sábado, 3 de dezembro de 2011

O vazio.

Para mim, esse é o primeiro e último assunto essencial e que valha à pena a discussão na nossa existência. Nele estão inclusas as respostas e as perguntas mais famosas. O começo, o fim, e nesse caso específico, o interregno entre.
Eu me lembro que houve uma época em que eu era arrogante o suficiente para achar que algumas pessoas não possuíam o vazio. No entanto, hoje eu entendo que o que ocorre é que a maioria das pessoas não está ciente dele.
Suas mentes fazem-lhe um favor e um crime, no momento em que automaticamente o preenchem. Automaticamente.
Em que puxam matéria de tudo que é canto e que fazem delas os "Ídolos", que à propósito vêm tomando formas cada vez mais variadas com o passar do tempo. Olhando assim, talvez os ídolos sejam as fugas, das quais vivo falando. Eu não queria fazer isso: Eu costumo exemplificar quando falo disso, mas não vou fazer
dessa vez porque me parece agora preconceituoso e pedante. E de acordo com meu último conceito disso, recém reformulado, me parece impossível delimitar o número de ídolos.
Descrevamos somente como "tudo que cobre um buraco cuja origem não foi sua própria culpa", em termos bem vulgares.
-Olhar as coisas pelo que elas são.
Para fazer isso, seria preciso compreender a essência das coisas. Inicialmente, seria preciso considerar que existe uma essência nas coisas. E isso me parece, genuinamente, uma conquista impossível para nossa mentalidade atual. Nós, esses vasos de barro já moldados por tantas mão(e)s que nem nos distinguimos no
espelho. Eu, ao menos, não me distingo.
E só assim, vendo as coisas pelo que elas são (e pensar que antes eu desdenhava do  tanto que a filosofia se questionava sobre 'a essência'!), poderíamos entender que uso fazemos disso em nossa mente. Poderíamos compreender por etapas como nos é feita a materialização do pensamento, a internalização e significação das ideias para fins próprios, para fins de auto sobrevivência mental ou meramente fraqueza e covardia.
Enquanto eu escrevo esse texto, o vazio me consome.
Porque eu sei que mesmo estando ciente dele, isso não altera seu procedimento.
Isso não me impede de ter ídolos.
Ajuda minha razão, é verdade.
Me impede de fanatizar obviamente qualquer coisa. De tentar manter minha mente aberta para qualquer ideia.
Mas isso, meus caros, é um mito.
Porque eu não tenho nem ideia dos preconceitos que me formam. Eu não conseguiria racionalizar, nem com a ajuda do próprio Freud o quanto o que não é meu me compõe.
Se é que algo é meu.
Então, será que não é melhor ser cego?
Não ver o crime que cometemos contra nossa própria inteligência?
Admirável? Intolerável mundo novo!
Paremos por aqui, por enquanto. Sem resposta.

sábado, 26 de novembro de 2011

Contos (V) - A estupradora



Entramos no seu quarto cheio de dúbias intenções e o resultado óbvio a nos encarar. Você disfarça, sorri, abre espaço. Vejo em seus movimentos uma fórmula pré-calculada, com o tempo aperfeiçoada e já muito utilizada. Me abarca com os braços, numa demonstração de carinho absolutamente inócua a mim. Danço: - Eu sempre danço.- Te abraço e sorrio, digo palavras doces, transmito calor no olhar. A verdade, meu caro (leitor), é que procuro. Procuro nas minhas mentiras alguma ponta de verdade. E para isso enalteço-as. Para isso, enlargueço-as!  Digo palavras de amor, uma mais seca que a outra. Talvez eu entenda os homens naquilo que tanto são criticados, no final das contas.
E observo sorrindo quando você deixa seu ego inflar, sua expressão aguçar-se como um caçador. Mal sabe que não há caçada ali, mal sabe que não há nada a conseguir! De dentro de mim, saio e sento na sua cadeira velha de balanço, observando aqueles dois  estranhos. Coloco a mão no queixo e como quem programa um servidor, calculo os movimentos da minha marionete. 
Ela beija, ela grita, ela rosna, ela excita. Ela certamente é uma figura, essa menina.
Mas observo isso com olhos entediados, com olhos condescendentes. Observo com tédio, para ser bem sincera. O modo como você se desmancha nas mãos dela apenas abate minhas expectativas. Tão carnal é a nossa carne. Tão insignificante!
De todo modo o resultado meramente empírico foi coletado. Volto a ela, me sentindo somente um pouquinho estuprada por minha própria personalidade caprichosa e doentia; E me afasto no  segundo em que você começa a transmitir aquele olhar de afeto escrachado: Olha para mim e faz menção de palavras. Faz menção de gestos, faz menção de promessas. E a cada passo dessa sua dança repulsiva, o encaro mais alienígena. Encaro completamente absorta de quão alienado você pode ser da verdade!
Me olha, porém. E constato, com este crescente enfado, seu latente sentimento. Se soubesses o quanto te odeio nesse momento, me temeria. Mesmo sendo eu um corpo tão frágil ante o teu, um rosto tão doce e uma voz tão calma, eu garanto, meu amigo, temeria.
Espero que vire para o lado e conto os minutos. É abril e estou me sentindo generosa então numa breve contenção de danos, parto em silêncio, decidindo fazer à sua sanidade um favor - e jamais me ver novamente na vida.



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(P.s: Minha gente, alguém conhece algum site bom de imagens? Ultimamente só tenho conseguido umas bem ruinzinhas para ilustrar meus contos. Sugestões, me mandem por comentários, por favor? Grata!)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Contos (IV) - Considerações sobre o ciúme.



Eu não vou mentir, é claro que foi um choque.
Muito embora o tempo, o espaço, e as modificações naturais que ocorrem à matéria abstrata, colidiu a mim como um acidente a imagem de você e ela.
Então era essa, ela. - Minha curiosidade instintiva de mulher aguçou, procurando na primeira visão os defeitos visíveis mais evidentes. Você sorriu, me abraçou. Não estava prestando muita atenção na sua 
reação, mas se não me engano a senti estrangeira. Estava constrangido. Quase como se tivesse sido pego no flagra. Irônico, no mínimo. Não acha?
Eu senti minha expressão endurecer e a encarei com um sorriso seco. O corpo dela se comprimiu um pouco, involuntariamente? Sua energia era fraca e, eu percebia agora, inteiramente atrelada à sua. Deprimente.
Você, como sempre, um predador. E sua presença englobava a dela quase que num círculo perfeito. Permissiva do início ao fim desde a postura até à frágil tentativa infrutífera de impôr-se à mim. Paciência, nada mais perfeito para sua personalidade dominante. Quase revirei os olhos.
Esperei que você fosse embora, se despedisse, como provavelmente reza o protocolo, mas nada. Ficou e desconversou. Eu não entendi, mas e daí, achei interessante. Queria vê-la. Queria vê-los. Minha obsessão me soou como um choque ainda maior que o anterior. Veja só!
Você, por motivos obscuros a mim e provavelmente à ela, nos orquestrou, como diapasão:
-Vamos todos tomar um café, pois não?
E a tríade indecente em seu elogio ao absurdo prolongou:

Você a olha com amor.
Desculpa a escolha óbvia de palavras, mas nada mais convém.
Ela interpreta como numa dança, boneca móvel de porcelana,
Ainda se amolda à tua ânsia. - Natural.
Nós não poderíamos ser mais diferentes. Ela com seu ar de donzela inconsequente. Na verdade imita teus passos e repete teus desatinos.
Me lembro de criticar tuas verdades e entender teus erros, me lembro de muitas coisas, na verdade, enquanto esqueço de nossa conversa, diluída no fundo da xícara de café.
-Ei, está aí? - Você pergunta, a mão em frente ao meu rosto.
-Ah, desculpa. - Tomo um gole do café. Minha mão toca a aba da xícara enquanto a sua segura o ombro dela num movimento inequívoco. Inconsciente. 
Percebo o quão estão inconscientes da simbiose. "-Fala sério, é dose."
-Você parece meio distraída.
-Apenas pensando na vida.
E sorrimos ao mesmo tempo como que numa interna rima.
Ela não disfarça, se contorce toda. Bonequinha frágil, sua rima é falha e rota.
E me surpreendo com meu próprio pensamento de mulher traída.
Mas traição jamais houve, ao menos não nessa ordem dos fatores e quando retorno à órbita, o olhar de vocês combina.
-Sim, falem mais sobre a viagem.
Você fala, sempre você, nunca ela. Ela observa e procura entre nós reservas, mas veja só, não encontra.
Mantenho o olhar de um para o outro. A disciplina sempre foi meu esporte tosco e a manejo com distância e diplomacia.
Seu olhar não passa mais que alguns segundos longe dela e reconheço, com aquele ressentimento em sequela, essa fascinação que o domina. Você nunca foi bom em reter sentimentos e esse afeto todo te transborda pelas retinas como outrora era a mim que se dirigia. Tenho ânsia de sacodir a cabeça, mas não o faço. Outro gole de café e o movimento é quase falho - E eu percebo quando o olhar ansioso dela sobre isso se ilumina.
Ela está insegura - Grande bela ironia. 
Você faz uma de suas piadas, mistura com uma de suas ideias e solta um de seus sorrisos-luz. Ela não resiste, a desconfiança dá lugar à admiração de praxe e o rosto dela se volta, se seduz. Olho para baixo e retenho um sorriso conformado: O engraçado, meu caro, é que nem te quero.
Porque tua piada me soou fraca, tua ideia pareceu manjada e o sorriso pura beleza estética. Percebo meu erro, o equívoco conceitual na substância do meu sentimento. Com um muxoxo e um sorriso, lamento. 
-Ai, ai. - Digo na certeza de não ser entendida. -Mulheres, homens e principalmente lagostas - e suas manias feias que impõem à vida.

domingo, 16 de outubro de 2011

"A vida é eterna em 5 minutos", pílula vermelha e afins. (Ou, fluxograma sobre o tempo, extremamente divagante.)

