segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Aos meus amigos

Olha, eu sinto tanto, eu sinto nada. Já faz tanto tempo que estamos olhando por essa janela de vidro e nada muda. Eu não posso atender expectativas, eu não posso estar sempre junto. Eu prometo me dedicar ao máximo quando estiver perto de vocês, mas eu simplesmente não posso estar muito perto.
De lá de onde eu vim, o mesmo ar por muito tempo é corrosivo. Eu tenho um jeito distante de gostar, que me garante não tê-los por garantia. Eu não preciso de nenhum de vocês e é por isso que mantemos laços tão bonitos ao longo do tempo.
Prometo não os cobrar nem os sufocar. Mantê-los imunes ao excesso de necessidade. Vocês parecem atraírem-se pela distância, vocês são criaturas curiosas.
Vocês tem que entender que a menos que eu mantenha essa distância: visitas que não acontecem, chamadas não atendidas, nada em mim pode durar. Vocês tem que acreditar que vou tirar o melhor de vocês quando os vir e não deixarei que em parte alguma sujem seus nomes. Vocês tem que perceber que minhas palavras são verdadeiras no momento em que eu as digo, embora mais tarde não possam ser porque eu mudo, como muda a correnteza e faço isso para mantê-los em um lugar saudável de meu coração.
Vocês tem que me soltar, meus benzinhos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

"Antes de atravessar a porta a gente pode
não estar consciente de que tem lá uma porta
A gente pode pensar que tem lá uma porta por atravessar
e procurar a porta durante muito tempo
sem a porta achar
A gente pode achar a porta
e não abrir-se a porta
Se ela se abre a gente pode atravessar
a porta e ao atravessar a porta
a gente vê que a porta atravessada
foi pelo eu que foi atravessada
ninguém atravessou a porta
não havia porta para ser atravessada
ninguém jamais encontrou uma porta
ninguém jamais percebeu que jamais houve porta."


R.D. Laing, 1969.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"A miniatura" + "Do sétimo andar" (Ou: Sei que vai rir com isso.)

Parabéns, meu benzinho: És de imperiosa frieza.
Atingiste um grau máximo que a meus olhos experientes impressiona!
Faz jus à tua fama - Até pouco injustificada - e à origem de teu nome.
Estou impressionado, minha pequena. Teu olhar gélido de inócua apaticidade... Admirou-me com tão bela indiferença. - Curvo-me à tua capacidade maestra de esquecer.
Ganhaste com esta proeza o aplaudir de minhas mãos e o ranger de meus dentes.
Muito bem, minha graciosa geleira. Agora sei que caminhas pelas mesmas ruas que eu, embora a substância que percorre tuas veias tenha viscosidade e temperatura diversas à das minhas.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

We all want to be wild things

Eu não tenho culpa, nasci assim meio sem lar.
Nunca fui de ser levada, e sim de levar.
Mas como isso não pratico, (Perdeu-se algo, no espírito),
fico nesse impasse. Nem fico, nem vou. E aí, como foi?
Vez por outra alguém vem - Abraços cheios de correntes.
Não dá, não me aquieto. Essa vida de terceiras motivações não dá certo.
Vezenquando paro, espero. - Vai que há um lugar, que só falta o encontrar.
Não há, existo: E com essa existência, me basto e subsisto.
Espero que não se incomodem de eu tomar-lhes pequenas parcelas;
Delas me construo lar, moldo o que falta, ao faltar -
E fujo de suas gentis cancelas.

domingo, 28 de novembro de 2010

Declarações avulsas. (Ou "Amores do passado.")

Você não fala, olha em frente. Está ao meu lado e centímetros ínfimos de nossos braços se encostam. Arrepio, estou super consciente.
Afora, existe um zilhão de universos inexplorados. Muito há para se ver em frente e aos lados. O professor permanece falando, ao redor dezenas de rostos. Mas estou apenas consciente na fração de nossas peles que se tocam.
Um universo inteiro está em você, ao meu lado. É um abismo. Existe um abismo em você e nada poderia ser melhor. Não é assustador, pois são as infinitudes que apresentam-se cada vez a novas luzes a medida que descubro algo a mais. - Uma expressão, um sinal (de dentro ou de fora). Uma nova pressão na pele.
Recentemente, redescobri novamente a mim mesma. O mundo está mudando aqui dentro e tudo que é você se fortifica dentro dele. Permanece. Seu lugar criou raízes que incrustaram-se em minha inconstância.
Você não toma café - não me conformo. Tem algo de café em você. Quando eu tomo café, meio que te beijo. Mas isso não é novidade, quando eu acordo meio que te beijo, quando eu durmo... Nossos braços se tocam - estou te beijando.
A aula continua, movo-me na cadeira. Você não fala, agora me olha. Vejo que na verdade me fala, mas de um modo diferente. Não sabe o que está dizendo. Também não sei o que estou ouvindo.
É assim, está certo. -  Não falamos sobre poesia, a vaidade dos prepotentes. - Falamos sobre não falar. Digo que quero que me "ame" não pelo que seu coração entende de minhas palavras, mas pelo que sua alma sente de meu silêncio. Portanto não falemos em coração, sim em alma. Não em luz e escuridão, mas em como aquela rajada de vento envolve tudo. Em como sinto o chão esfriar meus pés e o calor aconchegar meus braços com a mesma concreticidade que seu olhar me transmite aquela mensagem intraduzível.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

É isso aí, meus caros.

É como a gente escuta nas histórias. Quando crianças, se amavam. Crescem, alguma coisa - ou nada - acontece e de algum modo, tudo muda. Primeiro se odeiam, depois indifere. - Deus, como o nada fere.
-Eu nunca achei que ia incorrer no erro.
É normal. Separa, junta, separa, junta, gasta. Nulo.
-Somos todos humanos, baby. Estatísticas das tais histórias - Lorotas. Se puder, ensine diferente aos seus filhos. Talvez... não sei.
Disse-me que é necessário uma força de espírito imensa para não cair no habitual. - É normal?
Quem dera vivêssemos numa terra de pressão onde a maior aspiração fosse ser forte. - Mas não é. Não almejamos as virtudes certas. Sequer almejamos virtudes.

-Tem gente que tem o olho vazio. Aqui mesmo, nessa terra, no aclamado Brasil!
-Se olha no espelho. Não, não. Me olha no espelho.
-Me olha no espelho.

A formiga.

