domingo, 30 de julho de 2017

Lost fucking case

Hello, i came back here.
I know, i'm a failer, a drunk and a junkie. I can't be helped.
I often daydream about some sort of serenity, that could perhaps be accomplished. By time, peace and maturity.
But i keep aiming to bite and destroy, secretly planning astoundly sick plans to undermine all foundations i so carefuly built. Almost as if i did it, just to destroy them later.
And i bark, i bark, and then i cuddle like a needy little kitten.
But could i do it everyday for the rest of my life?
Wouldn't i feel trapped and alone and scream my lungs out to be free?
I don't do it, but i'm capable of the most horryfing things. And i almost aim for a reason to do them, so i can express all the destruction and chaos that still silently reside inside of me.

sábado, 15 de abril de 2017

Alinhamento de épocas



Sara sentou-se na cadeira cinza de seu apartamento em tons de gelo. No meio de sua pequena cozinha, apreciou em bebericadas seu café.
Sara estava triste, porque tornara-se tudo que idealizara na adolescência e infância. As conclusões que suas vitórias lhe trouxeram eram previsíveis desde seus 15 anos, época em que inegavelmente era mais emocionalmente inteligente do que agora.

Todos os dias ela prendia os cabelos macios em um rabo de cavalo, e colocava seu terninho para trabalhar. Sentia-se segura e adulta, agindo com naturalidade do modo que fingira agir com naturalidade, até se acostumar.

Começou essa dinâmica sentindo-se uma criança vestida de adulta, prestando muita atenção em tudo, com medo que descobrissem sua farsa. Agora, como toda mentira repetida várias vezes, tornou-se realidade e estava integrada: Isso mesmo, a peça foi incorporada ao sistema com sucesso e nesse processo, os pontos de questionamento de sua mente foram sendo um a um sufocados.

O dia a dia era comum, simples e límpido, ela não precisava mais sentir-se uma alienígena. Percebia agora, com bastante tédio, que o sentimento de alienígena de fato é inerente a cada pessoinha pedante desse mundo, em dado momento da vida, ao sentir-se uma parte separada do todo.

Quão previsíveis eram as fases, refletia Sara, bebendo seu café, tal como preveu tantos anos atrás. Não achava que mudaria, que se tornaria uma adulta e veja só. A sensibilidade passa, a atenção passa, a magia passa. A tranquilidade vem.

Talvez daqui a alguns anos também consiga ser uma velhinha dentro dos moldes previstos e com alguma sorte, tenha aquela conformidade com as fases da vida.

Sara levantou-se, lavou sua xícara, vestiu seu terninho e saiu de casa. Não tinha sentido em continuar romantizando aquela cena, pois agora ela era real.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

2008 parte 2



Estavam todos tão empolgados.
Fazendo apostas, contando piadas.
Nossa, mas eles estavam tão errados.
O que viria a seguir ninguém podia ter imaginado.

Rolar os dados de olhos fechados já é esperado,
Quando se tem menos de duas décadas de memórias
É muito entorpecedor errar o passo
Mas ela não sabia que no final de todas as consequências
já teria passado bem mais que só maus bocados.

Não havia como saber, em dias de bem-te-vi
Que o que então se plantava, se comeria à força, bem longe dali
Não imaginava o gosto amargo da piada estragada na boca
E sinceramente, muito menos eu previ.

Agora o que resta é o que fazer com os cacos
"Que barbaridade fez a tal menina",
Eu até apostei algum drama em poesia
Sem saber quão certeira e sanguinolenta
Seria minha pontaria.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Repetições de um mesmo sonho

Ele trançava seus cabelos, com silenciosa atenção.
Estavam tão jovens, mesmo que já o fossem há tantos anos.
A música ambiente era nostálgica, mas não dolorosa.
Certo, talvez só um pouco.
Pela janela olhavam o fim do mundo. Poderia ser um céu de nuvens baixas, pesadas e chuvosas às quatro da tarde. Poderia ser uma noite de estrela cadente. Só eles sabiam.
Ela sorria e chorava, ao mesmo tempo, silenciosamente.
Enquanto as mãos pálidas dele trançavam seus cabelos.
Mãos pálidas de veias altas...
Meu Deus!
O ar dentro dela faltou um pouco, mas ele segurou seu ombro a encorajando a continuar a respirar fundo.
Quão funda era aquela dor que não passava nunca.
Quão longos eram os anos, quando esquartejavam lembranças.
Ele estava sentado atrás dela, trançando seus cabelos e ela não podia vê-lo.
Apenas encarava a janela e satisfazia-se com a ilusão de sua presença.
Assim, intangível aos olhos, ele lhe tocava.
"Por favor, não pare", ela dizia com um sorriso triste.
Seus olhos eram o poço sem fundo dos amores que nunca morrerão ou se realizarão.
Assim, ela pedia, delicadamente, para que o sonho não terminasse.
"Por favor, fique mais um pouco" - E ele desfazia a trança e começava novamente.
Nesse ponto o vento soprou sinistro e febril como o fora em um longínquo dia de abril.
O sonho ameaçava ruir - Ela via pelas rachaduras nas paredes.
Como previu...
Nada daquilo,
Daquelas mãos pálidas...
Jamais existiu.

Epitáfio

Lá vem a brisa mais uma vez,
A mais inocente e inconsciente ventania,
Alienada de seu efeito.
E sopra nas cordas e linhas que entrelaçam os destinos dos tolos,
Modifica a geografia do todo.
E roda a roda mais uma vez.

Ah, o tédio.
Catalisador de todos os meus acidentes.
O tédio continua a me impulsionar a plantar minas em terrenos pacíficos.
A explodir ideias em ações impulsivas
Apenas para ver o estouro,
Que corrói a calmaria.

Estou esperando aqui sentada,
Levemente ansiosa, já não mais cansada.
A força ainda existe, a centelha de caos e raiva,
A fúria que nasceu em mim, que talhou minha mortalha.

Eu não quero ser doce, não quero ser pura.
Eu não quero ser calma, não quero ser sua.
Eu quero ser a loucura que não some, apenas se transmuta.
Às vezes ela adormece e se esconde
Mas nunca
Nunca muda.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma despedida ou apenas um dia ansioso

Ah, hoje.
Hoje, hoje, hoje.
Seria um bom dia para desaparecer, se despedir ou explodir.
Está tocando aquela música irritante de navalha na caixa toráxica.
Está soando um chamado, uma lembrança de muito antes de todas essas minhas corriqueiras danças.