(Esse é outro daqueles, quase gigante demais para ser postado. Dou um doce para quem ler até o fim.)



Tempo: Esse é um daqueles assuntos nos quais eu temo um pouquinho ingressar. É muito mais fácil viver na superficialidade, mas já faz um tempinho que decidi tentar tomar a pílula vermelha, então vamos lá.
Falando em pílula vermelha, - e deixe-me fazer uma divagação antes de entrar no assunto da postagem - é muito difícil isso. É como tentar fincar os pés no chão em meio a uma ventania, é tentar ver através das cores opacas e na maior parte do tempo, se a gente não se mantém firme, acaba achando que é uma grande perda de tempo. E para ser bem sincera eu ando encontrando muita dificuldade nisso, porque é um objetivo que meio que requer a ajuda das  pessoas. É a velha história da dialética: Sozinha, eu não vou muito longe. Não tem como dialogar comigo mesma, por mais que uma pessoa, qualquer pessoa, tenha muito conhecimento, seu conhecimento chega a um limite e por mais que choques de informação possam fazer brotar nova informação, a menos que haja interação com o que se origina  da fonte de OUTRA mente, você será eternamente uma criatura limitada. E taí minha dificuldade. 

Mas pulando essa conversa toda que já é de outra postagem e já tá me parecendo fiada, eu queria falar e se alguém tiver algo a acrescentar, eu queria ouvir também sobre essa questão do tempo:

Minha razão fica eternamente oscilante  entre "Feche um mundo e abra o próximo" e "Nada nunca morre", e na verdade eu tenho pensado que a "resposta", se é que isso existe é uma intercessão sutil (como todas as intercessões) entre ambos. Um tempo desses enquanto eu tentava resolver a equação do tempo, eu cheguei a conclusão (imatura e mutável, como todas as em que eu chego, graças a Deus) de que só existe o passado e isso eu vou explicar o por quê de estar dizendo aqui: O presente, nós sabemos, é imensurável. Esse negócio de "segundos" é uma convenção matemática para fins organizacionais então vamos cortando logo essa medida pela raiz. É impossível essa história de sentir o presente porque na verdade, se pensar bem, a partir do momento em que você nasce, só vai acontecendo uma série de coisas no passado na sua vida. A partir do momento em que algo acontece contigo, já tá no passado. E todos os prazeres que se sente, segundo eu tenho constatado, por mais que sejam imediatos são de coisas que ocorreram segundos atrás, no mínimo. Ou milésimos, sei lá. Até porque a nossa mente precisa traduzir o que acontece para que a razão nos permita sentir ou não prazer com isso. Só é prazer (ou dor) a partir do momento em que já aconteceu e teu cérebro traduz isso. O que te dá a sensação é a tradução, não a coisa. A mente precisa fazer isso: Entender se é bom ou não. Vem aí o mito do chocolate: Eu me pergunto, muitíssimas vezes se chocolate é mesmo bom. Tirando a historinha das endorfinas, eu tenho minhas dúvidas se o gosto, em si, é agradável. E aí já entra a história do que é culturalmente colocado nas nossas cabeças. É claro que todo mundo acha que chocolate é bom e às vezes é pelo fato de ter essa representação positiva na nossa cabeça que colocamos o chocolate na boca e nosso cérebro nos diz que é bom e sentimos prazer. Essa é só minha teoria. A questão que estou tentando demonstrar nesse exemplo, é que quando eu digo que só existe o passado, você poderia dizer: "Ah, mas e os sentidos? Você sente prazer e dor imediatamente, na sensação está se fazendo fato o presente, não é?". Bom, quanto à dor, nós já sabemos que é mais uma das armadilhas do nosso cérebro/sentidos e etc. Olha bem, vai me dizer que você nunca se cortou feio para passar um tempão para perceber que se cortou e só depois de perceber, sentir dor? Eu não digo que isso é absoluto, nada disso. Só quero demonstrar com esses dois exemplos prazer/dor pobrinhos que os sentidos não são tão sinceros quanto nós pensamos. Nada é. Sentimentos, sentidos, razão. E nem adianta colocar letrinhas e tentar fazer uma equação deles porque pelo menos eu não consigo visualizar uma amplitude matemática que seja incrível a ponto de abarcar tudo isso e chegar a um resultado.

Bom, daí voltamos à minha teoria de que só temos o passado "porque o presente é o passado passando e o futuro é uma conjectura  passada do que logo tornar-se-á ele", essa foi uma frase que disse mais ou menos desse jeito, no dia que eu tive esse insight - e que me pareceu fazer bem mais sentido no momento, afinal. 
Mas daí, meus caros, o problema é que essa ausência de medida real de tempo me deixa extremamente confusa. Eu vou dizer o que isso me faz sentir: Isso me faz sentir que cada momento (eu ia falando 'segundo', olha como as coisas são), cada momento X, momento TCHAN, sem uma medida de tempo, é uma eternidade que existe... para sempre. Entende? 

Olha, uma vez meu ex professor de filosofia disse a seguinte frase na sala "A vida é eterna em 5 minutos" e pediu para a gente analisar e dizer o que entendiamos dela. Isso faz um bocado de tempo e eu fiquei matutando um tempão até que cheguei a uma conclusão que não consegui colocar em palavras corretamente no dia e ainda hoje não consigo. Eu respondi a ele algo do tipo "Acredito que cada momento que existe, no momento que existe, passa a existir eternamente pelo simples fato de ter existido. Isso o torna eterno." - Essa ideia é a síntese do que eu coloquei aí encima em prolixas linhas. Daí o professor olhou para mim, riu e disse algo do tipo "Poético, mas não filosófico." - Eu não sei. Eu realmente não devo ter me expressado bem porque eu não tive a mínima intenção de ser poética e na verdade quando eu falei isso o que veio à minha cabeça foi um conceito mais físico do que de qualquer outra ordem. Ok, eu esperava não ter que fazer isso, mas acho que vou ter que revelar outra ideia minha que complementa isso e que certamente vai parecer viagem: Eu não sei nem entendo nem estudei nada sobre universos e dimensões paralelas, mas a simples falta de uma medida de tempo - e a impossibilidade de existência dessa devido ao simples caráter transitório do tempo me faz parecer lógico que a cada momento imensurável que existe, uma dimensão paralela é criada a partir dele. - Ok, antes de qualquer coisa, eu não estou alterada nem nada. Para me fazer mais clara eu teria que transportar você, leitor (provavelmente imaginário, porque duvido que alguém tenha resistido a essa altura da postagem), e te mostrar uma imagem que perfaz essa ideia porque palavras (como eu seeempre digo), mais uma vez são insuficientes. - Pronto, já sei: Você tem duas hipóteses: Ou há continuidade entre todos os eventos que existem ou não há. E ambas as hipóteses são inegáveis. Por que há continuidade? Porque nosso passado mais recente sempre é consequência do passado mais antigo. Porque tudo o que acontece é somente a sucessão LÓGICA de acontecimentos de acordo com o que já passou. Porque é isso que a gente chama de justiça natural, de lei da natureza, de "destino" até. Porque, meus caros, eu acredito que um matemático tão gênio que consiga utilizar sua capacidade de pensamento em 100% seria capaz de prever o "futuro". 
Isso porque todos os acontecimentos são variáveis. "Quer saber o que vai acontecer? Estude história." Tem uma frase mais ou menos assim, não é?
Olha, algumas pessoas me dizem que me acham perceptiva ou bem inteligente. É que eu tenho uma brincadeira com alguns amigos meus de dizer o que eles vão dizer antes deles dizerem num diálogo (só acerto algumas vezes, claro.). Mas eu não sou nem uma coisa nem outra e eu vou explicar o por quê disso: Eu entendi faz um tempo já que existe esse lance de matematizar as pessoas. E que todo mundo é como uma grande e complexa fórmula matemática que se divide em três níveis (segundo Freud.) Só que quando a gente tá no nível superficial e consciente, no meio de uma conversa, por exemplo, se você juntar os elementos da história recente daquela pessoa, com a personalidade aparente dela e o rumo que o diálogo está tomando torna-se inequívoco (em certas ocasiões) o que a pessoa vai te dizer a seguir. É só isso. 
Então, se eu que tenho uma capacidade mental mediana, um conhecimento limitado e uma percepção só "boa" consigo fazer isso (num nível extremamente superficial, lógico), imagine alguém  que estuda, sei lá, física quântica. Está entendendo o que eu quero dizer? 
Bom, de qualquer modo vamos voltar às duas hipóteses que nesse assunto aí da matematização a gente ingressa depois.
A segunda hipótese, de que não há continuidade, é consequência direta da primeira, por mais bizarro e mindfuck que isso possa parecer. A partir do ponto em que UM evento existe e repercute em outros eventos, esse UM evento é eterno em suas consequencias. Olha, nada jamais deixa de existir, jamais, porque nada passa em branco. Teoria  do Caos etc e tal, tu percebe que considerando que o universo, natureza, o que seja, é um equilíbrio entre tudo o que existe e não poderia ser diferente, qualquer diferença MÍNIMA vai ter a autonomia de interferir em todo o resto e por isso mesmo, em uma certa instância vai ser única, individual e fonte de uma outra dimensão própria. 
Então, o que acontece? Acontece que acho que no final das contas nada acaba, tudo se reinventa eternamente e esse negócio de "Fechar um mundo abrir o próximo" é extremamente relativo, porque, afinal, quem disse que o próximo mundo vai estar desvinculado do anterior? Se fosse assim, seria inviável, senão...Não haveria tempo, de fato - E eu não sei dizer se há mesmo ou não. Haveria só presentes, eternos, jamais passado. Jamais conjectura de futuro. Jamais história.