Como "algo parecido com amor, vindo de nem tantas pessoas que cada vez são mais poucas" poderia ser suficiente para alguém que precisa de todo o amor do mundo?
Não é. Nem de longe. É muito pouco. É quase nada.
Tenho de confessar: Estou desolada, meu bem.
Essa tristeza é  horrível, é a tristeza que não comove ninguém. E uma vez me disseram (eu me disse) que uma lágrima que ninguém mais sente é tão significativa como uma gota que pinga de uma torneira. - Corrija-me, se eu estiver errada.
Estou confusa, também. Não sei até que ponto estou equivocada em todos os pensamentos (percepções) que provocaram o sentimento desse texto. Mas seja qual for o erro, temo estar viciada em persistir nele. E em todos os mais.
Um anjo me disse para abraçar aqueles que me magoam, mas minha  frágil substância possui uma ânsia infantil de ser abraçada, em vez disso. Sempre abraçada. Por todo o amor do mundo. Um amor que nunca vai me pertencer.

(Eu não consigo viver sem amor. Sem reciprocidade. Mundo, você está me faltando muito. Me faltando demais. Eu não consigo viver em você.)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

(?)

Primeiro, a claridade. Ofuscante de início, como se fosse tudo, mas cujo real significado é que de fato nada ainda existia. Estamos falando de um momento numa mente, para esclarecer. Esclarecer. É engraçada é essa palavra porque se quer saber o que eu penso, quanto mais se esclarece algo mais parecido este algo fica com nada. Ao menos, nada preciso.
Deve haver uma ordem - eu penso. - Uma ordem que seja composta por desordem.
- Não se irrite, não são palavras de efeito.
Começou num banho. - É, acho que foi assim. Foi lá que começou a claridade. De repente, a ideia. A ideia sobre não ter ideia. - Óbvio, impreciso - o tempo todo lá. Como penso que deve ser a morte. Mas que sei eu?
-Um dia, me disseram: "Aposto que depois da morte é assim. Aquela coisa que você vai ver/sentir/estar/os cambal* e daí pensar: "Nossa. Como não percebi o tempo todo?"
E daí o sentimento. - Um deja vu intelectual que de intelectual não tem nada mesmo.- A questão é que a compreensão apesar de impossivelmente acima,  parece olhar, zombar. Dizer: "Quase pode alcançar o fio da minha meada, não? Pena que faltou 2 centímetros."
Mas isso - claro - Só depois da claridade.
É reconfortante, meio deliciosa, essa sensação de não saber porcaria nenhuma. Tanto, tanto, tanto. A mais. Bom, estou sendo incompreensível novamente. É que eu já disse que peça de mim qualquer coisa menos um pensamento linear. É aborrecido. Irritante.
E as palavras são uma bela invenção de merda. - com o perdão da palavra. - Então, desde o dia que descobri que as palavras são fáceis ficou muito fácil também manuseá-las. De mim para mim. Mas como tudo que é fácil, também são limitadas - E desculpe se sou surpreendentemente óbvia mas é que vá lá... Diz nada. Para mim, o ideal era que nos comunicássemos com olhares. Com toques. Queria um mundo inteiro de sentidos - Falar não é um sentido, é? Não que eu saiba.
Então de que adianta este texto? Diabo algum. A claridade, bom. Espero que não tenha sido uma impressão. Espero isso de um modo inerte, sabe? Como quem espera que mesmo lendo sem atenção, registre alguma coisa. Registre que... que...
Bom, como quem espera que esse texto termine.

domingo, 24 de outubro de 2010

Daí que continuamos aqui.

Tá tudo bem, tá tudo bem, não chora.
Esse tempo, essa prisão!
Algo quer se soltar, sair, voar - Mas o quê?
Não sei, meu bem. Se ainda existe, ou se é a lembrança do que já foi.
Confunde-se: Tempo, espaço, tempo, tempo.
Não dá tempo não - A cada minuto, um pouco a menos, a cada um que vai...
Olha, meus dedos perderam a sensibilidade. Isso é normal?
-É normal, sim. - Me disse a senhora, sentada em seu digno banco de areia:
-Uma hora ou outra, todos perdemos a matéria.
"Desrealização", disse a psicanálise.
Disse, disseram. Não adianta - Não escuto nada.
Queria uma vida nova, queria uma vida com alguém. De alguém. Minha. Sou alguém?
Queria um sorriso bonito, hoje.
Se você tivesse um olhar sincero, eu poderia passar o dia inteiro vendo isso.
Não precisa fazer sentido. - Não mais. Estou perdendo os objetivos disso.
Você quer fazer sentido? Keep trying. Se chegar a algum lugar... Bom, não vai ter como me avisar.
Enquanto isso, seguimos. Eu beijaria cada um dos olhos que expressa mágoa, se não faltasse algo.
Mas falta.
Clichês. Que tem eles? Ah, se pelo menos eu tivesse a realidade de um desses, quem sabe...
Ah, ninguém sabe.
Não, eu não tenho resposta alguma. Taí uma pessoa que não sabe de NADA.
Bom, eu permaneço com os meus
eu permaneço com os meus

...

Eu permaneço com meus silêncios de antecipação.

Interprete-me mal, se quiser.

Senti falta de mim mesma esses dias.
Tanto medo, tanta ausência, tanta "necessidade aborrecida", já diria o poeta.
E daí, o que fica? Um pássaro frágil, cujas asas não alçam vôo, cuja beleza tornou-se monótona.
Ah, não. Que piada. Isso tudo estava virando uma dramaturgia só!
Interpretando uma personagem diversa - Simples, tola, um bela de uma chacota.
Tantas vezes já me perdi de mim, volto vazia após um turbilhão de desentendidos.
Mas quando a gente se reencontra - Quanta recordação; Parece que foram-se anos perdidos.
Ah, sei lá. Acho que quando o clima está assim, fica mais fácil voltar ao lar.
Quando alguém se esconde de si - É fácil se confundir e aos outros se associar.
O problema de todo esse retorno é o quanto você percebe
Que o que achava que era tanto - não estava mesmo lá.
É tanto que já não atrai tanta atenção - Foi isso mesmo que me causou emoção?
Bom, confia na maré, guarda tudo no coração - e deixa o mar levar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Qualquer coisa.

Cenário: Urca noturna. Esperando uma reunião eterna terminar. As nuvens? Estavam quase, quase lá.



Anoitece aqui e não lá fora.
Disseram que a natureza não é triste,
mas posso farejar quando ela chora.

Farejando sem instinto. Sem coleira, sem sentido.
Os mistérios me caem como doces adultérios.
Não vê sentido no que ouve? Nem eu no que digo.
-Não vejo sentido no que sinto. Está quente ou frio, amigo?