Hoje eu ouvi uma música, eu andei na rua.
Estava caminhando pelo fim de tarde azul, pensando que seria um bom dia para morrer.

Os pássaros estavam parados, fazendo um prolongamento natural às árvores estáticas de mais um dia quente, sem vento. Familiarmente anômalo.

As pessoas pareciam um pouco mais irreais do que de costume, intangíveis. Andando a meu lado mas se eu as tocasse, talvez dissolvessem, talvez eu me dissolvesse, pensei com atenção.

Eu estava muito tranquila, com passos lentos, conformados.

Será, será, será.

Será que é hoje, eu pensei. Que o fio se quebra, será que é hoje o dia que esteve me observando, espreitando, sem muita discrição?

Eu não sei bem o que pensei. Quando isso começa, fica tudo borrado, desesperado, borbulhando, uma ânsia de vômito de algo...Mas o que?

Me parece bem claro que tem algo escondido e eu só saberei o que é ao dia fatídico. Mas uma coisa é certa: Eu sempre pensei isso.

"É normal não ter sonhos?"

Sempre me pareceu distante o futuro, a realidade. Todo dia, todo momento bom, já parece uma lembrança triste e as horas uma membrana muito fina escondendo algo que já estou quase perto de lembrar.

Estará na hora de voltar?


(Eu posso acabar esse texto agora.
Acabar com tudo em segundos.
Eu posso respirar fundo e me tornar outra pessoa.
Eu posso sorrir macabra e te convencer que é tudo um brincadeira.
Impulsividade
Pode ser, ao final, minha causa mortis verdadeira.)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Os homens gostam mesmo é das loucas.

Às vezes fica até fácil, até aceitável, às vezes fica até crível.
Às vezes consigo acreditar que ele sente todas essas coisas, principalmente quando me abraça com tanta força e me olha com aquela urgência sem salvação, de que está tentando realmente me convencer, incompreensível, sem saber porque é tão difícil para mim ser possível tudo isso acontecer.
E ele diz que me ama, que não pode viver sem mim, e tudo que consigo pensar, racionalmente, é: Como assim?
Nada do que ele faz desmente isso, sim, ele é tão coerente, mas como isso poderia se encaixar de maneira plácida em minha mente?
Eu, que não consigo estar presa em qualquer ponto fora do extremo entre querer injetar meu amor por seus poros ou então regurgitar suas entranhas.
Enquanto isso, ele me observa, paciente e resistente.
E eu não consigo entender, o olho bem, dentro do seu olho procuro o espião que a NASA deve estar enviando para tentar me conquistar e destruir porque descobriram finalmente que eu sou inapta a viver nesse mundo então eu devo ser no mínimo um alienígena bem feio vestindo o corpo de uma menina (ainda) de vinte e poucos anos encontrada no lago com feridas no pulsos e olhos rasgados.
Então, você me abraça e segura meu corpo e eu o sinto se dissolvendo sob meus ossos porque isso é só um corpo embora as sensações que me dá sejam muito divertidas, mas ao mesmo tempo eu poderia muito bem jogá-lo em frente a um carro - e nisso penso constantemente quando volto do trabalho ao meio dia, para desespero da minha mãe - e ele iria se esvaziar e eu iria sangrar um pouco talvez e em seguida pensar que vivi uma maravilhosa visita aqui nesse planeta azul de arvorezinhas devastadas.
Mas o que sei é que por enquanto ele existe, meu corpo. Assim como você, os alienígenas e as arvorezinhas devastadas da são francisco com florzinhas roxas cor de veneno perto do municipal e você, mas isso eu já disse não é mesmo?
E o que fica de você é sua incompreensível resistência em me querer, eu tão errada ao tentar constantemente destruir e conquistar você, necessariamente nessa ordem. E odiar todas as coisas sujas que se aproximam dessa sua boquinha linda, porque ela é minha, você é meu e veja só no que você se meteu.
Porque parando para pensar, bem, você é todinho seu, não é mesmo? pergunto com rancor, enquanto, mordo meus lábios, ofendida, porque você não quis dar cada pedacinho da sua existência a meus caprichos e isso é inadmissível e ainda por cima me faz te querer ainda mais.
E como pode uma pessoa tão saudável me amar, eu pergunto, desconfiada, porque você sorri e me beija "acredita que eu amo você", de maneira tão doce que me faz ter raiva, meu querido, o que diabos você está fazendo comigo, você que poderia estar por aí vivendo uma vida pacífica e tranquila, curtindo toda sua coerência de pessoa  bem resolvida (mais rancor), mas quando você me olha assim e sorri e olha que já faz mais de setecentos e trinta dias e desde o início eu já dava indícios de não ser exatamente pacífica, e quando você me olha assim e sorri, e me convence e me faz pensar que esse texto já mudou de ritmo três vezes e que eu queria estar te odiando solenemente ou então encolhidinha no seu abraço só me resta concluir, até mais ou menos coerente, mas não tanto quanto você que
Os homens gostam mesmo é das loucas.

domingo, 2 de outubro de 2016

Procedimento

Eu gosto de guardar debaixo da minha manga
Pelo menos três sentimentos
Que mantive guardados, pouco alimentados, monstos mal cuidados
Aptos a devorar.
Gosto de estocar lembranças,
Sempre as mais inflamantes possíveis
E falar delas com a banalidade de quem não as viveu.
Por que bem,
Neste jogo não tenho que rebuscar meu vocabulário, meu bem.
Uma a três obsessões por ano,
Uma lixeira de intenções e encantos,
Minha cabeça latejante e impaciente,
Sedente,
Do próximo grande rasgo de amor que vou fazer na minha mente.
(E depois, quem sabe, musicar dessa maneira pobre.)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Quão rarefeito é o ar de cima de toda esta pedância? Ora, e eu não sei?!

Ah, minha vaidade.
Não te arde como brasa?
E machuca sua garganta quando você engole essas palavras fáceis, estupidamente falseadas e tão superficiais quanto a futilidade que criticas?
A vaidade, sim, é uma delícia. Porque eu preciso me sentir especial. Assim como cada uma das pessoas que conheço.
O comum é ordinário, e por que isso haveria de ser pejorativo, minha criança?
Não é verdade que existe uma gentil tranquilidade em aceitar nossa pequenez?
É o gosto calmo da derrota, da falha em atingir o objetivo máximo e único que é ser pioneiro em TUDO,
E a gente ri disso e tece críticas afiladíssimas com conteúdo substantivo de literatura brasileira ou russa, mas no fundo a satisfação vem do salto: Eu já estive aí.
Ah, "CRIANÇA", eu já cresci.
E veja só, lá está você de novo.
Teia de tralhas,
Labirinto cansado,
Troféu de lixo
E uma doce sensação de vitória,
Que vai aos poucos te picar em pedacinhos.

