segunda-feira, 25 de julho de 2011

O meu refrigerador voltou a funcionar

Outra variação de derrota,
Te conduzo pelo zíper dos meus lábios
Tente acompanhar essa linha de pensamentos doentia
E pelas rotas do riso cínico me fazer companhia
Ou vá lá, mas vamos cá
Só, por favor, não me venha chorar.

Pega um punhado de preces e outro de promessas
Meio fio, por um fino, tô nessas.
E te deixar de olhos rotos em poesia
Eu vou te dar o nascer do sol ao meio dia

Tua energia trágica nas tuas costas embriaga
E traço nelas com meus dedos essa linha curvilínea
Abre esses lábios, bafora em mim tua fumaça e traga.
Traz o corpo, traz a alma, quero ao menos ser faminta
Mas nada, beijo ou tato, descongela essa menina.

Acode aqui alguém, por favor.
Aquece, esquenta. Sei lá, ao menos tenta.
Alguém precisa fazer alguma coisa, porque desculpa, Mutantes, por desparafrasear*,
Mas é que meu refrigerador voltou a funcionar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Te encontro na Madre Vilac

Acende o esqueiro. Apaga o esqueiro. Acende, apaga.
Para com esse barulho, cara.
Era noite, claro. Naquele cruzamento enfim. A avenida era estranha para quem passava, que não se passasse por aí a essa hora, garoto, mas era familiar a ele. Aquela era sua vida. Ele olhava entediado enquanto os outros fumavam, brincavam. Um dia foi interessante, era ele ali, mas agora carregava uma certa tranquilidade, mesmo depois de tão pouco tempo. O novo era interessante, o costume desgasta. Daí, assim. Não era ruim não, só de praxe. E aquele dia estava um pouco apreenssivo. Será que não devia algo acontecer, devia?
O que você tá fazendo aí cara, vamo puxar uma. Olhou de lado. Ia chegar em casa muito, muito tarde de novo. Quer dizer, cedo. Da manhã. Lembrou quando a velha dizia alguma coisa ainda, agora nem um pouco. Sentia até falta às vezes. Era tão fácil já.
-Você tá bem, Thales?
Perguntou a menina.
Ele olhou de lado. Uhum, assim com a cabeça. Tinha alguma coisa o puxando para trás. Estavam no meio fio, bem no meio da Avenida e ele a viu: Aquela rua era estranha para o diabo, uma ruazinha assim, o chamando. Dava para ver dali aquela rua estranha, mais estranha que essa Avenida ainda, entrando pelo um  bequinho, umas casas em que talvez nem houvesse ninguém e que pareciam ter um quê de antigas. Rua Madre Vilac.
Pulou dos entulhos sobre onde estava sentado.
-Vai pra onde, Thales?
Perguntou o primo.
Ele não respondeu, nem precisava. O outro estava chapado mesmo e ele só...Parou no caminho, tenho nada a fazer nessa rua não.
Vou pra casa. Mas por quê, são nem 5, tem nem sol ainda. Eu vou porque, sei lá. Saiu. Odiava se explicar.
Chegou em casa e dormiu com a mesma roupa, o sino da igreja tocando 5 horas, que estranho ele achava que só tocava às 6. Pegou no sono, sonhando com a Madre Vilac.

Pela manhã, a escola. Tedioso, automático. Não acabava nunca essa escola, se bem que sabia que quando acabasse talvez fosse pior, ou não. "Tanto faz". Tinha sonhado e era importante, mas o que era?
O que era, o que era? Se perguntava enquanto seguia para casa, seguido pela menina. O cabelo desarrumado, a mochila jogada sobre os ombros, ah Thales costumava ser um menino tão bom... Daí passou pela Avenida. Tchau, você dobra aqui, né? É, vem hoje à noite? Claro, provavelmente, todo dia, não?
Daí olhou de lado, cadê a ruazinha? A Madre Vilac? Diabos, não identificava. Olhou pelo quarteirão, uma entrada, outra. Nada do bequinho. Devia ser muito diferente à luz do dia. Continuou seguindo pelo meio fio, sempre o meio fio, afinal, né.