Está noite e chove. Vem cá, diz inteiro.
Diz a dor tua e do mundo, canta a lágrima num apelo.
Anoitece aqui e não lá fora.
Que há de tão errado que o mundo ignora?
Não ri, Sangra. Eu sei, também vi - Em chamas. Pude quase sentir.

Meu orgulho, teu orgulho, largue todos os escudos.
Vamos partir tendo abstraído algo daqui, baby?
-Olha, está tarde.
-Não, não. Está cedo.
A cada um que vai, meu coração se parte.
De cada um que fica, sinto o cheiro do medo.

Sente o gosto, amor? É grama molhada.
Chove hoje, por favor. Queria tua escultura na sala.
Minha sala, minha casa. Odeio a familiaridade. Não lhe arde como brasa?
Não preciso, não mereço.
Você não entende o sentido, e para explicar não tenho tempo.

Tenha fome, tenha medo.
Tenha ao menos a lembrança - De qualquer um sentimento,
da nossa primeira dança.

Da que não houve, eu sei. Queria voltar a ser criança -
Vamos atravessar no três?

Anoitece aqui e não lá fora.
Não tem mais quase ninguém aqui.
Você também vai embora?

domingo, 17 de outubro de 2010

(Insere aqui qualquer título besta) Parte I


Esse aqui é um conto que há 2 meses estou devendo à Mari e hoje finalmente decidi fazer. Ela me deu a imagem acima como base e daí vai. O tema é algo que sei que a moça em questão gosta muito. Inspirado nessas suas fantasias loucas de mulheres que se tornam o centro da vida dos caras. - O final posto em breve. Quando o fizer, abro para você comentar, Mari.

Parte I

-Você tá com um cheiro. Daqueles coisas...
-Que coisas?
-Aqueles coisas de pôr no lábio. Como é o nome mesmo?
-Tutti-frutti?
-É, isso aí. Cê tá com cheiro de tutti-frutti, cara.


Eu fui pra casa. Eu não sei porque ainda tento beber. Eu odeio beber. Talvez quando eu vá beber, eu tenha a ideia de que vou ser um daqueles caras de filme. Bebendo, angustiado, quase literário. Que merda, ein? Bom, eu fui pra casa.

Eu não precisava dessa de tutti frutti hoje, sabe? Não mesmo. Como se não bastasse esse apartamento pequeno, branco, vazio. Essa cama revirada, esse clima cinza, eternamente deprimente. Essa vida eternamente deprimente.

Esse monte de livros, amontoados. Um monte de conhecimento que não me acrescentou droga alguma. Um monte de música que não me transmite mais nada. A barba por fazer no espelho e meus olhos que me parecem de um estranho.

-Merda, estou acabado.

________________________Tempos antes:____________________________

-Merda, já está acabado!

Tive um susto. Um palavrão assim, numa voz feminina dessas. Olhei para trás e só vi a boca.

Eu estava do lado de dentro do cinema, comprando pipoca e ela estava olhando para o aviso de sessão lotada fixada no vidro que nos separava. Um cartaz escondia justamente a parte de seus olhos. E eu só via a boca. Era uma boca bonita para o diabo.

A garota com quem eu estava saindo me chamou. Ela era legal, bem legal mesmo. Mas o filme inteiro eu só conseguia imaginar a tal boca lá. Eu era um idiota por isso, sabia. Mas não teve jeito.


No final do filme, dei um fora na menina. Nem sei direito porque fiz isso, acho que estava me cansando a ideia de ter que sair de casa novamente em algum tempo próximo. Ela me deu um tapa na cara, em cheio. Diabos, aquilo doeu. Não sei mesmo porque as garotas gostam de mim


Alguns dias depois, fui num clube de blues que abriu perto do apartamento. Era coisa de um amigo meu e tinha tudo para dar errado, até porque o cara tinha jogado todo o maldito dinheiro naquilo. Mas haveria mulheres e bebida - e naquele tempo eu estava empolgado em tentar beber. - E música. Muita músia. - E naquele tempo, isso importava. E como.


-Mas que merda!

Eu ouvi, quando estava na calçada do tal lugar. Olhei para trás, demorando para reconhecer a voz.

-Diabos de menina para falar palavrão... - Eu murmurei para mim mesmo, só. Ai de mim querer que ela viesse com aquela boca suja para meu lado. - Bom, e falando nisso...

Era, de novo, a única parte que estava dando pra ver do rosto. Tinha tropeçado na calçada e parecia que o salto tinha quebrado/ emperrado/ sei lá, essas coisas que salto de mulher faz. Daí ela estava abaixada, o cabelo loiro - Sim, era loiro - caindo sobre a cara enquanto ela olhava para baixo  e só dava para ver aquela boca totalmente apelativa murmurando um monte de merda. Que beleza!

Eu entrei, mesmo que com uma certa curiosidade. Ela era bonita, sim, dava para ver agora. Mas eu não sou idiota. Dá para reconhecer uma mulher problemática de longe.

O clube estava cheio e tal e eu até dei um bom crédito ao meu amigo. Era um ambiente maneiro, luz baixa azulada, um mini palco com banda, onde alguém ia cantar. Enquanto isso uns caras entoavam uns saxofones acompanhando uma música que saía de um gramofone bem legal. Muito mesmo.

Eu pedi duas doses de qualquer coisa para uma mesinha e fui cumprimentar meu amigo. Um sujeito bem legal.
Estava emocionado por eu ter ido. Surpreso até, diria. Meio que ficou com o olho arregalado quando eu bati em seu ombro.

-Cara, eu tinha certeza absoluta que você não vinha! - Ele disse com um jeito totalmente sincero que eu achava bem legal.

"Diabos." - Eu pensei, "Eu devo ser o maior otário mesmo." 

Mas tudo bem, já tava indo sentar, quando escuto  -

Não é que era a tal menina quem tinha começado a cantar?

A voz dela, como eu tinha observado antes, era muito feminina mesmo. Era super afinada, e olha que eu entendo mesmo dessas coisas. Ela tinha um jeito de se mexer discretamente sensual, enquanto cantava. Encolhia os ombros e ficava meio que se inclinando, sabe? Ah, não sei mesmo explicar, mas era bem sexy. Todo mundo começou a dizer uns comentários idiotas, falar que ela era sem graça só porque não estava abrindo as pernas e tirando a roupa enquanto cantava. Esse pessoal tem um conceito de sensualidade bem ferrado.

A questão mesmo é que por algum motivo, a menina teve a maldita ideia de colocar o cabelo na frente da cara. Tinha uns fios escorrendo e eu imagino que até deveria dar para enxergar os olhos dela, mesmo com isso, mas eu sou míope como o diabo e só conseguia ver a boca mesmo.