Imagens na areia podem formar castelos indestrutíveis

Minha voz é fininha, minha respiração inaudível.
Eu gostaria de já ter aprendido todas as lições que hei de ter
Jogadas na cara
Como cartas marcadas,
Com gosto de navalhas.
Gostaria de já conter a sabedoria que preciso
Para apreciação.
Para saber viver.
Mas não tenho e sou duas:
De um lado anseio, sabendo que todo esse redemoinho se dissolverá em um tranquilo copo d'água.
Do outro desespero, esperneio com a mesma infantilidade com qual ansiava uma autoconfiança que tenho hoje e não me serve em nada.
O tanto que possuo é exatamente o que quis e meu Deus, meu Deus, cuidado com o que desejemos.
Para ficar no registro, para deixar claro, em registro de ata do karma:
Eu desejo paz em mim, eu desejo calma.
Eu me pergunto se é por isso que minhas veias pulsam e não é, eu sei, nunca foi,
Eu sempre precisei de dor e portanto a infligi em mim mesma, com a ingratidão dos que não dominam (sequer arranham) a arte da apreciação.
Mas eu desejo a calma, antes que a vida me imponha.
Eu ainda tenho a ausência de dor verdadeira,
Ainda carrego essa pureza.
Enquanto a carrego, peço e rezo com toda a fé que esnobei com arrogância, pela serenidade da qual conscientemente abdiquei.
Iludida por imagens
Arquétipos de mim mesma,
Quão perigosa é a mente de uma criança.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O tempo é feroz e come todas as coisas belas

Com meu sorriso pouco entediado, respondo suas perguntas.
Com a expressão de uma anciã cansada de ainda vinte e poucos anos.
Eu corri muito para estar aqui. Lutei muito para chegar aqui.
E isso me deu uma presunção pouco surpreendente, e aquela velha sensação do desgaste...
Verdade seja dita, respondo o que você quiser sobre mim, porque já não sou mais tão interessante.
Já não tenho fogo correndo nas veias, de raiva, de fúria, de vida.
Já não fecho os olhos e penso sonhos acordados, já não escuto barulhos na noite e na madrugada.
Na calada da noite agora é só um período. Canela se tornou meu chá preferido e a escrita, minha procrastinação.
Oh sim, veja que situação.
Eu, sempre na contramão, hoje sou vanguarda. Não mais quebrando e sim construindo muralhas.
Me desumanizando um pouco cada vez mais.
Nada de grama, céu ou animais.
Apenas meu velho sorriso polido,
Meu coração pouco surpreendido.

Mas às vezes...
Às vezes ainda se acende algo, ou sussurra no meio fio.
Às vezes ainda sinto fome, às vezes ainda sinto frio.
Sinto a vontade insana de explodir meu vazio.

Cada vez menos.
Menos e menos vezes.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Quão amáveis são as coisas que não conhecemos

Mas a verdade é que às vezes eu sinto frio por dentro,
Como se fosse só mais uma estranha perdida nessa madrugada sacana, sem casa, sem cama, sem nada.
Eu gostaria de uma coerência? Claro, claro, claro. Todo dia da semana.
Mas qual seria a graça disso?
Eu quero queimar todas as minha vontades em uma fogueira de tralhas e observar seu faiscar tranquilo.
Queria era dar o fora daqui.
Abandonar tudo o que eu preciso e assim suicidar minha fraqueza. Mas não é esse o desejo de todos os fracos?
A minha vontade de renascer é o que me mantém viva, mas ela é aliada a minha vontade de destruir.
Queria eu ser calma, queria eu ser boa, queria eu ser cândida.
Mas a quem estamos enganando?
Eu gosto mesmo é do caos que posso provocar com um leve movimento em falso. Com a movimentação das coisas, das engrenagens dos acontecimentos, corações e vontades.
Eu gosto da ideia de poder destruir tudo a qualquer segundo, da leve liberdade que isso me dá.
Mas essa é só uma de mim e ela não tem a autonomia total sobre o que eu faço.
Porque ao lado tem uma parte que chora quando se sente só e do lado alguém que apenas observa com tédio.
E não foi o tédio o catalisador de todas minhas mais estúpidas, criativas e destrutivas ideias?
Não foi o tédio que me trouxe aqui, que me deixou bizarra, sombria, cínica e sorridente?
Não foi o tédio que me fez sentir amor, dor ou rejeição?
Porque uma parte de mim é insensível ao toque,
E a outra explode todo dia.

sábado, 27 de agosto de 2016

Senhorita bomba atômica

Eles dizem "Olhe o dano que ele lhe causou",
Mas deveriam saber melhor,
Olhe para o rosto da garotinha
Explodindo numa gargalhada.

Ela correu pintando todas essas paredes de branco
Ela jogou fogo ao chão com seu senil coração
E você pensa em pegá-la, pensa em alcançá-la
Pensa em um passo a mais, em fogo, em prata e bala.

Você é gentil como um punhal, acolhedora mortalha.
Não tem marcas nas mãos, tem olhos de perspicácia.
Mas ela desvia e escorrega,
Ela é esguia e rápida.
A garotinha sorri,
Deliciosa batalha.

E quão amável foi deixar-te pensar
Que toda essa ação
Iria glorificar-te
E te levantar desse chão,
Com um presente tão doce
De indecente emoção
Um apelo tão óbvio:
Destruir coração.

E você gastou suas tintas,
Você abriu suas malas,
Você chutou sua porta,
Vandalizou sua casa
Mas quando olhou para trás,
Para o rastro que deixava,
Apenas uma listra negra
Bem na parede da sala.

sábado, 20 de agosto de 2016

O cansaço é apenas a sensação anterior ao total esquecimento.

