas relacionamentos humanos são tão cheios de variáveis... Eu ando cética,  confesso. Quanto à tudo e a todos. Mas isso é culpa das minhas últimas observações. Me parece que existem dois tipos de pessoas: As que falam e as que escutam. É uma generalização grotesca, eu sei, mas é o jeito. As pessoas que falam estão sempre querendo ouvir o som das próprias palavras. Via de regra, elas gostam muito das pessoas que escutam, por serem receptáculos tão pertinentes. As pessoas que escutam são paredes brancas recebendo a tinta das palavras das que falam. Tornam-se um retrato das outras, portanto. E quem não gosta da própria obra? O que não percebemos com facilidade, no entanto, é que as pessoas que escutam também gostam muito do som do próprio silêncio.

De certo modo então, dá no mesmo. Parece que tanto os falantes quanto os escutantes* somente estão pintando um quadro em seus interlocutores.

Eu costumo dizer que na verdade não nos relacionamos com outras pessoas; Nos relacionamos com nós mesmos através de outras pessoas. E não é uma sensação muito legal esta: A de se sentir instrumento de outrem. Eu sei que eu já disse aqui que egocentrismo é o curso natural das coisas, mas às vezes me parece que o que predomina é o "egoabsolutismo". Só nós mesmos, não o outro. O outro somente como espelho. "Eu amo o outro, cuido do outro, me relaciono com o outro, mas no fundo estou fazendo isto apenas comigo mesmo. De fato, eu não vejo o outro. Vejo a mim. A partes de mim." Este pensamento me assusta e entristece muito.

Eu tenho me sentido só espelho alheio e por mais que haja carinho, preocupação e até o tal do amor em minha direção, não é para mim. Bate e volta. Reflete. 
Eu gostaria de um mundo em que realmente se vê o outro, se toca o outro. Não para benefício próprio,  exercício de autoaperfeiçoamento ou coisa assim. E sim por puro interesse em se conhecer profundamente outrem. Eu me encanto e desencanto intensa e rapidamente pelas pessoas. Me encanto ao conhecer alguém, praticamente qualquer pessoa. Isso porque todas as pessoas tem algo de bonito. 
Cada ser humano é um universo incrível, dotado de características, cultura, história e "n" variáveis únicas. E isso me deixa extremamente curiosa. Mas me desencanto no momento em que passo a me sentir objeto de suas auto necessidades. Eu ainda almejo encontrar pessoas a quem eu possa olhar nos olhos sem procurar meu reflexo. E que olhem-me nos olhos da mesma maneira.

Nossas necessidades e fragilidades humanas são tantas e tão diversas que nos fazem viver procurando; Procurando imagens. Já me tomaram por mãe, por projeção, por projeto, por filha, por dona ou por propriedade. Já me colocaram em todo tipo de túnel moldador para preencher seus vazios interiores. Mas nunca me tomaram por mim mesma. Não, não, nunca me olharam nos olhos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Fluxograma de pensamento sobre as abelhas

