segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Aos meus amigos

Olha, eu sinto tanto, eu sinto nada. Já faz tanto tempo que estamos olhando por essa janela de vidro e nada muda. Eu não posso atender expectativas, eu não posso estar sempre junto. Eu prometo me dedicar ao máximo quando estiver perto de vocês, mas eu simplesmente não posso estar muito perto.
De lá de onde eu vim, o mesmo ar por muito tempo é corrosivo. Eu tenho um jeito distante de gostar, que me garante não tê-los por garantia. Eu não preciso de nenhum de vocês e é por isso que mantemos laços tão bonitos ao longo do tempo.
Prometo não os cobrar nem os sufocar. Mantê-los imunes ao excesso de necessidade. Vocês parecem atraírem-se pela distância, vocês são criaturas curiosas.
Vocês tem que entender que a menos que eu mantenha essa distância: visitas que não acontecem, chamadas não atendidas, nada em mim pode durar. Vocês tem que acreditar que vou tirar o melhor de vocês quando os vir e não deixarei que em parte alguma sujem seus nomes. Vocês tem que perceber que minhas palavras são verdadeiras no momento em que eu as digo, embora mais tarde não possam ser porque eu mudo, como muda a correnteza e faço isso para mantê-los em um lugar saudável de meu coração.
Vocês tem que me soltar, meus benzinhos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

"Antes de atravessar a porta a gente pode
não estar consciente de que tem lá uma porta
A gente pode pensar que tem lá uma porta por atravessar
e procurar a porta durante muito tempo
sem a porta achar
A gente pode achar a porta
e não abrir-se a porta
Se ela se abre a gente pode atravessar
a porta e ao atravessar a porta
a gente vê que a porta atravessada
foi pelo eu que foi atravessada
ninguém atravessou a porta
não havia porta para ser atravessada
ninguém jamais encontrou uma porta
ninguém jamais percebeu que jamais houve porta."


R.D. Laing, 1969.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"A miniatura" + "Do sétimo andar" (Ou: Sei que vai rir com isso.)

Parabéns, meu benzinho: És de imperiosa frieza.
Atingiste um grau máximo que a meus olhos experientes impressiona!
Faz jus à tua fama - Até pouco injustificada - e à origem de teu nome.
Estou impressionado, minha pequena. Teu olhar gélido de inócua apaticidade... Admirou-me com tão bela indiferença. - Curvo-me à tua capacidade maestra de esquecer.
Ganhaste com esta proeza o aplaudir de minhas mãos e o ranger de meus dentes.
Muito bem, minha graciosa geleira. Agora sei que caminhas pelas mesmas ruas que eu, embora a substância que percorre tuas veias tenha viscosidade e temperatura diversas à das minhas.