Bom, acho que eu vou ficando por aqui mesmo. Essa postagem deve ser a maior que eu já fiz e provavelmente a mais incoerente. Se eu não fosse tão preguiçosa e acomodada, seria fantástico estudar matemática, física, ciência e religião para conseguir dar um embasamento para todas essas minhas teorias meramente intuitivas e abertas e incompletas, como toda teoria deve ser. E isso porque não citei todas as outras ciências, porque não sei se já disse isso, mas acredito piamente que a ciência, de fato, é uma só e UNA. Mas deixemos esse assunto para outra postagem, porque já é uma outra história.
Só sei que no final das contas, por mais que eu divague, no final sempre fico com essa impressão de total incompletude de ideias. E aceitando alegremente companhia para realizar uma boa dialética (: 


Um beijo no olho e uma tulipa violeta para o leitor hipotético que terminou este post.


Bye.  

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Por favor, não me venha com esse olhar de amor."

-Não, pare com isso. Tudo menos esses olhos.
Não me olhe com esses olhos assustadores. Não me olhe assim tão docemente.
Não faça menção de dizer aquela frase. Não respire ofegantemente só porque encostei minha boca na sua.
Por favor, não... Não enquanto meu coração é manchado.
Não enquanto fui eu quem plantei essa armadilha. Mas vê-lo cair tão absolutamente nela... Eu não tenho estômago para isso.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Meet me on the equinox



A primeira estrela despontou no extremo nórdico. Extremo sórdido.
Uma estrela apontou no extremo oriente. Apontou sua rota, extremamente quente. 
Golpes de luz, prismas de energia. A aurora boreal as envolveu; Véu de densa magia.
Talvez elas se encontrem.
Talvez no cair da noite da mais noturna das ruas elas se cruzem.
Talvez se vejam nuas. De preconceito e sujeira lunar estejam cruas.
Duas estrelas despontaram no inócuo infinito.
Será que elas se encontrarão
ou serão apenas delírio lírico?

domingo, 18 de setembro de 2011

Pequenos suicídios aleatórios

Justifique meus meios cruéis
por suas adoráveis finalidades
Do fogo ao fogo, uma ave de rapina
Beija-me no epitáfio da redenção
Me dê teu vinho, não me interessa o pão;
Nos embebeda com o amargo de teu açúcar
e derrama lágrimas de graxa, untadas com música.
Brindemos o veneno que jamais tomamos
Encarando o abismo que jamais escalamos
E daí faz-se fantasia, vivamos nessa maestra poesia:
A arte de criar.
(Onde tudo deu certo
e o amor foi um feto
que soubemos procriar)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Íntimo

Ainda ando pelas mesmas ruas de casas coloridas todo fim de manhã,
ainda escuto Bach em La menor em alguns dias chuvosos.
Sei que os caminhos não se cruzam depois de certo ponto 
e não importa o que diga, as gestalts, sim, meu caro, se fecham.
Mas eu não lido bem com mortes de gênero nenhum, muito menos com as minhas
Tenho medo dessa cidade, ovo dilatando em expansão negativa.
Tenho medo das loucuras delicadas e cada vez mais sui generis que vejo pelas pessoas dessa vida.
Estou cansada numa proporção ilógica ao meu coração e ao meu tempo de existência.
Estou exausta de resistir numa ferrenha batalha automática chamada desistência.
Ainda vejo o coelho na lua e fico esperando o sol nascer.
Ainda me arrepio ao passar pela tua rua e confundo transeuntes com você.
Ainda sorrio por piadas bobas e gosto de olhar nos olhos das pessoas;
E passo pela biblioteca Municipal toda tarde e fico tensa quando o sino das seis horas soa.
Ainda penso em futuros impossíveis toda hora de dormir.
Ainda amo as pessoas sem motivo nenhum e isso acaba comigo.
Ainda penso em você,
e te desejo todo o amor dessa vida.
Sou um caso perdido.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A visão do Hotel Panorama é medonha. (Ou "Conto sobre um menino-demônio.)

Os lábios inchados e rachados de mordidas. As mãos finas de veias saltadas. Droga e também substâncias químicas, que mais? Minha camiseta florida porque talvez seja a mais cínica em tuas mãos quentes, extremamente assim. Entra uma luz estranha pela janela, entra uma luz multi colorida entre cortinas anil. E daí mãos e pés e lábios e calores e não há absolutamente nada de erótico nisso, é necessário ressaltar . Teu corpo de menino andrógino, olhos grandes, olhos mortos, olhos de ancião sarcástico. Gosto dos lençóis. Curto teus lençóis alucinógenos como curto você. - E por isso mesmo encurto minha estadia, por um pavio também curto que já já vai apagar, logo após acender. Não importa, nada importa. Te vi 3 mil anos atrás, semana passada, numa noite onde tudo anunciava a tragédia num gramado daquele lugar de gente profana. Fumava e sorria, olhava para baixo, olhava para o nada. - Sabia. Eu, claro. Tu já não sabia de nada e isso te trazia imensa sabedoria. Intensamente sensorial do começo ao trágico e previsível fim. E naquela noite tosca, naquela noite prima olhei o céu e a lua zombou de mim ao me dar o vislumbre inicial do começo, meio e - De certo modo, portanto, ao te ver com teus amigos fumando enquanto eu, espectro no lugar errado, na hora errada, seguindo fielmente o que ditaram as linhas do tal destino, eu, então, de certo modo, naquele simplesmente trágico ou obviamente banal momento, já me vi deitada numa cama que não era minha num quarto que não era meu, cuspindo o horror do meu corpo ao lado do teu. Gosto de tocar a ferida, de tocar em frente a banda do desatino. E foi assim que toquei aquele formigueiro, despertei o que já sabia que era vil, e que vil viria como uma tempestada de peste, como uma maldição enfim. Toquei o prisma proibido ou seja lá como queira chamar. Vi em ti outros mais e em seguida veria em tantos a ti, como é natural. Toquei fantasmas, troquei fantasmas. Suspirei no teu ouvido - Lençóis molhados, alguns mosquitos, as cortinas absolutamente infames cobrindo aquela janela do Hotel acabado - suspirei no teu ouvido, gultural, inconsciente, comovido - Suspirei no teu ouvido:
"-Teus fantasmas te mandam lembranças."
Vi teu olhar de pavor e é importante ressaltar, meu amor, que também eu sou pavorosa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

The boy who blocked his own shot - Letra e música.

Silêncio.
Você não diz nada, não me diz nada. Não percebo mais em teus olhos o impulso de tentar me ferir, se proteger ou projetar qualquer sentimento em mim. Estão vazios e opacos e nem cheios das lembranças parecem, embora eu saiba que foram elas que os deixaram assim.
Isso acaba comigo, me desespera. Digo uma, digo outra vez. Exploro feridas antigas, uso das palavras com a destreza cruel com a qual fui ensinado. Nada, nenhum efeito, reação. Só um pouco mais de vazio, depois, enfim.
Desespero.
Pego sua mão, subitamente. Tento o efeito inverso. Meu orgulho começa a se apagar. Mas nem isso, meu Deus. Temo que algo, sua alma, seu espírito, essas coisas das quais você sempre falou e nas quais eu nunca acreditei, tenham morrido. Essas coisas, cujas existências são essenciais para minha sobrevivência - embora só perceba tudo isso agora - e que arduamente tentei destruir.
-O que eu posso fazer, o que eu posso te dar? Quer que eu vá embora, que eu fique?
Você não diz nada, não me diz nada. Dá de ombros, puxa o fôlego. Tenta ser gentil, mesmo na dor. Tenha ter reciprocidade, mesmo no vazio. Retribui os meus carinhos, mas quando encosta seus lábios nos meus uma lágrima escorre de seus olhos mortos, porque se viola ainda mais. Vejo o que sou para você: Vejo que me tornei um poço de tristeza, o grande estopim de todas as tuas dores. Não posso mais te dar nada, percebo. Nada.
Pela primeira vez na vida, talvez, tento pensar no que você precisa em vez de no que eu quero. De repente me pergunto, afoito, como se uma venda tivesse acabado de ser tirada de meus olhos, como/por que não pensei nisso antes. E percebo, em aflição, que foi isso que você fez o tempo todo. E que ainda faz agora.
Frágil e doce, mesmo na amargura. Seus olhos são bondosos e seus finos braços pálidos me abraçam com compaixão. Seu corpo todo tão frágil, sua doce alma tão imensamente forte. Destruída pela única força maldita que poderia tê-lo feito. Te olho, te gravo, te tatuo. Jamais te esqueço. Parto. – Porque é a única coisa a fazer por ti agora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crash into me - Dave Matthews Band (Essencial, por favor.)

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Era simples e geralmente chovia bem no meio da tarde, às 16h.
Ela morava num lugar pequeno que tinha uma janela de tela furada para um corredor tosco e o céu branco. Sua cama era o melhor lugar do mundo e ela nem imaginava que tudo que a rodeava tinha o inequívoco aroma de sua frágil existência.
Ela já começava a conhecer as coisas belas e tristes, a doçura, o céu à noite e a importância dos olhares. Havia um ou dois apanhadores de sonho por seu quarto porque à noite, às vezes, fantasmas que nunca tinha conhecido lhe visitavam, mas há também quem diga que vezenquando um ou outro anjo mal beijava seus lábios durante o sono.