     Hoje eu fiquei muito triste e chocada depois de ingressar numa maratona obsessiva de leitura sobre a morte das abelhas. Eu já sabia que as abelhas estavam morrendo, tem a tal frase do Einsten e tudo, mas sempre é chocante me deparar com o quanto nossa espécie é idiota. Me parece tão absurdo que uma só espécie, a humana, consiga fazer tanto dano ao meio que a cerca. Nós vivemos de maneira irresponsável e inconsequente, limitando todo o plano da existência aos simplórios anos que estamos neste planeta. Nossas preocupações são ínfimas e efêmeras e quando muito, vinculamos nossa atenção para determinadas causas específicas e ainda é fazendo esforço. Não parece desesperador que o ser humano seja uma criatura que se sente tão desvinculada do próprio ecossistema? 
     Tudo isso é tão óbvio que já é até supérfluo falar, eu sei, mas mesmo assim me choca quanto eu percebo a amplitude dos danos causados somente pelo nosso "não fazer nada". Um "não fazer nada" que na verdade é fazer muita coisa. É achar que estamos somente nos comunicando por aparelhos móveis, usando desodorantes, bebendo certas substâncias sem percebermos o verdadeiro significado disso. Eu acho que o verdadeiro problema da nossa espécie, atualmente, é que não olhamos para a origem ou significado das coisas. Fazemos muitas coisas somente devido ao costume cultural sem questionarmos situação por situação, elemento por elemento, atitude por atitude. Vivemos escravos de consciências coletivas alheias. 
     É difícil ver um sentido em toda essa caminhada terrena quando olho para as coisas assim. Sinto como se seja lá o que estou fazendo neste mundo, não está certo. É como se faltasse algo essencial, um cordão umbilical com a natureza, que foi cortado no momento em que me tornei essa espécie predadora absurda. E o mais patético de tudo isso é que não obstante toda essa falação, prossigo da mesma maneira. Pior ainda é saber que talvez, mesmo que eu mudasse, a esta altura o dano já deve ser irreversível. Alguns já sabem que eu não tenho uma visão religiosa ou espiritual específica, jamais tive. Mas existe uma ideia que me foi passada e que até hoje é uma das únicas convicções que eu carrego: Eu vejo o planeta como se fosse um organismo. Uma só entidade, como um corpo dividido em sistemas, órgãos e células. De certo modo, no "dever ser", tudo iria contribuir para a evolução e manutenção. Sapos comeriam moscas, moscas comeriam alguma coisa (eu não sei nada sobre cadeia alimentar), e embora isso pareça cruel de início, é o ciclo natural das coisas. No entanto, um determinado contingente de células, a nossa espécie, sabe-se lá porque motivo começou a crescer (em vários aspectos) desregradamente até tornar-se daninha e nociva. 
     Nossa espécie é a única capaz de matar por crueldade. De ferir por crueldade. Nada de território, fome ou acasalamento. "Sem motivo". Isso entre muitas outras coisas. Nós passamos a acreditar que o mundo é nosso cenário, a nosso dispôr e não que somos mera peça de seu quebra cabeça. A "maldita espada da razão." (E mais uma vez terei de parafrasear um amigo meu em sua alegoria): "Seria como se a razão fosse uma espada com uma lâmina muito afiada. Que ao passo que é usada pelo homem em seu benefício, corta a ele mesmo no processo." Se bem que eu não sei se é a razão em si que está destruindo o homem (e tudo que o cerca) ou somente o mal uso desta. Mas não seria esta natureza humana egoísta um próprio desdobramento da razão? Eu não sei. Eu só sei que é assim que vejo as coisas: Somos o tumor do mundo. Um contingente de células que se desenvolveu desordenamente e começou a fazer mal a seu receptáculo. E sinceramente, eu acho que devíamos todos morrer.
     Essa é minha primeira e principal angústia e talvez a verdadeira causa dessa minha irritante eterna crise existencial que prejudica todos os setores da minha vida.
     Quanto à ideia do planeta-organismo, ela não é minha. Ela, assim como muitos dos pensamentos que hoje em dia trago, fora fruto de reflexões propiciadas por uma mesma obra de ficção: Pasme, um desenho japonês. Isso mesmo, gente. O nome é "Eath Girl Arjuna" e sinceramente, mesmo o tendo visto há quase 10 anos atrás, creio que até hoje foi a obra mais fascinante que assisti e que mais mudou minha visão de mundo. Vou recomendá-la a vocês e deixar um trechinho aqui do youtube de um episódio. Ignorem a dublagem em japonês (ou alemão?) e as partes desnecessárias. Tudo que importa está do 00:40seg ao 01:00min. Como grande parte das obras sem apelação à massa e com conteúdo diferenciado, não é muito popular, por isso não consegui achar o momento específico que queria mostrar a vocês. É só algo a se pensar. 
     Bom, por hoje é isso. Um abraço a vocês e às abelhas (não literalmente, claro). Elas acabaram com minha noite, estas malditas.


Earth Girl Arjuna 00:40seg à 01:00min


(F)

domingo, 3 de junho de 2012

Desabafo da água

Eu quis ser chuva para tocar a rua.
Para tocar uma linda canção para você.
Quis sentir o gosto do asfalto. Sem ouro, bronze ou salto alto.
Quis dar um salto bem alto para poder te ver.
Tentei ser boneca, mas não deu muito certo. Olhei tudo muito de perto para tentar entender
Mas nada se faz fácil, o caminho nunca é correto. Então caí no asfalto e para o boeiro fui escorrer.
Eu quis ser chuva para ver a lua. Tocar suas beiradas com as beiras das minhas mãos.
Mas minhas mãos não tinham esmalte e não me deixaram entrar na nave. Fui bater lá em marte, ver se podiam me receber.
Quis andar à pé, quis ser mais nua. Não queria ser tua nem queria te ter.
Eu quis ser mágoa, mas choveu minha chuva. Inundei minha rua, corri para te ver.
Mas não era mais a hora e eu não entendi o trajeto. Chorei no aeroporto, morri sem nem nascer.
Eu quis ser um pouco chuva, quis tocar um violino. Tentei até ser menino, tentei viver sem crescer.
Fui de um extremo a outro. Busquei fé até no esgoto. Mas minh' alma malcriada nunca quis me obedecer.
Eu tentei ser só chuva, eu tentei ser tua.
Mas sou tempestade demais para em mim mesma caber.


-


But no, i can't touch you
'cause my hands are broken
and my soul was stolen
by a gentle thief
who got in my sheets
and took all my shoes
left me cold and alone
in the afternoon.