Aquela maldita boca já estava se tornando um personagem.

Ela acabou de cantar e jogou o cabelo para trás. Eu tinha consciência de que ela estava jogando o cabelo para trás e dava para ver os olhos e tal. Mas e se eu te disser que simplesmente não olhei para os olhos dela?
Naquela hora eu estava meio que hipnotizado, de um jeito idiota. Acompanhei a maldita boca da menina enquanto ela descia do palco, pegava o casaquinho e pedia uma lata de soda para levar.

Continuei olhando enquanto meu amigo agradecia a ela e tal e ela já estava chegando na porta do clube quando eu, num só impulso, levantei e a virei para minha frente assim, segurando pelo ombro e pronto.

A droga do cheiro de tutti frutti me atingiu como um gancho de direita enquanto eu beijei essa garota. Por algum motivo, ela me correspondeu. Ela tinha um beijo assim, não sei como explicar, sabe? Ela não era só beijada, ela me beijava também. Isso era tão incomum, era tão... Isso me deixou em fogo, na hora.

Daí eu a afastei. Assim, ainda com a mão segurando o ombro dela e daí vi:

Ela tinha dois olhos gigantes meio curiosos. Surpresos, infantis, quase ingênuos. Dois olhos que - perdão o clichê, mas eram azuis.

A menina tinha uma boca de mulher, uns olhos de criança e falava palavrão como o diabo. Eu ri.

Ela estreitou os olhos, desconfiada:
-Que foi, quer dizer que eu não beijo bem?

-O quê? - Minha voz falhou, confesso. Mas é que veja bem, por essa eu não esperava. Um total estranho a beija do nada e sorri, e o que ela quer saber é se é porque ela não beija bem? Ela era maluca, para completar a lista.

-O que foi, você quer que eu lhe mostre que... - E já estava se aproximando de novo, com uma expressão, assim, obstinada. Tão absurda. Eu estava tão absorto. Segurei os ombros dela.

-Ei, ei. Calma, espera. - Minha voz estava saindo sorrindo, não conseguia evitar. -Vamos tomar algo, tá certo?

Ela estreitou de novo aqueles olhos grandões, e murmurou alguma coisa em concordância, como um bichinho. Eu sorri e continuei sorrindo enquanto íamos de lá para uma lanchonete próxima. Estava sorrindo como um babaca e parecia que todo o ar ao meu redor cheirava ao tal tutti frutti. Parecia que todo o ar tinha de repente ficado diferente. Tudo.

Sentamos nos banquinhos da lanchonete e ela escolheu alguma coisa doce para comer. Eu sorri, olhando para frente, não para ela:
-Engraçado, eu nunca tinha conhecido uma pessoa maluca de verdade.

Ela me deu um tapa no ombro que quase me fez cair da cadeira.



(...)Continua.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

E eu lá vou saber.

Você quer que eu fale de mim. Você quer? É isso que todo querem: Eu não sei porque, mas todos querem saber do outro ao mesmo tempo que não se importam com o outro.
Mas você quer que eu fale de mim? Pior, quer que eu entre em mim?
Quer entrar em mim?
Vamos lá.
Em mim.
Você quer minhas tripas, meu coração? Que eu as arranque. Está exigindo, certo.
Está exigindo mil coisas. Tudo bem, eu entrego. Você vai fazer melhor uso delas mesmo. "Quem sou eu". Está mesmo me perguntando isso? Como diabos eu vou responder uma pergunta idiota dessas? Eu já mudei tantas vezes que nem sei como ainda tenho o mesmo nome. Ou porque eu tenho nome. Por que temos nomes? Você consegue viver dia após dia sem questionar-se nada disso?
Não devíamos ter nomes. Ou no mínimo, ter vários nomes. Devia ser aprovada uma lei que nos permitisse ter vários nomes. Espera um pouco, uma lei?
Não devíamos ter leis.

E não, eu não sei quem eu sou. Nem se sou só uma. Nem se sou o que vejo. Principalmente, se sou o que sinto. Por isso, digo logo, eu não respondo por mim. Quer uma primeira pessoa singular? Então vá pra lá, aqui você não vai encontrar isso. Eu não sei. Eu nunca soube. Todos os dias não parecem "tododia". O tempo todo é diferente.

Mas mesmo assim, você continua querendo que eu responda por mim. Promessas? De quem? Da "eu" de agora? Da do passado? Da de mais tarde? Fidelidade? A você? A mim? A meus princípios? E existe isto?
Constância? Em relação a quê? Pra quê? Pra se sentir mais seguro? Todos vocês precisam se sentir mais seguros. Todos vocês estão errados. Estamos. Estou.

Você quer entrar nas almas? Quer total acesso, quer que eu abra minha alma? Pra quê, pra tirar satisfação comigo depois? Para exigir? Por amor? O amor não existe. Eu entendi, finalmente. E não, não é amargura. Eu, que tantas vezes senti bastante. E por todas estas, aprendi que é impossível esse conceito. Que somos incompletos demais para isso. E que sequer é uma boa idéia. Existem sentimentos, sim. Intensos. Motivações, também. Sinceras. Mas essa conversa de amor não existe. A gente acha que sente. EU acho que sinto. Mas o que existe são seres humanos e eles são tão tão - É complicado.

Mas e daí, sem tudo isso, você vai ter o quê ein? Fica difícil. Porque afinal, o que você quer? O que quer com minha alma, com o que é dos outros? Quer viver, se sentir vivo? Quer morrer, é isso que você quer? Porque ultimamente anda parecendo que o que todo mundo quer é morrer. Ou então que já estão mortos.

Você mata, você também comete suicídio. Você morre, você também comete homicídio.
Ah, se entendêssemos isso!

O tempo todo, parece que estou falando numa linguagem diferente das pessoas. Por que (quase) ninguém mais está absorto? Por que é tão difícil? Se todos percebêssemos como tudo está absurdo, estaríamos todos chorando. Não, estaríamos todos nos beijando e abraçando. Ou não, sei lá.
Não, eu não quero abrir minha alma para você. Porque você não sabe o que fazer com ela.
Porque você a quer pelos motivos errados.

domingo, 10 de outubro de 2010

Confissão

"E eu nunca vou pertencer a um só desejo humano.
Nem nunca encontrarei a plenitude completa em um abraço.
Veja só, a minha alma não é refém de um só plano
Ela pertence a algo muito além do que o acaso.

Eu me encontro mesmo é no asfalto da madrugada.
No vento, na rua, e no que já não está mais lá.
Eu me encontro é numa prece perdida,
Numa história vendida, e quem sabe, até no mar.