Ela gostava de vê-lo entrar sorrindo, com os cabelos molhados de quando a chuva estava no começo.
Te adocicar, te amaciar - era complexamente fácil embalá-lo numa melodia muito natural com gosto de infância e outras iguarias tais.
Às 16h o céu chuvoso é magnífico, repare bem.
Não era muito diferente de passar a tarde em casa, na infância, tomando o picolé do carrinho que apitava todos os dias pela rua e sorrindo por coisas que lhe eram inocentemente e genuinamente engraçadas, na época.
Não era muito diferente do vento frio que entrava de supetão pela janela, anunciando o começo de chuva e embora frio era sutil, e era doce e formava uma atmosfera de sonho no quarto com o lustre antigo às 16h da tarde, de qualquer tarde qualquer.
Não era muito diferente de não precisar forçar sorrisos ou piadas, bagunçar os cabelos castanhos e quase longos dele e fazê-lo sorrir também sem nenhuma intenção disso.
Era simples deitar naquela cama com cheiro de tudo que um dia já foi seguro, com ele, com a música baixinha vindo do rádio e o vento levemente frio os envolvendo e muitas vezes sem toques, muitas vezes sem nudez nem nada do gênero e sorrir e brincar de palavras ou músicas  e olhares e amor ou algo que o valha e dormir e sonhar um com o outro e por causa disso, de tudo isso, acordarem felizes, totalmente felizes, sem sequer terem consciência disso.
Era simples como o rebentar de uma pequena mas refrescante onda na praia durante a chuva do meio da tarde, porque dizem que não existe nada mais doce do que o céu chuvoso às 16h, se você quer saber.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para não dizer que não falei do feeling.

Então preste atenção: Nunca amor, isso é bobagem. Eu ainda não encontrei um bom motivo para ingressar nisso porque apesar de tudo as porradas que a gente leva não satisfazem e os benefícios que nos acometem anestesiam uma parte muito intensa e viva e importante da gente e veja bem, você nunca pode ter um só foco porque isso te destrói e te limita. É conversa-fiada esse negócio de ter só um foco porque nenhuma ciência é una, todas se complementam, você sabe, e a menos que você esteja desprendido o suficiente de cada coisa para apreciar todas ao menos um pouco, você vai estar tão profundamente dentro que vai perder a sublime capacidade de ver de fora. Por isso que em dias assim em que o céu está magnífico eu imagino que talvez não tenha sido criada para amar, ao menos romanticamente e individualmente, como vocês falam, porque todas as vezes em que me enquadrei neste conceito estranho, morri mais que vivi e tentava fervorosamente me convencer de que estava viva. Uma vez tendo aceitado essa condição meio nômade meio cigana meio raposa eu finalmente me sinto amando de tudo um pouco do fundo do meu coração, esse órgão sangrento que é grande demais para caber em um só par de mãos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Fluxograma resenhado de Pensamento (Ou “A preguiça e etc.”)

Esse é um texto longo e maçante. Só comece a ler se estiver com muito saco.


Engraçado. Toda e qualquer linha de raciocínio na qual me atrevo a ingressar com mais profundidade do que o habitual, finda por me levar à consciência de minha total e absoluta ignorância sobre a grande maioria das coisas. É tão desesperador ser cônscia das minhas próprias barreiras limitadoras. Vejo muitas coisas: Vejo ego, vejo medo, vejo covardia, vejo preguiça. Talvez seja a maior de todas as covardias, a própria preguiça. Estar ciente da capacidade de ser capaz e ainda assim ignorá-la. A acomodação parece, de certo modo, ser SIM o caminho natural das coisas. Nós, como fomos criados, parecemos ter sido primariamente colocados numa esteira inútil. Postos num caminho quase autocondutor, sendo guiados pelo amigo tempo de certo modo que só passamos pelas vitrines dos elementos, nunca descendo da esteira para aprofundarmo-nos nas lojas (com o devido perdão pela comparação cretina); Desse modo somos “levados a levar” uma vida medíocre e superficial cujo destino é nada menos que a morte – Uma experiência que com a subjetividade limitada que desenvolvemos, é provável que nem sejamos capazes de apreciar. Mas a culpa, amiguinhos, não é do “sistema” não. Não é da mídia, do governo ou dos cambal de bodes expiatórios que é de praxe usarmos. A culpa é nossa porque a gente é máquina porque a gente gosta de ser máquina. É mais fácil, não traz maiores indagações e ainda por cima, se você manejar direitinho, nos faz sentirmo-nos produtivos. Triple bonus. Acontece que, no final das contas, é tenso pensar. É extremamente angustiante viver confrontando a realidade – Cansa. É como forçar um limite invisível, uma barreira impensável. Principalmente quando, ora, existe uma alternativa tão mais fácil. É como tentar estudar matemática para a prova do dia seguinte enquanto se está com sono. E o sono vai aumentando à medida que você tenta estudar, esse sacana. É de propósito, parece. Aposto que se você não tivesse prova, ia estar ligadão jogando videogame até de madrugada. Agora me pergunto: Por que eles fazem isso? O cérebro, a mente? Por que não querem que a gente estude matemática, por que não querem que a gente pense? Me deixam abismada as armadilhas cretinas nas quais nos metem. Quando você menos percebe, lá está você julgando alguém por causa de uma roupa, fechando um livro de filosofia porque “é complicado”, gastando seus dias/anos/vida(s) em uma série de movimentos físicos e mentais extremamente padronizados. Mas engraçado também é que parece que de alguma forma, em alguma instância, não satisfaz. Parece existir uma criatividade inerente, pulsante, que como a gente não usa, se manifesta de outras formas, força saída (Ao menos a porção dela que não se atrofiou.). Daí nascem as mais variadas idiotices, porque se tem algo babaca é o resultado de uma criatividade mal canalizada. Daí nascem os draminhas, os joguinhos, toda aquela movimentação desnecessária em aspectos (semi) irrelevantes da vida que fazemos para nos sentirmos vivendo-a! Porque aí fica uma equação legal. Fácil, não? Você não tem trabalho pensando nas coisas “grandes” (que na verdade são naturalmente  simples) e exercita o... (Sei lá que palavra recebe isso), bom, exercita alguma coisa aí nessas pequenas atividades tolas. E daí? Daí nada, como sempre. Sempre concluo assim: Daí nada. Porque por mais que eu fale aqui, “tô nessas”, meu amigo. E tenho bastante certeza de como daqui para a meia noite, vou arrumar algo idiota com o que me ocupar também.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"I have never fail to fail."

Eu tentei ser doce
Eu tentei ser viva
Eu tentei ser luz
e apaguei em seguida.

Não me dê nada,
não quero nada nada.
Teu amor que seduz
me adoece a ferida
minha ferida é tão doce
chocolate, a querida.


De nada serei refém.
De ninguém serei a vaidade;
A nada direi amém,
A ninguém cantarei saudade.

A nada entregarei meu bem
Minha amada tranquilidade
Veja bem,
depois de tanta insanidade -
Já cansei.
Sem rimas, liberdade.





(Tô cansando desse blog, meus bens. Sinto que ele chega a seus momentos finais...)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O meu refrigerador voltou a funcionar

Outra variação de derrota,
Te conduzo pelo zíper dos meus lábios
Tente acompanhar essa linha de pensamentos doentia
E pelas rotas do riso cínico me fazer companhia
Ou vá lá, mas vamos cá
Só, por favor, não me venha chorar.

Pega um punhado de preces e outro de promessas
Meio fio, por um fino, tô nessas.
E te deixar de olhos rotos em poesia
Eu vou te dar o nascer do sol ao meio dia

Tua energia trágica nas tuas costas embriaga
E traço nelas com meus dedos essa linha curvilínea
Abre esses lábios, bafora em mim tua fumaça e traga.
Traz o corpo, traz a alma, quero ao menos ser faminta
Mas nada, beijo ou tato, descongela essa menina.

Acode aqui alguém, por favor.
Aquece, esquenta. Sei lá, ao menos tenta.
Alguém precisa fazer alguma coisa, porque desculpa, Mutantes, por desparafrasear*,
Mas é que meu refrigerador voltou a funcionar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Te encontro na Madre Vilac

Acende o esqueiro. Apaga o esqueiro. Acende, apaga.
Para com esse barulho, cara.
Era noite, claro. Naquele cruzamento enfim. A avenida era estranha para quem passava, que não se passasse por aí a essa hora, garoto, mas era familiar a ele. Aquela era sua vida. Ele olhava entediado enquanto os outros fumavam, brincavam. Um dia foi interessante, era ele ali, mas agora carregava uma certa tranquilidade, mesmo depois de tão pouco tempo. O novo era interessante, o costume desgasta. Daí, assim. Não era ruim não, só de praxe. E aquele dia estava um pouco apreenssivo. Será que não devia algo acontecer, devia?
O que você tá fazendo aí cara, vamo puxar uma. Olhou de lado. Ia chegar em casa muito, muito tarde de novo. Quer dizer, cedo. Da manhã. Lembrou quando a velha dizia alguma coisa ainda, agora nem um pouco. Sentia até falta às vezes. Era tão fácil já.
-Você tá bem, Thales?
Perguntou a menina.
Ele olhou de lado. Uhum, assim com a cabeça. Tinha alguma coisa o puxando para trás. Estavam no meio fio, bem no meio da Avenida e ele a viu: Aquela rua era estranha para o diabo, uma ruazinha assim, o chamando. Dava para ver dali aquela rua estranha, mais estranha que essa Avenida ainda, entrando pelo um  bequinho, umas casas em que talvez nem houvesse ninguém e que pareciam ter um quê de antigas. Rua Madre Vilac.
Pulou dos entulhos sobre onde estava sentado.
-Vai pra onde, Thales?
Perguntou o primo.
Ele não respondeu, nem precisava. O outro estava chapado mesmo e ele só...Parou no caminho, tenho nada a fazer nessa rua não.
Vou pra casa. Mas por quê, são nem 5, tem nem sol ainda. Eu vou porque, sei lá. Saiu. Odiava se explicar.
Chegou em casa e dormiu com a mesma roupa, o sino da igreja tocando 5 horas, que estranho ele achava que só tocava às 6. Pegou no sono, sonhando com a Madre Vilac.