So no, i can't rain
Not in your parade
'cause i'm just not ready
this is not the case.
So i'll do you a favor
and go earlier home
'cause i don't want you
to see my darken soul.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

"As pessoas podem morrer intoxicadas por prazos de validade vencidos, sabia?"*


Dei três passos para frente, mas não existe mais estrada.
É impossível voltar para trás, mas não posso ficar parada.
Não quero ir para longe, estou mal acostumada.
Meu amor, porque você apareceu? Nosso encontro foi uma cilada...

Meus textos já não são bons, minha visão já está falha.
Te ligar não é de bom tom, mas sua voz me faz tanta falta...
Tentei me afastar de você, correr para longe da gente
Mas no primeiro passo tropecei. Existe entre nós uma corrente.

Não posso escrever mais cartas de amor,
Não estou nessa posição.
Mas cartas de amor são tudo que sai
Quando a caneta toca minha mão.
E até músicas aprendi a criar
Tu apaixonastes meu violão!
Que coisa cruel de se fazer...
Uma verdadeira perseguição.

A lição de imoral aqui é que a história não acaba no "Final"
o final é só uma ficção jurídica para a gente se sentir menos mal
Mas e quando isso não adianta, quando a realidade é inadmissível?
E a lógica e a razão argumentam, mas com o coração é indiscutível?

Não me recrimine, por favor, por escrever estas palavras
Eu sei, eu estou tentando. É uma questão de tempo regurgitá-las
E ir expulsando aos poucos, toda essa interminável tralha
Sentimental que o tempo deixou, em mim abandonada.

Me vejo espalhada nesse mar de conversas e fotos antigas
Me vejo repassando o tempo esquecido
Me vejo escrevendo os mesmos textos há anos
Me parece bem óbvio que sou um caso perdido.

--

*O título não é de minha autoria. Agradeço a um amigo querido por emprestá-lo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Trilogia sobre o Brilho eterno de uma mente sem lembranças* (Ato I e II)

I

Olhou pelas frestas da janela, o céu claro de meio de tarde. Branco.
Deviam ser quatro horas. Olhou no relógio, eram quatro horas mesmo. É claro que eram quatro horas. A casa estava vazia e o tempo estático. Sentada na cama do quarto, o pequeno frasco de líquido amarelo em mãos. Maravilhoso milagre de Alexander Pope e sua inocente vestal passante. O som estava estático também. Não se ouvia um barulho naquele seu quarto cheio de coisas suas mas tão impessoal naquele momento. Somente um zumbido que não sabia dizer se era do tempo ou de sua cabeça. Olhou para a fotografia à sua frente. Estendeu o braço com o recipiente de vidro, num brinde mudo, e empurrou-a no lixo, sem violência. Ergueu a cabeça enquanto levava o frasco aos lábios. Um raio de Sol atingiu-lhe as retinas e por um segundo um pensamento de dúvida rapidamente colidiu a si, só para ser em seguida atropelado pelo líquido tocando-lhe a garganta. Num momento seguinte, sentiu-se afundar na cama, como se dez mil litros de água inundassem o quarto e a tornassem submersa em si. Afogada estava, calou para sempre a memória do que agora e há tanto rejeitava como parte de si.

II

Acordou de uma só vez, estática. Abriu os olhos, dando de cara com o teto branco. Quando recobrou melhor a consciência sentou-se, num sobressalto. Olhou bem. Indefinível sensação de que estava atrasada para algum compromisso importante, mas sequer se lembrava do dia da semana, do mês, e para ser mais exata, do ano.
Abriu as persianas azuis, como se isso fosse trazer alguma resposta, mas tudo que obteve foi um raio solar incidindo com força em seu rosto. Era de manhã e estava sol, mas de algum modo até isso parecia errado. Levantou-se para ir até o armário, mas tropeçou na lixeira vazia do quarto. Parou um momento. Podia jurar que tinha algo naquela lixeira. Vasculhando o armário, achou o calendário.
"Ah." 
Ver a data e o mês a ajudou a acostumar-se um pouco mais com a realidade. Era sábado, não tinha nenhum compromisso e começou a lembrar-se do dia anterior, embora sentisse que tivesse sido há um século atrás. Em frente ao espelho, deu dois tapinhas na cara, balançando a cabeça para os lados, como que antes de um exercício: Tentativa de se sentir mais acordada. Ouviu uma vibração no quarto, que a guiou até o celular. Franziu as sobrancelhas. Não se sentia  no estado para falar com ninguém agora, na verdade. De fato, tinha uma enorme necessidade de longo silêncio, até voltar a sentir-se em si mesma ou ao menos descobrir o que estava errado. Mas o celular vibrando não cessava e decidiu, finalmente, atendê-lo. Quem sabe não calava aquela sensação estranha de que algo errado estava acontecendo? Atendeu. Uma voz conhecida rapidamente encheu seus ouvidos, a trazendo de volta para os acontecimentos corriqueiros. Esperava que isso a distraísse do monstro já não sub, mas sim inconsciente que tentava falar.
E distraiu. Por muito tempo.

domingo, 20 de maio de 2012

Quinze anos

Você está bem?
Larguei tudo, voltei para casa.
Sem mais passos na escada.
Sem escudo, sem espada.
Deixo o mundo, jogo a toalha.