É engraçado, é irônico, é um pouco bobo.
A idade é realmente bem superficial, com o passar dos anos.
Em círculos eu transitei, me iludindo por uma década com realizações com as quais sonho desde minha inocência.
Mas todas as coisas que eu toco dissolvem-se ao meu contato: Viram pó, viram partículas. Incorporam ao ar ao meu redor e enchem de novo meus pulmões, tão pequeninas como no fundo sempre foram.
Eu pensei que havia muito a conseguir, mas tudo que eu tinha que sentir já estava pulsando como uma artéria incandescente dentro de mim.
Mas eu, e como poderia ser diferente, não vi.
Eu não vi.
Eu sentei-me e esperei pelas coisas erradas: Criança preguiçosa como eu, sempre esperando afeto, futuro, revelações.
Eu, que era raivosa e vermelha e em meus dedos trazia fúria e com minhas unhas arranhava meu próprio coração.
Eu sempre estive bastante consciente da minha inaptidão em lidar com o tempo e com a doçura que me é oferecida pela natureza.
E sempre estive também, abrindo a pele de tudo que toco e extraindo seus órgãos e vísceras, os abraçando com meu corpo frágil de ossos sob a pele, tentando assim sentir qualquer angústia que me tornasse menos leprosa. Sentindo a paixão por tudo machucar minha pele e em seguida dissolver-se em nada, me trazendo essa sempre amiga, sempre retornante, sempre raposa, sensação tranquila de que tudo se torna irrelevante no final. E o que final é simplesmente algo que ocorre diante do mais inesperado e mínimo estímulo, de uma leve mudança na corrente de ar.
Será sempre assim?
Ou vou me deparar com o contrário em mim covardemente escondido?
Quantas vezes mais vou precisar matar-me dentro de mim?

terça-feira, 19 de julho de 2016

This is my own carrosel

Eu tomo as coisas.
Eu tomo as coisas por completo, tomo até exauri-las, como se eu precisasse muito delas.
As tomo como se precisasse de cada gota delas, metade não é o suficiente, porque a verdade é que não preciso de nada delas então se hei de tomá-las, se hei de dançar esta dança indecente, psicologicamente vulgar, se hei de jogar a mim mesma em um tabuleiro, tenho que ter tudo.
É o meu consolo para o choro da madrugada, para a estranheza.
Mas eu sou estranha.
Eterna estranha e alienígena, com as pontas dos dedos leprosos e os olhos cheios de lágrimas, de desistências e inércias. Com meus impulsos e autodeterminações vazias
Enscancaro este cenário, cheio de coisas estranhas que não entendo.
É esquisita a textura da árvore quando passa o vento, permanece intacta, o céu ao entardecer e você.
Seja lá quem for você.
É estranho o sorriso casual, a garganta gasguita, o toque voraz.
É tão desnecessário que me faz chorar.
Porque a vida inteira eu fui estranha e tomei coisas, e forjei papéis e os rasguei depois com uma banalidade que faz aquilo de mais íntimo, escondido, de puro dentro de mim chorar.
Mas eu vou continuar tomando coisas porque eu sou essa mas também sou outras. Eu sou gentil mas também gosto da ideia de devorar pessoas.
Na prática eu sou uma otária e não tenho nada algoz em mim além das minhas próprias vontades, sensações e segredos.
E eu os guardo, às sete chaves em um diário aberto. Da minha mente e às vezes os transmito com gritos e lágrimas e palavras incoerentes e uma vida incoerente procurando um lugar.

Jogando estrelas na água.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Meu inventário de coisas lindas

E me vem que quando você ama alguém
Ama o seu Amor
Aqueles momentinhos ordinários
Inconscientes
Se tornam impérios para sua visão,
Pequenos tesouros abstratos
Que você tenta capturar com seus olhos,
Delinear na memória
Eternizar num texto
As nuances do teu amor.

Não são as demonstrações
Não, nem falo delas aqui
São as vértices daquela pessoa.
É o jeito que ele fica com raiva em silêncio quando perde no jogo
Ou como ele sorri comendo, com os lábios em um arco fechado perfeito.
É a voz dele ao telefone com os atendentes
Ou seu sorriso aberto aos vendedores de loja
É a elegância com a qual fica em pé, distraído
E o jeito meigo que se envergonha ao ouvir isso.
É o seu andar, visto de costas, minha perfeição particular
E como eu o encontro dormindo, esparramado pela cama
Ou em um rolinho primavera de edredom.
É como facilmente adormece em meus braços
E seus lábios se entreabrem buscando respirar.
É como fica autoritário com seus assuntos preferidos
E seu riso fácil em todos os momentos necessários.
É seu fio de cabelo branco precoce do lado esquerdo
E sua barba que escolhe muito bem por onde crescer.

Eu escrevi 365 destes
E de algum modo
Todo dia se multiplicam
E eu já conheci tantos mais
Até que percebi que precisaria descrevê-lo
Em meticulosa descrição
Pois cada coisinha dele é, por ser dele, maravilhosa
Revela-se maravilhosa
Nesses meus olhos que só vêem ele.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sobre trocar farpas com seu gajo

O que ela queria da vida era ele.
Mas eita coisa de louco!
Abraço, chamego, grito, choro.
A chama sempre acesa às vezes pegava fogo.
Mas eles não conseguiam ficar longe um do outro.

Doía na pele e no peito um aperto de esmagar, a distância.
E mesmo em um dia difícil, depois de muita discordância
Só ficava a saudade, a vontade da pele, do olho, da manha.
Eles eram loucos um pelo outro, isso era visível até pra criança.

Numa hora chamego doido, na outra fúria em brasa.
Eles eram quentes como fogo, duas chamas que se completavam,
Mas iam aprendendo a acalmar-se pra ver se assim duravam
Umas três vidas todinhas, porque duas só não davam.

Ele era mais tranquilo, mas não pisasse no seu calo,
Ela tinha a língua ferina, mas seu dengo era todo pro seu gajo,
Eles se entendiam, embora se desentendessem sempre.
Mas iam aprendendo a se cuidar tão bem quanto o amor que sentem.

E uma coisa era certa, o que ela queria da vida era ele.
Seu tato, sorriso, sua mente. Seus abraços e os seus macetes.
Sem ele amor não rolava. E sem amor a vida não dava.
Então ia pegar toda sua raiva e transformar em mil beijos nele.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Eles são só crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?