Pela manhã, a escola. Tedioso, automático. Não acabava nunca essa escola, se bem que sabia que quando acabasse talvez fosse pior, ou não. "Tanto faz". Tinha sonhado e era importante, mas o que era?
O que era, o que era? Se perguntava enquanto seguia para casa, seguido pela menina. O cabelo desarrumado, a mochila jogada sobre os ombros, ah Thales costumava ser um menino tão bom... Daí passou pela Avenida. Tchau, você dobra aqui, né? É, vem hoje à noite? Claro, provavelmente, todo dia, não?
Daí olhou de lado, cadê a ruazinha? A Madre Vilac? Diabos, não identificava. Olhou pelo quarteirão, uma entrada, outra. Nada do bequinho. Devia ser muito diferente à luz do dia. Continuou seguindo pelo meio fio, sempre o meio fio, afinal, né.

Os grilos começavam a cantar quando o celular vibrou
"Vem não?"
Bem na hora que a mãe passou pelo quarto com a porta aberta e até olhou com um espanto:
-Não vai sair hoje, Thales?
Olhou de lado, aborrecido. Era tão incomum assim?
Mas não queria ir para a Avenida não, quer dizer, queria, intensamente. Praticamente sentia-se puxado até lá hoje, especificamente. Mas aquela apreenssão...Não queria, então.
-Vou sim.
Claro que para ele sempre funcionava a lei dos contrários.
Mas quando chegou na Avenida, não tinha ninguém. Checou o celular. Uma festinha, em algum lugar. Imaginou o cenário, álcool, drogas, sexo... Uma típica comemoração grega...Em nada o atraiu. O que estava havendo? Virou de lado. Lá estava ela.
Eu lembrei o que sonhei, lembrei que sonhei com uma cartomante.
Ela tirava-lhe as cartas e sorria um riso de gato sinistro. Seu nome era Madre Vilac. Ou o nome da carta era Madre Vilac. Um arrepio atravessou seu corpo moço. Riu. Que besteira. Não era supertiscioso, nem um pouco. Era tudo besteira, coisa que sua irmã mais nova ficava vendo em revista. E ria cada vez mais forçado, enquanto atravessava a avenida.
Pisou na calçada com seu tênis gasto. A entrada da rua à sua frente o encarava. A plaquinha já velha com
o "Madre" quase apagado. Parecia mais escura ainda, mas sozinha ainda, mais encantada ainda. Olhou de lado, para o caminho que levava à sua casa. Olhou para frente.
Agora ouça bem que essa é uma lição para a vida: Sempre há uma bifurcação, sempre.
Thales sorriu, olhou para baixo, acendeu um cigarro. Teve a impressão de ver uma moça nas profundezas daquela rua e sacodiu a cabeça. Voltou-se para o lado e deu um passo em direção à sua casa.
Mas para Thales, como eu disse, sempre funcionava a lei dos contrários.
Ele girou nos calcanhares e entrou na Rua Madre Vilac.
Mas é claro que ele nunca voltou.

sábado, 9 de julho de 2011

No jardim do bem e do mal.

-Desculpe, minha amiga, mas assim não dá.
-Mas. Portanto. Porém?
Ela sempre pediu mais, jamais menos; Ela sempre foi mais que menos e no entanto quem disse que basta, porque não sei se você sabe, mas de presença também se faz ausência. E ela queria tanto, portanto, queria todo e de tantos, de todos queria tudo.
-Não faça assim. Te olhando, me vejo tão ancião! Do alto de meus vinte e poucos anos, te vejo repetindo meus erros e plantando o motivo de suas preces futuras, que já não tardam tanto.
-Eu esnobei esse crucifixo. Esnobei ter um endereço fixo e suas raízes joguei no lixo.
Mas, portanto, porém...
-Você dizia que não amava apesar de, e sim por causa de, mas você dizia isso para todos que você amava e você amava tantos e o problema, minha cara Madalena, é que todos, todos, todos eram amáveis. Não era o que você dizia? "Sempre vale a pena"?
Mas veja só o quão penosa foi a tal pena.
Agora não adianta, não adianta vir aqui nesse pôr de sol, porque todos com quem você conversar serão fantasmas. Serão lembranças.
Marcadas em brasa na sua carne de criança.
-E você sempre, sempre, sempre foi uma criança.
O problema é que você nunca entendeu
Que um adulto é só uma criança que já cresceu.
E daí que você ficou aí. Esperando, esperando. E enquanto você esperava, a gente foi andando.
-E agora, a gente faz o quê?
A gente não faz nada, a gente senta e lamenta. Quer dizer, eu lamento, você eu não sei. Quem sabe você não tenta?
-Eu lamento porque o sol está se pondo e não tem nada, nada, nada que a gente possa fazer. São quase dezoito horas e esse tom assim meio laranja com azul e às vezes rosa coral só faz a gente lamentar, minha amiga e adversária.
E independentemente de tudo, apesar de tudo e porquantos todos, você é infinitamente amável e eu gosto muito, muito, muito de você.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Menininho - A improvável (e breve) continuação

(Este pequeno texto já tem um par de meses, mas eu estive protelando publicá-lo por aqueles receios bestas dos quais vocês já sabem. No entanto, estou sem coisas novas, então aqui vai)


Ah, meu menininho.
Cá estamos nós novamente.
E o tempo, este coringa vadio.
Olha só o que ele fez com a gente!

Seus lábios estão mais doces;
Sua fúria agora jaz ausente.
Mas meus olhos já não vêem cores;
Neste torpe carinho que sentes.

Seus olhos são petróleo vazio;
E sua cabeleira ainda assanhada.
Escolho "Adeus", meu anjo sombrio.
Nos revemos na madrugada.

domingo, 19 de junho de 2011

Poderia sair melhor, mas sairá assim mesmo.

É triste ver como vocês me deixaram com medo.
De ser quem eu era, de ser quem eu sou.
Vocês me meteram medo sem eu nem perceber.
Com aquele olhar atravessado, com o riso e o comentário;
Com a possibilidade do pensamento, com as hipóteses e as teorias.
Vocês me deixaram com medo quando me chamaram de quente e me deixaram com medo quando me chamaram de fria.
Me fizeram temer entre ambos os extremos da temperatura, que
foi onde e somente onde eu sempre consegui estar; E o fizeram tão
intensamente que eu acabei me colocando no morno,
me equilibrando no neutro; No "nada a declarar".
Unica e somente por medo do que vocês poderiam pensar
Mas a culpa, no fundo, não é de vocês. É minha que deixei sangrar mais do que devia; As cicatrizes que antes eu tão bem costurava.
E o sangue afrouxou os laços de proteção que me seguravam;
Que me mantinham ilesa em mim mesma na tempestade;
Que não se preocupavam com quem ou quantos questionavam minha sanidade.
Eu não quero mais ser morna e não quero mais ser medrosa.
E definitivamente não quero mais ser um produto do que vocês podem pensar.
Tomem suas pranchetas; À postos com suas canetas!
Porque a partir de agora, o de antes está de volta
e não importa o que irão anotar.




(À propósito, eu retirei a moderação de comentários.
Comentem o que quiserem, benzinhos.
)

sábado, 18 de junho de 2011

"Vamos fingir que nunca partimos."

Inspirado por 'Breve' de 'Pouca Vogal'  [Escutem, se puderem.])

O despertador toca. Ela tira as mãos de baixo das cobertas com esforço e o abate. Adia o momento de abrir os olhos o máximo possível enquanto procura em algum lugar ao seu lado o corpo familiar.
Permite-se um rápido vislumbre da nuca pálida e os cabelos bagunçados pelo sono e levanta, reconhecendo pelo tique taque agoniante do relógio que já está mais que na hora de acordar.

Toma um banho rápido e quente, porque o clima que entra pelas janelas está congelante. Quando sai do boxe de toalha, sorri ao ver um recado feito no vapor do espelho do banheiro.

Na cozinha, ela coloca a chaleira para trabalhar. É claro que o café da manhã está em pacotinhos no armário. Ela nunca soube cozinhar e embora sempre achasse que por volta de seus vinte e tantos anos já teria aprendido, nunca  isso aconteceu e já começava a se conformar que jamais iria.

A grande janela da cozinha lhe permite uma visão panorâmica da segunda feira nublada. Escuta o som do quarto ligar seguido do barulho de água caindo do chuveiro e um arrepio estranho passa por seu corpo quando tira as chinelas e seus pés tocam o chão gelado. Por um momento tudo parece estranhamente surreal, mas ela sacode a cabeça e serve as xícaras de café.

Está perto de ficar atrasada e enquanto coloca o blazer, sente os dois braços ainda molhados a envolvendo por trás. Ela sorri e reclama que ele a está molhando. Ele não liga e a arrasta novamente para a cama.

Às 18h, o alarme da usina toca indicando que é hora de fim de turno. Do lado oposto da cidade, ela desce as escadas do escritório falando com a mãe pelo celular, e pega  o carro para encontrar duas amigas do tempo de faculdade num cineminha que inaugurou no subúrbio.
Elas riem de besteiras e histórias antigas e quando o filme começa ela percebe que nem reparou no título.

Os minutos passam e quando ela resolve prestar atenção, repara no que parece ser o clímax dramático. Nessa cena um garoto e uma garota jovens se encaram com tristeza e raiva, e por não saberem direito o que dizer, dizem "Adeus". Uma sensação muito estranha se acomoda na boca de seu estômago e ela diz que vai sair para tomar um ar porque na verdade ela começa a sentir vontade de vomitar.