Você não vem?
Daqui de longe, te vejo rastejar.
Sem destino, sem radar.
Em desatino, ao despencar.
Quando e onde vai parar?

O mundo caiu.
Caiu sobre nós nossa ilusão
As esperanças de crianças
Eram só sonho vazio...
(E ninguém viu)
Nossa vez, nossa dança.
Minha máscara, tua lança
Foi a nós que ela feriu.

Te vejo longe.
Parece ter frio, mesmo com todo o calor
Te vejo afastar-se do que sonhou.
Te vejo com grana, companhia e sorrisos.
Mas te vejo sem paz, aceitação e amor.

Ainda dá tempo.
Vem pra cá e vem correndo.
Se esconde na minha saia
Foram só alguns milênios.
Só um tremendo pesadelo
Foi só uma falha ténica
Foi só uma queda de bicicleta
Foi só uma pausa poética
Para efeito de dialética.

Mas na verdade, não vem não.
Eu já nem nos reconheço.
Imagine um recomeço...
E a quem estamos enganando?
Já faz mais de quinze anos.

sábado, 12 de maio de 2012

Uma tulipa para Jim Morrison

As pessoas estão sempre decaindo, elas estão sempre se sujando. Não é querendo ser negativa, mas me parece que do nascimento à morte vivemos um caminho de dor. O mundo é áspero e corrosivo. O ambiente em que nascemos é tóxico. Você é criança e tudo parece possível porque uma redoma de plástico é  construída ao seu redor, no intuito covarde de te proteger da realidade. Pintam um quadro colorido, surrealístico que se quebra em pedacinhos aos poucos, enquanto você vai adquirindo percepção própria. Cada um dos pedacinhos faz um ferimento, nos tornando mais ácidos, mais pesados. Não era para ser assim. Se nos explicassem desde o começo que existem coisas e coisas. Que podem ser boas ou ruins e que,  principalmente, a mesma coisa sempre pode ser boa ou ruim, dependendo do ângulo. Se ocorresse isso, talvez não seríamos tão feridos.
Almas fantásticas nascem e adoecem a todo dia. Gente que não aguenta o mundo. É assustador como o brilho do olhar das pessoas vai ficando cada vez mais opaco, com o decorrer dos anos. Guerras acontecem, injustiças acontecem, pessoas de coração superficial acontecem, mortes acontecem. Desde o momento em que nascemos, estamos morrendo. Como diria meu caro Régio, é o Paradoxo por excelência. Até as coisas boas que nos ocorrem trazem um quê de melancolia porque estão sempre sujeitas a perda. E o mais assustador é que parece que tudo que adiciona, remove um pouco também. Se é que há algum motivo nisso tudo, eu não compreendo. Mesmo que a doutrina Espírita esteja certa e estejamos evoluindo, como eu já acreditei um dia, bom... Espero que haja um bom motivo para tudo isso.
E não obstante tudo isso que eu disse já seja bem óbvio, hoje eu estou pensando muito em Jim Morrison e preciso dizer.


Até a próxima, leitores.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Eu escreverei em palavras de fogo

"Eu escreverei em palavras de fogo,
Eu escreverei-as na sua pele.
Eu escreverei sobre Desejo,
Escreverei inícios, escreverei sobre pecado.

Você é o livro que mais amo,
Sua pele contem apenas a minha verdade,
Você será um palimpsesto,
Palavras da idade reescrevendo a juventude.

Você não será queimada numa fogueira,
Ou será enterrada numa prateleira.
Você é minha missiva para Desejo
E você nunca se lerá.

Eu tracejarei cada palavra e vírgula
Conforme o crepúsculo final cairá.
Você é minha história, meu sonho, meu drama.
Descubramos como terminará."


- Neil Gaiman.


Este poema do inspirador Gaiman é uma daquelas obras que me faz pensar "Nossa, como eu queria ter escrito isso!" e chegou às minhas mãos através do blog onde o Rafael Castro escreve. Apreciem. 



quarta-feira, 25 de abril de 2012

A bela adormecida no bosque (Ou Só um texto ruim.)

