segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A visão do Hotel Panorama é medonha. (Ou "Conto sobre um menino-demônio.)

Os lábios inchados e rachados de mordidas. As mãos finas de veias saltadas. Droga e também substâncias químicas, que mais? Minha camiseta florida porque talvez seja a mais cínica em tuas mãos quentes, extremamente assim. Entra uma luz estranha pela janela, entra uma luz multi colorida entre cortinas anil. E daí mãos e pés e lábios e calores e não há absolutamente nada de erótico nisso, é necessário ressaltar . Teu corpo de menino andrógino, olhos grandes, olhos mortos, olhos de ancião sarcástico. Gosto dos lençóis. Curto teus lençóis alucinógenos como curto você. - E por isso mesmo encurto minha estadia, por um pavio também curto que já já vai apagar, logo após acender. Não importa, nada importa. Te vi 3 mil anos atrás, semana passada, numa noite onde tudo anunciava a tragédia num gramado daquele lugar de gente profana. Fumava e sorria, olhava para baixo, olhava para o nada. - Sabia. Eu, claro. Tu já não sabia de nada e isso te trazia imensa sabedoria. Intensamente sensorial do começo ao trágico e previsível fim. E naquela noite tosca, naquela noite prima olhei o céu e a lua zombou de mim ao me dar o vislumbre inicial do começo, meio e - De certo modo, portanto, ao te ver com teus amigos fumando enquanto eu, espectro no lugar errado, na hora errada, seguindo fielmente o que ditaram as linhas do tal destino, eu, então, de certo modo, naquele simplesmente trágico ou obviamente banal momento, já me vi deitada numa cama que não era minha num quarto que não era meu, cuspindo o horror do meu corpo ao lado do teu. Gosto de tocar a ferida, de tocar em frente a banda do desatino. E foi assim que toquei aquele formigueiro, despertei o que já sabia que era vil, e que vil viria como uma tempestada de peste, como uma maldição enfim. Toquei o prisma proibido ou seja lá como queira chamar. Vi em ti outros mais e em seguida veria em tantos a ti, como é natural. Toquei fantasmas, troquei fantasmas. Suspirei no teu ouvido - Lençóis molhados, alguns mosquitos, as cortinas absolutamente infames cobrindo aquela janela do Hotel acabado - suspirei no teu ouvido, gultural, inconsciente, comovido - Suspirei no teu ouvido:
"-Teus fantasmas te mandam lembranças."
Vi teu olhar de pavor e é importante ressaltar, meu amor, que também eu sou pavorosa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

The boy who blocked his own shot - Letra e música.

Silêncio.
Você não diz nada, não me diz nada. Não percebo mais em teus olhos o impulso de tentar me ferir, se proteger ou projetar qualquer sentimento em mim. Estão vazios e opacos e nem cheios das lembranças parecem, embora eu saiba que foram elas que os deixaram assim.
Isso acaba comigo, me desespera. Digo uma, digo outra vez. Exploro feridas antigas, uso das palavras com a destreza cruel com a qual fui ensinado. Nada, nenhum efeito, reação. Só um pouco mais de vazio, depois, enfim.
Desespero.
Pego sua mão, subitamente. Tento o efeito inverso. Meu orgulho começa a se apagar. Mas nem isso, meu Deus. Temo que algo, sua alma, seu espírito, essas coisas das quais você sempre falou e nas quais eu nunca acreditei, tenham morrido. Essas coisas, cujas existências são essenciais para minha sobrevivência - embora só perceba tudo isso agora - e que arduamente tentei destruir.
-O que eu posso fazer, o que eu posso te dar? Quer que eu vá embora, que eu fique?
Você não diz nada, não me diz nada. Dá de ombros, puxa o fôlego. Tenta ser gentil, mesmo na dor. Tenha ter reciprocidade, mesmo no vazio. Retribui os meus carinhos, mas quando encosta seus lábios nos meus uma lágrima escorre de seus olhos mortos, porque se viola ainda mais. Vejo o que sou para você: Vejo que me tornei um poço de tristeza, o grande estopim de todas as tuas dores. Não posso mais te dar nada, percebo. Nada.
Pela primeira vez na vida, talvez, tento pensar no que você precisa em vez de no que eu quero. De repente me pergunto, afoito, como se uma venda tivesse acabado de ser tirada de meus olhos, como/por que não pensei nisso antes. E percebo, em aflição, que foi isso que você fez o tempo todo. E que ainda faz agora.
Frágil e doce, mesmo na amargura. Seus olhos são bondosos e seus finos braços pálidos me abraçam com compaixão. Seu corpo todo tão frágil, sua doce alma tão imensamente forte. Destruída pela única força maldita que poderia tê-lo feito. Te olho, te gravo, te tatuo. Jamais te esqueço. Parto. – Porque é a única coisa a fazer por ti agora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crash into me - Dave Matthews Band (Essencial, por favor.)

