quinta-feira, 31 de março de 2011

O vôo da quimera

Parecia simples, sem riscos e descomplicado.
Aberta foi uma porta da emoção por nada menos que a racionalidade.
E de dentro dela veio a disponibilidade, a intenção - De criar
tal formosa construção, que traria para esse furacão, quem sabe,
alguma tranquilidade.
Levou tempo, é verdade. Levou espaço e muitas dimensões a mais.
O cientista, assim, pegou aquilo que via como pedra bruta,
e adicionando tolerância e bravura,
criou e transmutou até formar-se uma figura
que poderia, então, ser amada.
A quimera estava, então, pronta. Uma criação cujos ingredientes
estavam somente na imaginação - daquele que tencionava amá-la.
Experiência esta, que resultou positiva.
O cientista apaixonou-se por sua quimera querida.
E tanto amor doou a ela, quanto esta precisava.
No entanto, um dia, a entrega foi demais.
A quimera passou a perceber ter poderes tais;
E o amor de seu cientista, antes fonte de água e vida;
Tornou-se uma substância rude. A quimera queria mais.
Desprendeu-se então de seus zelos, e com a força adquirida por estes,
farfalhou asas de substância nova,
e partiu para longe de seu criador;
Levando junto seu amor,
que agora, enojada, rejeitou
talvez por ter sido demais.

terça-feira, 22 de março de 2011

Anabella e o botão

Um "obrigada" à Débora, porque tenho quase certeza de que foi por causa de algum texto de seu blog que pensei no nome da personagem.



Anabella tinha uma blusa preferida que usava quase todos os dias. Era clara, cor de pôr do sol e ao mesmo tempo um pouco rosa. Eram cores que Anabella nunca pensou que gostaria, ou que quereria em si, mas mesmo assim, quando as vestiu, serviram perfeitamente.
Haviam cinco botões e um deles ficava à altura do coração. Era  de uma cor destoante, diferente. Mas pareceu encaixar-se perfeitamente à blusa de Anabella e deixar todo o conjunto mais harmônico.
Este botão puxava a costura da blusa de Anabella para o centro, deixava cada fio em seu lugar. Anabella temia que se aquele botão se soltasse, a blusa inteira seria prejudicada. Todos os dias, quando a vestia, Anabella olhava-se no espelho e pensava "Minha nossa. Ainda bem que tenho esse botão."
Um dia, Anabella tropeçou e feriu-se, e seu botão preferido descosturou-se da blusa. No começo, Anabella não percebeu. Estava tão acostumada com sua presença, que sentiu como se ele ainda estivesse consigo. Até porque a blusa continuava intacta.
Acontece que o botão não era tão vital assim. E os outros botões, de algum modo, amoldaram-se para não deixar a costura ruir, a blusa abrir, e sequer Anabella perceber.
Um dia, no entanto, Anabella percebeu que seu botão à altura do peito tinha descosturado. Por um momento extremo sentiu dor e medo intensos. Sua blusa preferida iria descosturar, e agora?
No entanto, quando analisou melhor, Anabella percebeu que há tempos seu botão tinha se soltado e ela não percebera. Então, percebeu também, que tinha mais medo da ideia de perdê-lo do que a perda em si. E uma vez que percebeu isso, Anabella sentiu-se bem. Ela agradeceu a seus outros botões por serem tão fortes, e terem fortificado-se com a ausência do botão do meio.
Anabella sorriu, então, e tão sincera foi a fonte daquele sorriso, que começou a nascer outro botão em seu peito.

Drogas alternativas.

O único contato ao qual eu me disponho com você é o abusivo.
Se você quiser me tragar, tudo bem.
Mas depois tem que me soltar em baforadas. Entende?
Aos poucos, vezenquando. Sem itinerários ou limitações.
Ao passo disso, estarei vez ou outra tomando overdoses de você;
Somente para enjoar - eventualmente vomitar -
e depois  de alguns tempos de desintoxicação, voltar a te chamar.
Você, digo agora e prometeria se eu fosse das que cumprisse -
poderá sempre vir aqui e derramar sobre mim uma ou dez palavras.
Poderá vir até com ódios, assim como irei a ti;
Poderá exigir mais de afeição do que eu posso dar - por vezes, somente -
e eu corresponderei, encontrando-a sei lá onde.
E as palavras poderão ser sem sentido, poderão ser nervosas
e até mordazes.
E os olhares poderão ser ressentidos, poderão ser demorados,
ou quem sabe fulgazes.
Agora, por favor,
só não venha me falar de amor.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pequeno trechinho antigo para evitar que isto aqui crie mofo.

