domingo, 19 de junho de 2011

Poderia sair melhor, mas sairá assim mesmo.

É triste ver como vocês me deixaram com medo.
De ser quem eu era, de ser quem eu sou.
Vocês me meteram medo sem eu nem perceber.
Com aquele olhar atravessado, com o riso e o comentário;
Com a possibilidade do pensamento, com as hipóteses e as teorias.
Vocês me deixaram com medo quando me chamaram de quente e me deixaram com medo quando me chamaram de fria.
Me fizeram temer entre ambos os extremos da temperatura, que
foi onde e somente onde eu sempre consegui estar; E o fizeram tão
intensamente que eu acabei me colocando no morno,
me equilibrando no neutro; No "nada a declarar".
Unica e somente por medo do que vocês poderiam pensar
Mas a culpa, no fundo, não é de vocês. É minha que deixei sangrar mais do que devia; As cicatrizes que antes eu tão bem costurava.
E o sangue afrouxou os laços de proteção que me seguravam;
Que me mantinham ilesa em mim mesma na tempestade;
Que não se preocupavam com quem ou quantos questionavam minha sanidade.
Eu não quero mais ser morna e não quero mais ser medrosa.
E definitivamente não quero mais ser um produto do que vocês podem pensar.
Tomem suas pranchetas; À postos com suas canetas!
Porque a partir de agora, o de antes está de volta
e não importa o que irão anotar.




(À propósito, eu retirei a moderação de comentários.
Comentem o que quiserem, benzinhos.
)

sábado, 18 de junho de 2011

"Vamos fingir que nunca partimos."

Inspirado por 'Breve' de 'Pouca Vogal'  [Escutem, se puderem.])

O despertador toca. Ela tira as mãos de baixo das cobertas com esforço e o abate. Adia o momento de abrir os olhos o máximo possível enquanto procura em algum lugar ao seu lado o corpo familiar.
Permite-se um rápido vislumbre da nuca pálida e os cabelos bagunçados pelo sono e levanta, reconhecendo pelo tique taque agoniante do relógio que já está mais que na hora de acordar.

Toma um banho rápido e quente, porque o clima que entra pelas janelas está congelante. Quando sai do boxe de toalha, sorri ao ver um recado feito no vapor do espelho do banheiro.

Na cozinha, ela coloca a chaleira para trabalhar. É claro que o café da manhã está em pacotinhos no armário. Ela nunca soube cozinhar e embora sempre achasse que por volta de seus vinte e tantos anos já teria aprendido, nunca  isso aconteceu e já começava a se conformar que jamais iria.

A grande janela da cozinha lhe permite uma visão panorâmica da segunda feira nublada. Escuta o som do quarto ligar seguido do barulho de água caindo do chuveiro e um arrepio estranho passa por seu corpo quando tira as chinelas e seus pés tocam o chão gelado. Por um momento tudo parece estranhamente surreal, mas ela sacode a cabeça e serve as xícaras de café.

Está perto de ficar atrasada e enquanto coloca o blazer, sente os dois braços ainda molhados a envolvendo por trás. Ela sorri e reclama que ele a está molhando. Ele não liga e a arrasta novamente para a cama.

Às 18h, o alarme da usina toca indicando que é hora de fim de turno. Do lado oposto da cidade, ela desce as escadas do escritório falando com a mãe pelo celular, e pega  o carro para encontrar duas amigas do tempo de faculdade num cineminha que inaugurou no subúrbio.
Elas riem de besteiras e histórias antigas e quando o filme começa ela percebe que nem reparou no título.

Os minutos passam e quando ela resolve prestar atenção, repara no que parece ser o clímax dramático. Nessa cena um garoto e uma garota jovens se encaram com tristeza e raiva, e por não saberem direito o que dizer, dizem "Adeus". Uma sensação muito estranha se acomoda na boca de seu estômago e ela diz que vai sair para tomar um ar porque na verdade ela começa a sentir vontade de vomitar.

Ela espera que a visão de começo de noite lhe acalme, mas de repente a rua do cinema lhe parece igualmente ameaçadora e uma estranha nostalgia parece querer forçar-se em sua mente. Tem a impressão de que tem algo a se lembrar daquela rua, e o impulso que todas essas sensações de estranheza  lhe dão é o de ligar para ele, pois ela sente que tem que confirmar alguma coisa, conferir algo essencial.
Mas quando ela liga, ele não atende.
Manda um torpedo se desculpando para as amigas e pega o carro para casa, reconhecendo que tem algo muito errado acontecendo.

Embora o normal fosse que àquele horário ele ainda estivesse no trabalho ou em sua própria casa, é ele que quem abre a porta quando ela começava a girar a chave e a olha confuso quando percebe seu olhar de nervosismo.

Ela solta um grande suspiro de alívio o abraçando, e todas as sensações estranhas se dissipam. Quando ele a pergunta o que houve, nem ela mesma sabe responder e começa a se perguntar o que diabos tinha acontecido consigo para ter se comportado daquele jeito. Ele a leva para o sofá e começa a  falar sobre o seu dia. Abrem uma garrafa de vinho cuja familiaridade que o rótulo lhe provoca ela também resolve ignorar, e no decorrer da noite ela adormece ainda com a roupa do trabalho em seu ombro.


O despertador toca. Ela abre os olhos num susto, o coração à mil.
Olha de lado e os fecha novamente, num suspiro.
É claro que nada disso nunca aconteceu.