Ela selou o envelope com a língua adocicada. Esperava intimamente que ele não acreditasse em suas mentiras mal contadas. Esperava isso inocuamente, como quem espera às oito horas o trem das sete. Com aquela ânsia infantil dos que trabalham contra suas próprias causas.
A sutil verdade é que ainda esperava, descrente, um milagre. Recostada na cama, à noite, lutava contra o almejo tão antigo quanto vivo. Tão antigo quanto o tempo, seu eterno inimigo.
Com suas esperas tom de café, então prosseguiu na corda bamba: Batia o ponto, sorria à toa, levava na boa. Sua calma a paralisava, aos poucos pela fria redoma da apatia, congelada; Penteava os cabelos, saía à noite, contava uma piada ou corria na praça.
Tinha se acostumado à matrix da própria sensibilidade. Não era ruim não, agora já natural. Se deixou levar esperando que fosse também levado embora seu mal. Mas só esperava. Como ainda esperava seu milagre.
Esperava que quebrasse sua matrix, atravessasse sua redoma, se sentasse ao seu lado; Lhe falasse sobre tudo ou talvez só sobre o vento. Lhe quebrasse as barreiras, estraçalhasse as fronteiras, reavivasse o sentimento. Lhe ressucitasse, de fato, porque isso em que ela se encontrava não era menos que uma espécie de morte. Lhe rasgasse os textos - mentiras e apetrechos - e transformasse sua sorte.
Mas até lá ela conta mentiras. Desfruta inerte desta imitação de vida. Até lá, bela adormecida no bosque.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Abril


Levantou-se da cama, mesmo confortável como estava, enrolada em seus lençóis, e foi fechar a janela. O  vento frio da tarde totalmente nublada, de um algodão taciturno, soprava brisas congelantes e ela estava sendo aterrorizada por seus sonhos novamente. Deu uma breve olhada para o corredor, vendo que estava sozinha em casa. Ultimamente era sempre assim. 
Em seguida, sentada na cama, deparou-se com o espelho do guarda-roupa e assustou-se com o que viu. Sua composição de já mulher adulta, cabelos desgrenhados e uma blusa velha de dormir, parecia ter uma expressão confusa e infantil diante do espelho. Seu corpo fino e pálido, perdido nos lençóis parecia totalmente frágil ante o próprio olhar curioso. Forte como se tornara, quedava-se totalmente derrotada diante de um sonho ruim. Sim, forte como se tornara mulher, não passava ainda de uma criança confusa e adolescente ansiosa.
Os piores sonhos, e isso nem todos sabem, são aqueles mais bonitos. Os piores sonhos são os que nos abraçam em calmaria, nos transportando a sentimentos incríveis que não (mais) nos pertencem. Estes sonhos nos pegam no colo como babás cruéis, embalam e trazem paz somente para em seguida nos jogar na cara a estranha realidade de uma cama fria numa tarde de abril.
Um sonho maravilhoso, pensava ela agora, certamente tem o poder de afogar uma mente sensível. Mesmo que por poucos minutos.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Vende-se

Saudações, jedis.

Então, cá venho eu mais uma vez atrapalhar os textos do blog com anúncios (alguém tem que sustentar as crianças...).
Dessa vez venho convidá-los a uma leitura um pouco diferente da que vocês têm aqui.

Como alguns já sabem (ou viram no facebook...) trata-se do livro "Na calada da Noite", escrito e publicado por mim algum tempinho atrás. 

O conteúdo reúne contos e poemas de estilos variados, desde o gótico até o romântico. 

Os exemplares restantes da época do lançamento passaram um tempo engavetados, mas agora eu estou fazendo uma "queima de estoque" (vejam só, eu tirei até uma fotinha para vocês ): )

Então, quem interessar-se pode me contatar pelo e-mail kristalfox@live.com ou por comentário aqui no blog mesmo. O preço é R$15,00 e restam poucas edições. Aproveitem!
                                                                                                                                                
                                                                                                                       Um abraço.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Quer trocar uma ideia?

"Como é estranho ver você tão meu, dela."

Não é brincadeira a força de uma ideia. Eu estive pensando nisso. É engraçado como nossa mente é autocondicionadora.  Supreendente o quanto podemos ser nossos próprios algozes, criando ideias e nos atendo a elas. Uma ideia é como uma daquelas máquinas de Matrix. Ela toma força própria se você a alimentar (tudo bem que eles não alimentavam as máquinas, mas...) e então ganha asas. Uma ideia é uma quimera. Nós as criamos, por diversos motivos, e depois, se deixarmos, elas passam a nos criar.

Nós temos mais poder sobre nosso próprio bem-estar do que imaginamos. Temos o poder das ideias, de modificá-las e alterar a "lente" pela qual as vemos. Mas o problema é que depois de criar raízes, é difícil arrancá-las. Uma ideia é muito aderente. E também contagiosa.

Ultimamente eu tenho brincado de mutar ideias, em ordem de sobreviver. Tive que passar a criar novos ângulos e lentes, senão, amigos, não ia dar. Tive que ver derrotas como escapes e perdas como janelas.  O problema é que embora eu faça isso, como eu disse antes, uma ideia bem formada é resistente. E quando ela é alimentada por outros, então, ela ganha corpo. Fica fortinha.