Não tem como te oferecer um coração íntegro,
Se ele já nasceu faltando tantos pedaços.
Meu sentimento é repartido pelo omisso,
Transfigurado pela humanidade e seus rasgos.

Meu sentimento é maior que esse mundo,
É maior que tuas preces.
Milhares de vezes nasce, vive e padece
Entre a boca da noite e o sol raiar.

Minha substância faz parte dos astros,
É companheira da lua.
Ela encanta, em prata nua,
Só para depois para longe bailar.

Eu prefiro viver assim, derramando esta alma,
Esta criança malcriada, que teima em se aquietar.
Portanto se um pedaço tão grande te ofereço,
Sem condição, validade ou preço,
Tente somente aceitar."

O rapaz do sorriso de quem leva um tapa.

Um olhar tão angélico!
Jeito travesso: demônio clérigo.
Vaidade que se estende! - Ele gosta de ser olhado, - e quem não gosta?
E as atenções rapidamente o cobrem; quando engata sua prosa!
Mas no escuro e na angústia, colho todo seu pavor.
Você é o anjo caído, garoto. Você é o antídoto do amor.

A beleza violenta na brutal sensibilidade,
o garoto que se prende no virtual da realidade.
Tenta fazer suas palavras sinceras e suas idéias virtuosas!
Mas a oração não mente; Sua substância é pavorosa.
Não me leve a mal não, não te quero nenhum bem.
Tampouco sou sádica, sou prática; Nunca fui de ficar sem.
Prefiro pensar que o que eles vêem não passa de açúcar amargo.
Então se divirta e então, quando o vazio lhe retomar,
Venha comigo, amigo. E não me dê nenhum sorriso.
Não sei se já percebeu, mas gosto mesmo é dos banidos.

sábado, 9 de outubro de 2010

O famoso "Céu de algodão";

Céu de algodão: O coração lá emcima,
O mundo inteiro no chão.
Dois palmos, mas um bocado. Um sorriso quase
cantado, um prender de respiração.
O tempo parou em um só momento,
Fechei minha mão e fechei nela o vento.
Sua expressão se apressou, seu olhar urgiu lento,
sem motivo e sem contento, pôde quase sorrir
O céu veio mais abaixo, os pássaros congelados
Minha cabeça virou de lado, e pisquei o olho mágico:
-Não se preocupe, eu também vi.

Vômitos III

Eu preciso dormir, esquecer. Que estou anestesiada, que deveria doer não dói agora mas doerá em breve. Que as coisas se perdem acabam terminam e corações quebram e poderíamos ter sido felizes e talvez você me odeie deteste mas muito provavelmente e como pior hipótese você me nada. Nada sente falta nada quer nada espera, está cansado assim como eu pareço e dou a entender que estou muito embora às vezes sinta que há espaço em mim para mais bem umas 3 vidas com você e seríamos seríamos seríamos. Sería. Se. Nada.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

As várias faces de um romance

Falta de sono, falta de vigília. Frio na barriga ou repugnância.
Olha, agora me sinto como uma criança: É impossível não ousar com você.
Beijos no escuro e tiro no escuro. Tiro certeiro e o gosto do beijo.
Numa noite me invades, na outra te expulso. Te bebo e vomito - em doses salgadas.
Discussões, discussões. O que você espera? Ternura e cautela?
Nunca disse que era fácil ou que era maduro.
Nunca pintei meu retrato colorido em sua tela.
Se numa hora foi intenso - Se chamou-se amor; E guiou-se por instintos, desafiou meus limites;
Você soube ceifar-lhe a substância e o calor; Enegreceu-lhe a tez, desfigurou-lhe a cor.
Espera, eu estou com saudades. - Ah, não, foi só o vento da minha cidade.
Foi só nossa cidade que nos deixou com cor de pintura.
Foi a liberdade que nos mostrou sexo como ternura.
Foi só uma dose estúpida de irrealidade que nos transfigurou a dura e dura - realidade.
Esquece, foi só delírio de uma violeta murcha.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Da série 'Receitas supreendentemente simples',

Apresentando hoje: "Como perder uma pessoa que se importa com você"


Tempo de preparo: Semanas, meses ou até anos.


Ingredientes: Descaso, desinteresse, criticidade, impaciência.


Misture tudo e coloque numa tigela. Bem gelada, de preferência:


Passo 1:
Comece, aos poucos, a tentar estabelecer menos contato com a pessoa. Nada de iniciar conversas ou perguntar coisas casuais.
Passo 2: Fale mecanicamente. Aja como se comunicar-se com aquela pessoa fosse uma atitude de praxe e não movida por seu interesse.
Passo 3: Critique ao extremo. Demonstre impaciência e irritação até nas mínimas atitudes daquela pessoa. Aja como se não visse nada de importante em nada que ela faz.
Passo 4: Mostre desinteresse. Não tenha paciência para escutar, ficar perto, passar o tempo.
Passo 5: Tenha outras prioridades. Desmarque planos no último momento. Aja como se qualquer coisa fosse mais importante.
Passo 6: Caso essa pessoa tente conversar a respeito, desconverse. Demonstre mais desinteresse ainda como se aquele assunto fosse chato, irritante ou até absurdo. Deixe-a falando sozinha.



Pronto. Repita os passos continuamente e adicionando mais frequencia com o passar do tempo. No começo, talvez, a pessoa manifeste raiva, irritação. Daí ela pode tentar demonstrar um descaso igual - mas essa etapa é curta. Por conseguinte, poder-se-á perceber uma visível tristeza na pessoa em questão. E daí, enfim, num tempo que talvez demore, mas com certeza chegará...
Puff. Ela não vai mais se importar.

sábado, 2 de outubro de 2010

Eu tive um sonho ruim. Me abraça?



(Toda essa fragilidade alheia (e própria) quebra meu coração. Quebra mesmo, baby.)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"It's a shame we have to dissapear."

-Bom, eu estou aqui. Como você queria, não é?
-É muito tarde.
-Como pode ser muito tarde se eu me disponho a estar aqui exatamente
como você queria?
-Não era isso que eu queria. Desde o começo você não entendeu o que eu queria.
E é muito tarde de qualquer maneira.

Nó.

- Falar? Falar o quê meu caro, falar o quê? Pior que as brigas as ofensas as dores e mágoas que vem delas ou até que os juramentos falsos aqueles que enchem de esperança e depois se partem derretem ou morrem de morte natural é não ter nada, é estar aqui a sua frente a frente de seu rosto de seus olhos de sua superfície rasa e funda de ser humano e de toda a nossa história repousando sobre esse rosto perfeito e não ter nada absolutamente nada para falar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

1, 2, 3.