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Era simples e geralmente chovia bem no meio da tarde, às 16h.
Ela morava num lugar pequeno que tinha uma janela de tela furada para um corredor tosco e o céu branco. Sua cama era o melhor lugar do mundo e ela nem imaginava que tudo que a rodeava tinha o inequívoco aroma de sua frágil existência.
Ela já começava a conhecer as coisas belas e tristes, a doçura, o céu à noite e a importância dos olhares. Havia um ou dois apanhadores de sonho por seu quarto porque à noite, às vezes, fantasmas que nunca tinha conhecido lhe visitavam, mas há também quem diga que vezenquando um ou outro anjo mal beijava seus lábios durante o sono.

Ela gostava de vê-lo entrar sorrindo, com os cabelos molhados de quando a chuva estava no começo.
Te adocicar, te amaciar - era complexamente fácil embalá-lo numa melodia muito natural com gosto de infância e outras iguarias tais.
Às 16h o céu chuvoso é magnífico, repare bem.
Não era muito diferente de passar a tarde em casa, na infância, tomando o picolé do carrinho que apitava todos os dias pela rua e sorrindo por coisas que lhe eram inocentemente e genuinamente engraçadas, na época.
Não era muito diferente do vento frio que entrava de supetão pela janela, anunciando o começo de chuva e embora frio era sutil, e era doce e formava uma atmosfera de sonho no quarto com o lustre antigo às 16h da tarde, de qualquer tarde qualquer.
Não era muito diferente de não precisar forçar sorrisos ou piadas, bagunçar os cabelos castanhos e quase longos dele e fazê-lo sorrir também sem nenhuma intenção disso.
Era simples deitar naquela cama com cheiro de tudo que um dia já foi seguro, com ele, com a música baixinha vindo do rádio e o vento levemente frio os envolvendo e muitas vezes sem toques, muitas vezes sem nudez nem nada do gênero e sorrir e brincar de palavras ou músicas  e olhares e amor ou algo que o valha e dormir e sonhar um com o outro e por causa disso, de tudo isso, acordarem felizes, totalmente felizes, sem sequer terem consciência disso.
Era simples como o rebentar de uma pequena mas refrescante onda na praia durante a chuva do meio da tarde, porque dizem que não existe nada mais doce do que o céu chuvoso às 16h, se você quer saber.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para não dizer que não falei do feeling.

Então preste atenção: Nunca amor, isso é bobagem. Eu ainda não encontrei um bom motivo para ingressar nisso porque apesar de tudo as porradas que a gente leva não satisfazem e os benefícios que nos acometem anestesiam uma parte muito intensa e viva e importante da gente e veja bem, você nunca pode ter um só foco porque isso te destrói e te limita. É conversa-fiada esse negócio de ter só um foco porque nenhuma ciência é una, todas se complementam, você sabe, e a menos que você esteja desprendido o suficiente de cada coisa para apreciar todas ao menos um pouco, você vai estar tão profundamente dentro que vai perder a sublime capacidade de ver de fora. Por isso que em dias assim em que o céu está magnífico eu imagino que talvez não tenha sido criada para amar, ao menos romanticamente e individualmente, como vocês falam, porque todas as vezes em que me enquadrei neste conceito estranho, morri mais que vivi e tentava fervorosamente me convencer de que estava viva. Uma vez tendo aceitado essa condição meio nômade meio cigana meio raposa eu finalmente me sinto amando de tudo um pouco do fundo do meu coração, esse órgão sangrento que é grande demais para caber em um só par de mãos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Fluxograma resenhado de Pensamento (Ou “A preguiça e etc.”)