Daí que mesmo quando eu me "livro" dessas ideias, de vez em quando elas voltam para me assaltar, durante o sono. Me pegam desprevinida, levam embora meu sono e tranquilidade. E de quebra ainda me dão um soco de lembranças e arrependimentos.

Eu não sou boa em lidar com o tempo, com erros e não sou boa em lidar com ideias. Paranóica como só eu, acredito fielmente nas minhas próprias criações. Sou fiel da minha própria religião. E que perigo é esse de ser crente em qualquer coisa.

Que perigo também é esse de se acostumar  ao autocondicionamento. De aprender a mutar tudo que convém e fugir assim da "realidade"(?). Não sei do que tenho mais medo: De permanecer tão vulnerável ao mundo, ou de conseguir (finalmente) me tornar invulnerável.

Só sei que tenho medo.

E seja lá o que isso for, o nome disso não é amor

Em minha nuca tua mão treme
Em você, em barco
Você mastro e eu leme
Nossos corpos neste arco.

É um contato alienígena
Tuas costas nuas frias
no meu tato de egípcia
reiventando a agonia.

Te gotejo em cada beijo
meu desejo de te ser.
E aprisionar tua alma
no sofá de minha sala.
Sem saúde nesse auê.

Tanto pouco ainda tenho,
tudo ainda em ti desenho
e me absorve sem querer.
Não me pedes, nem escuta
o som dos passos da minha lua
se escondendo na tua rua,
me embriagando de você.

Me enciumo com o passado
e com as paredes do teu quarto,
com tua blusa, com teu garfo
e com cada teu retrato
de um desconhecido você.

É doente em minha mente,
que de tu já tanto tem.
Mas ambiciona, intranquila
ser teu norte, tua ilha
e derramar em ti eu creme.
Você olha, comedido
Psicopata e tranquilo,
Consciente do delito;
Eu laranja, você espreme.

sábado, 31 de março de 2012

O triste caso do alpinista pedante


E quando percebeu então que tudo, tudo, tudo foi em vão? Tudo que tinha eram idéias. Suas idéias tornaram o mundo a seu redor um monstro e o tornaram um monstro para o mundo. Viver antes era difícil, mas agora estava tornado-se indigerível. Tinha poucas companhias: Sua vaidade, orgulho e intolerância. E todas elas pesavam tanto em suas costas já perfuradas. Ferimentos já cicatrizados de tanto tempo que fazia que suas asas foram arrancadas... Agora, em contrapartida, pareciam nascer asas de morcego.

O reflexo no seu espelho agarrou seu colarinho, o ergueu do chão com violência:
-Sua teoria é bela, com certeza. Sua teoria está toda certa. Mas tudo que você tem é a teoria, não é? Sim, você é o antídoto de cada descoberta sua.
 Largou e desvaneceu. Ou talvez fosse ele que não podia mais vê-lo, era intangível. 

Descobriu tanta coisa que na verdade não era nada. Descobriu que não devia ter nem começado a descobrir. Muito tempo desperdiçado e outras coisitas más. Era um cientista, uma cientista. Era esse ser incógnita que tudo tinha jogado fora.

O quanto não fora sacrificado para obter suas respostas teóricas? Arrancou suas raízes com violência, pois elas o limitavam, o prendiam ao chão. Arrancou suas raízes e ficou sem lar. Preparou-se para voar, sem saber que o céu era só o reflexo do mar. E vice-versa, exatamente na mesma proporção. 

Cavou fundo para buscar o que lhe concernia e no meio do trajeto perdeu a corda para as beiradas. O problema é que o real se manifesta  é no raso. Agora já era, estava preso embaixo da terra, nas origens. Estava presa lá junto com pedras, como alicerce. Seria alicerce para umas coisinhas talvez, para outras já era. Seria uma boa idéia, um bom pensamento, um bom argumento, mas dormiria sozinha. É assim que seria.
Escolheu deliberadamente viver no mundo real e agora que enfrentasse as conseqüências. A ignorância não é uma benção, tola pedante, a ignorância não existe.

De fato,

A vaidade é o maior dos pecados.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O amor é liquido e transborda pelas retinas


Antes de mais nada, uma idéia velha e muito certa: “Deus é amor”.  Calma, calma, não é o que vocês estão pensando. Ocorre que como Deus, o amor é um conceito inatingível, irrealizável. Inexistente, para ser franca. Ocorre que entre todos os conceitos abstratos, esses dois ficam no top 2 em “depender da subjetividade do intérprete.” Tal como a ideia de Deus, a de amor não tem uma forma certa; Sua definição depende totalmente do modo como é pensado. Ele não existe, em si.
 