Eles diziam que os adultos eram máquinas, robôs mecânicos, sem alma, sem sonhos. Robôs que continham em sua programação apenas uma escada de metas frias e objetivas, sempre insatisfeitas. Sempre vazias.
Eu me preocupo, às vezes.
Estudo. Trabalho. Dinheiro. Metas. Coisas que as pessoas fazem, que também parecem atrativas. Programar uma viagem. Comprar um carro. A triste instrumentabilidade que envolve a vida.
As crianças não entendiam os adultos, como poderiam? Tem tanta coisa a fazer, a resolver. Tem tanta coisa jogada na sua cara, esfregada nas suas vontades, de um jeito cru e humilhante.
Os adultos abandonam seu direito de ser crianças, para cuidá-las. Para deixá-las mais um tempo que seja numa infância cada vez menos infância.
Mas nada disso importa, não é mesmo? Não, não é mesmo.
É preciso fazer o que se espera em certa medida, é preciso solucionar os problemas. É preciso se comprometer.
Hoje eu sou um terror, realmente algo meio alienígena para minha antiga criancinha.
Me desculpe, querida, mas você sonhava em ser eu, lembra? Antes de saber o quão exaustivo e vazio isto podia ser. Mas parecia-lhe bonita a imagem, não é mesmo? Ver-se esguia e um pouco pálida, em um blazer e porte social. Você era uma menina tão menina e com uns sonhos tão estranhos desde cedo...
Não, eu não sinto falta de ser criança. Ser criança é neurótico e inseguro. É sem controle. E ser adulto é a necessidade de controlar tudo ao seu redor e a frustração em não controlar-se, mesmo com o passar do tempo.
O que eu queria eu não tenho, eu não posso. É uma liberdade que me deixe livre de amarras das quais eu nunca estive solta. E essa liberdade eu só posso encontrar em mim mesma, em meu íntimo. Enquanto trabalho, vivo, e luto para sobreviver. Enquanto tenho uma rotina e um horário pois não posso faltar comigo mesma e com os meus. Mas por dentro - ah, o grande desafio - conservar assim mesmo aquela chama, aquela centelha.
Aquilo que te faz amar o céu, o sol, correr na grama, adorar às eventualidades, sorrir até tuas bochechas doerem.
Minha mãe estava certa, ser feliz não é difícil, é simples. Está nas coisas simples.
O difícil é conseguir sentir as coisas simples, em meio a tantos enlinhados necessários, tão mais complicados que te separam delas.
Mas vamos lá.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Dossiê

Se tu pegasses
Tuas paixões. Teus desastres. Teus tesões. Tuas viagens. Tuas alucinações. E também miragens. Tuas acomodações. Tuas chantagens.
E colocasse todos, numa sala, em espelhos, em quadros, em pelo.
Se tu olhasses isso, se tu encarasse com curiosa admiração, o que tu farias?

Eu estou pegando
Minhas coisas pequeninas
Invadindo-lhes a pele. Invasiva desde menina.
Misturando meus mundos. Empilhando meus defuntos. Queimando suas latrinas.

Ah, saudades.
Tu não me pegas mais.
O que eu quero eu mesma pego.
Minha mão pálida traz.
O que eu desejo eu mordo.
Janeiro, abril ou agosto,
Com um sorriso mordaz.

Vamos lá.
Mistura essas coisas em ti.
Vamos lá.
Acorda dessa latência.
De água, silêncio e carência.
Acorda desta miragem.
Apenas o fogo e o caos
Produzem a sincera paisagem.

Mil reflexos em prisma de teu olhar assustado

Eu sou
Uma piada velha, um assunto antigo
Aquele que você não aguenta mais, resquício semi esquecido.
Eu sou o cigarro fumado, o teatro depois do show encerrado.
Eu sou o abatido do gado, o projétil usado do fogo de artifício.
Eu sou o que você não aguenta mais, embora não saia do peito.
A lembrança desastrosa de tudo a que veio ou a que não veio.
E por isso mesmo desencanta.
Sou tua unha lascada, doendo de vez em vez.
Aquela cicatriz antiga, que quase ninguém mais vê.
O livro que estava no topo, e agora apoia tua porta.
Sou tua lembrança rota, tua decisão torta.
Sou aquele arrependimento antigo, que te dá vergonha de infância.
O sentimento antigo de que tudo seria melhor, seria mudança.
Sou a estagnação que segura tua andança, sou no teu calcanhar a lança
Que te segura os tendões. Sou o atraso. Sou a constância.
O pior do teu olho, do nítido contraste roto.
Estou te encarando o tempo todo. Tu não sossegas desse sufoco.
Olha para mim.
Se olha no espelho.
Não, não, olha para mim.
Me olha no espelho.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Um curioso causo

De caminhos se fez ninhos, de ninhos se fez corrente.
E serpentes - não são as mais escorregadias, nem sempre.
Os moços de olhos claros, de sorrisos raros e mãos quentes.
São os mais perigosos - bicho domesticado - são cabulosas as coisas que sentem.

Dissera Seu João que tomasse cuidado com os sorrisos largos.
Porque as pessoas de bom coração tendem a tornar-se metódicos carrascos.
Meu coração é quente e minhas mãos inquietas. Minhas asas são instáveis - Por vezes não param quietas.
Mas nada mais perigoso que um rapaz gentil.

Ele te entrega a mão e o coração, te surpreende com inocência.
Te dá a chave, a senha e combinação - Te assusta tamanha sua alta frequência.
Inicialmente, claro. Ele te entrega um mundo. Te faz sentir até desconfortável com tanta entrega.
Te dá a ilusão de controle e com ela o direito
De perder-se, às vezes, nesta floresta.

Para mim, bicho do mato, no entanto já vacinado, bicho prejudicado
O ceticismo me dói como um colírio necessário
Mas como resistir a encantador relicário?
Bochechas rubras, sorriso esticado. Honestidade até no gaguejar eventual e desajeitado. Uma delícia de presa.
E como nele não se perdê-la?

De insistência vence o gajo,
E com tanto afeto demonstrado, abate o gado.
Induz a uma morte precoce da dúvida soturna,
E te leva de pedra a água na velocidade da lua
Um causo curiosíssimo para os conhecedores de causa

Valha.

Da selvageria se fez calma
E da fuga, apego louco.
Manha, agarrado, choro. Coisa de doido.
Transformado o predador na presa
Velha nova fábula antiga da quimera
Que de quimera nunca teve nada.

Delicioso rapaz do sorriso bobo,
Agora faz o que quer com o que corre em tuas mãos.
Pratica as jogadas se assim te apraz
Ou apenas deixa levar pelo não arrependimento eficaz
Mas trata de deixar a dúvida na opção
E o que vai fazer com o que tem em teu poder
Cabe exclusivamente a tua razão.


Por que diabos não ouvi o Seu João?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

4 letters

Estive a vida inteira escrevendo sobre apego, necessidade e possessão. Sem muito sentido de lógica. Escrevi sobre ideologia cada vez que vi coisas que não existiam em pessoas, apenas para satisfazer minhas fantasias literárias, para me estimular à paixão. Mas escrever sobre o amor?