Ela espera que a visão de começo de noite lhe acalme, mas de repente a rua do cinema lhe parece igualmente ameaçadora e uma estranha nostalgia parece querer forçar-se em sua mente. Tem a impressão de que tem algo a se lembrar daquela rua, e o impulso que todas essas sensações de estranheza  lhe dão é o de ligar para ele, pois ela sente que tem que confirmar alguma coisa, conferir algo essencial.
Mas quando ela liga, ele não atende.
Manda um torpedo se desculpando para as amigas e pega o carro para casa, reconhecendo que tem algo muito errado acontecendo.

Embora o normal fosse que àquele horário ele ainda estivesse no trabalho ou em sua própria casa, é ele que quem abre a porta quando ela começava a girar a chave e a olha confuso quando percebe seu olhar de nervosismo.

Ela solta um grande suspiro de alívio o abraçando, e todas as sensações estranhas se dissipam. Quando ele a pergunta o que houve, nem ela mesma sabe responder e começa a se perguntar o que diabos tinha acontecido consigo para ter se comportado daquele jeito. Ele a leva para o sofá e começa a  falar sobre o seu dia. Abrem uma garrafa de vinho cuja familiaridade que o rótulo lhe provoca ela também resolve ignorar, e no decorrer da noite ela adormece ainda com a roupa do trabalho em seu ombro.


O despertador toca. Ela abre os olhos num susto, o coração à mil.
Olha de lado e os fecha novamente, num suspiro.
É claro que nada disso nunca aconteceu.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Modus operandi

Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu escrevo mentiras tão bonitas.
Eu escrevo mentiras de amor. Eu escrevo mentiras de vida.
Eu enfeito o que é tosco, e acentuo o que é bonito.
Eu poetizo o que é roto, e eufemismo teu egoísmo.
De uma estrutura côncova, faço um arco; Do inevitável faço trágico.
Bebo na fonte da minha própria visão, e tomo por reais tuas flores de plástico.
Nada disso é pessoal. É pura literatura, baby.
Qualquer palavra é sempre banal, não resiste às mudanças de quem a escreve.
Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu sou minha maior traiçoeira.
Mas para vocês, só escrevo verdades; Não julgue o arco pelo destino da flecha.
Literariamente falando, até amo. Mas sou infidelíssima, pode crer.
Se for esteticamente coerente, no segundo seguinte posso não mais te querer.

(Guardo meus eufemismos e exclamações na manga
como temperos para nossa exaustiva dança.)

O texto que não deveria ser escrito.

Você olha para baixo, para o relógio e eu sei: Estou te irritando. Toco sua nuca, dou aquele sorriso sem jeito de quando admito meu próprio erro; E te vejo ceder novamente, mas já não tão flexível. Mais tarde, longe de tudo, longe do seu aroma amadeirado, eu finalmente sei que sei o que estou fazendo. E daí, de repente, vem aquele desespero estranho, aquele desespero mudo. Porque eu percebo, assim, simples como quem percebe a luz ambiente, que não posso te perder. Estive te afastando com todas as células do meu corpo desde que tudo isso (re)começou, e faço isso sem perceber e sem saber o por quê, sem conscientemente estar ciente
do medo causador de todos esses males. Mas daí, agora, nessa hora, onde só a escuridão ilumina meus pensamentos, percebo assustada, petrificada, que eu realmente não quero perder isso. Isso... Suas piadas ruins e sua boca zombeteira. Suas mãos congelantes e suadas de carinhos sutis e discretos. Seu senso de humor distorcido e a extravagante megalomania de seus pensamentos. Seus olhos escuros, olhos fundos, duas poças de petróleo que eu não consigo encarar por muito tempo porque elas me empurram. E todos os pensamentos que essa combinação estranha e perigosa traz me irritam. Me irritam porque eu percebo que já caí nessa armadilha não foi hoje nem há alguns meses e sim desde o primeiro momento do primeiro dia em que nos descobrimos. E me irritam ainda mais porque me dou conta, novamente, do simples e absoluto fato de que com você eu jamais consigo vencer. Seja nas notas, no xadrez ou no amor, você está sempre me derrotando. Me derrotou anos atrás e me derrotou agora, onde me rendo escrevendo um texto que me jurei jamais escrever quando jurei jamais escrever novamente sobre você (e que, pelos céus, espero que você nunca leia). Mas principalmente, me derrotou naquele momento, onde com a mão sob o coração acelerado
e uma bandeira branca hasteada nele, fechei os olhos, e constatei o inegável e aterrorizante:
"-Ah, de novo não..."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Para uma amiga querida, com o maior carinho possível.

Abriu os olhos. A cor do céu através de sua janela era de laranja fogo flamejante.
Tudo ao seu redor irradiava calor. A música que tocava em seus tímpanos era um rock 'n roll doce, melódico e aterrorizante. Seu coração pulsava forte, forte e quase sentia o sangue banhando todos os tecidos de seu
corpo várias vezes por minuto. Ele, seu coração, ela viu no espelho, estava intacto. As fibras se abraçavam, mais fortes que nunca, mais fortes que tudo. Seu escarlate intenso e altamente vivo impedia que se imaginasse que já houveram lá grandes buracos, um dia.

Lá fora, o mundo era a catástrofe. E esse catastrófico caos a alimentava. Elevava sua energia, aumentava sua força. Aguçava seu olhar, sensibilizava seu odor, impulsionava sua mente. Sua mente, esse eterno animal selvagem e faminto. Queria mais o tempo todo, mesmo quando muito recebia: Mais informação, mais conhecimento, mais poder, mais do doce gosto da vitória que atrai novos desafios.

O crucifixo em seu pescoço era uma promessa e uma piada. O tocou com seus dedos finos, finos demais e sorriu sutilmente para seu amigo há tanto tempo visitado. Haveria um acerto de contas, estava certa, e aquela Cruz como uma vigia em seu colo recolhia todos seus pecados de amor para o dia do balanço final. Mas, por enquanto, ele que esperasse. Estava vivendo.

O quarto ao seu redor parecia estranho porque o dia de ontem tinha sido há 10.000 anos atrás e o hoje era completamente fascinante e isento de suas feridas, não obstante, equipado de seus ensinamentos. Sua mente trabalhava rápido enquanto o mundo ao redor a esperava entrar, mas sem nunca parar. Porque não pára e não pára nunca, estando ela quebrada ou inteira. Então por que, pelos Céus, ela teria motivo para se abster da extrema satisfação de ser forte nesse mundo?

domingo, 15 de maio de 2011

She delays

Ela atrasa. Ela atrasa no gesto e atrasa na ação. Ela adia a palavra na esperança vã de que tenha efeito. Ela adia a desistência, resistindo na resistência. Ela atrasa o ponto final, se enchendo de reticências. Ela continua tomando doses, esperando sentir a diferença. Ela atrasa o próximo gole, minando as próprias defesas. Ela atrasa o momento, a atencipação antes do beijo. Ela o atrasa tanto, que quando vem, vem sem efeito. Ela não se importa de chegar por último, por isso atrasa na corrida. Ela adia o ponto de chegada só para continuar a ouvir a torcida.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Munique

Munique acordou com o badalar dos sinos da 6 horas. A grande janela trincada do quarto velho trazia a visão daquele céu cinza. Cinza e pesado. Era cinza, mas não era um céu de algodão. Algum dia, talvez,
tivesse sido. Mas hoje não. Hoje era só uma ameaça de chuva.
Ela olhou para o corpo ao seu lado e imaginou que não significava nada, nada, nada. Ela fitou o rosto de homem. O sorriso zombateiro mesmo enquanto dormia. Pegou o travesseiro com as duas mãos e o aproximou do rosto daquele corpo. Poderia sufocá-lo. Por um momento, até imaginou os braços dele a se debaterem quando atingisse a consciência da morte iminente. Mas nem isso.
Nem essa ideia a empolgou, a excitou. Munique soltou o travesseiro. Aquele corpo não valia nem a morte.
Munique não tinha mãe e não tinha pai. Filha da noite e filha do dia, ela colecionava defuntos que ainda não tinham morrido. Munique partiu. Deixou aquele corpo, aquele lugar que nunca seria lar e subiu num ônibus para voltar nunca mais. É que Munique também colecionava despedidas.
Despedidas mudas, amantes e promessas.
Antes de tudo e de todos que tinham dado aquela curvatura insana a seu lábio de ainda vinte e poucos anos, havia coisas que Munique queria. Munique queria ser cantora. Munique queria ir para Munique. Queria encontrar qualquer movito ou semente para si, para ser quem era, para seu nome; Qualquer motivo que não o nazismo de seus pais.
Enquanto partia, ao encarar a brancura funerária daquele céu defunto, regurgitou essa ideia de uma outra Munique que já não lhe pertencia. Isso era de praxe. Munique sempre regurgitava. O café da manhã, o gozo, as palavras e até a vida que uma vez cometeu o ingênuo equívoco de instalar-se em si.
A única coisa que Munique engolia eram as lágrimas. Na verdade, não lembrava da última vez que estas fizeram menção de sair.
Munique lembrava nitidamente do dia em que percebeu que estava mudando. Era um verão escandalte e com os pés descalços naquela areia branca e o pôr de sol laranja ofuscando sua vista, Munique percebeu que estava se tornando má. Teve também, naquele segundo eterno, aquele segundo em que as linhas invisíveis do futuro são fiadas, a consciência de que ainda havia volta. Aquele caminho que no segundo seguinte estaria lacrado ainda estava aberto; A primeira Munique ainda estava viva, ainda podia voltar. Se ela deixasse.
Mas não o fez.
Porque junto da consciência do demônio que instalava-se em si, Munique sentiu poder. Sentiu a excitação corrente da energia nova que de tantas dores boas a pouparia.
Acontece que, apesar ou por causa de tudo, Munique era má. Munique, com seus olhos azuis grandes e seu frágil corpo alvo de moça, não possuia arrependimentos. Não, isso não a incomodava.
E isso, meus caros, por mais assustador que pareça, é possível.

domingo, 3 de abril de 2011

Capítulo Final

Hoje eu tive um sonho.
Nele, a gente se abraçava com tanta força, com tanta força, que eu sentia meu corpo imerso em alguma substância mágica, simples e surreal. Isso mesmo.
Era um abraço mais pleno e com um amor mais forte do os que nossos
abraços reais jamais contiveram. Era um abraço de reencontro de uma saudade extrema que nunca existiu.
Era um abraço de felicidade.
E esse, meu bem, foi um sonho impossível.