Os grilos começavam a cantar quando o celular vibrou
"Vem não?"
Bem na hora que a mãe passou pelo quarto com a porta aberta e até olhou com um espanto:
-Não vai sair hoje, Thales?
Olhou de lado, aborrecido. Era tão incomum assim?
Mas não queria ir para a Avenida não, quer dizer, queria, intensamente. Praticamente sentia-se puxado até lá hoje, especificamente. Mas aquela apreenssão...Não queria, então.
-Vou sim.
Claro que para ele sempre funcionava a lei dos contrários.
Mas quando chegou na Avenida, não tinha ninguém. Checou o celular. Uma festinha, em algum lugar. Imaginou o cenário, álcool, drogas, sexo... Uma típica comemoração grega...Em nada o atraiu. O que estava havendo? Virou de lado. Lá estava ela.
Eu lembrei o que sonhei, lembrei que sonhei com uma cartomante.
Ela tirava-lhe as cartas e sorria um riso de gato sinistro. Seu nome era Madre Vilac. Ou o nome da carta era Madre Vilac. Um arrepio atravessou seu corpo moço. Riu. Que besteira. Não era supertiscioso, nem um pouco. Era tudo besteira, coisa que sua irmã mais nova ficava vendo em revista. E ria cada vez mais forçado, enquanto atravessava a avenida.
Pisou na calçada com seu tênis gasto. A entrada da rua à sua frente o encarava. A plaquinha já velha com
o "Madre" quase apagado. Parecia mais escura ainda, mas sozinha ainda, mais encantada ainda. Olhou de lado, para o caminho que levava à sua casa. Olhou para frente.
Agora ouça bem que essa é uma lição para a vida: Sempre há uma bifurcação, sempre.
Thales sorriu, olhou para baixo, acendeu um cigarro. Teve a impressão de ver uma moça nas profundezas daquela rua e sacodiu a cabeça. Voltou-se para o lado e deu um passo em direção à sua casa.
Mas para Thales, como eu disse, sempre funcionava a lei dos contrários.
Ele girou nos calcanhares e entrou na Rua Madre Vilac.
Mas é claro que ele nunca voltou.

sábado, 9 de julho de 2011

No jardim do bem e do mal.

-Desculpe, minha amiga, mas assim não dá.
-Mas. Portanto. Porém?
Ela sempre pediu mais, jamais menos; Ela sempre foi mais que menos e no entanto quem disse que basta, porque não sei se você sabe, mas de presença também se faz ausência. E ela queria tanto, portanto, queria todo e de tantos, de todos queria tudo.
-Não faça assim. Te olhando, me vejo tão ancião! Do alto de meus vinte e poucos anos, te vejo repetindo meus erros e plantando o motivo de suas preces futuras, que já não tardam tanto.
-Eu esnobei esse crucifixo. Esnobei ter um endereço fixo e suas raízes joguei no lixo.
Mas, portanto, porém...
-Você dizia que não amava apesar de, e sim por causa de, mas você dizia isso para todos que você amava e você amava tantos e o problema, minha cara Madalena, é que todos, todos, todos eram amáveis. Não era o que você dizia? "Sempre vale a pena"?
Mas veja só o quão penosa foi a tal pena.
Agora não adianta, não adianta vir aqui nesse pôr de sol, porque todos com quem você conversar serão fantasmas. Serão lembranças.
Marcadas em brasa na sua carne de criança.
-E você sempre, sempre, sempre foi uma criança.
O problema é que você nunca entendeu
Que um adulto é só uma criança que já cresceu.
E daí que você ficou aí. Esperando, esperando. E enquanto você esperava, a gente foi andando.
-E agora, a gente faz o quê?
A gente não faz nada, a gente senta e lamenta. Quer dizer, eu lamento, você eu não sei. Quem sabe você não tenta?
-Eu lamento porque o sol está se pondo e não tem nada, nada, nada que a gente possa fazer. São quase dezoito horas e esse tom assim meio laranja com azul e às vezes rosa coral só faz a gente lamentar, minha amiga e adversária.
E independentemente de tudo, apesar de tudo e porquantos todos, você é infinitamente amável e eu gosto muito, muito, muito de você.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Menininho - A improvável (e breve) continuação

(Este pequeno texto já tem um par de meses, mas eu estive protelando publicá-lo por aqueles receios bestas dos quais vocês já sabem. No entanto, estou sem coisas novas, então aqui vai)


Ah, meu menininho.
Cá estamos nós novamente.
E o tempo, este coringa vadio.
Olha só o que ele fez com a gente!

Seus lábios estão mais doces;
Sua fúria agora jaz ausente.
Mas meus olhos já não vêem cores;
Neste torpe carinho que sentes.

Seus olhos são petróleo vazio;
E sua cabeleira ainda assanhada.
Escolho "Adeus", meu anjo sombrio.
Nos revemos na madrugada.