Eu não sei se já o fiz. Escrevi sobre momentos de amor. Sobre a sensação tátil daquele segundo. Não escrevi sobre como é complicado e por vezes contraditório. Não escrevi sobre o ódio que reside no amor. Não falei sobre um dia difícil, em que a pessoa amada te desencanta. Em que ela age ao reverso do que tu esperas, e como por um momento pode sentir vontade de correr para longe dela e detestá-la. Como às vezes características que tu não admiras se manifestam no teu objeto do afeto. E se o que tu sentir for efêmero, elas vão sim sobrepujar todo o resto com o tempo. Vão acumular-se e criar o sentimento de repúdio que torna tão fácil deixar alguém.

Mas e quando após um dia difícil, um dia daqueles. Em que tal como o gatinho que te arranhas quando tu tenta um carinho, a pessoa que tu amas te decepciona quando tu precisa dela. O que falar sobre como, mesmo após um dia cansativo (a pior das sensações em relacionamentos, talvez), você vê o sorriso daquela pessoa. Você a vê se emocionar com algo que não é nem teu, apenas vê seus olhos brilharem e seu sorriso crescer no rosto e a alegria tomar suas feições e tudo some. Qualquer desapontamento parece banal e distante e as lágrimas vem ao rosto, meio que sem avisar, porque é emocionante vê-lo feliz e emocionado, mesmo que não contigo. E naquele momento, quando tudo borbulha dentro de ti e não é porque está sendo amada ou afeiçoada, não naquele momento específico. Não é sobre tu a felicidade com ele. Não é sobre vocês. É porque ele está feliz, apenas, e por isso apenas tudo borbulha dentro de si e vira mágica, vira montanha russa, vira felicidade. Porque ele está feliz.

Um dia um amigo nosso, nos vendo, disse: "Olha que o mais interessante é que mais feliz que ele, que ganhou o presente, está ela, o olhando enquanto ele o recebe."

E ele estava certo.

A esse passo, acho que estou pronta para falar de amor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pausa para repetir o óbvio

Pessoas são furacões esperando para acontecerem
Bem no meio de sua vida, em um dia de setembro, na realização de seus sonhos ou em suas próprias mentes, a todo momento.
Mas mensurando em proporções gerais, somos todos irrelevantes.
Eu, você, esse problema que está quebrando a sua cabeça, seus piores segredos e desejos mais insanos.
Fica muito fácil assim, tornar qualquer coisa aceitável. Sair de si um pouco e comer um pouco do todo. Fica fácil aceitar derrotas, insatisfações e a completa contrariedade dos fatos com nossas expectativas... sempre tão efêmeras
Eu me lembro bem da sensação de fracasso, amargando um pouquinho minha língua. Lembro dessas vezes e como elas são mais finalistas do que as vitórias. Porque o fracasso encerra um plano natimorto, encerra um ciclo. Isso, não obstante toda a autocrítica e comiseração, traz uma sensação de fechamento. "Fechando gestalts", não é mesmo?
Já a vitória é um trampolim frenético que nunca pára, nunca respira, nunca dorme. E eu sou viciada nesse trampolim desde que recebi o primeiro sinal de reconhecimento, porque explodo em mim constantemente. E quando saio um pouco, dou uma volta e olho para dentro, percebo a desnecessidade de tudo isso - ainda que saiba que voltarei em breve.
E essa vaidade toda é bem mais interna do que se possa pensar. Porque o buraco aumenta com os anos, consumindo tudo ao seu redor, exigindo perfeição e resultado, tudo em busca de respostas a perguntas que vão ecoar como um epitáfio meu.
Mas tudo isso - repito desde os 13 anos - também é passageiro, não é?
Oh Céus. A dor e a paixão. A completa tendência ao suicídio e a paz inequívoca, tão voláteis. Em mim, revezam até em minutos.
E como eu amo essa instabilidade. Como eu adoro a essa liberdade doce de saber que tudo se recicla constantemente, sendo absolutamente desnecessário para a centelha que trago em mim. Tudo se esvai, e só fica a vontade daquele exato instante. E como isso nos faz livres. E como isso nos faz frios.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ela encarava o vidro da larga parede de vidro. Encarava os transeuntes alienados de sua existência, do lado de fora do estabelecimento. Os carros que buzinavam, um bando de pássaros sem muito equilíbrio, as árvores estáticas devido ao calor.
E com ele, o que faria?
Se perguntou.
O que faria com ele?
A pergunta era retórica, ao passo que encarava todo o ambiente sem qualquer irresignação. Afinal, estava de corpo, mente e alma, completamente dominada por aquele sentimento. Sua racionalidade não tinha desaparecido, não, nada disso. Ela estava ali, contemplando cética a vida do lado de fora daquela cafeteria. E ceticamente, tinha a consciência límpida de que estava completamente entregue àquele amor. Era uma entrega calma e tranquila, sem muito rebuliço pois não havia absolutamente nada a ser feito contra ela. Qualquer dano que lhe abatesse proveniente daquela entrega era desde então, inevitável, mesmo que previsível. Pois não sabia ser infiel a seus sentimentos. E todos eles eram do amor mais absoluto que podia existir.
E o que faria com isso? O que faria com ele?
Ora, uma voz respondeu dentro de si. Amá-lo. Amá-lo com todas as suas forças, pois é para isso que ele foi feito. Ele nasceu neste mundo, estava certa, para ser amado. Para ter derramado sobre si, centelhas de carinho e acolhimento, pois ele todo era amor e tudo o que emanava vinha translúcido e gentil. Ele era isso, amor e felicidade. E tudo que ela podia e iria fazer, era amá-lo incondicionalmente, com o mesmo amor que ele trazia ao mundo com o simples fato de existir.

domingo, 22 de novembro de 2015

Cores e Texturas

Seus olhos são castanhos e seus beijos são azuis
A cor do seu abraço é a de um outono de folhas caindo, alaranjadas e castanhas.
Quando seu coração se magoa, seu olhar é de um cinza opaco, fulminante,
E quando tua pele chama a minha, é vermelho e vinho, escorrendo de teus olhos.

A sua mão segurando a minha é da textura do aconchego de uma cama em um dia frio
E nossas tardes enrolados são alaranjadas e musicadas, mesmo em completo silêncio.
Quando eu choro e tu me abraças, esse abraço é azul claro, e tem o cheiro de uma piscina na manhã.
Quando eu peço teu carinho e tu me abre os braços, é o mesmo castanho dos teus olhos o que eu sinto ao meu redor.