Os sonhos que tenho hoje
Facilmente se confundem com pesadelos
Tenho atos de coragem
cuja pulsão não passa de medo


Você acredita de tal modo,
Que acho até engraçado,
Que toda palavra que digo
Tem algum significado


A trilha, em que caindo, achas bonita
As palavras que a ti admiram, tão arrumadas
Não passam de sutil armadilha da minha
Infalível cilada de palavras

Disfarce

Ei, garoto. Você tinha razão o tempo todo.
Possui vento e bater de asas a poesia
Dotando de ardente pulsação um papel morto.
Mas veja bem, minha rima é fajuta e tardia

Tarda em alcançar a essência de um todo
Em ilustrar a tempestade de um coração moço
Em toda sua revolta, ardor e magia.

Veja que te disse, a poesia torna tudo aceitável
Enquanto brincamos de rei e ladrão ao subjulgar corações
O léxico lírico repintará nossos maus atos
Em cores e notas de eruditas composições.

Por isso repito, minha amante é a arte
Em sua cama é que deita em ápice minha paixão
E servindo meus semelhantes como tinta e flanela,
A existência é minha tela. E o pincel, a minha mão.

Stand By

Menina do olhar cor de petróleo
Tão senhora dos outros quanto perdedora de si
À tua volta os olhares a ti admiração evocam
Em teu cerne se despem os sorrisos em cristais a ruir

O que falta à tua corte que tanto apodrece teu reino?
Que faz a teus olhos os moços serem só bonecos
Se com um ungir de dedo escolheria teu eleito
Se com um tingir em tela, ergueria teu castelo

Mas enquanto tua beleza tanto encanta como ilude
À noite em teu refúgio, tua máscara se desfaz
E dentro do peito a criatura anônima arranha e ruge
No espelho se confunde entre arcanjo e satanás

Mas não demora, não demora, fecha os olhos e dorme
É noitinha, não chora, já já ela vai embora
Pois em algum canto de encanto, o relógio disforme
Do porvir a te salvar, bate a hora, bate a hora.

(?)

"Me diz que esquina é essa
Em que as coisas se partem, se quebram, se separam em duas vias.
E o que eu faria, diria, beijaria...
Tão mais fácil transformar nossa tragédia em poesia.
Me diz que lei é essa
Que age contra os desejos dos animais
E que sádico definiu
Que se tem de acordar de sonhos
E lidar com problemas reais?"


"Deite no meu ombro,
Chore na minha cama
Quero você é pelo drama
Drama, drama, drama."

"Vamos rir dos joguetes do destino
E poetizar sobre nossa separação
Vamos esquecer que ao partir você levou
Metade de minha alma e todo o meu coração."


"Vamos, converse comigo. Hoje eu preciso de abrigo.
Fale que me ama, mesmo que seja só pela cama.
Jogue-me um texto bonito, mesmo que não tenha sentido.
Finja-se de amigo que eu me finjo de cigana."

Vômitos II

Eu sempre fui mais feliz de olhos fechados e coração aberto. Mãos abertas braços abertos alma aberta exposta quase despida assim mesmo na carne viva quase sendo manchada a cada contato a cada tentativa quase sendo corrompida e muito embora não isso sempre sendo lesionada. Mas os olhos fechados assim mentirosos minto pra mim minto pra eles finjo que não temo. Temo.
É o último suspiro de prazer ou quem sabe de cansaço extremo.
É o último apocalypse right now, what you gonna do about that, baby?
Minha cabeça lateja a 220km/h e num só tique taque.
As cabeças estão todas latejando, o que você pretende fazer com elas, Joe?
Hoje eu vou usar meu melhor batom e pegar minha melhor arma.
Hoje eu vou seguir no melhor tom, vou vestir a melhor alma.
E o apocalipse já chegou faz tempo, querida. Esqueceu que o inferno está vazio?
No relógio já passou a hora de partida, estamos no fucking milênio 2000.
As cabeças estão todas explodindo - Acho que você ainda não entendeu o que isso quer dizer.
Não quero mais nenhuma pista, poema ou sorriso. Vou queimar suas cartas e rasgar seu buquê.
Estamos um pouco sem salvação aqui, baby. Já não me importo com o que vão pensar.
Mas faça-me o favor, livre-me dos clichês!
Engula suas boas intenções e mande-se pro lado de lá.

[ I ]

Pensava - infantilmente - que a normalidade era um gênero de mortalidade.
Pensava - infantilmente - o conceito de normalidade. E também o de mortalidade.
Pensava - infantilmente.

Ficções I

-Eu ri.
-Foi engraçado.
-Não, não foi. Era importante para você no momento.
-Relaxa, não foi nada demais.
-Eu fui rude.
-Tudo bem.
-...
-...
-Então parece que está na hora de nos despedirmos, não é?
-Parece.
-Você me amava?
-Bastante até, viu.
-Eu queria que você me amasse ainda.
-Eu sei. Eu também queria, muito mesmo.
-Adeus.
-Au revouir, menina dos olhos de vidro.

[II]

Eventualmente as coisas morrem. Morrem e voltam, morrem e voltam. Eventualmente as coisas sentimentos pessoas eventualmente os medos e até as angústias gritantes aquelas que nos impedem o sono e o sorriso e até os próprios sono e sorriso eventualmente todos eles descansam exaustos.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Esse definitivamente não foi feito para ser bonito ou bem escrito ou bem rimado ou sequer lido (masfazeroquê.) - Hoje.

Não me leve a mal, não me leve a bem.
Eu queria conversar com você em pura substância. Veja bem, eu tenho andado confundido direto as pessoas com você.
Só nos últimos dias tempos vidas é que venho percebendo "Está errado, você é eu mesma, que clichê.".
Eu queria uma conversa clara sobre todas as coisas obscuras a nós
Acho que eventualmente, as pessoas de olhos abertos chegam a um ponto, sabe
Em que seus olhos ficam diferentes porque começam a perceber não que a vida é diferente, mas sim que ela "é".
Começam a percebem que a vida é bem ferrada e bem maior, e bem detalhes e bem lugares e que as pessoas são bem detalhes e bem lugares.
E os relacionamentos são bem mais uma pessoa se relacionando consigo mesma através de outra do que uma coisa recíproca.
E olha, meu amigo, que loucura: A galera toda chorando toda gritando por atenção e amor com o corpo com as armas com maldade com o sexo. E ao mesmo tempo a galera toda chutando e rasgando e cuspindo e pisando no coração e rosto e lágrima e fragilidade do próximo.
E daí fulano olha para mim, assim, para mim, essa que já perdeu toda a energia e já morreu várias vezes, e que quase toda semana morre e que escreve quase sem força nos dedos esse texto inútil - fulano (ele, ela, você, qualquer um) olha pra mim e diz:
-Eita menina. Tu que tem casa comida estudo familia amigos amor cérebro os cambal tá aí reclamando de quê?
De quê...(insere aqui ou risos ou um palavrão ou um grito de agonia, mas pensando bem somente aquele silêncio de antecipação.)
-Ah, esquece.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sobre estrelas. (Ou "Estas alegrias violentas têm fins violentos.")