Esse é um texto longo e maçante. Só comece a ler se estiver com muito saco.


Engraçado. Toda e qualquer linha de raciocínio na qual me atrevo a ingressar com mais profundidade do que o habitual, finda por me levar à consciência de minha total e absoluta ignorância sobre a grande maioria das coisas. É tão desesperador ser cônscia das minhas próprias barreiras limitadoras. Vejo muitas coisas: Vejo ego, vejo medo, vejo covardia, vejo preguiça. Talvez seja a maior de todas as covardias, a própria preguiça. Estar ciente da capacidade de ser capaz e ainda assim ignorá-la. A acomodação parece, de certo modo, ser SIM o caminho natural das coisas. Nós, como fomos criados, parecemos ter sido primariamente colocados numa esteira inútil. Postos num caminho quase autocondutor, sendo guiados pelo amigo tempo de certo modo que só passamos pelas vitrines dos elementos, nunca descendo da esteira para aprofundarmo-nos nas lojas (com o devido perdão pela comparação cretina); Desse modo somos “levados a levar” uma vida medíocre e superficial cujo destino é nada menos que a morte – Uma experiência que com a subjetividade limitada que desenvolvemos, é provável que nem sejamos capazes de apreciar. Mas a culpa, amiguinhos, não é do “sistema” não. Não é da mídia, do governo ou dos cambal de bodes expiatórios que é de praxe usarmos. A culpa é nossa porque a gente é máquina porque a gente gosta de ser máquina. É mais fácil, não traz maiores indagações e ainda por cima, se você manejar direitinho, nos faz sentirmo-nos produtivos. Triple bonus. Acontece que, no final das contas, é tenso pensar. É extremamente angustiante viver confrontando a realidade – Cansa. É como forçar um limite invisível, uma barreira impensável. Principalmente quando, ora, existe uma alternativa tão mais fácil. É como tentar estudar matemática para a prova do dia seguinte enquanto se está com sono. E o sono vai aumentando à medida que você tenta estudar, esse sacana. É de propósito, parece. Aposto que se você não tivesse prova, ia estar ligadão jogando videogame até de madrugada. Agora me pergunto: Por que eles fazem isso? O cérebro, a mente? Por que não querem que a gente estude matemática, por que não querem que a gente pense? Me deixam abismada as armadilhas cretinas nas quais nos metem. Quando você menos percebe, lá está você julgando alguém por causa de uma roupa, fechando um livro de filosofia porque “é complicado”, gastando seus dias/anos/vida(s) em uma série de movimentos físicos e mentais extremamente padronizados. Mas engraçado também é que parece que de alguma forma, em alguma instância, não satisfaz. Parece existir uma criatividade inerente, pulsante, que como a gente não usa, se manifesta de outras formas, força saída (Ao menos a porção dela que não se atrofiou.). Daí nascem as mais variadas idiotices, porque se tem algo babaca é o resultado de uma criatividade mal canalizada. Daí nascem os draminhas, os joguinhos, toda aquela movimentação desnecessária em aspectos (semi) irrelevantes da vida que fazemos para nos sentirmos vivendo-a! Porque aí fica uma equação legal. Fácil, não? Você não tem trabalho pensando nas coisas “grandes” (que na verdade são naturalmente  simples) e exercita o... (Sei lá que palavra recebe isso), bom, exercita alguma coisa aí nessas pequenas atividades tolas. E daí? Daí nada, como sempre. Sempre concluo assim: Daí nada. Porque por mais que eu fale aqui, “tô nessas”, meu amigo. E tenho bastante certeza de como daqui para a meia noite, vou arrumar algo idiota com o que me ocupar também.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"I have never fail to fail."

Eu tentei ser doce
Eu tentei ser viva
Eu tentei ser luz
e apaguei em seguida.

Não me dê nada,
não quero nada nada.
Teu amor que seduz
me adoece a ferida
minha ferida é tão doce
chocolate, a querida.


De nada serei refém.
De ninguém serei a vaidade;
A nada direi amém,
A ninguém cantarei saudade.

A nada entregarei meu bem
Minha amada tranquilidade
Veja bem,
depois de tanta insanidade -
Já cansei.
Sem rimas, liberdade.





(Tô cansando desse blog, meus bens. Sinto que ele chega a seus momentos finais...)