O tempo passou, e com ele você mudou.
No entanto, eu tenho a impressão de que você seguiu um caminho inverso ao que deveria ser. Um caminho antinatural. Quando eu te conheci, você era uma folha em branco. Limpa, uma folha limpa. E extremamente pura.
Em meio às possibilidades a serem desenhadas nessa folha, havia uma bifurcação. Uma das ruas era clara, era leve, era viva em relação a tudo e todos. Nela, você via tudo como uma possibilidade. E por isso mesmo, era tão encantadora. Você parecia já ter um pé nessa rua. Com seus sorrisos mágicos e seu
olhar de dia tranquilo. No entanto, algo aconteceu. Alguma coisa aconteceu. Algum joguete
do tempo, destino ou das meras coincidências:
Você enveredou pela outra rua. E isso, eu demorei muito para perceber. Nesse outro caminho, que era mais pesado, inflexível e aparentemente seguro... Você era rei. Suas palavras eram as certas; Suas ideias, imutáveis. E você era o jovem mestre de um microuniverso que não aceitava interrupções. Interferências.
E nesse mundo eu te perdi.
Perdi, porque as substâncias em mim que eram estranhas a ti não entravam nesse mundo. Eram consideradas corpos estranhos e você mandou os seus anticorpos da frieza e da indiferência para combatê-las. E as atacou numa batalha tão árdua onde o golpe final foi a desistência.
Touché.
Talvez, na outra rua, meus antígenos não fossem um problema. Talvez, como antes, tudo se  misturasse - o meu e o seu mundo - formando uma coisa muito mais diferente, bizarra e principalmente, muito mais bonita.
No entanto, como no começo foi dito, o tempo passou.

Eu acho que, no final das contas, é como Oscar Wilde disse mesmo, e todos possuímos dentro de nós o céu e o inferno. Mas, por incrível que possa parecer, há quem prefira viver em um e também há quem prefira viver no outro.
Quanto a mim,
Boa sorte, adeus e amém.
Lidar com o amor morto é fácil.
Mas o que fazer com o amor que ainda não morreu?
O que fazer quando uma das pontas daquele laço ainda se debate,
reluta e resiste, sem nenhuma conformidade?
E quanto mais a gente pisa nela e pede que silencie de vez,
mais ela força seus pulmões já fracos, porém ainda cheios
de indignação, e agoniza lentamente?
O que fazer com essa ponta solta, essa ponta só, se a outra
extremidade desse laço já, há tanto tempo, descansa em paz?

quinta-feira, 31 de março de 2011

O vôo da quimera

Parecia simples, sem riscos e descomplicado.
Aberta foi uma porta da emoção por nada menos que a racionalidade.
E de dentro dela veio a disponibilidade, a intenção - De criar
tal formosa construção, que traria para esse furacão, quem sabe,
alguma tranquilidade.
Levou tempo, é verdade. Levou espaço e muitas dimensões a mais.
O cientista, assim, pegou aquilo que via como pedra bruta,
e adicionando tolerância e bravura,
criou e transmutou até formar-se uma figura
que poderia, então, ser amada.
A quimera estava, então, pronta. Uma criação cujos ingredientes
estavam somente na imaginação - daquele que tencionava amá-la.
Experiência esta, que resultou positiva.
O cientista apaixonou-se por sua quimera querida.
E tanto amor doou a ela, quanto esta precisava.
No entanto, um dia, a entrega foi demais.
A quimera passou a perceber ter poderes tais;
E o amor de seu cientista, antes fonte de água e vida;
Tornou-se uma substância rude. A quimera queria mais.
Desprendeu-se então de seus zelos, e com a força adquirida por estes,
farfalhou asas de substância nova,
e partiu para longe de seu criador;
Levando junto seu amor,
que agora, enojada, rejeitou
talvez por ter sido demais.

terça-feira, 22 de março de 2011

Anabella e o botão

Um "obrigada" à Débora, porque tenho quase certeza de que foi por causa de algum texto de seu blog que pensei no nome da personagem.



Anabella tinha uma blusa preferida que usava quase todos os dias. Era clara, cor de pôr do sol e ao mesmo tempo um pouco rosa. Eram cores que Anabella nunca pensou que gostaria, ou que quereria em si, mas mesmo assim, quando as vestiu, serviram perfeitamente.
Haviam cinco botões e um deles ficava à altura do coração. Era  de uma cor destoante, diferente. Mas pareceu encaixar-se perfeitamente à blusa de Anabella e deixar todo o conjunto mais harmônico.
Este botão puxava a costura da blusa de Anabella para o centro, deixava cada fio em seu lugar. Anabella temia que se aquele botão se soltasse, a blusa inteira seria prejudicada. Todos os dias, quando a vestia, Anabella olhava-se no espelho e pensava "Minha nossa. Ainda bem que tenho esse botão."
Um dia, Anabella tropeçou e feriu-se, e seu botão preferido descosturou-se da blusa. No começo, Anabella não percebeu. Estava tão acostumada com sua presença, que sentiu como se ele ainda estivesse consigo. Até porque a blusa continuava intacta.
Acontece que o botão não era tão vital assim. E os outros botões, de algum modo, amoldaram-se para não deixar a costura ruir, a blusa abrir, e sequer Anabella perceber.
Um dia, no entanto, Anabella percebeu que seu botão à altura do peito tinha descosturado. Por um momento extremo sentiu dor e medo intensos. Sua blusa preferida iria descosturar, e agora?
No entanto, quando analisou melhor, Anabella percebeu que há tempos seu botão tinha se soltado e ela não percebera. Então, percebeu também, que tinha mais medo da ideia de perdê-lo do que a perda em si. E uma vez que percebeu isso, Anabella sentiu-se bem. Ela agradeceu a seus outros botões por serem tão fortes, e terem fortificado-se com a ausência do botão do meio.
Anabella sorriu, então, e tão sincera foi a fonte daquele sorriso, que começou a nascer outro botão em seu peito.

Drogas alternativas.

O único contato ao qual eu me disponho com você é o abusivo.
Se você quiser me tragar, tudo bem.
Mas depois tem que me soltar em baforadas. Entende?
Aos poucos, vezenquando. Sem itinerários ou limitações.
Ao passo disso, estarei vez ou outra tomando overdoses de você;
Somente para enjoar - eventualmente vomitar -
e depois  de alguns tempos de desintoxicação, voltar a te chamar.
Você, digo agora e prometeria se eu fosse das que cumprisse -
poderá sempre vir aqui e derramar sobre mim uma ou dez palavras.
Poderá vir até com ódios, assim como irei a ti;
Poderá exigir mais de afeição do que eu posso dar - por vezes, somente -
e eu corresponderei, encontrando-a sei lá onde.
E as palavras poderão ser sem sentido, poderão ser nervosas
e até mordazes.
E os olhares poderão ser ressentidos, poderão ser demorados,
ou quem sabe fulgazes.
Agora, por favor,
só não venha me falar de amor.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pequeno trechinho antigo para evitar que isto aqui crie mofo.

O que pensas que sabe,
Criança presunçosa.
Não sou mágica, nem trágica.
Tampouco tenebrosa.
Não te liguei na minha tomada,
Porque se tivesse, a descarga
Já teria feito uma tragédia
Daquelas bem horrorosas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Não me levem tão à sério

Ah não, minhas crenças são todas deturpadas.
Hora acredito em tudo, hora não me convence nada.
Meus métodos são extremistas e nunca foram saudáveis. Não lembro de ter dito o contrário a ninguém.
Meus sorrisos são escassos porque os resguardo verdadeiros.
Eu sou toda incerta e a segurança que posso lhes dar é a sinceridade das minhas emoções e basta.
Eu nunca me atraí por pontos brilhantes ou por salvações óbvias.
Eu sempre tive esse problema crônico de não ter medo.
Eu não tenho inimigos mas eles acham que me tem. Haja paciência...
Eu me importo demais e de menos numa proporção ilógica e consecutiva.
E às vezes, sabem, aqui parece um lugar estranho;
E vocês todos parecem aliens;
E meu corpo parece um meio diverso de mim;
E eu sinto saudade de algo que nunca existiu.
E esses textos aqui, bom, eles não significam nada.
Decifrar-me por eles é em vão, pois representam um momento ínfimo;
Às vezes composto apenas de meros minutos e mais vezes ainda adocicados por conveniente ficção.
Não faça(m) drama com isso, meus benzinhos.
Se quiserem saber mesmo o que eu sinto,
não percam tempo tentando decifrar as minhas palavras
ou desvendar meus sinais.
Basta chegar bem perto,
E olhar em meus olhos.
O resto, acreditem, é banal.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Expectativas

Estou cansada de suas exigências maçantes.
Estou cansada de suas ideias deturpadas sobre o que é,
o que será e o que deve ser.
Estou exausta e de saco cheio de condições pré estabelecidas
para que possam entregar algo que deveria vir espontaneamente.
Suas correntes estão pressionando minhas ideias, confundindo
minha emoção e aprisionando meu espírito.
Vocês exigem isso e aquilo uma e outra vez e usam seus olhos
de algozes ou juízes para ordenar ou desaprovar.
Desagradam-se, desdenham e insatisfazem-se quando eu, borboleta tola,
ao tentar acalmar seus espíritos, reviro-me e remexo-me tentando
tomar outras formas.
E quanto mais prossigo em meu esforço vão, mais dou espaço para suas
listagens de preferências.
Mas exaustou.
Hoje o céu nasceu ofuscante e todas as vendas foram retiradas.
Vou livrar-me de seus laços dúbios e enviar suas expectativas
para o inferno - que é o que faço de melhor.
Peçam o que for - sempre fui corpo e alma abertos para os que amo -
só não me peçam, meus bens
Só não me peçam para ir contra a minha natureza.