'O verdadeiro romance
Nasce do acaso
Se modela por impulsos
Se define nos excessos
Se macula pelo tempo
E se finda
Numa grande explosão
Tal como a paixão
Que o um dia o gerou.'




(Bom, hoje eu quero dar um alô todo especial a você, única leitora do blog:
OI, RUANNA! :D )

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Tatuagem

Quem que vai dizer
Que não é imortal,
Posto que eu vi nascer
Mesmo sem ser real.
E se até eu, descrente que sou
Joguei os dados e apostei
Quem é que vai ousar dizer
Que o nosso amor não é a lei?

Vamos fazer assim, que tal. (Ou À toa)

Eu vou parar de fingir que estou bem.
E você vai parar de fingir que ainda não está.
Eu vou parar de tentar enxergar coisas além
Do educado esmero que você me dá.

Nós vamos parar de chamar
Mera fricção de corpos de emoção
E eu vou parar de falar
Tudo o que sinto, e simplesmente pôr em canção.

Você vai parar de omitir seus outros amores
E me dar respostas pela metade
Eu vou parar de me permitir horrores
Só para fazer a sua vontade

Eu vou parar de ignorar
As maravilhas que tinha antes de você vir
E você vai parar de fraquejar
Me chamando sempre que eu decidir partir.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ela

"E ela, que não podia caber em si mesma, quanto mais nos outros?
Uns dizem que ela enlouqueceu, outros que ela caiu em ruína pelo tudo que fez, mas se você quer saber minha opinião, eu acho que ela estava cansada. É isso mesmo, eu acho que ela estava somente cansada."

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sobre a boêmía

E agora...
Cadê a sua música erudita e sua prosa tão bonita?
Um livre boêmio de coração ferido.
Madrugadas enrolados em lençóis
O amanhecer sendo nosso único inimigo.
Você passaria a noite acordado falando daquele ou do outro quadro.
E quando ficasse claro me tiraria do quarto, e só de lençol, correríamos.
E todos os que o amassem seriam seus escravos,
E os que o criticassem seriam só bastardos.
E eu seria sua deusa por todo o noite e dia.
Mas quando eu reclamasse de algo, de lado me poria.
Falava que sexo era o suprasumo do amor em poesia pura
Ressucitava autores ausentes, se derramava em verborragia.
Atinava ordens a seus admiradores,
Eterna criança megalomaníaca
E em momentos em que só te restasse o pranto
Era a meu ombro que recorria
Mas e agora, meu caro personagem ensaiado?
Onde está sua música erudita?
Sua imagem tão aclamada
Foi forjada e foi vendida
Não enxergo mais a beleza selvagem
Do menino que pintaria o céu em poesia
Vendeu-se ao mundo, ficando imundo.
Fracionadamente, secou seu mel
Na vaidade que o consumia.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Amores imperfeitos e etc.

Dói quase sem doer, dói como dor de fome:
doendo pelo que não está lá.
Quem dera tivéssemos tido uma grande briga,
quem dera fosse nossa intriga
Que estivesse a me machucar.

Dói em conformação. Dói só pelo lembrar
Posto que veio livre e partiu em canção
De duas mãos juntas, de um só suspirar.

Veio e foi, meu amor. Nosso amor se dispersou.
Para onde ele foi, eu não sei.
Talvez o reencontremos outra vez
Posto que tudo se transforma,
talvez ele tenha ido encantar alguém
Mas em nós ele morreu; Boa sorte, adeus, amém.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Para um sonhado

Algo mais forte que a vontade
E menos tátil que o sangue
Sussurra em meu ouvido sobre vidas entrelaçadas
Se o que procuro é infinito,
E o que tu procuras é inalcançável
Dividimos o mesmo corte profundo
De desejar alçar vôo impensável
E se é num submundo deserto
Que esperam nossos corações
Por tesouros impossíveis
Só encontrados em canções
Uma união tão substancial
Entre o sangue e a vontade
É o que une o laço invisível
E mesmo presente provoca saudade.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Projeto

1


Todas essas pessoas buscando essas coisas invisíveis
Todas essas mãos e olhos, aos poucos ficando insensíveis
Todas essas decisões guiadas por medos invencíveis
Ou é um erro ou é um acerto, não é uma equação de dois termos
Não adianta nem procurar, se você não sabe o que quer achar
Abrace sua causa, mesmo que seja fraca.
Ignore o repúdio e internalize o que amar.
Tão mais fácil se o perigo por si só se anunciasse,
Mas são os disfarces dele que vão te convencer
Você mesmo pode construir o abrigo na estrada
Você mesmo pode prevenir seu coração das navalhas
Você mesmo pode ensinar a lição que precisa aprender
Mas apesar de tudo, que já fraco, sai da minha boca
E eu, que precisei chegar lá para saber?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sobre a rejeição - 2010

Eu quero me livrar de tudo que possa vir a me machucar
Que frase idiota, que atitude medrosa
Mas é verdade, quero me tornar indiferente a todos que a mim o são.
Quero fugir para um recipiente onde só predomine a afeição.
Minha frieza é tão transparente, e tão frágil a friezas alheias
A solidão me é tão inerente, que já tornou-se minha companheira.
Escrever está se tornando tão fácil porque só isso me protege do aço
Irrefutavelmente cruel, que é o desafeto alheio e o descaso.
Ainda me deixo ser ferida por pequenas palavras agressivas
Ainda me deixo fraquejar ante a indiferença de um olhar
Queria ser indiferente, ser alheia a toda essa gente
Não ter do que depender, fora a ternura do meu próprio saber.
Não sentir a rejeição; Se expandir do tamanho de uma nação.
Quero ser firme e forte. Quero sustentar esse porte
Em que tantos que me desferem golpes
Insistem em acreditar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Quotes que construíram.

'-É claro que está acontecendo dentro de sua cabeça,
mas por que diabos isso deveria significar que não é real?' - HP.


