terça-feira, 31 de maio de 2011

Modus operandi

Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu escrevo mentiras tão bonitas.
Eu escrevo mentiras de amor. Eu escrevo mentiras de vida.
Eu enfeito o que é tosco, e acentuo o que é bonito.
Eu poetizo o que é roto, e eufemismo teu egoísmo.
De uma estrutura côncova, faço um arco; Do inevitável faço trágico.
Bebo na fonte da minha própria visão, e tomo por reais tuas flores de plástico.
Nada disso é pessoal. É pura literatura, baby.
Qualquer palavra é sempre banal, não resiste às mudanças de quem a escreve.
Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu sou minha maior traiçoeira.
Mas para vocês, só escrevo verdades; Não julgue o arco pelo destino da flecha.
Literariamente falando, até amo. Mas sou infidelíssima, pode crer.
Se for esteticamente coerente, no segundo seguinte posso não mais te querer.

(Guardo meus eufemismos e exclamações na manga
como temperos para nossa exaustiva dança.)

O texto que não deveria ser escrito.

Você olha para baixo, para o relógio e eu sei: Estou te irritando. Toco sua nuca, dou aquele sorriso sem jeito de quando admito meu próprio erro; E te vejo ceder novamente, mas já não tão flexível. Mais tarde, longe de tudo, longe do seu aroma amadeirado, eu finalmente sei que sei o que estou fazendo. E daí, de repente, vem aquele desespero estranho, aquele desespero mudo. Porque eu percebo, assim, simples como quem percebe a luz ambiente, que não posso te perder. Estive te afastando com todas as células do meu corpo desde que tudo isso (re)começou, e faço isso sem perceber e sem saber o por quê, sem conscientemente estar ciente
do medo causador de todos esses males. Mas daí, agora, nessa hora, onde só a escuridão ilumina meus pensamentos, percebo assustada, petrificada, que eu realmente não quero perder isso. Isso... Suas piadas ruins e sua boca zombeteira. Suas mãos congelantes e suadas de carinhos sutis e discretos. Seu senso de humor distorcido e a extravagante megalomania de seus pensamentos. Seus olhos escuros, olhos fundos, duas poças de petróleo que eu não consigo encarar por muito tempo porque elas me empurram. E todos os pensamentos que essa combinação estranha e perigosa traz me irritam. Me irritam porque eu percebo que já caí nessa armadilha não foi hoje nem há alguns meses e sim desde o primeiro momento do primeiro dia em que nos descobrimos. E me irritam ainda mais porque me dou conta, novamente, do simples e absoluto fato de que com você eu jamais consigo vencer. Seja nas notas, no xadrez ou no amor, você está sempre me derrotando. Me derrotou anos atrás e me derrotou agora, onde me rendo escrevendo um texto que me jurei jamais escrever quando jurei jamais escrever novamente sobre você (e que, pelos céus, espero que você nunca leia). Mas principalmente, me derrotou naquele momento, onde com a mão sob o coração acelerado
e uma bandeira branca hasteada nele, fechei os olhos, e constatei o inegável e aterrorizante:
"-Ah, de novo não..."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Para uma amiga querida, com o maior carinho possível.

Abriu os olhos. A cor do céu através de sua janela era de laranja fogo flamejante.
Tudo ao seu redor irradiava calor. A música que tocava em seus tímpanos era um rock 'n roll doce, melódico e aterrorizante. Seu coração pulsava forte, forte e quase sentia o sangue banhando todos os tecidos de seu
corpo várias vezes por minuto. Ele, seu coração, ela viu no espelho, estava intacto. As fibras se abraçavam, mais fortes que nunca, mais fortes que tudo. Seu escarlate intenso e altamente vivo impedia que se imaginasse que já houveram lá grandes buracos, um dia.

Lá fora, o mundo era a catástrofe. E esse catastrófico caos a alimentava. Elevava sua energia, aumentava sua força. Aguçava seu olhar, sensibilizava seu odor, impulsionava sua mente. Sua mente, esse eterno animal selvagem e faminto. Queria mais o tempo todo, mesmo quando muito recebia: Mais informação, mais conhecimento, mais poder, mais do doce gosto da vitória que atrai novos desafios.

O crucifixo em seu pescoço era uma promessa e uma piada. O tocou com seus dedos finos, finos demais e sorriu sutilmente para seu amigo há tanto tempo visitado. Haveria um acerto de contas, estava certa, e aquela Cruz como uma vigia em seu colo recolhia todos seus pecados de amor para o dia do balanço final. Mas, por enquanto, ele que esperasse. Estava vivendo.

O quarto ao seu redor parecia estranho porque o dia de ontem tinha sido há 10.000 anos atrás e o hoje era completamente fascinante e isento de suas feridas, não obstante, equipado de seus ensinamentos. Sua mente trabalhava rápido enquanto o mundo ao redor a esperava entrar, mas sem nunca parar. Porque não pára e não pára nunca, estando ela quebrada ou inteira. Então por que, pelos Céus, ela teria motivo para se abster da extrema satisfação de ser forte nesse mundo?

domingo, 15 de maio de 2011

She delays

Ela atrasa. Ela atrasa no gesto e atrasa na ação. Ela adia a palavra na esperança vã de que tenha efeito. Ela adia a desistência, resistindo na resistência. Ela atrasa o ponto final, se enchendo de reticências. Ela continua tomando doses, esperando sentir a diferença. Ela atrasa o próximo gole, minando as próprias defesas. Ela atrasa o momento, a atencipação antes do beijo. Ela o atrasa tanto, que quando vem, vem sem efeito. Ela não se importa de chegar por último, por isso atrasa na corrida. Ela adia o ponto de chegada só para continuar a ouvir a torcida.