Vai saber.

-É passageiro, não é?
-Ah, é sim. Vem, instala-se e adoece. Daí passa, vai embora. Como uma gripe.
-Uma gripe? E será que é algo assim ruim?
-Quem disse que gripe é de todo ruim? Fortalece o organismo, te deixa num estado meio catatônico mas diferente.
-"Catatônico mas diferente", isso poderia ser qualquer coisa. Até um trauma.
-Pode ser também. Mas só seria trauma se fosse dos fortes. Daí poderia ser mesmo. Daqueles cujos rastros a gente vê na esquina. Sabe aqueles cujos rastros a gente vê na esquina?
-Não, não sei.
-Bom, eles, esses rastros, parecem acompanhados de uma nota falha de violino por trás. Por baixo, no fundo. De toda a banalidade que é. Como uma lente sobreposta que amplia o tamanho da coisa em si. Só para os olhos de quem vê.
-Quantas metáforas, ein. São muitas metáforas para algo tão passageiro, como você diz.
-Mas a coisa, em si mesma, já é uma metáfora, não acha? De algo maior. Isso já quer dizer outra coisa. Que vem de outro tempo. Talvez da infância. À la Freud.
-Toda coisa quer dizer outra coisa e no fundo das linhas eternamente cruzadas o cerne vai ser o mesmo e eu desconfio que seja nada.
-Pode ser que seja mesmo. Daí ele, esta coisa, esta entidade ou seja lá o que for, seria uma linhazinha assim, curta, passageira, apressada e até meio desatenta...
-Mas forte.
-É. Mas forte.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A confissão de Meg White

Cá estamos novamente nessa mesa de pôquer. Eu sempre tenho um plano B. Cartas, coringas, sorrisos. Indecifráveis ou dissimulados. Ninguém conseguiu ainda ler a mensagem certa nesses olhos negros.
Eu estou aqui, com esse baralho nas mãos e o jogo nunca está perdido. Há sempre um plano B, eu nunca não tive um plano b. Às vezes há um C e até um D e por aí vai. Isso rendeu famas e das mais variadas. Fria, calculista, n, n, n. Um dia houve isso e daí houve a queda. Um mito em decadência, com pausa para os devidos perdões.
E quando essas cartas mostram-se assim obscuras e desistentes, é que você parece esquecer, mas eu nunca não tive um plano b. Não existe tal coisa como um jogo perdido, não existe tal coisa como a derrota. Existem fins, é verdade. Vários deles. Mas a renovação interna garante uma eternidade íntima específica.
Sou curiosa pelas criaturas que vivem dentro de mim e sei que são muitas. Por isso nunca haverá tédio aqui, não, pois há essa indiscutível sensação de rotação interna e poder fornecida pelo pequeno universo que cultivei em mim.

É engraçado falar sobre minhas fraquezas para os outros e vale lembrar que foi isso que provocou a queda do mito. Eu gosto de ver as pessoas se deliciarem com minhas fraquezas porque é aí que elas se sentem fortes. E quanto a mim, no momento em que lhes digo, de repente aquelas fraquezas tornam-se diversas de mim. Elas somem, se foram. Eu, de repente não as sinto mais.
Há certamente quem ache cruel, mas meu passado é cheio de cremações, nunca enterros. Qualquer dor é suportável porque aprendi a terrível capacidade de deixá-las pertencerem ao tempo e só a ele. Eu nunca abri uma porta do passado e não por força, resistência ou orgulho e sim pela mais pura e absoluta falta de interesse.
Então entendam, por favor, a minha intensidade. Eu sou totalmente a favor do presente e por ele me torno extremista. Uma vez que se for, no entanto, não terei tempo para remoê-lo, pois estarei em extremos com outro presente.
Se depois de tudo isso, não consegui explicar porque acha meus olhos dissimulados, nada explicará mais. Eu adoraria dizer que publico, desse modo, um pedaço de minha alma. Mas agora, no fim, já sinto como se não fizesse mais parte de mim. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Contos (II)

Sobre Felinos 
ou qualquer título que convenha mais.


-São três e quarenta, Ana. Venha se deitar. - Ele disse, e virou de lado na cama, voltando ao sonho. Eu sabia que era tarde. Há tempo aquele zunido de madrugada tinha se acomodado no quarto e parece que até os grilos do lado de fora tinham ido dormir. Mas eu não queria deitar. 
Olhei de lado, admirando o homem deitado comigo. Admirando os músculos daquelas costas e a fragilidade daquelas mãos. Eram 03:40, eu sabia, mas eu poderia passar a madrugada inteira observando aquele homem. Lendo nos contornos de cada músculo, de cada articulação, uma memória. Uma mensagem cifrada cujo significado terminava em nós dois.
Eu estava sentada e o lençol cobria meu colo. Eu não queria dormir, pois sabia que era a última noite.
Sim, no dia seguinte eu partiria. 
Eu nunca tinha deixado ninguém, na verdade. Mas é estranho, era o momento e eu simplesmente sabia. 
Não o momento limite onde os olhos já não se cruzam e as mãos já não se tocam. Este talvez ainda estivesse longe. Mas de algum modo, era o momento. Eu pensei em sair de lá imediatamente. Pensei em escrever-lhe um bilhete e partir. Em arrancar isso de mim como quem arranca um band-aid, só que carregando junto carne, alma, tudo o mais.
Mas eu temia estar deixando algo lá, além de minhas roupas, minhas marcas e alguma saudade. Temia estar abandonando algo irrecuperável, e foi por causa do medo atropelador que senti com esse vislumbre, que com o corpo já quente, coloquei-me sobre ele e o acordei aos poucos com minhas mãos e boca.
Senti enquanto ele gradualmente despertava na medida em que seus sentidos ficavam cada vez mais alertas.
Suas mãos seguraram meus pulsos com força, os olhos ainda fechados. O maxilar contraiu-se e por um momento irracional eu temi que ele me atirasse para longe com força.
No segundo seguinte ele colocou-se sobre mim e esse pensamento desanuviou-se, num instante.
Naquilo que embora ele não soubesse, era a despedida, a minha vontade era de gritar num choro, num gozo, numa súplica “eu te amo”.
Mas eu jamais poderia fazer isso e essa frase jamais seria dita entre nós, pois seria antecipar o fim.
Eu tinha que partir ao amanhecer. Não me pergunte por que, meu caro, mas eu tinha que deixá-lo acordar com esse golpe fatal que iria ferir tanto a ele como a mim.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre essas besteiras e com muitos vocativos.

Eu levantei da cama porque eu precisava escrever. Às vezes é assim, a gente precisa escrever. Às vezes a gente quer passar o resto da noite escrevendo. Mas eu não posso, a gente não pode. A gente não pode passar a noite escrevendo porque ninguém vai passar a noite lendo.

Eu sou uma coisa no singular. Assim, singular. Você também é. Somos bichos singulares que vezenquando se juntam num plural. Porque é bom assim, é melhor que estar separado. Às vezes. Mas isso nao muda nossa condição, não, e é isso que temos que lembrar. É um pacto, estamos cúmplices e entre nós existe uma corrente contrato ou como quiser chamar e ela é a vontade. Somos prisioneiros da nossa vontade e somente dela. Quando ela morrer, tudo mais morre junto. Lembra que você prometeu?
E que seja assim, sem promessas, sem eternidades, sem alianças. Nada de alianças. Meu deus, eu odeio alianças. Você sabe como eu odeio alianças. Isso é o que eu penso. Quer dizer, o que eu quero. Mas às vezes o que eu quero é diferente do que o que eu preciso, e Deus sabe como eu queria que o que eu preciso fosse o que eu quero. Por que o que eu preciso é mais extremo, mais fanático, mais necessário. E eu não quero o necessário. Eu quero o importante, mas não essencial. E que se vier, talvez, a se tornar indispensavel, que seja por somar algo importante, mas não por estar tapando buracos que até outras origens têm. E acima de tudo, eu não quero palavras. Nada de palavras para nós, meu bem. Fiquemos com nossos olhares. Não os mudemos, por favor.

Ultimamente eu estou de saco cheio para pessoas feitas de palavras. Desculpa, mas não dá. Causa aversão, agonia, repulsa, sei lá. Que covardia, eu penso, quando leio. E há quem aplaude; Claro. Sempre há quem aplauda. Para mim, nada de viver através delas. Nada de se extender por elas e dentro fica aquele oco estranho do que já foi tudo dito e o que não foi é porque você não sabe ou porque é terrível. E você ainda encontra um modo engenhoso de dizer. E daí você vira aquele monte gosmento de palavras que justificam tudo tudo e todos caem tanto que você esquece que a beleza está em não se justificar. Mas é isso, as estou detestando. E não, eu prefiro não viver de palavras. Quer dizer, você pode até pensar que é assim. É natural, é normal, mas se quer saber, eu as uso mais como um álbum de fotografias. Foi assim, aquele momento, naqueles termos, o sentimento criptografado. Eu o registro - às vezes - e pode ser que daí ele mude ou não, mas não porque eu me livrei dele e sim porque tudo muda a todo tempo mediante o mais inexplicável estímulo. E daí que basta, eu poderia escrever a noite toda. Eu quereria, na verdade. Mas ninguém pode escrever a noite toda e se não me engano, já disse o porquê.

Boa noite.