segunda-feira, 4 de abril de 2011

Munique

Munique acordou com o badalar dos sinos da 6 horas. A grande janela trincada do quarto velho trazia a visão daquele céu cinza. Cinza e pesado. Era cinza, mas não era um céu de algodão. Algum dia, talvez,
tivesse sido. Mas hoje não. Hoje era só uma ameaça de chuva.
Ela olhou para o corpo ao seu lado e imaginou que não significava nada, nada, nada. Ela fitou o rosto de homem. O sorriso zombateiro mesmo enquanto dormia. Pegou o travesseiro com as duas mãos e o aproximou do rosto daquele corpo. Poderia sufocá-lo. Por um momento, até imaginou os braços dele a se debaterem quando atingisse a consciência da morte iminente. Mas nem isso.
Nem essa ideia a empolgou, a excitou. Munique soltou o travesseiro. Aquele corpo não valia nem a morte.
Munique não tinha mãe e não tinha pai. Filha da noite e filha do dia, ela colecionava defuntos que ainda não tinham morrido. Munique partiu. Deixou aquele corpo, aquele lugar que nunca seria lar e subiu num ônibus para voltar nunca mais. É que Munique também colecionava despedidas.
Despedidas mudas, amantes e promessas.
Antes de tudo e de todos que tinham dado aquela curvatura insana a seu lábio de ainda vinte e poucos anos, havia coisas que Munique queria. Munique queria ser cantora. Munique queria ir para Munique. Queria encontrar qualquer movito ou semente para si, para ser quem era, para seu nome; Qualquer motivo que não o nazismo de seus pais.
Enquanto partia, ao encarar a brancura funerária daquele céu defunto, regurgitou essa ideia de uma outra Munique que já não lhe pertencia. Isso era de praxe. Munique sempre regurgitava. O café da manhã, o gozo, as palavras e até a vida que uma vez cometeu o ingênuo equívoco de instalar-se em si.
A única coisa que Munique engolia eram as lágrimas. Na verdade, não lembrava da última vez que estas fizeram menção de sair.
Munique lembrava nitidamente do dia em que percebeu que estava mudando. Era um verão escandalte e com os pés descalços naquela areia branca e o pôr de sol laranja ofuscando sua vista, Munique percebeu que estava se tornando má. Teve também, naquele segundo eterno, aquele segundo em que as linhas invisíveis do futuro são fiadas, a consciência de que ainda havia volta. Aquele caminho que no segundo seguinte estaria lacrado ainda estava aberto; A primeira Munique ainda estava viva, ainda podia voltar. Se ela deixasse.
Mas não o fez.
Porque junto da consciência do demônio que instalava-se em si, Munique sentiu poder. Sentiu a excitação corrente da energia nova que de tantas dores boas a pouparia.
Acontece que, apesar ou por causa de tudo, Munique era má. Munique, com seus olhos azuis grandes e seu frágil corpo alvo de moça, não possuia arrependimentos. Não, isso não a incomodava.
E isso, meus caros, por mais assustador que pareça, é possível.

domingo, 3 de abril de 2011

Capítulo Final

Hoje eu tive um sonho.
Nele, a gente se abraçava com tanta força, com tanta força, que eu sentia meu corpo imerso em alguma substância mágica, simples e surreal. Isso mesmo.
Era um abraço mais pleno e com um amor mais forte do os que nossos
abraços reais jamais contiveram. Era um abraço de reencontro de uma saudade extrema que nunca existiu.
Era um abraço de felicidade.
E esse, meu bem, foi um sonho impossível.

O tempo passou, e com ele você mudou.
No entanto, eu tenho a impressão de que você seguiu um caminho inverso ao que deveria ser. Um caminho antinatural. Quando eu te conheci, você era uma folha em branco. Limpa, uma folha limpa. E extremamente pura.
Em meio às possibilidades a serem desenhadas nessa folha, havia uma bifurcação. Uma das ruas era clara, era leve, era viva em relação a tudo e todos. Nela, você via tudo como uma possibilidade. E por isso mesmo, era tão encantadora. Você parecia já ter um pé nessa rua. Com seus sorrisos mágicos e seu
olhar de dia tranquilo. No entanto, algo aconteceu. Alguma coisa aconteceu. Algum joguete
do tempo, destino ou das meras coincidências:
Você enveredou pela outra rua. E isso, eu demorei muito para perceber. Nesse outro caminho, que era mais pesado, inflexível e aparentemente seguro... Você era rei. Suas palavras eram as certas; Suas ideias, imutáveis. E você era o jovem mestre de um microuniverso que não aceitava interrupções. Interferências.
E nesse mundo eu te perdi.
Perdi, porque as substâncias em mim que eram estranhas a ti não entravam nesse mundo. Eram consideradas corpos estranhos e você mandou os seus anticorpos da frieza e da indiferência para combatê-las. E as atacou numa batalha tão árdua onde o golpe final foi a desistência.
Touché.
Talvez, na outra rua, meus antígenos não fossem um problema. Talvez, como antes, tudo se  misturasse - o meu e o seu mundo - formando uma coisa muito mais diferente, bizarra e principalmente, muito mais bonita.
No entanto, como no começo foi dito, o tempo passou.

Eu acho que, no final das contas, é como Oscar Wilde disse mesmo, e todos possuímos dentro de nós o céu e o inferno. Mas, por incrível que possa parecer, há quem prefira viver em um e também há quem prefira viver no outro.
Quanto a mim,
Boa sorte, adeus e amém.
Lidar com o amor morto é fácil.
Mas o que fazer com o amor que ainda não morreu?
O que fazer quando uma das pontas daquele laço ainda se debate,
reluta e resiste, sem nenhuma conformidade?
E quanto mais a gente pisa nela e pede que silencie de vez,
mais ela força seus pulmões já fracos, porém ainda cheios
de indignação, e agoniza lentamente?
O que fazer com essa ponta solta, essa ponta só, se a outra
extremidade desse laço já, há tanto tempo, descansa em paz?