'A única pessoa a quem você deve satisfações é você mesmo.
Uma vez que você perceber isso, estará livre.' - Othelo.


'Todas as coisas terríveis que fazemos parecem de algum
modo fazer sentido em nossa cabeça. Eu nunca conheci alguém
que se achasse mau.' - O talentoso Ripley.


'Feche um mundo. ABRA O PRÓXIMO!'

Sobre uma garota, começo de 2009

Esse é um texto sobre uma garota, outra garota...e estou começando a achá-las muito complicadas.
Medo, rejeição e carência...Nada fora do comum, mas está me irritando.
Justificativas para seus atos. Falhos, tactos. E isso tudo já está me cansando.
Mas eu queria, eu queria...como dizer? Que você fosse qualquer coisa de especial.
Mas você só fica me provando, tentando, a te aceitar como habitual.
Mas você não me faria, ou diria...qualquer coisa para me provar...
Me dê algo diferente! De toda essa nauseante gente,
Qualquer luz no teu olhar!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sobre o pseudo-hedonismo - 2010

Nada me encanta mais
Do que a incerteza que o acaso me traz
Nada poderia suprir
O prazer de não saber o que vir
Meu coração é selvagem e concorda com minha mente
Meu amor é pelo desastre, minha liberdade é diferente.
Nunca precisei de alguém
Mais do que precisei de chocolate
Nunca fiz de ninguém
Razão da minha tranquilidade
Possuo quem eu amo em segredo
Não preciso revelar os meus medos
Doso minha dose com base no que almejo
Canso quando recebem demais,
Quando começa o irritante apelo.

Ainda há de nascer
Aquele que me fará hesitar
Minha inescrupulosidade me dá
Um motivo para continuar
Talvez esse seja o significado
Do verdadeiro Hedonismo
Nada tenho que não queira, Nada do que quero eu preciso

Baladinha de fim de março - 2009

O celular sem bateria ao lado, e você aqui.
E desculpe se eu não sou tão poética ou filosófica,
mas hoje o céu está bem azul, e as nuvens bem claras,
e eu decidi que isso merecia um texto. Você, quero dizer.

Você faz bico e levanta a sobrancelha,
como uma criança presunçosa, exigindo atenção
e eu podia ignorar, e deixar isso passar,
mas eu também decidi que aqui,
onde podemos ver o céu através das nuvens,
é um bom lugar.

você trouxe uma música e falou de um poema
"o poeta fingidor", você citou, e eu vi seus olhos espelhados,
a procurar, em pesquisa muda, reações para suas atos
e aí eu pensei que sim, eu poderia até te ignorar,
mas sem chance de deixar isso passar.

e então eu me vi em frente ao espelho,
e a voz veio baixinha, recriminadora,
"quando você ficou tão vulnerável, sua perdedora?"
não admira que você se surpreendeu, ao saber que era o vermelho...
esquece, eu queria mesmo era uma liga de cabelo.

mas então eu percebi que mesmo que eu deixasse ou perdesse
a criança presunçosa já deixou em tudo sua marca
para que de jeito nenhum eu a esquecesse
no céu, nas árvores
na insônia, no olhar
na cadeira, sua imagem...
apaixonante ao apaixonar.

Sobre uma noite de chuva mucho louca. - 2010

Nós temos o hábito de associar o céu, a lua, as nuvens, o sol, e etc, a nossos inferninhos particulares. Esta noite foi só mais uma noite de associação enquanto a chuva socava o tecido da minha janela e minhas mãos se fechavam sobre a areia de seu vidro.

Os anos me fizeram fria. Os anos me fizeram quente. Todo dia eu me repito que ter bondade é ter coragem, mas todo dia eu firo loucamente. Todo dia meu silêncio é selvagem.

Eu queria um sorriso sem cinismo. Eu queria um abraço que não me escorresse ácido. Eu queria nuvens que não forçassem densidade. Eu queria um sol que não derretesse minha sensibilidade. Eu queria paz, amor e empatia. Eu queria uma colherada grátis de pura alegria. Mas mesmo que essas sejam as minhas palavras, meu corpo me trai em angústia, minha mente em selvageria, meu coração me afoga todo santo dia.

Sobre os poetas e o vazio - 2009

Eu jamais serei amável, jamais serei verdadeira.
Eu jamais serei confiável e boa, jamais serei entregue.
Porque é dentro de mim que está tudo que eu preciso,
No entanto, nada disso nunca esteve, ou está agora, comigo.
Todas as minhas lembranças vem de um lugar mais ou menos distante

Cansei dos falsos poetas, e dos verdadeiros também.
Que mal tem os malandros, os malditos?
Cansei dos idealistas, cansei dos ativistas
Cansei da corja hipócrita e também da com boa intenções

Vocês vem procurar dentro de mim, subsídio para minhas palavras
uma proposta melhor..anterior? desculpe, nada disso possuo
o que tenho é um buraco negro, cético, conformado, real
que vai tragar todas suas boêmias ilusões,
patetas da nova geração.

Eu entrei em mim, e lá só encontrei coisas ruins.
eu procuro uma síntese final...para essa dialética inútil.
está tudo perdido, por que ninguém mais entende isso?

Sobre algum momento emo, começo de 2009.

Mas eu não sei de nada. E o pouco do que eu não sabia já se perdeu.
E nada existe, meu caro. Acostume-se a essa eterna terra de ninguém, acostume-se ao
infinito breu.

(Ela não podia engolir aquela pavorosa noite que era mais pesada que ela, que
era mais pesada que tudo.
Ela não podia engolir mais daquele líquido escuro, ela não podia se drogar com a
ilusão deprimente que o espelho lhe mostrava, por Deus, ela não podia mais sequer
se chamar de gente!!)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sobre a menina. - 2008

Esse último embate foi mais do que esperado.
Estavam todos torcendo, falando bobagens
Deus, vocês não eram tão, mas tão ligados?
Risos, foi ela que entendeu errado .

Ah, esses lábios juvenis
Despejam lágrimas, forçam beijos
Mas não quando as luzes apagam
Ficamos sempre calados.

É como um choro raivoso
Que se abafa entre lençóis molhados
E que se confunde com uma ou outra
Cicatriz deixada de lado

Ninguém sabe o que causou isso, no final
"Que barbaridade fez a tal menina"
De qualquer jeito você não pode culpá-la
Ela estava só se sentindo sozinha

Ah, esses teus olhos juvenis
Tão incapazes de esconder a verdade!
Tempestades de ódio, chamas de paixão
E depois tudo é levado como num furacão.
Do que se pode culpar um jovem, afinal?