E quando a saudade ataca, eu sinto um violento violeta se debater dentro de mim,
Mas quando tu a matas, me matando de carinho, a explosão é de conforto e tem a cor carmim.
Quando eu sonho nossos sonhos, ele tem a suave cor de um marfim tranquilo
E ao imaginar nossas aventuras, elas brilham azul e vermelho, explodindo em expectativa.

E quando trocamos aqueles olhares, ah aqueles olhares...
Quando olhamos um na alma do outro e o que eu vejo é infinito, transbordam cores e texturas, infinitas explosões nunca antes imaginadas, eletricidade e incredulidade e quando tudo se acalma, tudo o que fica é a paz.
E ela é intraduzível.



sábado, 21 de novembro de 2015

Eu posso
Deliciosamente brincar com a dinâmica de meus dedos,
Contando histórias em encruzilhadas, de marcações, trocadilhos, ciladas...
Posso supor, imaginar o óbvio. Reconstruir tudo em meu crânio de ferro.
Posso plantar sementes de plantas venenosas em vasos de orquídeas, de lírios, de rosas.
O que eu tenho em mãos, é meu pela tomada. Gosta de sê-lo.
O que eu criei, segundo minha própria lei, fiz com uma delicada dedicação.
Tomei-lhe a contramão, afundei em minhas regras. As quebrei, sem nenhum rédea, as domei sem dominação.
Com um refinamento,
Tão particular,
De tomar espaços desertos e chamá-los de lar.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Re escritos


Olha, é que meu amor não é talentoso. Ele é grande, desajeitado, não sabe andar direito. Ele está tão surpreso com esse mundo, que o tempo todo explode no peito. E eu não sei lidar com ele. Na cidade do meu amor não tem prefeito.
Mas tem você.
E para ti eu dou todas as ruas,
Te dou os asfaltos, te pago os impostos.
Com ti, delicadamente me importo,
Dentro de uma caixinha,
Sem planejamento nenhum,
Mas com um laço decorado...
Meu amor é aquele quadro inacabado.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Estrelas

Eles eram um casal antigo, vivendo em corpos jovens. Sua casa era um ninho aconchegante e despretensioso, cujos únicos luxos eram uma sala super equipada para receber seus amigos e assistir os filmes que ele tanto amava e um escritório pequeno e vitoriano, no qual passavam algumas tarde em silêncio confortável, cada uma escrevendo seus sonhos, em suas mesinhas de mogno.
Com uma enorme janela, para seu jardinzinho gentil, passavam finais de tarde chuvosos e domingos de manhã, fugindo da loucura da vida cotidiana, colocando seus personagens no papel, sempre com a trilha sonora que tanto amavam e eventuais fugas do tema para um carinho gentil aqui e acolá.
Ainda assim, eram um casal velhinho. Ela com suas roupas retrô folgadas e ele com uns cardigans largos e super confortáveis.
Em seu tempo livre ainda gozavam do prazer lúdico de jogar seus sentimentos em telas de pintura. Verdade seja dita, ele tinha mais técnica que ela. Mas na hora de pintar, ela exalava paixão. Essa combinação resultava em pinturas que mais pareciam uma simbiose de personalidades, fazendo jorrar cores de formas, e texturas de desenhos. O ateliê dos dois era um pequeno porão, iluminado por lâmpadas que pendiam em garrafas de cerveja e com o cheiro que tornou-se tão familiar, de tinta óleo e madeira.
Eles tinham uma vida completa, por assim dizer. Ela, com sua personalidade um tanto instável, rasgando momentos de fragilidade em raiva e em alguns desses episódios, rasgando algumas telas, só para depois abraçá-las, chorando. Ele, mais ou menos como um senhor de idade: Com seu autoritarismo que ao mesmo tempo não admitia muita flexibilidade, mas dobrava-se a abraçar todas as angústias dela, que tentavam entender juntos. Se completavam, de fato.
Ela tinha consciência do quanto precisava dele, declarando por várias vezes que não podia viver sem o seu amor. Ele, o racional, explicava para si mesmo e em conversas cabeça com seu grupo de amigos, como era possível viver sem qualquer coisa, mesmo que doesse. Mas a verdade é que quando a via cochilar no sofá, tranquila, sabia intimamente que desde algum ponto que não sabia bem qual, não podia viver mais sem ela.
A vida deles, para quem via de fora e também para quem os conhecia bem, era um sonho bom. Não um sonho irreal, americano ou de comercial de margarina. Eles brigavam, choravam, enfrentavam problemas quase impossíveis. Mas no final dos dias, descansavam o rosto um no outro e dormiam em uma sensação de que seu encontro por si só, era a grande sorte na vida que procuravam.
Apenas uma coisa tornavam suas vidas incompletas. Era o fato de ela não poder ter filhos. Uma frustração, que desde que descoberta a fazia sentir incompleta não só pela falha de seu organismo, mas também pelo brilho no olhar que via no olhar dele ao olhar para qualquer criança. Ele era um pai nato, uma daquelas poucas pessoas raras com a verdadeira vocação para criar outro ser humano. E ela sentia que jamais conseguiria satisfazer isso. Não obstante tivessem em seu ninho dois anjinhos peludos - Um labrador calmo e uma yorkshire elétrica - sabia que essa sempre seria uma lacuna em suas vidas.
Ainda assim, eram felizes. Direcionavam seu amor para seus peludos, dormindo em posições escabrosas, enterrando suas cabeças em pêlos e muitas vezes acordando entre alergias e risadas.
Foi por tudo isso, por todo o ar de sonho de sua vida e pela quantidade de felicidade ser tão imensurável nos dias em que viviam, que o choque foi tão forte quando receberam o diagnóstico.

Ela mal podia acreditar. As imagens pareciam um pesadelo, enquanto via a boca do médico se mover, mas não conseguia, a partir de certo ponto, distinguir as palavras que saiam dela.
Ironicamente, sempre tivera a sensação de que iria morrer cedo. Sempre brincara com isso, enquanto se enrolava nele, entre cócegas e ameaças jocosas:
"Cuide bem de mim que eu vou morrer cedo, viu!"
Quem diria que seria ele, seu grande amor, que a deixaria tão prematuramente?
Olhou para o rosto dele, sereno e impassível. Sabia intimamente que ele iria conter todo o seu medo e dor, com o único objetivo de não assustá-la ainda mais.
Sua enfermidade era uma daquelas raridades que acomete o azarado 0,00001%. E ele era essa maldita porcentagem. Não haveria dor, não haveria prolongação. Mas em compensação, não haveria tempo.
Quando saíram do consultório médico, ele estava em silêncio. Ela o olhava aflita, esperando ler sua reação, entender seus sentimentos. Mas o olhar dele era tranquilo e lúcido. Aquela rara lucidez dos que não tem tempo a perder e ganham subitamente a consciência disso.
Passaram aquele dia praticamente em silêncio. Fizeram alguns acordos mútuos. Sonhos que teriam que ser adiantados, encaminhamentos familiares, e principalmente, a promessa do segredo.
Chegaram em casa ao pôr do sol e descansaram do maior cansaço de suas vidas, naquela cama macia.