Ele é pensado, imaginado, suposto. Nem substantivo abstrato posso afirmar com certeza que ele é, porque tem quem acredite que ele não precisa de outrem para existir. Digamos que essas duas palavras (como as outras) no fundo são copos vazios que enchemos como uma mistura de sensações/ânsias/esperanças/medos/necessidades, traduzidas numa idéia. A idéia pura, abstrata, é uma coisa curiosa e o melhor dela é que é absolutamente inexistente. 

Dois camaradas podem estar conversando sobre amor, mas na realidade estarem falando sobre coisas totalmente distintas entre si. Idem com Deus. E com todas as outras coisas, na verdade. Eu costumo dizer que o que eu vejo vermelho talvez seja o que você vê azul e nós jamais saberemos. Porque alguém não pode entrar nos olhos de alguém. Mesmo que olhe através dos olhos de alguém, os olhos que olham através continuam sendo os seus. Cada um de nós tem/é um universo. Eu sou o centro do meu universo e você é do seu. Como poderia ser diferente?

 “Egocêntrico” não deveria ser uma ofensa e sim uma afirmação retórica e desnecessária de tão lógica que é. Como não ter seu ego (eu) como centro? É como pedir para o olho de um furacão para localizar-se em suas beiradas! A exceção para isso (e não completa, mas somente pelas brechas e em partes) são as pessoas espiritualmente superdotadas detentoras do dom (ou exercício) da empatia. A maior virtude, em minha opinião (se é que ela vale de alguma coisa). Ver o outro no espelho. Eu não possuo, mas queria tanto, tanto possuir que às vezes quase possuo. Mas não. É que é o tipo de coisa cujo brotamento a gente não pode forçar com a razão pura. 

A maioria das grandes coisas é assim, na verdade. Brota de dentro, sem forçar. Ao contrário, num relaxar de pulmões. Vem da outra razão, a razão sinestésica. O que a gente chama de intuição, mas na verdade é percepção. O que a gente chama de espírito (e que eu teimo em acreditar em espírito). Renego tudo: a alma, o coração, etc, tudo em prol da mente. Mas me deixe com o espírito também (ou ‘sensibilidade’), que ainda não estou pronta para deixá-lo ir. 

Então é só isso por hoje, só essa questãozinha epistemológica e me perdoem se os iludi com o título, foi despropositado. Fico-lhes devendo um texto sobre O amor líquido que transborda pelas retinas, porque por mais que eu negue a existência de sua definição, negue o consenso quanto ao seu significado, e negue até sua aplicabilidade prática eu também tenho meu muito subjetivo conceito de amor. E sim, cética estupidamente romântica como sou, acredito que ele transborda pelas retinas.

terça-feira, 27 de março de 2012

Ecos. (Me olha no espelho.)


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Procura-se em ecos.
Desbrava-se por neblinas.
Me olha no espelho.
Deságua-se em metáforas.
(O jeito são as metáforas...)
A imprecisão da matéria;
A maestria da inexistência.
Desbrava-me as retinas.
Procura-me as colinas –
De dentro, de fora. (Não são elas a mesma coisa?)
Muta-me as cores, mutando-se a íris.
Me olha no espelho.
Deságua-me em matérias!
E maestra-me em neblinas!
Colina-se em procura – Inclina, declina.
Derrete-se em palavras
Lambuza-se em navalhas!
Desrealize*-se/me. 
Abre as portas.
Abre as portas!
Muta-te as íris
E alcança o infinito...
Me olha no espelho.




"If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite"

"Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria para o homem como é, infinito"

-William Blake.


(Volto ao normal em breve, prometo.)

segunda-feira, 19 de março de 2012

O assassinato da sementinha

Ela sentou no chão e chorou sob o leite derramado.
Estava de luto pelo crime que cometera contra a sementinha.
Mas o destino da sementinha há muito fora traçado
E selado o futuro trágico que o tempo a prometia.

A sementinha fora plantada embaixo de um teto de concreto
E dela várias lindas plantinhas floresciam.
Mas chegou um momento em que chocaram-se contra o teto,
E lugar para onde evoluirem já não mais existia.

À partir daí só podiam voltar para baixo;
E junto ao seu talo formaram um elinhado tão complicado!...
Que prejudicavam a si mesmas e às suas vizinhas...
Não tinha jeito, estava tudo condenado:
A semente querida tornara-se daninha.

Por isso a jardineira, consciente de seu erro de estratégia,
O tempo todo planejando uma evolução que jamais existiria
Arrancou a sementinha da terra com com mãos de ferro,
Olhos de lágrimas e muita melancolia.

É claro que nesse momento inicial ainda existia na terra
A triste sensação de existência da sementinha!
Igualmente, portanto, persistia na jardineira
A dor pela perda da querida sementinha daninha...

