sexta-feira, 20 de agosto de 2010

1, 2, 3.

Os sonhos que tenho hoje
Facilmente se confundem com pesadelos
Tenho atos de coragem
cuja pulsão não passa de medo


Você acredita de tal modo,
Que acho até engraçado,
Que toda palavra que digo
Tem algum significado


A trilha, em que caindo, achas bonita
As palavras que a ti admiram, tão arrumadas
Não passam de sutil armadilha da minha
Infalível cilada de palavras

Disfarce

Ei, garoto. Você tinha razão o tempo todo.
Possui vento e bater de asas a poesia
Dotando de ardente pulsação um papel morto.
Mas veja bem, minha rima é fajuta e tardia

Tarda em alcançar a essência de um todo
Em ilustrar a tempestade de um coração moço
Em toda sua revolta, ardor e magia.

Veja que te disse, a poesia torna tudo aceitável
Enquanto brincamos de rei e ladrão ao subjulgar corações
O léxico lírico repintará nossos maus atos
Em cores e notas de eruditas composições.

Por isso repito, minha amante é a arte
Em sua cama é que deita em ápice minha paixão
E servindo meus semelhantes como tinta e flanela,
A existência é minha tela. E o pincel, a minha mão.

Stand By

Menina do olhar cor de petróleo
Tão senhora dos outros quanto perdedora de si
À tua volta os olhares a ti admiração evocam
Em teu cerne se despem os sorrisos em cristais a ruir

O que falta à tua corte que tanto apodrece teu reino?
Que faz a teus olhos os moços serem só bonecos
Se com um ungir de dedo escolheria teu eleito
Se com um tingir em tela, ergueria teu castelo

Mas enquanto tua beleza tanto encanta como ilude
À noite em teu refúgio, tua máscara se desfaz
E dentro do peito a criatura anônima arranha e ruge
No espelho se confunde entre arcanjo e satanás

Mas não demora, não demora, fecha os olhos e dorme
É noitinha, não chora, já já ela vai embora
Pois em algum canto de encanto, o relógio disforme
Do porvir a te salvar, bate a hora, bate a hora.

(?)

"Me diz que esquina é essa
Em que as coisas se partem, se quebram, se separam em duas vias.
E o que eu faria, diria, beijaria...
Tão mais fácil transformar nossa tragédia em poesia.
Me diz que lei é essa
Que age contra os desejos dos animais
E que sádico definiu
Que se tem de acordar de sonhos
E lidar com problemas reais?"


"Deite no meu ombro,
Chore na minha cama
Quero você é pelo drama
Drama, drama, drama."

"Vamos rir dos joguetes do destino
E poetizar sobre nossa separação
Vamos esquecer que ao partir você levou
Metade de minha alma e todo o meu coração."


"Vamos, converse comigo. Hoje eu preciso de abrigo.
Fale que me ama, mesmo que seja só pela cama.
Jogue-me um texto bonito, mesmo que não tenha sentido.
Finja-se de amigo que eu me finjo de cigana."

Vômitos II

Eu sempre fui mais feliz de olhos fechados e coração aberto. Mãos abertas braços abertos alma aberta exposta quase despida assim mesmo na carne viva quase sendo manchada a cada contato a cada tentativa quase sendo corrompida e muito embora não isso sempre sendo lesionada. Mas os olhos fechados assim mentirosos minto pra mim minto pra eles finjo que não temo. Temo.
É o último suspiro de prazer ou quem sabe de cansaço extremo.
É o último apocalypse right now, what you gonna do about that, baby?
Minha cabeça lateja a 220km/h e num só tique taque.
As cabeças estão todas latejando, o que você pretende fazer com elas, Joe?
Hoje eu vou usar meu melhor batom e pegar minha melhor arma.
Hoje eu vou seguir no melhor tom, vou vestir a melhor alma.
E o apocalipse já chegou faz tempo, querida. Esqueceu que o inferno está vazio?
No relógio já passou a hora de partida, estamos no fucking milênio 2000.
As cabeças estão todas explodindo - Acho que você ainda não entendeu o que isso quer dizer.
Não quero mais nenhuma pista, poema ou sorriso. Vou queimar suas cartas e rasgar seu buquê.
Estamos um pouco sem salvação aqui, baby. Já não me importo com o que vão pensar.
Mas faça-me o favor, livre-me dos clichês!
Engula suas boas intenções e mande-se pro lado de lá.

[ I ]

Pensava - infantilmente - que a normalidade era um gênero de mortalidade.
Pensava - infantilmente - o conceito de normalidade. E também o de mortalidade.
Pensava - infantilmente.

Ficções I

-Eu ri.
-Foi engraçado.
-Não, não foi. Era importante para você no momento.
-Relaxa, não foi nada demais.
-Eu fui rude.
-Tudo bem.
-...
-...
-Então parece que está na hora de nos despedirmos, não é?
-Parece.
-Você me amava?
-Bastante até, viu.
-Eu queria que você me amasse ainda.
-Eu sei. Eu também queria, muito mesmo.
-Adeus.
-Au revouir, menina dos olhos de vidro.

[II]

Eventualmente as coisas morrem. Morrem e voltam, morrem e voltam. Eventualmente as coisas sentimentos pessoas eventualmente os medos e até as angústias gritantes aquelas que nos impedem o sono e o sorriso e até os próprios sono e sorriso eventualmente todos eles descansam exaustos.