O que pensas que sabe,
Criança presunçosa.
Não sou mágica, nem trágica.
Tampouco tenebrosa.
Não te liguei na minha tomada,
Porque se tivesse, a descarga
Já teria feito uma tragédia
Daquelas bem horrorosas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Não me levem tão à sério

Ah não, minhas crenças são todas deturpadas.
Hora acredito em tudo, hora não me convence nada.
Meus métodos são extremistas e nunca foram saudáveis. Não lembro de ter dito o contrário a ninguém.
Meus sorrisos são escassos porque os resguardo verdadeiros.
Eu sou toda incerta e a segurança que posso lhes dar é a sinceridade das minhas emoções e basta.
Eu nunca me atraí por pontos brilhantes ou por salvações óbvias.
Eu sempre tive esse problema crônico de não ter medo.
Eu não tenho inimigos mas eles acham que me tem. Haja paciência...
Eu me importo demais e de menos numa proporção ilógica e consecutiva.
E às vezes, sabem, aqui parece um lugar estranho;
E vocês todos parecem aliens;
E meu corpo parece um meio diverso de mim;
E eu sinto saudade de algo que nunca existiu.
E esses textos aqui, bom, eles não significam nada.
Decifrar-me por eles é em vão, pois representam um momento ínfimo;
Às vezes composto apenas de meros minutos e mais vezes ainda adocicados por conveniente ficção.
Não faça(m) drama com isso, meus benzinhos.
Se quiserem saber mesmo o que eu sinto,
não percam tempo tentando decifrar as minhas palavras
ou desvendar meus sinais.
Basta chegar bem perto,
E olhar em meus olhos.
O resto, acreditem, é banal.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Expectativas

Estou cansada de suas exigências maçantes.
Estou cansada de suas ideias deturpadas sobre o que é,
o que será e o que deve ser.
Estou exausta e de saco cheio de condições pré estabelecidas
para que possam entregar algo que deveria vir espontaneamente.
Suas correntes estão pressionando minhas ideias, confundindo
minha emoção e aprisionando meu espírito.
Vocês exigem isso e aquilo uma e outra vez e usam seus olhos
de algozes ou juízes para ordenar ou desaprovar.
Desagradam-se, desdenham e insatisfazem-se quando eu, borboleta tola,
ao tentar acalmar seus espíritos, reviro-me e remexo-me tentando
tomar outras formas.
E quanto mais prossigo em meu esforço vão, mais dou espaço para suas
listagens de preferências.
Mas exaustou.
Hoje o céu nasceu ofuscante e todas as vendas foram retiradas.
Vou livrar-me de seus laços dúbios e enviar suas expectativas
para o inferno - que é o que faço de melhor.
Peçam o que for - sempre fui corpo e alma abertos para os que amo -
só não me peçam, meus bens
Só não me peçam para ir contra a minha natureza.

Vai saber.

-É passageiro, não é?
-Ah, é sim. Vem, instala-se e adoece. Daí passa, vai embora. Como uma gripe.
-Uma gripe? E será que é algo assim ruim?
-Quem disse que gripe é de todo ruim? Fortalece o organismo, te deixa num estado meio catatônico mas diferente.
-"Catatônico mas diferente", isso poderia ser qualquer coisa. Até um trauma.
-Pode ser também. Mas só seria trauma se fosse dos fortes. Daí poderia ser mesmo. Daqueles cujos rastros a gente vê na esquina. Sabe aqueles cujos rastros a gente vê na esquina?
-Não, não sei.
-Bom, eles, esses rastros, parecem acompanhados de uma nota falha de violino por trás. Por baixo, no fundo. De toda a banalidade que é. Como uma lente sobreposta que amplia o tamanho da coisa em si. Só para os olhos de quem vê.
-Quantas metáforas, ein. São muitas metáforas para algo tão passageiro, como você diz.
-Mas a coisa, em si mesma, já é uma metáfora, não acha? De algo maior. Isso já quer dizer outra coisa. Que vem de outro tempo. Talvez da infância. À la Freud.
-Toda coisa quer dizer outra coisa e no fundo das linhas eternamente cruzadas o cerne vai ser o mesmo e eu desconfio que seja nada.
-Pode ser que seja mesmo. Daí ele, esta coisa, esta entidade ou seja lá o que for, seria uma linhazinha assim, curta, passageira, apressada e até meio desatenta...
-Mas forte.
-É. Mas forte.