Mas o tempo passaria e a terra voltaria a ser fértil;
E a jardineira se voltaria às suas outras plantinhas...
Tudo passaria, até mesmo a memória
Do tenebroso assassinato da sementinha querida.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Meet me on the equinox. (O conto.)




“Existem mais coisas entre um mundo e outro que nossa vã...”




Pisou naquela areia como se fosse nada. Chegou naquela praia como se fosse óbvio. Como se não pudesse ser de outra maneira. E lá ela o esperava. Seus pés faziam seus papéis afundando-se na areia clara, que recebia carícias da água negra. Em frente a eles, enfim, o horizonte escuro. As estrelas brancas eram a única iluminação para aqueles dois rostos pálidos que encaravam a escuridão infinita. Elas os observavam, assistiam a ironia dos acontecimentos (sobre-)humanos. São jocosas, as estrelas. Sempre fascinadas por nossa doce miséria. Sempre fascinantes. 

-Então é isso, não é?
 

-É. É isso.
 

Ela olhou para cima:
-Hoje Júpiter faz lua conosco. Conclui seu ciclo. Eu acho que hoje vai ser um dia importante.
 

-Hoje nunca aconteceu, agora que é importante... E você sequer acredita nessas coisas.
 

Ela sorriu:
-Eu acredito em tudo.
 

-E em nada.
 

Eles riram aquele riso de fim. Não de dia, mas de mundo. Amanhã seria outra vida, jamais saberiam. Ninguém podia imaginar que as respostas eram proibidas, que com elas viria o esquecimento. Agora, eles sabiam. Agora tudo parecia claro. Claro e calmo: a conformidade das mortes múltiplas.
 

 -Nada será sempre o mesmo depois de hoje. – Ela disse e o olhou, enquanto uma estrela se fazia cadente acima deles.

Ele tocou sua mão como se ainda fossem humanos, como se ela ainda fosse a menina de saia laranja e óculos redondos. (Parecia ter sido há tanto tempo atrás...)


-Nada nunca foi como antes. Nunca houve um antes.


-Não desde que você entrou no meu apartamento no primeiro dia de nossas verdadeiras vidas.


-E você abriu a porta esbaforida, sem fôlego por correr para atender a campainha. Antes daquele momento ainda era você, a menina de olhos grandes, antes de nossos olhos se baterem pela primeira vez. Antes daquilo ainda era tudo... – Parou de falar e sua mão pressionou a dela com um pouco mais de força.


Ela o olhou clemente, embora compartilhasse do resquício de angústia:
-Aquilo foi outra vida.


-É, foi. – Ele soltou o fôlego e sua mão, no momento em que uma rajada de frio o acalmou, o trazendo de volta para o todo ao qual agora pertenc(er)ia, tão distante do uni que outrora fora. Do corpo que outrora fora.


-Sabe. – Ela dizia com um sorriso no rosto. –Aqui foi assim, mas em outra dimensão nos conhecemos num café. Você passou por mim e foi aí que seus olhos me disseram.


Ele riu também, pois conhecia além dessa outras versões: 

- Sempre é diferente, mas o resultado é sempre igual.  E ao mesmo tempo é só aqui agora.

Ela não podia discordar, mas não fazia sentido concordar. Todas as palavras que proferiam, de fato, eram supérfluas e desnecessárias. Todas as palavras o foram desde o momento em que seus olhos fizeram a ponte. Em que seu corpo foi somente o meio. 
A malícia tornou-se inócua, a nudez natural. Poderiam andar nus se o mundo fosse seu país. E de fato era, de fato foi por um tempo, enquanto descobriam a verdade aos poucos sem terem ainda tornado-se estrelas. Quando ainda humanos, descobriam-se mutuamente, sem entender o reflexo e o espelho que eram. 
Nas tardes de chuva e sol e sorrisos sutis que cada vez os levavam para mais longe de seu contexto. Quando ainda humanos, aos poucos vítimas da mutação que seu encontro proporcionara, redescobriam o que adormecido em seus interiores os definia.
 

Mais uma rajada de vento frio.
 

Nesse momento mais três estrelas caíram e eles perceberam que se aproximava o momento:
 

Ela levou a mão esquerda ao seio, o desnudando. Ele compreendeu e fechou os olhos. Já não eram mais corpos nem homem e mulher. Já não eram as palavras que serviam para comunicarem-se (A conversa deles era mera distração). Não desde que ela abriu a porta esbaforida, a menina de saia laranja. E até antes disso, quando eles se viram pela primeira vez naquele lugar de gente improvável e seus olhos se bateram. Sim, uma colisão e tanto. Bateram-se e disseram verbos sobre a vida. Até então adormecidos. Não desde que os olhos dele atingiram os dela naquele segundo fatal, que os levaria de volta para casa.
 

 A queda de duas estrelas ofuscou o mar opaco.

Tudo era absolutamente tranqüilo e cheio de conformidade no fim.