Em algum momento da madrugada ele a acordou, com um carinho gentil. A beijou na bochecha e sussurrou o seu nome baixinho, a despertando com gentileza. Ela acordou com uma lágrima no canto dos olho e a voz dele cruzou sua mente como o som mais belo do mundo: "Vem comigo, meu amor."
Ela o seguiu, sonolenta, esfregando os olhos ainda em seus pijamas. Eles saíram da casa descalços e ele a levou por um caminho de pedrinhas que ela não conhecia até então. Passaram por umas árvores que pareciam - talvez pelo horário, talvez pelo sono - maiores e imensamente mais imponentes do que em todos os dias - e esse pequeno trajeto os levou a uma beira mar, extensa e inacabável.

"Isso já existia aqui?", ela perguntou confusa. Estaria sonhando? Ele a olhou e seus olhos disseram tantas verdades que ela levaria vidas para entender.

Ele segurou sua mão e encararam a imensidão ao seu redor, tão maior que eles. Tão inexplicável.
O toque da mão dele na dela, sua pele. A sensação  e textura irradiava a calma e serenidade da certeza: Eram almas gêmeas. Ele a olhou com muita lucidez:

"Nós sempre nos encontraremos", ele lhe prometeu. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas não eram bem de tristeza, ao contrário. Uma emoção profunda a dominou por completo e seu peito fervilhava de amor. Todo o amor do mundo. Ela sorriu e beijou levemente seus lábios. Repetiu as palavras dele e quando deram por si, olharam para cima e viram dezenas, centenas e talvez milhares de finos raios de luz rompendo o céu negro em um instante ínfimo. Um milhão de estrelas cadentes parecia naquele momento irromper pelo céu acima de suas cabeças, como uma chuva de meteoros, de sonhos ou promessas. Olharam admirados aquele momento que desafiava toda a realidade, tendo a certeza de que a mágica existia e estava dentro e fora deles.
Foi pouco tempo depois que o inevitável aconteceu. De maneira serena, um dia de domingo ela acordou e soube. Foi até a sala e lá o encontrou, descansando, no sofá, como no sono mais tranquilo no mundo. Um sono eterno. Uma lágrima escorreu de seu rosto, mas seu coração estava em paz. Poucas semanas depois ela encontraria o mesmo sono, também em um domingo chuvoso. Nenhum dos familiares ou amigos encontrou uma explicação científica para como ela se foi, mas todos intimamente sabiam. Ela morrera de amor.


Depois disso, encontraram-se diversas vezes,

Uma vez foram estrangeiros que se cruzaram em um país exótico, ambos em busca de aventura e fugindo do amor. Outra, tiveram certa diferença de idade que os fizeram ser professora e aluno, o que não impediu o seu amor. Da última, eram colegas de infância que se reencontraram apenas na terceira idade, descobrindo o amor que ao longo de suas vidas jamais tinha lhes acontecido.

Atualmente, são dois adolescentes de ensino médio, melhores amigos que ainda não sabem que estão apaixonados. Ainda irão discutir algumas vezes enquanto redescobrem tudo mais uma vez. Mas sempre redescobrirão. Porque são estrelas, são almas gêmeas. E sempre se encontrarão.















terça-feira, 10 de novembro de 2015

Estou sentada em um chão frio, meio familiar, meio hostil.
Me sentindo totalmente nua, despida da necessidade de agradar um público que não existe há muito tempo nesse espaço.
Existe uma liberdade gentil ao tentar ser ao menos um pouco sincera comigo mesma.
Em admitir uma solidão conformada.
Uma fragilidade inerente.
Toda a farsa da minha frieza.
Em relação a tudo e a todos.
Minha indiferença,
da qual já convenci tanta gente.
Meu sorriso propositalmente azedo.
Toda a dor óbvia disfarçada de maldade.
E um monte de mágoas.
De saudades de mim mesma.

Eu ainda sou aquela criança
Aquele monte de medos.
De palavras bestas.
Tentando mandar mensagens
Para uma luz no universo,
Que me acalente a alma,
Que me acalme o medo,
Que me desenfureça.

Eu tenho medo de mim mesma.
Das consequências da minha raiva,
Da minha dor que eu não entendo.
Da solidão em meio a tanta mágoa
Que eu não sei de onde veio.

Tentando me segurar
Nos meus osso frágeis
Uma gata magra disfarçada de raposa.

Quem se importa?









sábado, 31 de outubro de 2015

The Hunger

O que eu sinto por ele? Você sabe o que eu sinto por ele.
Eu quero devorá-lo.
Quero engolir tudo o que o rodeia, o guardar em mim.
Quero tocar sua alma, encontrá-la. Enfiar minhas mãos dentre suas entranhas e apertar seu coração até senti-lo estagnar. E então reavivá-lo.
Eu quero ver sua alma, porque me encantam as coisas que se mostram.
E não me canso jamais de adorá-la, porque ele a faz translúcida para mim.
Ele me mostra tal como é e por isso eu a idolatro.
A chupo como uma manga recém saída do pé, recém nascida.
Contorno seus sabores com meus dedos, os cultivo em minhas raízes.
E por isso ele precisa de mim, ele se fixa em mim, como se eu lhe fosse o chão.
Porque todos nós queremos ser devorados e idolatrados, mesmo que por canalhas e mentirosos.
Nós queremos devorar e ser devorados.
E eu o deixo devorar meu tempo, meu zelo e meus cuidados. O deixo consumir minha vida líquida, a única e extraordinária que carrego comigo.
Porque quando o olho vejo um flash de coisas que minha veia sociopata e antipática não consegue explicar.
E mesmo depois desse tempo, depois de decifrar suas razões lógicas, ele instiga toda minha falta de racionalidade.
E devorá-lo diariamente apenas vêm me deixando mais sedenta.
Eu o quero pela vida toda, do jeito mais sincero que encontro em mim.
E o quero vivo, por isso lhe cuido. Porque ver seu sorriso vivo mantém a chama viva em mim.
Que a chama não se apague.
Que a fome não acabe.